Atraso Puberal

CID 10: E300 - Puberdade retardada

Definição e Epidemiologia

Definição

  • Puberdade: período de transição da infância para a vida adulta, decorrente da ativação do eixo hipotálamo hipófise gônadas (HHG) [1].

  • A ativação do eixo HHG resulta em:

    • aparecimento dos caracteres sexuais secundários

    • aceleração da velocidade de crescimento (VC)

    • alterações da composição corporal

    • aquisição da capacidade reprodutiva com a maturação sexual completa [1].

  • Atraso puberal: ausência de sinais clínicos de desenvolvimento puberal na idade esperada para a população, ou falha na progressão dos eventos puberais já iniciados [1][2].

    • Critérios de definição:

      • Ausência de telarca após os 13 anos no sexo feminino, e ausência de aumento testicular acima de 4 mL aos 14 anos no sexo masculino, o que corresponde a eventos puberais iniciados em idade acima de 2 a 2,5 desvios padrões da média populacional [1].

      • Ausência de desenvolvimento mamário até os 12 a 13 anos nas mulheres, e ausência de aumento testicular (≥ 4 mL) até os 13 a 14 anos nos homens, sendo essas idades o limite superior aceitável para o início espontâneo da puberdade [2].

      • Também se considera atraso puberal quando o adolescente não atinge o estágio V de Tanner após 4 anos do início da puberdade, ou quando há ausência de menarca após os 15 a 16 anos [1].

  • O momento de início da puberdade apresenta variação entre grupos étnicos, com início mais precoce do desenvolvimento mamário em meninas negras em comparação a hispânicas, brancas não hispânicas e asiáticas; padrão semelhante ocorre no aumento testicular em meninos [2].

  • Desenvolvimento isolado de pelos pubianos geralmente não é incluído na definição de puberdade, pois pode representar apenas adrenarca (produção fisiológica de andrógenos adrenais), independente da ativação do eixo HHG [1][2].

  • Puberdade estagnada

    • Considerada quando a puberdade não se completa em aproximadamente 4 anos após seu início, período em que 95% dos jovens já concluíram o desenvolvimento puberal, ou quando não há progressão do desenvolvimento puberal em 2 anos [2].

    • Distúrbios associados a alterações da função reprodutiva podem cursar tanto com puberdade atrasada quanto com puberdade estagnada; por exemplo, parte dos pacientes com síndrome de Turner apresenta estagnação após desenvolvimento mamário espontâneo, enquanto outros não apresentam desenvolvimento espontâneo algum [2].

Epidemiologia

  • O atraso puberal ocorre em aproximadamente 2 a 5% dos adolescentes [2].

  • O atraso constitucional do crescimento e puberdade (ACCP) é a causa mais frequente, respondendo por 63% dos casos em meninos e 30% em meninas, segundo dados brasileiros [1].

  • A distribuição estimada por etiologia é [2]:

    • Hipogonadismo primário (hipergonadotrófico): 5% dos homens e 15 a 25% das mulheres.

    • Hipogonadismo secundário (hipogonadotrófico): 85 a 95% dos homens e 75 a 85% das mulheres, sendo a maior parte de causa transitória.

    • Dentro do hipogonadismo secundário transitório: ACCP em 60 a 80% dos homens e 30 a 55% das mulheres; hipogonadismo hipogonadotrófico funcional (HHF) em 10 a 20% dos homens e 20 a 30% das mulheres.

    • Formas permanentes de hipogonadismo secundário: 10% dos homens e 10 a 20% das mulheres.

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Fisiologia da Puberdade Normal

Eixo hipotálamo hipófise gônadas (HHG)

  • Ativo durante a vida fetal e nos primeiros meses de vida pós natal, até cerca de 6 meses nos meninos e até os 2 anos nas meninas, período denominado "mini puberdade" [1].

  • Após esse período, o eixo HHG torna se quiescente, quando níveis baixos de hormônios sexuais já são suficientes para inibir a secreção hipotálamo hipofisária de GnRH, LH e FSH [1].

  • O início da puberdade decorre da redução de sensibilidade do sistema nervoso central ao feedback negativo exercido pelos hormônios sexuais; sob estímulo do GnRH, as gonadotrofinas são liberadas e estimulam as células de Leydig a produzir testosterona e as células foliculares ovarianas a produzir estradiol [1].

Progressão puberal (estágios de Tanner)

  • A classificação de Tanner e Whitehouse avalia o desenvolvimento de pelos pubianos, mamas e volume testicular em estágios [1].

  • Sexo feminino:

    • Primeiro sinal: telarca (broto mamário), esperada entre 8 e 13 anos [1].

