Intolerância à Lactose na Criança
CID 10: E73.9 - Intolerância à lactose, não especificada
Introdução
Intoxicação, intolerância e alergia alimentar são reações anormais que ocorrem após a ingestão de alimentos, com mecanismos distintos entre si [1]:
Intoxicação alimentar: decorre da ingestão de alimentos contaminados por microrganismos (bactérias, vírus, parasitas) [1]
Intolerância alimentar: relacionada à dificuldade de digestão de determinado alimento, geralmente por deficiência de alguma enzima envolvida no processamento; não está relacionada à resposta do sistema imunológico [1]
Alergia alimentar: resposta exagerada do sistema de defesa frente a um componente do alimento, como ocorre na alergia à proteína do leite de vaca [1]
Terminologia específica adotada para o espectro clínico da lactose [2]:
Intolerância à lactose: relatos de sintomas gastrointestinais após a ingestão de lactose ou alimentos que a contenham
Má absorção de lactose: absorção incompleta de lactose no intestino delgado, com passagem de lactose não digerida ao cólon
Deficiência de lactase: falta de atividade da enzima lactase, dissacaridase responsável pela digestão da lactose; nem todo paciente com deficiência de lactase desenvolve má absorção ou intolerância
A lactose é o açúcar presente no leite (inclusive no leite materno) e em seus derivados; sua digestão depende da enzima lactase, presente no intestino delgado; quando essa enzima não é produzida ou é produzida em quantidade insuficiente, a digestão da lactose fica prejudicada, causando os sintomas da intolerância [1][2]
Epidemiologia:
A deficiência primária de lactase (redução fisiológica da atividade enzimática após o desmame) não é considerada doença, e sim uma característica individual que chega a afetar até 70% da população mundial, em graus variados [1]
A prevalência da deficiência de lactase varia conforme grupo étnico: é menor entre europeus e euro-americanos e maior entre afrodescendentes, asiático-americanos e nativos americanos [2]
A prevalência é baixa em crianças menores de 6 anos e aumenta progressivamente com a idade [2]
A intolerância à lactose é rara em lactentes, já que a quase totalidade dos bebês nasce com atividade da lactase suficiente para digerir o leite materno; em crianças, o quadro geralmente não se manifesta antes dos 3 anos de idade [4]
Fisiopatologia
A lactase hidrolisa a lactose (dissacarídeo) em glicose e galactose (monossacarídeos), sendo esta enzima localizada na membrana da microvilosidade das células absortivas intestinais [2]
Quando há atividade insuficiente da lactase, parcela relevante da lactose ingerida (até 75% em indivíduos com baixa atividade enzimática) não é absorvida no intestino delgado e é conduzida ao cólon [2]
No cólon, a lactose não digerida é utilizada como substrato pela microbiota intestinal, sendo fermentada e convertida em ácidos graxos de cadeia curta e gás hidrogênio, o que provoca distensão abdominal, flatulência e amolecimento das fezes [1][2]
A intensidade dos sintomas relaciona-se à quantidade de lactose mal absorvida e a condições que aumentam a sensibilidade intestinal [2]
A microbiota do intestino pode se adaptar à ingestão persistente de lactose, o que reduz a incidência e a gravidade dos sintomas ao longo do tempo [2]
Etiologia
Deficiência primária de lactase (causa mais comum) [1][2]
Redução geneticamente programada da atividade da lactase ao longo dos anos, após o desmame [1][2]
Costuma ocorrer em famílias (padrão hereditário), com redução progressiva da produção de lactase pelo organismo ao longo do tempo [4]
Os sintomas surgem mais tardiamente: em crianças maiores, adolescentes e adultos [1][4]
Não se trata de uma doença, mas de uma característica individual [1]
Deficiência secundária de lactase [1][2]
Decorre de doenças que acometem a mucosa intestinal e reduzem a produção da lactase [1][2]
Pode surgir em qualquer idade; costuma ser transitória, com melhora acompanhando a resolução da doença de base [1]
Causas descritas: gastroenterite viral ou bacteriana que se prolonga por mais de 14 dias, doença celíaca, doença de Crohn [1][2]
Na doença celíaca, a intolerância à lactose secundária pode surgir quando a criança inicia a introdução de alimentos com glúten, por volta dos 6 meses de idade, em decorrência da inflamação intestinal provocada pela doença; nesses casos, o tratamento da doença celíaca leva à resolução da intolerância à lactose [4]
Deficiência por prematuridade (desenvolvimental) [1][2]
Ocorre em recém-nascidos prematuros, cujo intestino ainda não atingiu maturidade suficiente para produção adequada da enzima [1]
Descrita em prematuros nascidos entre 28 e 32 semanas de gestação [2]
Tende a ser transitória, com aumento progressivo da produção de lactase à medida que o bebê cresce [1]
Deficiência congênita de lactase [1][2]
