Obesidade no Adulto

CID-10: E669 - Obesidade não especificada

Introdução

  • Conceito

    • Doença crônica causada por acúmulo excessivo de gordura no corpo.

    • Aumento da morbimortalidade, risco de eventos cardiovasculares e diabetes.

    • Associada a:

      • Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2);

      • Doenças Cardiovasculares (DCV);

      • Esteatose hepática associada à disfunção metabólica (MASLD);

      • Apneia obstrutiva do sono;

      • Neoplasias relacionadas à obesidade;

      • Aumento de mortalidade por todas as causas.

  • Etiologia 

    • Doença multifatorial: causas monogênicas e endocrinológicas secundárias, mas a maioria dos pacientes com obesidade têm uma interação entre genes e fatores externos.

  • Considerações e orientações:

    • É complexo, multiprofissional e demanda múltiplas intervenções e envolvimento ativo do paciente. 

    • O objetivo é a perda sustentada de peso para obter benefícios em relação às comorbidades associadas e diminuição da mortalidade por todas as causas. 

    • Antes de começar o tratamento não farmacológico, é fundamental uma discussão sobre a motivação do paciente, os resultados esperados e frustrações associadas com o tratamento da obesidade, além da importância de associar diferentes intervenções e profissionais no tratamento. 

    • O tratamento pode ser farmacológico e não farmacológico.

Imagem Diretriz DiaTratamento da Obesidade e suas Complicações Baseado no Risco Cardiovascular: a imagem organiza recomendações terapêuticas para pacientes com obesidade em cinco blocos, estratificados por perfil de risco cardiovascular e renal, com logotipos da ABESO, SBD, SBC, SBEM e Academia Brasileira do Sono no cabeçalho. No bloco IC Estabelecida constam como recomendadas a MEV com perda de peso maior que 10%, que aumenta a qualidade de vida, a função cardíaca e a capacidade de exercício; os inibidores de SGLT2, que reduzem hospitalização por IC e mortalidade cardiovascular; a combinação de inibidor de SGLT2 com semaglutida em pacientes com ICFEP, que reduz desfechos de IC e mortalidade total; e semaglutida ou tirzepatida em ICFEP, que aumentam a qualidade de vida e reduzem sintomas de IC; como terapia que deve ser considerada aparece o agonista do receptor de GLP-1 em ICFER classes funcionais NYHA II e III, reduzindo peso e aumentando qualidade de vida; e como opção que pode ser considerada, com cautela, a cirurgia bariátrica em pacientes com IMC maior que 35, reduzindo hospitalização por IC e melhorando a função cardíaca. No bloco Risco Alto IC são recomendados semaglutida subcutânea e tirzepatida em ICFEP, ambos aumentando qualidade de vida e reduzindo o surgimento de sintomas de IC, além de semaglutida subcutânea em obesidade, reduzindo IC em pacientes com alto risco de doença aterosclerótica cardiovascular; devem ser considerados a combinação de inibidor de SGLT2 com semaglutida ou tirzepatida em diabetes tipo 2, reduzindo eventos cardiovasculares maiores, e a cirurgia bariátrica em obesidade com IMC maior que 35 kg/m², reduzindo risco de IC. No bloco DASCV Estabelecida (Prevenção Secundária) são recomendados semaglutida subcutânea 2,4 mg em obesidade, reduzindo o desfecho composto de morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal (3P-MACE) e a mortalidade total; semaglutida oral e inibidores de SGLT2 em diabetes tipo 2, ambos reduzindo 3P-MACE; e devem ser consideradas a combinação de inibidor de SGLT2 com semaglutida em diabetes tipo 2 e a cirurgia bariátrica em obesidade com IMC maior que 35, também reduzindo 3P-MACE. No bloco Risco Alto com Diabetes (Prevenção Primária) são recomendados liraglutida 1,8 mg, dulaglutida 1,5 mg, semaglutida subcutânea 1,0 mg e semaglutida oral, e semaglutida subcutânea 1,0 mg em pacientes com doença renal crônica e diabetes tipo 2, reduzindo eventos cardiovasculares maiores e, nesse último caso, também desfechos renais; devem ser considerados o inibidor de SGLT2 em doença arterial coronariana subclínica e a MEV com redução de peso maior que 10% em pacientes com obesidade e diabetes tipo 2, ambos reduzindo eventos cardiovasculares maiores. No bloco Risco Moderado DASCV são recomendados o agonista do receptor de GLP-1 e a tirzepatida em obesidade, reduzindo fatores de risco cardiovascular, sendo que a tirzepatida também reduz apneia obstrutiva do sono, e deve ser considerada a MEV com perda de peso maior que 5% em obesidade, reduzindo fatores de risco cardiovascular. A legenda de cores classifica cada intervenção em recomendada, deve ser considerada ou pode ser considerada. O quadro de abreviações no canto inferior direito expande as siglas: DCV como doença cardiovascular; IC como insuficiência cardíaca; ICFEP como insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada; ICFER como insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida; AVC como acidente vascular cerebral isquêmico; REVASC como cirurgia de revascularização arterial; DAC como doença arterial coronariana; HA como hipertensão arterial; DM2 como diabetes tipo 2; DLP como dislipidemia; DRC como doença renal crônica; 3P-MACE como morte cardiovascular, infarto agudo do miocárdio não fatal e AVC não fatal; QV como qualidade de vida; DASCV como doença aterosclerótica cardiovascular; IMC como índice de massa corporal; AR GLP-1 como agonistas do receptor de GLP-1; AR GLP-1/GIP como agonista do receptor duplo de GLP-1/GIP; NYHA como classificação funcional da New York Heart Association; Desf IC como desfechos relacionados à insuficiência cardíaca; e Cap como capacidade.betes

