Otite Externa Aguda na Criança
CID-10: H60.3 (Outras otites externas infecciosas)
Introdução
A otite externa (OE), também chamada de otite externa aguda (OEA) ou "ouvido do nadador", é definida como inflamação difusa do canal auditivo externo (CAE), podendo também envolver o pavilhão auricular ou a membrana timpânica (MT) [2][3].
A grande maioria dos casos de OE pediátrica corresponde a infecções agudas, que se manifestam em 1 a 2 dias e se resolvem em aproximadamente 1 semana após terapia tópica adequada; a cura geralmente ocorre dentro de 1 a 3 semanas de tratamento [2][3].
A OE crônica é uma condição distinta, frequentemente causada por patógenos fúngicos (ex.: Candida) ou, ocasionalmente, bacterianos de difícil erradicação (ex.: Staphylococcus aureus resistente à meticilina), além de dermatoses inflamatórias; está fora do escopo deste tema [2].
Epidemiologia:
Ocorre mais comumente em crianças do que em adultos, com pico de incidência entre 5 e 14 anos [2].
Aproximadamente 10% das pessoas desenvolvem OEA em algum momento da vida [2].
As consultas ambulatoriais apresentam pico nos meses de verão e em regiões de clima quente e úmido ou com exposição frequente à água [2].
Anatomia e Fisiologia
Anatomia do canal auditivo [2]:
O CAE é um cilindro que se estende da cartilagem conchal do pavilhão até a MT.
A porção lateral (externa) é cartilaginosa e contém glândulas cerumíneas, glândulas sebáceas e folículos capilares.
A porção medial (interna) é óssea, com pele fina, sem tecido subcutâneo, com a derme diretamente sobre o periósteo.
O revestimento do canal é epitélio escamoso queratinizante, que sofre descamação contínua.
Limites anatômicos do CAE: fossa craniana média (superior), articulação temporomandibular (anterior), MT (medial), cavidade mastóidea (posterior) e tecidos moles do pescoço (inferior); infecções do CAE podem se propagar para essas estruturas adjacentes [2].
As fissuras de Santorini (fendas embriológicas na porção cartilaginosa anterior do CAE) permitem a propagação de infecções para a região parotídea, articulação temporomandibular e pescoço [2].
Mecanismos protetores do canal auditivo [2]:
Trago e cartilagem conchal limitam a entrada de água e outras substâncias.
Folículos pilosos na porção lateral impedem a entrada de contaminantes.
O cerúmen é hidrofóbico e mantém pH levemente ácido, inibindo crescimento bacteriano/fúngico, além de reter debris finos.
Migração epitelial medial-lateral contínua (autolimpeza do canal), iniciando no centro da MT.
Etiologia e Fatores de Risco
Microbiologia:
A maioria dos casos de OEA é de origem bacteriana [1][2].
Patógenos mais frequentemente isolados: Pseudomonas aeruginosa (20 a 60% dos casos), Staphylococcus aureus (10 a 70% dos casos) e outros organismos gram-negativos [1][2].
Infecções polimicrobianas são comuns [2].
Patógenos fúngicos não são causa comum de OEA, tendo papel mais relevante nas infecções crônicas do ouvido externo, sobretudo após uso prolongado ou recorrente de antibióticos tópicos [2].
Fatores de risco [1][2]:
Natação ou outra exposição significativa à água (quebra a barreira cerume-pele, alterando a microflora para predomínio de bactérias gram-negativas), justificando o termo "ouvido do nadador".
Resíduos de sabão retidos no canal.
Trauma do CAE por limpeza excessiva ou arranhões (a remoção de cerúmen com cotonetes ou outros objetos em casa deve ser desencorajada).
Dispositivos que ocluem o CAE, como fones de ouvido ou aparelhos auditivos, interferindo na migração epitelial natural.
Dermatite atópica ou dermatite de contato alérgica (brincos, produtos químicos em xampus).
Gotas óticas alcalinas, que reduzem a acidez protetora do canal.