    • O estirão de crescimento ocorre entre os estágios II e III de Tanner, correspondente à idade óssea (IO) de 11 anos [1].

    • A menarca ocorre no estágio IV, sinalizando a fase final da puberdade, geralmente cerca de 2 anos após a telarca [1].

  • Sexo masculino:

    • Primeiro sinal: aumento do volume testicular acima de 4 mL, esperado entre 9 e 14 anos [1].

    • O estirão de crescimento ocorre no estágio III, correspondente à IO de 13 anos [1].

    • Eventos que indicam o final da puberdade: mudança da voz, presença de barba e primeira ejaculação [1].

  • A transição entre estágios de Tanner leva, em média, de 6 a 10 meses [1].

Fatores determinantes do início puberal

  • A ampla variação na idade de início e no ritmo do desenvolvimento puberal decorre da combinação de fatores genéticos e ambientais; estudos com gêmeos monozigóticos mostram que 50 a 75% da variação no início da puberdade se deve a fatores genéticos [1].

  • Principais fatores ambientais e seu efeito sobre o início da puberdade [1]:

    • Obesidade: avanço no sexo feminino; efeito controverso no sexo masculino.

    • Baixo peso: atraso em ambos os sexos.

    • Estresse físico e emocional: atraso em ambos os sexos.

    • Retardo do crescimento intrauterino: avanço no sexo feminino.

    • Exposição a desreguladores endócrinos: avanço no sexo feminino; atraso no sexo masculino.

Classificação e Etiologia do Atraso Puberal

De acordo com a atividade do eixo HHG, o atraso puberal é classificado em três grandes grupos [1][2]:

  • Atraso constitucional do crescimento e puberdade (ACCP)

  • Hipogonadismo hipogonadotrófico (secundário)

  • Hipogonadismo hipergonadotrófico (primário)

Atraso Constitucional do Crescimento e Puberdade (ACCP)

  • Causa mais frequente de atraso puberal; não é considerada doença, mas variante da puberdade normal, com importante histórico familiar [1].

  • Fisiopatologia: decorre de um atraso fisiológico na elevação da secreção hipotalâmica de GnRH; é altamente hereditária, e famílias afetadas frequentemente relatam história de atraso puberal em múltiplas gerações [2].

  • Características do padrão de crescimento:

    • Atraso da idade óssea e redução da velocidade de crescimento nos três primeiros anos de vida [1].

    • Velocidade de crescimento normal em relação à IO na sequência, com crescimento paralelo à curva familiar esperada [1].

    • Na adolescência, o atraso da estatura para idade se acentua em comparação aos pares, que já estão em fase de estirão, enquanto o paciente com ACCP mantém velocidade de crescimento pré puberal compatível com a IO [1].

    • O aumento da velocidade de crescimento ocorre em idades mais tardias, e a estatura final costuma permanecer dentro do canal familiar [1].

  • A base genética do ACCP permanece incompletamente compreendida; na maioria dos casos, é considerada poligênica, decorrente de variantes de pequeno efeito em múltiplos genes; raramente, o ACCP ocorre em portadores de variantes recessivas que, em homozigose, causam hipogonadismo hipogonadotrófico permanente [2].

Hipogonadismo Hipogonadotrófico (Secundário)

  • Decorre de deficiência de GnRH hipotalâmico ou das gonadotrofinas hipofisárias (LH e FSH) [1].

  • Formas transitórias

    • Hipogonadismo hipogonadotrófico funcional (HHF): decorre de estado hipermetabólico (ex.: doenças sistêmicas mal controladas, como diabetes ou hipotireoidismo grave) e/ou aporte calórico inadequado para o gasto energético (ex.: transtorno alimentar restritivo, exercício físico excessivo, doença celíaca) [2].

    • Pode ser provocado por déficit nutricional ou estresse metabólico decorrente de diferentes doenças crônicas [1].

  • Formas permanentes

    • Consideradas permanentes quando não há desenvolvimento puberal espontâneo até os 18 anos [2].

    • Anormalidades estruturais ou funcionais do hipotálamo ou da hipófise:

      • Malformações congênitas.

      • Síndromes genéticas (ex.: Prader-Willi, Bardet-Biedl, Noonan, CHARGE) [1].

      • Lesões do sistema nervoso central: tumores (especialmente craniofaringioma), pós traumatismo cranioencefálico, pós radioterapia do SNC, infecções do SNC, doenças infiltrativas do SNC (ex.: histiocitose) [1][2].