Diagnóstico e Classificação

Diagnóstico

  • IMC = peso / (altura x altura).

    • Peso em kg.

    • Altura em metros.

  • Índice de massa corporal (IMC):

    • Obesidade grau I: IMC entre 30,0 e 34,9 Kg/m2;

    • Obesidade grau II: IMC entre 35,0 e 39,9 Kg/m2;

    • Obesidade grau III: IMC igual ou superior a 40 Kg/m2;

    • Superobesidade: IMC igual ou superior a 50 Kg/m2.

  • Circunferência abdominal (risco cardiometabólico)

    • Homens ≥ 94 cm (risco aumentado)

    • Mulheres ≥ 80 cm (risco aumentado)

Nova abordagem conceitual

  • Obesidade pré-clínica

    • Excesso de adiposidade sem lesão orgânica estabelecida.

  • Obesidade clínica

    • Excesso de adiposidade com:

      • Comprometimento funcional;

      • Doença cardiometabólica;

      • Dano estrutural orgânico.

    • Implica necessidade de tratamento mais intensivo.

Avaliação Inicial

  • A avaliação inicial recomendada inclui:

    • História ponderal

    • Tentativas prévias de perda de peso

    • Avaliação alimentar

    • Nível de atividade física

    • Sono

    • Uso de medicamentos obesogênicos

    • Rastreamento de:

      • Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2)

      • Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

      • Dislipidemia

      • Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS)

      • Depressão

      • Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD)

Avaliação do Risco Cardiovascular

Estratégia de Avaliação do Risco Cardiovascular em pessoas com sobrepeso ou obesidade: o fluxograma organiza, em formato de árvore de decisão sequencial, a estratificação de risco cardiovascular para pacientes com sobrepeso ou obesidade, partindo do ponto inicial "obesidade ou sobrepeso" e percorrendo perguntas de sim/não em cascata. A primeira pergunta é se há IC (insuficiência cardíaca) diagnosticada; em caso afirmativo, o paciente é classificado como "IC estabelecida", categoria definida por pacientes com diagnóstico de IC. Caso negativo, segue-se para a pergunta sobre IMC>40 kg/m²; se sim, o paciente é classificado como "Risco Alto IC", categoria definida por obesidade com IMC>40 kg/m², PREVENT IC>20% em 10 anos, e presença de fatores de risco para IC. Caso negativo, avalia-se história de IAM, AVC ou revascularização; se sim, o paciente é classificado como "DASCV Estabelecida (Prevenção Secundária)", categoria definida por IAM prévio (doença arterial coronariana crônica), angina estável, AVC isquêmico ou AIT, e revascularização arterial. Caso negativo, pergunta-se sobre presença de fatores de risco; se sim, indica-se aplicar o escore PREVENT. Caso negativo, pergunta-se se o paciente tem acima de 30 anos; se sim, também se indica aplicar o escore PREVENT. Se todas as perguntas anteriores forem negativas, o paciente é classificado como "risco baixo", devendo-se então consultar a diretriz de tratamento farmacológico da obesidade. Quando indicada, a aplicação do escore PREVENT estratifica o paciente em quatro faixas: risco alto IC (20% ou mais em 10 anos), que converge para a mesma categoria "Risco Alto IC" descrita acima; risco alto DASCV (20% ou mais em 10 anos), que leva à categoria "Risco Alto DASCV (Prevenção Primária)", definida por diabetes, estenose arterial >50%, CAC>100 em não diabéticos ou CAC>10 em diabéticos, PREVENT>20% em 10 anos para DASCV, doença renal crônica (DRC), Lp(a) >50 mg/dL, hipercolesterolemia familiar (HF) ou LDL-c>190 mg/dL; risco intermediário (7,5% a 20% em 10 anos); e risco limítrofe (5% a 7,5% em 10 anos), sendo que essas duas últimas faixas convergem para uma única categoria final, "Risco Moderado", definida por escore PREVENT entre 5% e 20% em 10 anos associado à presença de 1 ou mais fatores de risco, como hipertensão arterial ou dislipidemia, excluindo-se diabetes tipo 2. Fonte: não há referência bibliográfica explícita na imagem; o material traz a chancela institucional da ABESO, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Academia Brasileira do Sono (ABS).