Condição rara, autossômica recessiva, em que a criança nasce sem capacidade de produzir lactase ou com produção muito baixa da enzima [1][2]
Para que ocorra, é necessário que ambos os pais sejam portadores do gene alterado [4]
Sintomas podem ser observados desde as primeiras mamadas [1], com diarreia intensa desde o nascimento e intolerância tanto ao leite materno quanto à fórmula à base de leite de vaca [4]
Necessita de fórmula infantil especial isenta de lactose [4]
Descrita predominantemente na população finlandesa; pode associar-se a hipercalcemia e nefrocalcinose [2]
Quadro Clínico
Sintomas associados à ingestão de leite e derivados, podendo variar em intensidade conforme a quantidade de lactose ingerida e o grau de deficiência enzimática de cada criança [1][2]:
Dor abdominal, por vezes em cólica, geralmente localizada na região periumbilical ou em quadrantes inferiores [1][2]
Distensão/inchaço abdominal [1][2]
Flatulência [1][2]
Diarreia [1][2]
Náuseas [1][2]
Os sintomas costumam se iniciar entre 30 minutos e 2 horas após a ingestão de alimentos ou bebidas que contenham lactose [4]
Em crianças, as fezes podem se apresentar volumosas, espumosas e aquosas [2]
Pacientes com má absorção de lactose podem ser assintomáticos [2]
Achados laboratoriais, quando há diarreia por má absorção [2]:
Gap osmótico fecal > 125 mOsm/kg
pH fecal < 6, decorrente da fermentação bacteriana da lactose no cólon
Diagnóstico
O diagnóstico é estabelecido pelo médico, a partir da identificação de relação temporal entre a ingestão de leite/derivados e o surgimento dos sintomas [1]
A avaliação inicial inclui histórico de saúde, histórico familiar e exame físico; pode-se solicitar a exclusão de leite e derivados por curto período de tempo para observar se há melhora dos sintomas [4]
A suspeita se fortalece diante de sintomas que ocorrem após ingestão significativa de lactose (mais de 2 porções de laticínios/dia, ou mais de 1 porção em dose única fora de uma refeição), com resolução após 5 a 7 dias de exclusão de alimentos contendo lactose [2]
Exames complementares podem ser necessários, indicados pelo médico conforme cada caso [1][2]:
Teste do hidrogênio expirado
Consiste na ingestão de solução de lactose seguida de coleta seriada de amostras de ar expirado para dosagem de hidrogênio [2]
Dose em crianças: 0,5 a 2 g/kg de lactose diluída em água, até dose máxima de 25 a 50 g [2]
Interpretação: aumento > 20 ppm em relação ao basal indica má digestão/má absorção de lactose [2]
Cuidados prévios ao teste: evitar tabagismo e exercício físico intenso nas 2 horas anteriores; evitar carboidratos complexos e laticínios nas 12 horas anteriores; evitar uso de antibióticos nas 4 semanas anteriores [2]
Duração recomendada: 3 a 5 horas, podendo ser encerrado antes caso haja confirmação diagnóstica [2]
Resultados falso-negativos podem ocorrer após uso recente de antibióticos, em doenças pulmonares, ou em indivíduos não excretores de hidrogênio (até 20% dos casos) [2]
Teste oral de tolerância à lactose [1][2]
Baseado na dosagem seriada da glicemia após ingestão de lactose (dose em crianças: 2 g/kg) [2]
Aumento da glicemia inferior a 20 mg/dL é compatível com má absorção de lactose [2]
Sensibilidade inferior à do teste do hidrogênio expirado; útil quando há suspeita de não excreção de hidrogênio [2]
Teste de acidez fecal (pH fecal): também citado como método auxiliar no diagnóstico da intolerância à lactose [4]
Outros métodos, com papel limitado na prática clínica [2]:
Biópsia de intestino delgado, com avaliação da atividade da lactase (considerado padrão-ouro, porém pouco utilizado por exigir endoscopia)
Teste genético, útil apenas para deficiência primária em populações geneticamente homogêneas
Teste do gaxilose
Diagnóstico Diferencial
Alergia à proteína do leite de vaca: por apresentar sintomas semelhantes aos da intolerância à lactose, é frequentemente confundida com esta condição; o conhecimento das diferenças entre os dois quadros (mecanismo imunológico na alergia versus deficiência enzimática na intolerância) é importante para a abordagem diagnóstica e terapêutica adequada [1][4]
Síndrome do intestino irritável, que pode cursar com aumento dos sintomas relacionados à ingestão de lactose [2]
Supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO): deve ser suspeitado em pacientes com histórico de cirurgia abdominal ou distúrbios graves de motilidade intestinal; no teste do hidrogênio expirado, caracteriza-se por pico precoce, entre 15 e 30 minutos após a ingestão do substrato [2]
Intolerância a outros carboidratos incompletamente absorvidos, como sorbitol, manitol, xilitol, frutose e FODMAPs, além de outras deficiências de dissacaridases, como trealase e sacarase-isomaltase [2]
Tratamento
Considerações:
