Rabdomiólise no Adulto: Manejo na Emergência
CID 10: M628 - Outros transtornos musculares especificados
Introdução
Síndrome caracterizada pela destruição ou desintegração do músculo esquelético estriado, com liberação de componentes intracelulares na circulação, incluindo eletrólitos, mioglobina e proteínas sarcoplasmáticas
Resulta em necrose das fibras musculares e extravasamento do conteúdo muscular para o espaço extracelular e corrente sanguínea
Espectro clínico amplo: varia de quadro assintomático com elevação isolada de CK até condição de risco de vida com insuficiência renal aguda, desequilíbrio eletrolítico e coagulação intravascular disseminada
Epidemiologia [1][2]
Pode afetar todos os grupos etários e ambos os sexos
Mais frequente em:
homens
afro-americanos
crianças menores de 10 anos
adultos com mais de 60 anos
Causas
Causas principais: [2]
Hereditárias: relacionadas à insuficiência de enzimas que quebram moléculas de energia
Exemplo: doença de McArdle (deficiência autossômica recessiva da miofosforilase muscular) — pacientes são incapazes de obter energia a partir dos estoques de glicogênio muscular, com risco aumentado de rabdomiólise por esforço [1]
Adquiridas:
Traumáticas: acidentes, exercícios físicos intensos e lesões musculares diretas
Não traumáticas: abuso de álcool, medicamentos, convulsões e coma
Causas físicas: [3]
Trauma e queimaduras
Exercício físico extenuante
Hipóxia muscular (imobilização prolongada, oclusão arterial)
Síndrome compartimental
Síndrome neuroléptica maligna
Hipotermia e hipertermia
Agitação psicomotora e crise convulsiva
Causas químicas [3]
Intoxicações exógenas (álcool, cocaína, heroína, anfetamina)
Medicações: estatinas, fibratos, propofol, neurolépticos, antirretrovirais
Distúrbios eletrolíticos:
hipocalemia
hipofosfatemia
hipocalcemia
hipo e hipernatremia
Causas biológicas [3]
Infecções bacterianas (Staphylococcus aureus, Streptococcus pyogenes, Clostridium spp.)
Infecções virais (Influenza A e B, HIV, Epstein-Barr, Varicella-zoster)
Acidente crotálico
Miopatias de causas genéticas
Insuficiência adrenal
Cetoacidose diabética e estado hiperglicêmico hiperosmolar
Hipo e hipertireoidismo
Cofatores relevantes no contexto do exercício físico [1]
O esforço físico raramente é o causador isolado da síndrome; na maioria dos casos, há associação com agravantes:
uso de esteroides anabolizantes
uso de estatinas, diuréticos ou drogas ilícitas
temperatura e umidade elevadas do ambiente
predisposição genética
restrição de fluxo sanguíneo associada ao exercício
Atletas que utilizam esteroides anabolizantes podem ter rabdomiólise aguda não diagnosticada, frequentemente interpretada apenas como hepatotoxicidade induzida por esteroides [1]
Causas relacionadas à cirurgia [2]
Número de casos associados a procedimentos cirúrgicos em ascensão
Fatores de risco: duração prolongada da operação, obesidade e diabetes
Agentes anestésicos associados: propofol, barbitúricos, benzodiazepínicos e opiáceos
Fisiopatologia
Via comum da destruição muscular [1][2]
Independentemente da etiologia, a fisiopatologia segue um caminho final comum:
Lesão da membrana celular muscular (por trauma direto ou esgotamento energético) rompe o retículo sarcoplasmático, com extravasamento de cálcio extracelular para o espaço intracelular
Excesso de Ca²⁺ intracelular ativa proteases e fosfolipases dependentes de cálcio, promovendo interação patológica entre actina e miosina e destruição das fibras musculares
A redução de ATP bloqueia a bomba Na⁺/K⁺-ATPase, elevando o sódio intracelular; o trocador 2Na⁺/Ca²⁺ amplifica ainda mais a sobrecarga de cálcio
A sobrecarga de Ca²⁺ interrompe a capacidade mitocondrial, induzindo apoptose e necrose muscular em cascata autossustentável
Liberação de conteúdo intracelular e suas consequências [2][3]