Quadro Clínico
Apresentação [1][2]:
Início agudo, geralmente dentro de 48 horas.
Otalgia, prurido ou sensação de plenitude no ouvido.
Se o canal estiver marcadamente edemaciado, pode haver relato de audição ruim no ouvido afetado.
Febre é incomum.
Exame físico [1][2]:
Sensibilidade no trago (à compressão) e/ou no pavilhão (à tração).
Canal auditivo edemaciado, eritematoso e macerado, com secreção presente.
A MT, quando visualizada, pode apresentar eritema leve, mas deve estar normal, sem efusão de ouvido médio; frequentemente não é possível visualizá-la devido ao edema do CAE.
Classificação de gravidade [2]:
OEA leve
Desconforto e prurido leves.
Eritema e secreção do canal presentes, com pouco edema.
OEA moderada
Dor e prurido moderados.
Dor desencadeada pela manipulação do pavilhão ou pela introdução do otoscópio.
CAE eritematoso e edemaciado; MT visualizada apenas parcialmente.
OEA grave
Dor intensa, tanto em repouso quanto à manipulação do pavilhão.
CAE extremamente edemaciado, com pouco ou nenhum lúmen visível.
Pode haver eritema periauricular ou linfadenopatia.
Introdução do otoscópio extremamente dolorosa; na maioria das crianças, o diagnóstico pode ser feito sem exame otoscópico.
Raramente complicada por celulite periauricular e facial ao redor do ouvido.
Otite externa necrosante (maligna)
- Forma rara e grave, quase sempre causada por P. aeruginosa, que evolui para osteomielite da base do crânio [1][2].Mais comum em adultos, mas descrita em crianças, particularmente naquelas com imunodeficiência subjacente [1][2].
Otalgia intensa e otorreia, com dor desproporcional aos achados de exame e sem resposta aos tratamentos tópicos habituais da OEA [1].
Podem ser observados tecido de granulação, edema, eritema e necrose da pele do canal [2].
- Pode ocorrer paralisia de nervos cranianos; a paralisia facial é mais comum em crianças do que em adultos [2].
Avaliação Clínica
Anamnese [1][3]:
Otalgia, prurido, secreção de fluidos e diminuição da audição.
Duração dos sintomas, episódios anteriores de problemas otológicos, resfriados recentes.
Histórico de cirurgia otológica prévia, perfuração de MT ou tubos de ventilação/timpanostomia.
Em recorrências frequentes ou sintomas persistentes apesar do tratamento: investigar relação com natação, manipulação do ouvido com dedos ou objetos, uso de cosméticos e uso de aparelho auditivo, fones de ouvido ou protetores auditivos.
Uso de medicações tópicas, especialmente as que contêm neomicina, benzocaína ou propilenoglicol, que podem desencadear dermatite de contato do canal [1].
Exame físico e otoscopia [1][3]:
Iniciar o exame pelo ouvido livre de sintomas, avançando depois para o ouvido afetado.
Inspecionar a orelha em sua totalidade, cicatrizes retroauriculares e dor à tração do pavilhão.
Otoscopia do canal auditivo: inchaço, descamação, vermelhidão, otorreia, vesículas e erosões.
Otoscopia da MT: integridade e sinais de inflamação.
Caso não seja possível inspecionar a MT, realizar previamente a limpeza do canal auditivo.
Pacientes com OEA moderada a grave frequentemente apresentam dor extrema à introdução do otoscópio; na maioria das crianças com OEA grave, o diagnóstico pode ser estabelecido apenas com o exame externo, sem necessidade de otoscopia [2].
Higienização do canal para fins de exame [1]:
Pode ser realizada com cotonete envolto em curativo (pledget).
Ocasionalmente, limpeza mais completa com cateter de sucção ou cureta sob visualização direta (otoscópio ou otomicroscópio) pode ser necessária, desde que o paciente tolere o procedimento.
