Costocondrite no Adulto

CID-10: M94.0 - Síndrome da junção condrocostal

Introdução

  • A costocondrite é uma causa frequente de dor torácica musculoesquelética, caracterizada pela inflamação das cartilagens costocondrais ou condroesternais, geralmente envolvendo múltiplas articulações entre a segunda e a quinta costelas.

  • Embora seja uma condição benigna e autolimitada, seu principal desafio clínico consiste em diferenciá-la das causas potencialmente fatais de dor torácica, especialmente síndrome coronariana aguda, tromboembolismo pulmonar e dissecção aguda da aorta.

  • O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico, após exclusão de condições graves quando indicado.

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Epidemiologia

Epidemiologia:

  • Representa aproximadamente 15–30% das causas de dor torácica na Atenção Primária;

  • Pode ocorrer em qualquer idade, sendo mais frequente entre 40 e 60 anos;

  • Afeta ambos os sexos, com discreto predomínio feminino em algumas séries;

  • Geralmente é unilateral, embora possa ser bilateral.

Fatores associados:

  • Exercícios intensos;

  • Tosse persistente;

  • Esforço físico repetitivo;

  • Trauma torácico leve;

  • Movimentos repetitivos dos membros superiores;

  • Infecções respiratórias recentes;

  • Fibromialgia;

  • Espondiloartrites;

  • Artrite reumatoide (menos frequentemente).

Anamnese

Características típicas da dor

  • A dor costuma apresentar as seguintes características:

    • Bem localizada;

    • Pontada ou dor em aperto;

    • Intensidade variável;

    • Agravamento com:

      • inspiração profunda;

      • tosse;

      • espirros;

      • movimentação do tronco;

      • elevação dos membros superiores.

    • Melhora com repouso.

  • Um dos achados mais importantes é que a dor pode ser reproduzida à palpação direta da junção costocondral.

Perguntas importantes

  • Investigar:

    • Início súbito ou gradual;

    • Localização exata;

    • Irradiação;

    • Relação com esforço físico;

    • Trauma recente;

    • Episódios de tosse intensa;

    • Atividade física recente;

    • Febre;

    • Dispneia;

    • Palpitações;

    • Síncope;

    • Sudorese;

    • História cardiovascular;

    • Fatores de risco para doença arterial coronariana;

    • História de neoplasia;

    • Perda ponderal;

    • Doenças reumatológicas.

Exame físico

  • Achados sugestivos:

    • Dor reproduzida à palpação de uma ou mais articulações costocondrais;

    • Ausência de edema importante;

    • Ausência de hiperemia;

    • Ausência de deformidade torácica;

    • Dor à movimentação do tronco.

Sinais que sugerem outro diagnóstico:

  • Instabilidade hemodinâmica;

  • Hipoxemia;

  • Taquicardia persistente;

  • Crepitações pulmonares;

  • Sopros cardíacos novos;

  • Assimetria de pulsos;

  • Massa pulsátil;

  • Edema importante sobre a articulação.

Diagnóstico

  • O diagnóstico é clínico.

  • Não existe exame laboratorial específico.

  • Critérios clínicos sugestivos

    • Dor torácica localizada.

    • Dor reproduzida pela palpação costocondral.

    • Ausência de sinais sistêmicos.

    • Exame cardiopulmonar normal.

    • Evolução benigna.

  • Exames complementares

    • Os exames servem principalmente para excluir causas potencialmente graves.

    • ECG

      • Solicitar quando:

        • idade >35–40 anos;

        • fatores de risco cardiovasculares;

        • dor de característica duvidosa;

        • suspeita de síndrome coronariana.

    • Troponina

      • Indicações:

        • suspeita de síndrome coronariana aguda;

        • dor típica de origem cardíaca;

        • alterações eletrocardiográficas.

    • Radiografia de tórax

      • Solicitar quando houver:

        • trauma;

        • febre;

        • tosse importante;

        • dispneia;

        • suspeita de fratura;

        • suspeita de pneumonia.

    • Tomografia de tórax

      • Não é exame de rotina.