Após a necrose, mioglobina, enzimas (CK, LDH, transaminases), eletrólitos e conteúdos citotóxicos são liberados na circulação
Esses componentes causam lesão capilar e espaçamento de fluidos, perpetuando o ciclo de morte celular
Acidose metabólica e anormalidades eletrolíticas (hipercalemia, hipocalcemia, hiperfosfatemia) resultam dos edemas, isquemia e necrose progressivos
Mecanismos de lesão renal [2]
Componentes musculares liberados na corrente sanguínea são nefrotóxicos, filtrados nos glomérulos
Estresse oxidativo: mioglobina endocitada por células tubulares via receptores megalina-cubilina é convertida em mioglobina ferril (Fe⁴⁺) pelo ciclo redox, gerando espécies radicais e produção de F2-isoprostanos (vasoconstritores potentes), além de suprimir o óxido nítrico e favorecer distúrbio endotelial
Inflamação: células musculares lesadas secretam moléculas imunoestimuladoras; citocinas pró-inflamatórias (TGF-β, TNF-α) promovem estado inflamatório sistêmico
Apoptose: peroxidação lipídica deforma a permeabilidade da membrana mitocondrial, comprometendo o controle respiratório celular
Vasoconstrição: ativação do RAAS induzida pela redução de volume secundária ao sequestro de fluidos no músculo lesado; desequilíbrio entre vasoconstritores e vasodilatadores renais
Obstrução tubular: precipitação de mioglobina no lúmen tubular, favorecida pela urina concentrada
Quadro Clínico
🎯 Tríade clássica [2][3]
Mialgia
Fraqueza muscular
Mioglobinúria (urina escura, acastanhada ou avermelhada)
Sintoma inicial mais comum [2]
Urina descolorida (escura), frequentemente precedendo as queixas musculares
Espectro de apresentação [1][2][3]
Quadros leves: elevação isolada de CK sem sintomas expressivos
Quadros graves:
insuficiência renal aguda (oligúria ou anúria)
edema muscular localizado com rigidez
desequilíbrio eletrolítico: hipercalemia, hipocalcemia, hiperfosfatemia
coagulação intravascular disseminada
síndrome compartimental
Sinais de gravidade [3]
Oligúria ou anúria
Hipercalemia significativa
Acidose metabólica com ânion gap elevado
Diagnóstico
Avaliação clínica [2][3]
Anamnese completa com ênfase em fatores de risco:
atividade física extenuante recente
uso de fármacos (estatinas, diuréticos, antipsicóticos)
uso de substâncias (álcool, drogas ilícitas, esteroides)
trauma, infecções, convulsões
Qualquer indivíduo com fatores de risco conhecidos deve ser investigado
Exame físico direcionado à avaliação muscular e sinais de disfunção renal
Marcador principal: CK sérica (CPK) [2][3]
Padrão ouro para o diagnóstico
Valores de 500 a 1.000 U/L são utilizados para definir rabdomiólise, porém o valor absoluto é incerto [3]
A maioria das referências considera CK de 5 a 10 vezes acima do limite superior normal como critério diagnóstico [2]
CK > 5.000 U/L tem sido associada a maior frequência de lesão renal aguda [2]
Risco de LRA é baixo se CPK < 15.000 U/L ou < 5.000 U/L sem condições agravantes (desidratação, sepse) [3]
Mioglobinúria [2][3]
Presente em 50–75% dos pacientes no momento da avaliação [3]
Apesar de ser o primeiro marcador a se elevar após o dano muscular, tem metabolismo veloz e imprevisível
Baixa aplicabilidade diagnóstica isolada; a CK é o marcador enzimático preferencial [2]
Exames complementares [3]
Hipercalemia (K⁺ > 6 mmol/L): marcador de gravidade da lesão muscular e de disfunção renal — solicitar ECG imediatamente
Creatinina e ureia: avaliação de lesão renal aguda
Hiperfosfatemia (> 6 mmol/dL): marcador de gravidade
Hipocalcemia, hiperuricemia, hipermagnesemia
Elevação de TGO (AST) e LDH
Acidose metabólica com ânion gap sérico elevado
Atenção: confusão com síndrome coronariana aguda [3]
CK elevada está associada a elevação concomitante de CKMB, podendo gerar suspeita equivocada de SCA em serviços que dependem de CKMB para este propósito
Relação CKMB/CK abaixo de 5% reforça o diagnóstico de rabdomiólise