O tratamento deve ser individualizado e somente iniciado após diagnóstico bem estabelecido pelo médico [1]
Nos casos de deficiência secundária, o tratamento da doença de base pode restaurar a atividade da lactase; a intolerância, no entanto, pode persistir por meses após o início da resolução do quadro primário [2]
Manejo dietético
Uso de fórmulas infantis ou leite com quantidade reduzida ou isenta de lactose, conforme indicação médica [1]
Não é necessária a exclusão total da lactose na maioria dos casos; a restrição da ingestão ao limite individualmente tolerado costuma ser suficiente para o controle dos sintomas [2]
Doses de lactose superiores a 10 g costumam ser necessárias para provocar sintomas relevantes [2]
O acompanhamento por nutricionista é recomendado para orientar e educar a criança e os responsáveis quanto à dieta mais adequada, evitando a exclusão desnecessária de todos os alimentos que contenham lactose [4]
O consumo diário e regular de pequenas quantidades de lactose pode ser mais bem tolerado do que o consumo intermitente [2]
Derivados como iogurte, queijo e coalhada apresentam menor teor de lactose e costumam ser mais bem tolerados [1]
Iogurtes com culturas vivas contêm beta-galactosidase endógena, o que favorece a tolerância; iogurtes com lactose reintroduzida após a fermentação podem provocar sintomas [2]
Mudanças alimentares devem ser realizadas sob orientação médica, evitando deficiências nutricionais na criança [1]
Suplementação de cálcio e vitamina D
Monitorar níveis de vitamina D em crianças com restrição de laticínios [2]
Estimular o consumo de alimentos ricos em cálcio ou considerar suplementação em caso de ingestão inadequada [2]
Ingestão diária de cálcio recomendada para a faixa etária de 9 a 18 anos: 1300 mg/dia, conforme os Dietary Reference Intakes (Institute of Medicine/National Academies) [6].
Os laticínios representam, em média, até 70% do consumo diário de cálcio da maioria das pessoas; a exclusão desses alimentos sem orientação adequada pode colocar a criança em risco de deficiência de cálcio, com repercussão sobre a saúde óssea, especialmente relevante durante a infância [4]
Reposição enzimática com lactase exógena
Lactase (Deslac®) gotas, frasco 15 mL (500 FCC/gota; equivalente a 10.000 FCC em 20 gotas) [3]
Adicionar 5 gotas para cada 250 mL de leite (proporcionalmente: 10 gotas/500 mL; 20 gotas/1L), diretamente sobre o alimento lácteo no momento do preparo, ou administrar 30 minutos antes do consumo.
Dose ajustada conforme necessidade individual e resposta clínica.
Considerações:
Deve ser administrada durante a refeição que contenha leite, ou adicionada ao alimento lácteo previamente ao consumo [1][2][3]
As preparações comerciais não hidrolisam a totalidade da lactose ingerida, e a resposta individual é variável [2]
Em crianças menores de 3 anos, gestantes e lactantes, o uso deve ser orientado por médico ou nutricionista.
Enzima obtida de Aspergillus oryzae.
Outras apresentações comerciais disponíveis no mercado nacional (cápsulas ou comprimidos mastigáveis, administrados antes da ingestão de alimentos lácteos): Lactosil®, Lacday®, Zerolac®, Perlatte®, Enzilac®, Lactozym® [3]
Orientação sobre uso de outros medicamentos:
Não há necessidade de evitar medicamentos que contenham lactose como excipiente, pois a quantidade presente nas formulações é insuficiente para desencadear sintomas [2]
Referências
[1] Serviço de Gastroenterologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da UFMG (GASTROPED). Intolerância à Lactose. Faculdade de Medicina da UFMG, 2024. Disponível em: https://site.medicina.ufmg.br/gastroped/.
[2] HAMMER, Heinz F.; HÖGENAUER, Christoph. Lactose intolerance and malabsorption: Clinical manifestations, diagnosis, and management. UpToDate. Editor da seção: Lawrence S. Friedman. Revisão da literatura atual até: jun. 2026. Última atualização: 01 out. 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com.
[3] Bula do fabricante. Deslac Lactase Gotas 15 mL. Maxinutri Laboratório Nutracêutico. Disponível em: https://consultaremedios.com.br/deslac-lactase/bula.
[4] FIGUEIREDO, Luana Albuquerque; DANTAS, Maria Eduarda Leite; REIS, David Silva dos. Intolerância à lactose infantil: um estudo de revisão. Revista FT, v. 27, ed. 122, mai. 2023. DOI: 10.5281/zenodo.7957633. Disponível em: https://revistaft.com.br.
[5] Organização Mundial da Saúde. CID-10: Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. Código E73.9: Intolerância à lactose, não especificada. Disponível em: https://icd.who.int.
[6] INSTITUTE OF MEDICINE (US) Committee to Review Dietary Reference Intakes for Vitamin D and Calcium. Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D. Washington (DC): National Academies Press, 2011. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK56070/.
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