      • Indicações:

        • suspeita de tromboembolismo pulmonar;

        • suspeita de dissecção de aorta;

        • suspeita de neoplasia;

        • diagnóstico incerto.

    • Ultrassonografia

      • Pode auxiliar em casos selecionados para afastar alterações da parede torácica, mas não faz parte da investigação habitual.

Tratamento inicial

Considerações:

  • A costocondrite é, na maioria dos casos, autolimitada, com resolução em semanas.

  • Os objetivos do tratamento são:

    • controle da dor;

    • redução da inflamação;

    • retorno precoce às atividades.

Medidas não farmacológicas

  • Repouso relativo.

  • Evitar movimentos repetitivos.

  • Evitar levantamento de peso durante a fase dolorosa.

  • Compressas mornas por 15–20 minutos, 3–4 vezes ao dia.

  • Alongamentos leves após melhora da dor.

  • Correção ergonômica quando pertinente.

Tratamento farmacológico

  • Primeira linha

    • Paracetamol comp. 500 mg ou 750 mg

      • Tomar 500–750 mg VO a cada 6 horas, se dor (máx. 3 g/dia em adultos sem hepatopatia), ou

    • Dipirona comp. 500 mg

      • Tomar 500–1.000 mg VO de 6/6 horas, se dor (máx. 4 g/dia).

  • Segunda linha (apenas uma das opções)

    • Indicação: quando houver componente inflamatório importante e ausência de contraindicações

    • Ibuprofeno comp. 400 mg

      • Tomar 400 mg VO de 8/8 horas por 5–7 dias, após as refeições.

    • Naproxeno comp. 500 mg

      • Tomar 500 mg VO de 12/12 horas por 5–7 dias, após alimentação.

    • Cetoprofeno comp. 100 mg

      • Tomar 100 mg VO de 12/12 horas por até 5 dias, após alimentação.

    • Cuidados com AINEs

      • Evitar ou utilizar com cautela em pacientes com:

        • doença renal crônica;

        • insuficiência cardíaca;

        • úlcera péptica ativa;

        • sangramento digestivo;

        • gestação (especialmente no terceiro trimestre).

Se dor persistente:

  • Nos casos refratários após tratamento conservador, pode ser considerada infiltração local com anestésico associado a corticosteroide, preferencialmente por profissional experiente ou especialista.

Critérios de encaminhamento

Encaminhamento imediato (urgência/emergência)

  • Encaminhar imediatamente diante de:

    • suspeita de síndrome coronariana aguda;

    • dor torácica típica de origem cardíaca;

    • alterações no ECG;

    • troponina elevada;

    • dispneia importante;

    • instabilidade hemodinâmica;

    • síncope;

    • suspeita de tromboembolismo pulmonar;

    • suspeita de dissecção aguda da aorta;

    • pneumotórax;

    • febre associada a suspeita de infecção profunda;

    • trauma torácico significativo.

Encaminhamento para especialista

  • Considerar encaminhamento para ortopedia, reumatologia, clínica médica ou cardiologia quando houver:

    • dor persistente por mais de 8–12 semanas;

    • recorrências frequentes;

    • dúvida diagnóstica;

    • edema importante sugerindo síndrome de Tietze;

    • suspeita de doença reumatológica;

    • necessidade de infiltração;

    • falha do tratamento conservador.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Dor Torácica na Atenção Primária e Rede de Urgência. Brasília: Ministério da Saúde, versão vigente. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 30 jul. 2026.

[2] COLLINS, J. et al. Costochondritis: diagnosis and treatment. American Family Physician, Leawood, v. 80, n. 6, p. 617–620, 2009. Disponível em: https://www.aafp.org/pubs/afp/issues/2009/0915/p617.html. Acesso em: 30 jul. 2026.

[3] SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Diretriz de Dor Torácica na Sala de Emergência. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. São Paulo: SBC, versão vigente. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br. Acesso em: 30 jul. 2026.

[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA. Recomendações para avaliação da dor musculoesquelética na prática clínica. São Paulo: SBR, versão vigente. Disponível em: https://www.reumatologia.org.br. Acesso em: 30 jul. 2026.

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