Irrigação do canal só deve ser realizada se houver certeza de que a MT está íntegra; irrigação de ouvido com otorreia sem essa confirmação é potencialmente perigosa e não deve ser realizada.
Diagnóstico
O diagnóstico de OEA é clínico, baseado na combinação de [2]:
Início agudo de otalgia, prurido e/ou sensação de plenitude no ouvido.
Sinais de inflamação do CAE ao exame: sensibilidade do trago e/ou pavilhão, edema e eritema difusos do canal (com ou sem otorreia), linfadenite regional, eritema de MT ou celulite do pavilhão e pele adjacente.
Papel limitado de culturas [1][2]:
Culturas (obtidas por swab do canal auditivo) não são necessárias na maioria dos casos.
Indicadas em: infecção espalhando-se para tecidos adjacentes (celulite de pavilhão ou região parotídea); imunodeficiência (primária, uso de imunossupressores pós-transplante, quimioterapia); otite externa recorrente ou crônica; ausência de resposta ao tratamento inicial.
Em suspeita de otite externa necrosante, a cultura da secreção do canal também deve ser considerada [1].
Segundo a diretriz holandesa (NHG), em sintomas persistentes após três semanas de tratamento, deve-se realizar coleta de material para cultura de fungos e bactérias [3].
Diagnóstico Diferencial
Otite média aguda (OMA) [2]:
A OEA leve pode mimetizar a OMA, pois a MT pode apresentar-se eritematosa em ambas as condições.
O edema e eritema significativos do CAE diferenciam a OEA da OMA; a otoscopia pneumática também auxilia, já que a mobilidade da MT é normal na OEA e prejudicada na OMA.
Em crianças com MT não íntegra (tubo de ventilação ou perfuração prévia), diferenciar OEA de OMA pode ser desafiador, pois ambas cursam com otorreia e desconforto; a OEA geralmente causa dor e edema mais intensos no canal. A distinção é menos crítica clinicamente, pois ambas podem ser tratadas com gotas antibióticas tópicas.
Dermatoses inflamatórias do canal (eczema, dermatite seborreica, psoríase): tendem a cursar com inflamação crônica, sendo mais associadas ao diagnóstico diferencial de OE crônica [2].
Dermatite de contato do canal: reação alérgica a gotas ototópicas (ex.: neomicina) ou a materiais em contato com a região (ex.: níquel de brincos) [1][2].
Otomicose: infecção fúngica do CAE, mais comumente por Candida e Aspergillus; mais frequente em regiões tropicais/subtropicais; pode ocorrer após uso repetido ou prolongado de gotas antibióticas ototópicas; apresenta-se com prurido intenso e crostas na orelha externa [1][2].
Malignidade (rara): leucemia mieloide aguda e sarcoma mieloide podem se apresentar com inflamação externa do ouvido e otorreia; há relatos de histiocitose de células de Langerhans com apresentação semelhante à OEA [1][2].
Corpo estranho: mais frequente em crianças ≤ 6 anos; a secreção geralmente não se desenvolve a menos que o objeto perfure a MT ou permaneça no canal por tempo prolongado; a visualização na otoscopia confirma o diagnóstico, embora otorreia ou cerúmen possam obscurecer o objeto [1].
Segundo a diretriz NHG, também devem ser considerados no diagnóstico diferencial [3]:
Otite média aguda com MT perfurada.
Furúnculo.
Herpes zoster ótico.
Erisipela.
Se os sintomas persistirem apesar de tratamento adequado, considerar patologia do ouvido médio, como colesteatoma.
Tratamento inicial
O manejo da OEA consiste em analgesia, precauções relacionadas à água, higienização do canal quando necessário e antibioticoterapia tópica. A maioria das crianças pode ser tratada em regime ambulatorial [2].
Alívio da dor
Dor leve a moderada costuma responder a analgésicos sistêmicos [2].