Esquema de Tratamento e Metas

O tratamento farmacológico da obesidade combina quatro decisões, nesta ordem: confirmar a indicação, estratificar o risco cardiovascular, definir a meta de perda de peso e escolher o fármaco por potência e cenário clínico. Este tópico é o mapa; a posologia completa de cada fármaco está nos tópicos seguintes, organizados pelo desfecho que orienta a escolha.

Indicação

  • IMC ≥ 30 kg/m², ou IMC ≥ 27 kg/m² com pelo menos uma complicação relacionada à adiposidade (diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, doença cardiovascular, apneia do sono, MASLD, entre outras): tratamento farmacológico indicado, associado a MEV (Classe I, Nível A) [1].

  • Circunferência da cintura aumentada e/ou relação cintura/altura > 0,5, com complicação relacionada à adiposidade, independentemente do IMC: pode-se considerar o tratamento farmacológico (Classe IIb, Nível C) [1].

  • Contraindicado em gestantes, lactantes ou mulheres tentando engravidar: nenhum estudo que sustenta esta diretriz incluiu essa população [1].

Mudança de estilo de vida: sempre concomitante, nunca pré-requisito

  • MEV (dieta, atividade física, estratégias comportamentais) deve acompanhar o tratamento farmacológico desde o início, nunca como condição prévia para iniciá-lo [1].

  • Aconselhamento nutricional individualizado, com ingestão proteica adequada para mitigar perda de massa muscular [1].

  • Atividade física: 150 a 300 min/semana de exercício aeróbico moderado, ou 75 a 150 min/semana de intensidade vigorosa, combinados com treinamento resistido; volumes menores são aceitáveis quando o paciente não atinge essas metas [1].

Avaliação de risco cardiovascular antes de escolher o fármaco

  • Todo paciente adulto com sobrepeso ou obesidade deve ter o risco cardiovascular formalmente estratificado antes da escolha do fármaco, porque essa estratificação define qual medicamento tem a recomendação mais forte (ver tópico "Risco CV, IC e diabetes tipo 2").

    • Todo adulto acima de 18 anos com sobrepeso ou obesidade deve ter o risco em 10 anos avaliado e categorizado quanto a doença aterosclerótica cardiovascular (DASCV) e insuficiência cardíaca (IC) (Classe I, Nível C) [2].

    • Ferramenta: escore PREVENT, para IMC < 40 kg/m² e idade entre 30 e 79 anos, em prevenção primária, no modo que inclui HbA1c (Classe I, Nível C) [2].

      • Não usar o PREVENT em pacientes com DASCV e/ou IC já estabelecidas: essa ferramenta é para prevenção primária [2].