Elevação de troponina pode ocorrer concomitantemente, porém é mais rara
Tratamento
Três pilares do tratamento [2][3]
Tratar e eliminar a causa subjacente (interromper o fator desencadeante)
Prevenir e tratar a lesão renal aguda
Identificar e manejar rapidamente as complicações com risco de morte (especialmente hipercalemia)
Hidratação Endovenosa
Pilar central do tratamento [3]
Hidratação vigorosa e precoce é a medida mais importante e deve ser instituída imediatamente
Solução de escolha: NaCl 0,9%
Prontamente disponível
Não contém potássio em sua composição, evitando agravamento da hipercalemia
Volume: 6 a 12 litros em 24 horas, desde que o paciente não apresente risco de complicações por hipervolemia (ex.: insuficiência cardíaca)
Meta de débito urinário: 200–300 mL/h
Critério de suspensão: manter até resolução da rabdomiólise, definida por CPK < 1.000 UI/L
Se Lesão Renal Aguda (LRA) oligúrica [3]
Se o paciente apresentar LRA oligúrica na admissão ou evoluir para este quadro durante a internação, a hidratação vigorosa não apresenta benefícios e pode precipitar congestão pulmonar
Neste cenário, redirecionar a conduta para terapia de substituição renal.
Correção de Distúrbios Eletrolíticos e Metabólicos
Hipercalemia [3]
Marcador de gravidade; solicitar ECG imediatamente se K⁺ > 6 mmol/L
Manejo seguindo protocolo institucional de hipercalemia grave
Ir para o protocolo Hipercalemia no adulto
Acidose metabólica [2][3]
Correção como parte do manejo clínico geral
Demais distúrbios (hipocalcemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia, hipermagnesemia) [3]
Monitorar e corrigir conforme evolução clínica
Terapia de Substituição Renal
Indicada quando houver [2][3]:
LRA oligúrica estabelecida sem resposta à hidratação
Hipercalemia refratária
Hipervolemia
Acidose metabólica grave
Uremia
Perspectivas Terapêuticas em Investigação
Desferroxamina conjugada a derivados de adamantil [2]
Abordagem em investigação para mitigar a lesão renal induzida por rabdomiólise
Mantém as propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias da desferroxamina com menor toxicidade intrínseca
Ainda sem indicação estabelecida na prática clínica; requer investigações adicionais
Complicações
Lesão renal aguda (LRA) [1][2]
Principal e mais grave complicação da rabdomiólise
Cerca de 33% dos casos de rabdomiólise evoluem para LRA [1]
A maioria dos pacientes recupera a função renal; entretanto, a LRA promove alterações estruturais que aumentam o risco de doença renal crônica a longo prazo [2]
Complicações eletrolíticas e metabólicas [1][3]
Hipercalemia (risco de arritmias graves)
Hipocalcemia
Hiperfosfatemia
Hipermagnesemia
Acidose metabólica
Hiperuricemia
Outras complicações [1]
Hipovolemia
Síndrome compartimental
Coagulação intravascular disseminada (CIVD)
Disfunção hepática
Disfunção cardíaca
Referências
[1] MAGALHÃES, Saulo Chaves; LIMA, Leonardo C. R. de; BRITO, Luciana Catunda; ASSUMPÇÃO, Claudio O. Rabdomiólise induzida pelo exercício de força: revisão e análise dos principais relatos dos últimos 25 anos. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, v. 26, n. 1, p. 189-199, 2018. Disponível em: https://portalrevistas.ucb.br/index.php/RBCM/article/view/8189. Acesso em: 26 mai. 2026.
[2] ROSALINO LEONI, Davi et al. Rabdomiólise e Suas Complicações Renais: Mecanismos, Diagnóstico e Tratamento. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 7, p. 2443-2451, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2024v6n7p2443-2451. Acesso em: 26 mai. 2026.
[3] OKINO, Valéria Takeuchi; FREZZA, Gustavo. Rabdomiólise. Revista QualidadeHC. Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP), Ribeirão Preto, 2017. Disponível em: https://www.hcrp.usp.br/qualidadehc/. Acesso em: 26 mai. 2026.
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