Dipirona
Gotas 500mg/1mL/20gotas
Dar 0,6 a 1 gota/kg (max 40 gotas), a cada 6 h se dor ou febre
Dose: 15 a 25 mg/kg/dose
Sol. oral 50mg/1mL
Dar 0,3 a 0,5 mL/kg (max 20 mL), a cada 6 h se dor ou febre
Dose: 15 a 25 mg/kg/dose
Paracetamol
Gotas 200mg/1mL/15gotas
Dar 1 gota/kg (max 35 gotas), a cada 6 h
Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (max 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)
Sol. oral 32mg/1mL
Dar 0,31 a 0,46 mL/kg (max 31 mL), a cada 6 h
Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (max 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)
Ibuprofeno
Gotas 100mg/1mL/10gotas
Dar 1 gota/kg (max 20 gotas), a cada 8-6 h
Max de 20 gotas/dose (200mg) e 80 gotas/dia (800mg)
Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (max 800mg/dia)
Considerações:
Analgesia sistêmica de primeira linha para dor leve a moderada associada à OEA.
Analgésicos tópicos óticos devem ser evitados nesses pacientes [2].
Em pacientes com dor aguda intensa atendidos em pronto-socorro, pode ser necessária associação de opioide (ex.: hidrocodona ou oxicodona) com paracetamol ou ibuprofeno, conforme descrito na literatura de origem [2].
Precauções com água
Evitar natação e outros esportes aquáticos por 7 a 10 dias durante o tratamento [2].
Em casos leves, é razoável permitir entrada em piscina se a criança conseguir evitar submersão de forma confiável [2].
Nadadores competitivos podem retornar à natação 2 a 3 dias após completar o tratamento ou, com tampões de ouvido bem ajustados (com ou sem faixa de natação), assim que a dor ceder [2].
Banhos e duchas são permitidos, mantendo o ouvido seco e evitando submersão [2].
Evitar inserção de fones de ouvido, aparelhos auditivos e dispositivos similares até resolução dos sintomas; esses dispositivos devem ser desinfetados antes da reutilização [2].
Higienização do canal (toalete auricular)
Não é rotineiramente necessária na maioria dos casos leves a moderados [2].
Em caso de grande acúmulo de debris purulentos, a remoção cuidadosa permite melhor exame do ouvido e facilita a penetração das medicações tópicas [2].
Pode ser realizada com cotonete envolto em curativo (pledget) ou mecha para absorção de secreção; ocasionalmente, é necessária limpeza mais completa com cateter de sucção ou cureta, sob visualização direta [2].
Pacientes e cuidadores devem ser orientados a não inserir cotonetes ou outros objetos no canal auditivo por conta própria [2].
Em pacientes com suspeita ou confirmação de perfuração de MT, tubo de ventilação ou cirurgia otológica/de ouvido médio prévia, não realizar lavagem; preferir limpeza com dispositivo de ponta de algodão ou dispositivo de sucção [3].
Em presença de detritos ou pus no canal (sem suspeita de MT não íntegra), pode-se realizar lavagem com água morna, secando bem o canal após o procedimento [3].
Redução do edema do canal (tamponamento)
Em canal muito estreitado, com risco de impedir a penetração adequada das gotas, deve ser inserido um tampão expansível de celulose comprimida, mantido umedecido com a medicação prescrita [2][3].
O tampão costuma sair espontaneamente após 24 a 48 horas, com a redução do edema, podendo também ser removido pelo paciente ou pelo profissional após alguns dias [2].
Segundo a diretriz NHG, em melhora insuficiente, o procedimento pode ser repetido, podendo o tratamento com tampão ser mantido por até 7 dias [3].
Antibioticoterapia tópica
A antibioticoterapia tópica é a base do tratamento da OEA, por proporcionar alta concentração local do agente no canal auditivo [2]. A escolha do agente considera a gravidade da infecção e a integridade da MT [2].
OEA leve a moderada, com MT íntegra [2]:
Ciprofloxacino (Ciloxan® Otológico) sol. otológica 0,3%
4 gotas no canal auditivo afetado, 2 a 3 vezes ao dia.