    • Deficiência isolada de gonadotrofinas / hipogonadismo hipogonadotrófico idiopático (IHH)

      • Engloba um grupo de distúrbios genéticos associados a defeitos na produção e/ou ação do GnRH hipotalâmico; também chamado de deficiência isolada de GnRH ou hipogonadismo hipogonadotrófico congênito [2].

      • Pode se apresentar com olfato normal (normósmico) ou com hiposmia/anosmia; a apresentação com hiposmia/anosmia é chamada de síndrome de Kallmann, diagnosticada em aproximadamente metade dos pacientes com deficiência de GnRH [1][2].

      • Pode associar-se a outras características: defeitos de linha média (fenda labial/palatina), perda auditiva neurossensorial, agenesia renal unilateral, sincinesia (movimentos em espelho) e pequeno falo ou criptorquidia [2].

      • Há sobreposição genética entre ACCP e deficiência isolada de GnRH, sugerida por maiores taxas de ACCP em famílias com deficiência isolada de GnRH [2].

    • Causas adquiridas de hipogonadismo hipogonadotrófico: atividade física excessiva, doenças crônicas, uso de medicamentos (opioides, glicocorticoides, narcóticos, esteroides anabolizantes) [1].

Hipogonadismo Hipergonadotrófico (Primário)

  • Insuficiência gonadal primária: o déficit de produção dos hormônios sexuais prejudica o feedback negativo com a hipófise, resultando em gonadotrofinas elevadas [1].

  • Geralmente permanente [2].

  • Causas mais comuns de falência gonadal:

    • Síndrome de Turner no sexo feminino [1][2].

    • Síndrome de Klinefelter no sexo masculino, embora a maioria dos pacientes com esse diagnóstico não apresente atraso ou estagnação puberal [1][2].

  • Achados sugestivos:

    • Meninos com síndrome de Klinefelter: alta estatura, hábito eunucoide, maior risco de alterações intelectuais e de comportamento, testículos pequenos e endurecidos [1].

    • Meninas com síndrome de Turner: insuficiência ovariana, baixa estatura, podendo cursar com malformações cardíacas e renais, hipertensão, doenças autoimunes, otites de repetição, linfedema e estigmas clássicos (pescoço curto e alado, cubitus valgo, 4º metacarpiano curto) [1]. Até 30% das pacientes com síndrome de Turner apresentam algum desenvolvimento mamário espontâneo seguido de estagnação, em vez de puberdade ausente [2].

  • Outras causas de hipogonadismo primário:

    • Disgenesias gonadais; mutações inativadoras dos genes LHR e FSHR; insensibilidade androgênica (sexo masculino); deficiência de aromatase (sexo feminino) [1].

    • Exposição a agentes gonadotóxicos (ex.: quimioterapia), criptorquidia, torção testicular, infecção, cirurgia, neoplasia, radioterapia pélvica, doença autoimune gonadal [1][2].

    • Nas mulheres, a exposição a terapias gonadotóxicas é a causa iatrogênica mais comum; outras causas de insuficiência ovariana primária tendem a se manifestar após a puberdade, com amenorreia secundária [2].

Avaliação clínica (história e exame físico)

Estadiamento de Tanner — Maturação Sexual: a tabela apresenta os cinco estágios de desenvolvimento puberal segundo a classificação de Tanner, organizados separadamente para o sexo feminino e o sexo masculino. Para o sexo feminino, considerando o desenvolvimento das mamas e dos pelos pubianos: no estágio 1, os mamilos são pequenos e não há broto mamário, e os pelos pubianos estão ausentes; no estágio 2, há broto mamário inicial com aréola aumentada, e os pelos pubianos são finos, esparsos, lisos e claros; no estágio 3, a mama e a aréola estão aumentadas sem separação de contornos entre elas, e os pelos tornam-se mais escuros, encaracolados e numerosos; no estágio 4, a aréola e o mamilo formam uma saliência (contorno) separada do contorno da mama, e os pelos apresentam características adultas, porém ainda não atingem a face interna das coxas; no estágio 5, a mama assume aspecto adulto, com a aréola retornando ao contorno da mama e o mamilo projetado, e os pelos pubianos assumem padrão adulto em formato de triângulo invertido, estendendo-se à face interna das coxas. Para o sexo masculino, considerando o desenvolvimento da genitália e dos pelos pubianos: no estágio 1, os testículos, a bolsa escrotal e o pênis mantêm aspecto infantil, e os pelos pubianos estão ausentes; no estágio 2, há aumento inicial do escroto e dos testículos, com a pele escrotal mais fina, avermelhada e enrugada, enquanto o pênis permanece com aspecto infantil, e surgem poucos pelos finos na base do pênis; no estágio 3, há aumento do comprimento do pênis, o escroto e os testículos continuam a crescer e a pele escrotal torna-se mais escura, com pelos mais escuros, encaracolados e esparsos na base do pênis; no estágio 4, há aumento em comprimento e diâmetro do pênis, maior desenvolvimento da glande, escurecimento do escroto e aumento dos testículos, com pelos de características adultas e densos, porém ainda sem atingir a face interna das coxas; no estágio 5, o pênis e o escroto assumem aspecto adulto, e os pelos pubianos alcançam padrão adulto, denso, estendendo-se à face interna das coxas. Fonte: adaptado de Marshall WA, Tanner JM. Variations in pattern of pubertal changes in girls. Arch Dis Child. 1969;44(235):291-303; e Marshall WA, Tanner JM. Variations in the pattern of pubertal changes in boys. Arch Dis Child. 1970;45(239):13-23.