Agente de escolha preferencial por fornecer cobertura antimicrobiana apropriada e boa tolerabilidade.
Ciprofloxacino + Hidrocortisona (Otociriax®) susp. otológica 0,2%/1%
3 gotas no ouvido afetado, 2 vezes ao dia, por 7 dias.
Aprovado para uso adulto e pediátrico acima de 1 ano; combinação com corticoide associada a resolução mais rápida dos sintomas em comparação ao antibiótico tópico isolado, segundo os estudos citados na referência [2].
Ciprofloxacino + Dexametasona uso off-label (Cilodex®; Cylocort®):
Estes produtos são registrados na ANVISA exclusivamente para uso oftálmico (colírio), sem indicação bulária para via otológica nem posologia otológica validada;
O emprego desses colírios como gota otológica é praticado por alguns otorrinolaringologistas na rotina clínica, de forma off-label, mas não deve ser apresentado como equivalente direto e intercambiável ao produto americano de referência (ciprofloxacino + dexametasona otológico), que não possui correspondente registrado no Brasil.
Diante da ausência de respaldo bulário para essa via e faixa etária, a prescrição otológica desses colírios em crianças deve ser criteriosamente avaliada, considerando as opções com registro otológico já listadas acima (Ciloxan® Otológico e Otociriax®).
Alternativa segundo a diretriz NHG: [3][2]
Ácido acético + hidrocortisona 1% OU ácido acético + acetonida de triancinolona 0,1%
3 gotas 3 vezes ao dia
Observação:
Apresentações comerciais de ácido acético isolado ou associado a corticoide otológico ainda não estão disponíveis no mercado brasileiro
Remédio caseiro descrito para casos leves (não submetido a estudo formal): mistura de duas partes de álcool isopropílico, uma parte de ácido acético 5% (vinagre branco) e uma parte de água destilada; poucas gotas da mistura no ouvido afetado, 3 a 4 vezes ao dia [2].
OEA leve a moderada, com MT não íntegra (tubo de ventilação ou perfuração) ou status da MT desconhecido [2]:
Ciprofloxacino (Ciloxan® Otológico) ou Ciprofloxacino + Hidrocortisona (Otociriax®)
3 gotas no ouvido afetado, 2 vezes ao dia, por 7 dias.
Considerações:
Preferir formulações à base de fluoroquinolona, por não serem ototóxicas.
Agentes contendo aminoglicosídeos (p. ex. gentamicina) ou álcool não devem ser utilizados nesse cenário, pelo risco de ototoxicidade (o que também restringe o uso de Otosporin®, que contém neomicina, nesse contexto específico).
OEA grave [2]:
Ciprofloxacino + Hidrocortisona (Otociriax®) susp. otológica 0,2%/1%
3 gotas no ouvido afetado, 2 vezes ao dia, por 7 dias.
Considerações:
O canal costuma estar tão edemaciado que as gotas não penetram adequadamente; nesses casos, deve ser inserida uma mecha expansível de celulose comprimida para permitir a entrada da medicação no canal interno.
Em perfuração de MT, segundo a diretriz NHG [3]:
Ácido acético + acetotartarato de alumínio 1,2%
3 gotas, 3 vezes ao dia.
Considerações:
Observação: não foi localizada apresentação comercial brasileira correspondente a esta formulação.
Duração do tratamento: 7 dias como padrão; se os sintomas não tiverem se resolvido ao final desse período, o tratamento deve ser estendido por até 14 dias [2].
Evolução esperada: melhora dos sintomas em 48 a 72 horas na maioria das crianças; resolução completa até o final do curso de 7 a 14 dias [2].
Segundo a NHG, se não houver efeito suficiente após 1 semana, repetir a limpeza do canal auditivo e manter o tratamento por mais 1 semana; agir da mesma forma em caso de resposta insuficiente após 2 semanas; na ausência de efeito após 3 semanas, realizar cultura e antibiograma [3].
Antibioticoterapia sistêmica
A evidência disponível não demonstra benefício adicional da terapia sistêmica sobre a tópica [2].
Cenários pouco comuns em que a terapia sistêmica é apropriada incluem [2]:
Evidência de celulite se estendendo além do canal auditivo (nesses casos, cobertura antipseudomonas empírica pode ser necessária em quadros de celulite grave).
Na suspeita de infecção por pseudomonas, é recomendado tratamento com ciprofloxacino [4].
Ciprofloxacino (Cipro®) comp. 500 mg; (Ciprobacter®) sol. inj. 2 mg/mL frasco 100 mL [5].
Dose: 20 a 30 mg/kg/dia, divididos em 2 doses, VO ou EV.
OEA grave associada a diabetes mellitus mal controlada.
Imunodeficiência subjacente.
Prevenção de Recorrência
Limitar o acúmulo de água no canal auditivo externo [2].
Manter a barreira cutânea saudável, evitando limpeza excessiva ou coçar o canal auditivo [2].
Em crianças propensas a OEA, uso de protetores de ouvido e faixas de natação durante atividades aquáticas [2].
Para nadadores competitivos ou frequentes, gotas acidificantes podem ser usadas antes de nadar, após nadar, ao deitar, ou nas três ocasiões; secador de cabelo em temperatura baixa pode ser usado para secar o canal após a natação (traciona-se o pavilhão para abrir o canal e direciona-se o ar); secadores de ouvido comercialmente disponíveis também podem ser utilizados [2].
Seguimento vs Encaminhamento
Seguimento clínico não é necessário em crianças com OEA não complicada que evoluem conforme esperado com a terapia tópica [2].
Reavaliação do ouvido deve ser realizada se os sintomas não estiverem melhorando, ou se houver histórico de OEA recorrente ou infecções crônicas do ouvido externo [2].
Critérios de acompanhamento, segundo a NHG [3]:
Sintomas não resolvidos após 1 semana de tratamento.
Sintomas que não diminuem após uso de tampão auricular por 24 horas, ou paciente incapaz de removê-lo.
Critérios de encaminhamento ao especialista, segundo a NHG [3]:
Sintomas não resolvidos após 5 a 6 semanas de tratamento guiado por resultados de cultura e antibiograma.
Insatisfação com o resultado do tratamento em quadros de recorrências frequentes.
Otite externa com dor e inchaço da concha da orelha, febre e mal-estar em paciente (idoso) com diabetes mellitus ou comprometimento do sistema imune.
Otite externa com febre e mal-estar, sem melhora após 48 horas de tratamento oral com flucloxacilina.
Casos de corpo estranho de difícil remoção, ou casos em que não seja possível assegurar visualização adequada e ferramental apropriado, também constituem indicação de encaminhamento ao otorrinolaringologista [1].
Referências
[1] STROTHER, Christopher G.; SADOW, Karin. Otorrhea (ear discharge) in children: Causes and evaluation. In: UpToDate. Waltham, MA: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com. Acesso em: 16 jul. 2026.
[2] MESSNER, Anna H. Acute otitis externa in children and adolescents. In: UpToDate. Waltham, MA: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com. Acesso em: 16 jul. 2026.
[3] ROOIJACKERS-LEMMENS, E.; VAN BALEN, F.A.M.; OPSTELTEN, W.; WIERSMA, Tj. Otite externa. Resumo de diretriz NHG M49 (primeira revisão, dezembro de 2005). Tradução: Luiz F.G. Comazzetto, 2014. Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). Disponível em: https://sbmfc.org.br.
[4] LEVI, Jessica; O'REILLY, Robert C. Chronic suppurative otitis media (CSOM): Treatment, complications, and prevention. In: UpToDate. Waltham, MA: UpToDate, 2026. Topic 91002, Version 22.0. Disponível em: https://www.uptodate.com.
[5] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico. Disponível em: https://www.hsl.org.br.
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