História

  • Antecedentes gestacionais e perinatais

    • Classificação de peso e estatura pela idade gestacional [1]

    • Alterações genitais associadas: micropênis, hipospádia, criptorquidia [1]

  • Antecedentes patológicos

    • Radioterapia ou quimioterapia prévias [1]

    • Torção testicular, orquite ou orquidopexia [1]

  • Desenvolvimento e hábitos

    • Capacidade olfatória [1]

    • Padrão de ganho de peso e estatura [1]

    • Hábitos alimentares e prática de atividade física [1]

  • História familiar

    • Idade da menarca materna, desenvolvimento puberal paterno e estatura dos genitores, para cálculo da estatura alvo [1]

    • História familiar de atraso puberal sustenta a hipótese de ACCP ou de deficiência isolada de GnRH, embora outros diagnósticos devam ser excluídos primeiro [2]

      • A ausência de história familiar não exclui essas hipóteses [2]

  • Sintomas de doença sistêmica

    • Doença aguda ou crônica pode causar hipogonadismo hipogonadotrófico funcional [2]

    • Em alguns casos, o atraso puberal é o sinal de apresentação de doença crônica ou desnutrição não evidente sem investigação adicional [2]

  • Sintomas neurológicos

    • Cefaleia, alterações visuais e convulsão sugerem fortemente acometimento do sistema nervoso central [2]

      • São discriminadores clínicos importantes entre ACCP e lesão estrutural de SNC/hipófise [2]

    • Diminuição abrupta da velocidade de crescimento linear com preservação do ganho de peso, associada a sintomas de diabetes insipidus, levanta suspeita de lesão hipotalâmica ou hipofisária estrutural [2]

  • Uso de medicamentos e substâncias

    • Agentes gonadotóxicos (ex.: quimioterápicos alquilantes): podem causar hipogonadismo hipergonadotrófico [2]

    • Glicocorticoides e opioides: podem associar-se a hipogonadismo hipogonadotrófico [2]

  • Distresse psicossocial

    • Deve-se investigar a causa do sofrimento relatado pelo paciente ou pela família em relação ao atraso puberal frente aos pares [2]

Exame físico

  • Avaliação geral

    • Estadiamento da maturação sexual segundo os critérios de Tanner [1][2]

    • Medida do volume testicular com orquidômetro de Prader [1][2]

    • Avaliação da tireoide, presença de odor androgênico e pelos axilares [1]

    • Sinais sugestivos de síndromes genéticas [1]

  • Antropometria

    • Peso e estatura [1]

    • Proporções corporais: envergadura e relação altura sentado/altura [1]

    • Envergadura maior que a estatura em mais de 5 cm associa-se a fechamento epifisário tardio (ex.: síndrome de Klinefelter, deficiência isolada de GnRH) [2]

  • Sexo feminino

    • Desenvolvimento inicial pode se manifestar por aumento ou sensibilidade da aréola [2]

    • Pelos pubianos/axilares, odor apócrino e acne não são sinais de puberdade, refletindo geralmente adrenarca [2]

  • Sexo masculino

    • Primeiro sinal: aumento testicular (> 4 mL) [2]

    • Testículos não palpáveis ou com palpação alterada: indicam ultrassonografia testicular e encaminhamento à urologia pediátrica [2]

    • Falo pequeno, testículos pequenos e criptorquidia sugerem alterações da secreção de testosterona (ex.: síndrome de Klinefelter) ou hipogonadismo hipogonadotrófico idiopático [2]

Investigação complementar

  • Exames iniciais

    • Idade óssea (IO) [1][2]

    • Dosagem basal das gonadotrofinas (LH e FSH) [1][2]

    • Dosagem hormonal complementar, conforme sexo:

      • Sexo masculino: testosterona total [2]

      • Sexo feminino: estradiol [2]

    • Coleta preferencial pela manhã (8h às 9h), para captar o pico matinal dos hormônios puberais [2]

    • Quando disponíveis, priorizar ensaios ultrassensíveis [2]

    • A avaliação clínica associada a esses exames direciona o diagnóstico diferencial etiológico do atraso puberal [1]

  • Interpretação dos resultados

    • LH e FSH dentro da faixa de referência para o estágio puberal

      • Indica que a puberdade já se iniciou [2]

      • Geralmente prenuncia desenvolvimento físico em curto prazo [2]

      • Conduta: monitorização da progressão puberal [2]

    • LH e FSH elevados para o estágio puberal, associados a testosterona ou estradiol baixos ou normais

      • Compatível com hipogonadismo primário (hipergonadotrófico) [1][2]

      • Conduta: cariótipo em todos os pacientes, para investigação de aneuploidias dos cromossomos sexuais (síndromes de Turner e Klinefelter) [1][2]

    • LH e FSH baixos para o estágio puberal, associados a testosterona ou estradiol baixos ou normais

      • Compatível com hipogonadismo secundário (hipogonadotrófico) [1][2]

      • Conduta: avaliação adicional guiada pela história clínica e pelo exame físico [1][2]

  • Exames adicionais conforme suspeita clínica

    • Rastreio de causas pouco frequentes de atraso puberal (testes extensos em pacientes assintomáticos apresentam valor limitado) [2]:

      • Anticorpo antitransglutaminase tecidual IgA: rastreio de doença celíaca [2]

      • Provas inflamatórias e hemograma completo: rastreio de doenças inflamatórias (ex.: doença de Crohn) [2]

      • TSH: rastreio de distúrbios tireoidianos [2]

      • Prolactina: rastreio de hiperprolactinemia [2]

    • Ressonância magnética (RM) de crânio e sela túrcica

      • Mandatória quando há suspeita de hipogonadismo hipogonadotrófico [1]

      • Também indicada em pacientes clinicamente estáveis com sintomas neurológicos [2]

      • Guiada por avaliação conjunta com neurologia, neurocirurgia e oftalmologia [2]

    • Ecografia pélvica

      • Indicada no hipogonadismo hipergonadotrófico em meninas [1]

      • Objetivo: definir presença ou ausência de útero e derivados mullerianos, além de caracterizar os ovários [1]

    • Ecografia inguinal e abdominal (e tomografia abdominal, se necessário)

      • Indicada em meninos com testículos não palpáveis ou com palpação alterada [1]

      • Objetivo: caracterização das gônadas [1]

    • Testes complementares para distinção entre ACCP e deficiência isolada de GnRH (uso limitado a centros especializados) [2]:

      • Dosagem basal de FSH, inibina B e/ou hormônio antimülleriano (AMH)

        • Valores mais baixos sugerem hipogonadismo hipogonadotrófico idiopático (IHH) em relação ao ACCP [2]

      • Teste de estímulo de FSH e LH com GnRH ou seu agonista (leuprorrelina ou triptorrelina)

        • Segundo a fonte SBP, a diferenciação definitiva entre ACCP e hipogonadismo hipogonadotrófico por esse método é limitada durante a adolescência, tornando-se mais confiável apenas na idade adulta (após os 18 anos no sexo masculino) [1]

        • Níveis baixos de LH após estímulo, associados à baixa inibina B, indicam hipogonadismo hipogonadotrófico [1]

      • Teste de estímulo com kisspeptina

        • Resposta de LH ≥ 0,8 mIU/mL a bolus intravenoso associou-se, em estudo de coorte, à subsequente progressão espontânea da puberdade [2]

      • Teste genético

        • Identificação de variante patogênica (ou provavelmente patogênica) causadora de IHH aumenta a probabilidade desse diagnóstico, especialmente quando há características fenotípicas adicionais sugestivas [2]

Diagnóstico diferencial

  • Diagnóstico diferencial entre as principais causas de atraso puberal [1]

    • Atraso constitucional do crescimento e puberdade (ACCP)

      • Estatura: abaixo do alvo familiar [1]

      • Relação idade óssea (IO)/idade cronológica: atrasada [1]

      • Estirão puberal: ocorre quando a IO atinge a IO esperada para o estirão [1]

      • Adrenarca: compatível com a IO [1]

      • LH/FSH: baixos [1]

    • Panhipopituitarismo

      • Estatura: baixa [1]

      • Relação IO/idade cronológica: atrasada [1]

      • Estirão puberal: ausente [1]

      • Adrenarca: atrasada [1]

      • LH/FSH: baixos [1]

    • Deficiência isolada de gonadotrofinas

      • Estatura: normal ou alta [1]

      • Relação IO/idade cronológica: normal [1]

      • Estirão puberal: ausente [1]

      • Adrenarca: compatível com a idade cronológica [1]

      • LH/FSH: baixos [1]

    • Hipogonadismo hipergonadotrófico

      • Estatura: variável [1]

      • Relação IO/idade cronológica: normal [1]

      • Estirão puberal: ausente [1]

      • Adrenarca: compatível com a idade cronológica [1]

      • LH/FSH: elevados [1]

  • Distinção entre ACCP e hipogonadismo hipogonadotrófico permanente por deficiência congênita de GnRH

    • Costuma ser desafiadora na prática clínica [1]

    • O diagnóstico definitivo frequentemente exige acompanhamento clínico prolongado, avaliando [1]:

      • Ocorrência de evolução espontânea da puberdade

      • Resposta ao tratamento instituído

      • Continuidade da puberdade após a interrupção da reposição hormonal

    • Na ausência de achados clínicos além do próprio atraso puberal, a diferenciação pode ser especialmente difícil [2]

      • O momento da adrenarca pode fornecer informação adicional [2]

      • Indivíduos com ACCP tendem a apresentar adrenarca também atrasada, embora isso nem sempre ocorra [2]

    • O diagnóstico de hipogonadismo hipogonadotrófico idiopático (IHH) é mais provável quando não há puberdade espontânea até [2]:

      • 16 anos, no sexo masculino

      • 15 anos, no sexo feminino

  • Achados que reforçam a suspeita de hipogonadismo (em detrimento de ACCP)

    • Micropênis [1]

    • Criptorquidia [1]

    • Hipospádia [1]

    • Características sindrômicas [2]

    • Anosmia ou hiposmia [2]

    • Falo pequeno, no sexo masculino [2]

    • Testículos pequenos, no sexo masculino [2]

    • Criptorquidia, no sexo masculino [2]

    • Falta de progressão espontânea da puberdade após 6 meses de tratamento com reposição hormonal [1]

Tratamento

Tratamento etiológico direcionado à causa específica

  • Aplicável quando há diagnóstico específico identificado como causa do atraso puberal (ex.: hipotireoidismo, hiperprolactinemia, doenças crônicas, anorexia nervosa) [1]

  • Conduta: tratamento direcionado à doença de base [1]

  • Expectativa: resolução do atraso puberal após o controle da causa primária [1]

  • Observação: na dificuldade de diferenciação entre ACCP e hipogonadismo hipogonadotrófico permanente por deficiência congênita de GnRH, a conduta terapêutica inicial é semelhante em ambos os casos [1]

Conduta expectante (Watchful Waiting)

  • Indicação: opção inicial adequada para a maioria dos pacientes com ACCP, por se tratar de condição transitória na maior parte dos casos [1][2]

  • Consiste em:

    • Monitorização regular, com exame a cada 6 a 12 meses [1][2]

    • Reasseguramento quanto à benignidade do quadro e à reversão futura, sem necessidade obrigatória de medicamentos [1][2]

    • Suporte psicológico ao adolescente e à família, quando necessário [1][2]

  • Reavaliação após 1 ano sem sinais de puberdade [2]:

    • Reavaliar gonadotrofinas e testosterona/estradiol

    • Discutir com paciente e família os riscos e benefícios da continuidade da conduta expectante versus curso curto de esteroides gonadais

  • Probabilidade de início espontâneo da puberdade no ano seguinte à consulta, sem tratamento (estudo de coorte retrospectivo) [2]:

    • Sexo masculino:

      • 38% aos 13,5 anos

      • 55% aos 14 anos

      • 64% aos 15 anos

      • 68% aos 16 anos

      • Queda para 48% aos 16,5 anos, associada a maior incidência de deficiência permanente de GnRH nesse subgrupo

    • Sexo feminino:

      • 40% aos 12 anos

      • 62% aos 13 anos

      • 74% aos 15,5 anos

  • Critério de encaminhamento a endocrinologista pediátrico [2]:

    • Quando a terapia hormonal estiver sendo considerada

    • E/ou quando não houver sinais de puberdade até os 15 anos (sexo feminino) ou 16 anos (sexo masculino)

Indução com esteroides gonadais (curto prazo, ACCP suspeitado)

  • Objetivos [1]:

    • Induzir o aparecimento dos caracteres sexuais secundários

    • Reduzir o desconforto psicossocial

    • Promover o estirão puberal

    • Evitar fechamento precoce das epífises de crescimento

  • Critérios de seleção sugeridos pelo UpToDate para considerar curso curto de testosterona/estradiol [2]:

    • Ausência de desenvolvimento puberal aos 14 anos (sexo masculino) ou 13 anos (sexo feminino), após pelo menos 6 meses de monitorização; ou ausência de progressão puberal após 2 anos do início da puberdade

    • Distresse atribuído ao atraso puberal

    • Aconselhamento completo sobre todas as opções de manejo já realizado, com avaliação de que os benefícios do tratamento hormonal provavelmente superam os potenciais ônus da terapia

  • Exame obrigatório antes do início: radiografia de idade óssea basal, com monitorização subsequente [2]

  • Tratamento com testosterona (sexo masculino)

    • Cipionato de testosterona (Deposteron®) sol. inj. 100 mg/mL, via intramuscular [1]

      • Dose inicial, incrementos e frequência de aplicação: não padronizados na fonte; individualizados por endocrinologista pediátrico, com base na idade cronológica, na idade óssea, no estágio puberal e na resposta clínica e laboratorial ao longo do seguimento [1][2]

    • Ésteres de testosterona (propionato + fenilpropionato + isocaproato + decanoato de testosterona) (Durateston®) sol. inj. 250 mg/mL, via intramuscular [1]

      • Dose inicial, incrementos e frequência de aplicação individualizados por endocrinologista pediátrico, com base na idade cronológica, na idade óssea, no estágio puberal e na resposta clínica e laboratorial ao longo do seguimento [1][2]

    • Testosterona (cipionato ou enantato), formulação subcutânea [2]

      • Considerada como alternativa às formulações intramusculares, conforme disponibilidade e experiência do serviço [2]

      • Dose inicial, incrementos e frequência: não padronizados na fonte; individualizados por endocrinologista pediátrico [2]

    • Considerações:

      • Vias não indicadas de rotina para indução puberal: testosterona oral, transdérmica ou por implantes [1]

      • Classificação regulatória: substância anabolizante/hormonal sujeita a controle especial (Portaria SVS/MS nº 344/98, Lista C5); exige prescrição em Receita de Controle Especial, em duas vias, com retenção de uma via na farmácia

      • Monitorização durante o tratamento [1][2]:

        • Avaliação clínica periódica de virilização, crescimento linear e efeitos colaterais (acne, desconforto no local da aplicação)

        • Dosagem de testosterona, LH e FSH, e radiografia de idade óssea, conforme intervalo definido pelo especialista responsável

      • Crescimento testicular durante o tratamento sugere início de puberdade endógena, já que a testosterona exógena isolada não leva ao aumento testicular; nesses casos, a manutenção ou suspensão da testosterona exógena deve ser reavaliada pelo especialista [1][2]

  • Tratamento com estrogênio (sexo feminino)

    • Estrogênios equinos conjugados (ex.: Premarin®), via oral [1]

      • Dose inicial, incrementos e frequência de reavaliação: não padronizados na fonte; individualizados por endocrinologista pediátrico, com base na idade cronológica, na idade óssea, no estágio puberal e na resposta clínica e laboratorial ao longo do seguimento [1][2]

    • 17 beta estradiol micronizado (ex.: Natifa®, Estrofem®, Estrell®), via oral [1]

      • Dose inicial, incrementos e frequência de reavaliação: não padronizados na fonte; individualizados por endocrinologista pediátrico [1][2]

    • 17 beta estradiol, adesivo transdérmico (ex.: Systen®, Estradot®) [1]

      • Formulação preferencial, por facilitar a titulação de doses baixas e por apresentar menor risco de trombose em comparação à via oral [1][2]

      • Dose inicial, incrementos e frequência de reavaliação: não padronizados na fonte; individualizados por endocrinologista pediátrico [1][2]

    • Considerações:

      • Associação de progesterona:

        • Necessária a partir de aproximadamente 2 anos de uso de estrogênio, ou antes disso se houver sangramento de escape, para prevenir hipertrofia endometrial e induzir a menarca [1][2]

        • Opções: progesterona natural micronizada, acetato de medroxiprogesterona, ou contraceptivos orais combinados (estrogênio + progestágeno); escolha e posologia definidas pelo especialista responsável [1]

      • Monitorização durante o tratamento [1][2]:

        • Avaliação clínica de desenvolvimento mamário, crescimento e efeitos colaterais (náusea, irritação cutânea no local do adesivo, quando aplicável)

        • Dosagem de estradiol, LH e FSH, e radiografia de idade óssea, conforme intervalo definido pelo especialista responsável

Manejo do hipogonadismo permanente (reposição de longo prazo)

  • Indicação: confirmação de hipogonadismo permanente [1]

  • Objetivos da terapia com esteroides gonadais em longo prazo [1]:

    • Garantir adequado ganho e manutenção de massa óssea

    • Promover funcionamento sexual compatível com a vida adulta

  • Momento de início: objetivo inicial de aproximar o cronograma e o ritmo da puberdade endógena; nos pacientes diagnosticados na infância (ex.: síndrome de Turner), a indução pode iniciar quando não há desenvolvimento puberal nas idades típicas de início, por volta de 11 anos nas meninas e 12 anos nos meninos [2]

  • Medicações: as mesmas descritas para a indução de curto prazo [1][2]:

    • Cipionato de testosterona (Deposteron®) sol. inj. 100 mg/mL, IM, ou ésteres de testosterona (Durateston®) sol. inj. 250 mg/mL, IM, ou testosterona (cipionato ou enantato), formulação subcutânea (sexo masculino) [1][2]

    • Estrogênios equinos conjugados (Premarin®) VO, ou 17 beta estradiol micronizado (Natifa®, Estrofem®, Estrell®) VO, ou 17 beta estradiol adesivo transdérmico (Systen®, Estradot®), com progesterona cíclica associada quando indicado (sexo feminino) [1][2]

    • Posologia completa, apresentações e considerações de monitorização: ver blocos de "Tratamento com testosterona" e "Tratamento com estrogênio", nesta mesma seção

  • Titulação [2]:

    • Doses iniciais baixas, com titulação gradual ao longo de vários anos até doses de manutenção compatíveis com a vida adulta

    • Pacientes com puberdade já estagnada podem necessitar de doses iniciais mais altas

    • Todo o esquema de titulação, incluindo intervalos de aumento de dose e metas laboratoriais, deve ser individualizado e conduzido por endocrinologista pediátrico, devido à granularidade e ao risco de erro em regimes de titulação prolongada

  • Duração do tratamento [2]:

    • Sexo masculino: mantido ao longo da vida adulta

    • Sexo feminino: mantido ao menos até a idade típica da menopausa, com transição acompanhada pelo especialista

Monitorização

  • Durante a reposição com esteroides gonadais (ambos os sexos) [1]:

    • Avaliação clínica da velocidade de crescimento e progressão dos estágios de Tanner.

    • Idade óssea a cada 6 meses, para evitar progressão desproporcional.

    • Exames a cada 3 a 6 meses: função hepática, LH, FSH, esteroide gonadal (testosterona ou estrogênio), hemograma, glicemia e lipidograma.

    • Densitometria óssea anual.

  • Consulta com especialista em reprodução humana deve ser orientada em ambos os sexos, para discutir e orientar questões sobre fertilidade [1].

  • Durante o curso curto de indução, a supervisão deve ser realizada por endocrinologista pediátrico, com reavaliação clínica e laboratorial a cada 4 a 6 meses conforme descrito nos protocolos de testosterona e estrogênio acima [2].

Sinais de Alerta e Encaminhamento

  • No sexo masculino, a maioria dos casos de atraso puberal decorre de ACCP; deve se reconhecer os sinais de alerta que indicam necessidade de investigação de outras causas [1]:

    • Presença de micropênis, criptorquidia e hipospádia deve levantar a hipótese de hipogonadismo.

    • Falta de progressão espontânea da puberdade após 6 meses de tratamento com reposição hormonal.

  • No sexo feminino, o atraso puberal por ACCP é menos comum, devendo ser investigado com mais cautela [1].

    • O achado de gonadotrofinas elevadas indica necessidade de cariótipo com banda G, para afastar síndrome de Turner.

  • Indicação de encaminhamento a endocrinologista pediátrico [2]:

    • Terapia hormonal em consideração.

    • Ausência de sinais de puberdade até os 15 anos no sexo feminino ou 16 anos no sexo masculino.

    • Sintomas neurológicos, características sindrômicas, anosmia/hiposmia, falo pequeno, testículos pequenos ou criptorquidia.

    • Testículos não palpáveis ou com palpação alterada, com indicação de avaliação urológica.

Referências

[1] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Endocrinologia. Como avaliar e tratar adolescentes com puberdade atrasada. Documento Científico, nº 14, 12 jan. 2022. Disponível em: https://www.sbp.com.br.

[2] BALASUBRAMANIAN, Ravikumar. Delayed puberty: Approach to evaluation and management. UpToDate. Revisão da literatura até jun. 2026; última atualização em 1 maio 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com.

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