Categorização do risco cardiovascular em pessoas com sobrepeso ou obesidade: a tabela organiza quatro categorias de risco cardiovascular — baixo, moderado, alto DASCV e alto IC — cada uma com seu intervalo de risco estimado em 10 anos e os critérios clínicos que a definem. A categoria baixo (< 5% em 10 anos) inclui pessoas com sobrepeso ou obesidade com IMC menor que 40 kg/m² e idade menor que 30 anos que não apresentam nenhum fator de risco cardiovascular (conferir Nota importante 1), bem como indivíduos com idade igual ou maior que 30 anos com risco cardiovascular total pelo escore PREVENT menor que 5% em 10 anos. A categoria moderado (5 a menos de 20% em 10 anos) engloba pessoas com sobrepeso ou obesidade, IMC menor que 40 kg/m², sem eventos cardiovasculares prévios, com 1 ou 2 fatores de risco — hipertensão arterial, tabagismo ou dislipidemia com LDL menor ou igual a 160 mg/dL — e também pessoas em prevenção primária com risco cardiovascular total pelo escore PREVENT entre 5% e menos de 20% em 10 anos. A categoria alto DASCV (igual ou maior que 20% em 10 anos) reúne doença coronariana crônica ou infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico ou ataque isquêmico transitório, doença arterial obstrutiva periférica, revascularização em qualquer território arterial, prevenção primária com risco cardiovascular total pelo escore PREVENT igual ou maior que 20% em 10 anos, diabetes tipo 2, síndrome metabólica, doença renal crônica estágios 3b, 4 e 5 (conferir Nota importante 1), escore de cálcio coronário maior que 100 Ag sem diabetes ou maior que 10 Ag com diabetes, Lp(a) igual ou maior que 50 mg/dL ou igual ou maior que 125 nmol/L, e hipercolesterolemia familiar confirmada ou LDL maior que 190 mg/dL. A categoria alto IC (igual ou maior que 20% em 10 anos) abrange insuficiência cardíaca estabelecida ou sintomas sugestivos de insuficiência cardíaca, obesidade com IMC maior que 40 kg/m² mesmo assintomática, obesidade com mais de 50 anos associada a diabetes e hipertensão, obesidade com apneia obstrutiva do sono grave, obesidade com fibrilação atrial, obesidade com doença renal crônica estágios 3, 4 e 5 (conferir Nota importante 1), NT-proBNP/BNP elevados — considerar igual ou maior que 220 pg/mL se IMC maior que 35 kg/m², ou igual ou maior que 125 pg/mL se IMC menor que 35 kg/m² —, escore PREVENT para insuficiência cardíaca igual ou maior que 20% em 10 anos, e doença aterosclerótica cardiovascular (DASCV) estabelecida. Uma observação ao final esclarece que, para fins de simplificação, a categoria de risco moderado engloba os riscos originais limítrofe (5-7,5%/20 anos) e intermediário (7,5 a menos de 20%/20 anos). Legendas: IMC: Índice de Massa Corporal; IAM: Infarto Agudo do Miocárdio; AVC: Acidente Vascular Cerebral; AIT: Ataque Isquêmico Transitório; DAOP: Doença Arterial Obstrutiva Periférica; DRC: Doença Renal Crônica; CAC: Escore de Cálcio Coronário; Lp(a): Lipoproteína (a); LDL: Lipoproteína de Baixa Densidade; IC: Insuficiência Cardíaca; AOS: Apneia Obstrutiva do Sono; NT-proBNP: Fração N-terminal do Peptídeo Natriurético tipo B; BNP: Peptídeo Natriurético tipo B; DASCV: Doença Aterosclerótica Cardiovascular; PREVENT: escore de risco cardiovascular Predicting Risk of cardiovascular disease EVENTs.

Fonte: Diretriz para tratamento da obesidade e prevenção de doença cardiovascular. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2025.
  • Reestratificação de risco moderado: história familiar de doença coronariana precoce indica escore de cálcio coronário (CAC); CAC > 100 Ag sem diabetes, ou > 10 Ag com diabetes, reclassifica para risco alto; CAC = 0 mantém risco moderado mesmo com diabetes [2].

    • Diabetes tipo 2 há mais de 10 anos, ou DRC (TFG < 45 mL/min/1,73 m² e/ou RAC > 30 mg/g): risco alto, independentemente do PREVENT [2].

  • Rastreio de IC com NT-proBNP/BNP ou imagem: considerar em todo paciente de risco alto de IC (Classe IIa, Nível C) [2].

    • Em obesidade, os valores de referência do NT-proBNP mudam: limiar de exclusão mais baixo (50 ng/L) tem melhor sensibilidade em IMC > 35 kg/m² do que o limiar convencional; investigação complementar é recomendada mesmo com peptídeo normal, se houver sintomas [2].

🎯 Meta terapêutica

  • Objetivos: melhora ou remissão de sintomas e doenças associadas, redução do risco cardiometabólico, melhora de qualidade de vida e funcionalidade, redução de gordura corporal (Classe I, Nível A) [1].

  • Meta geral: perda ≥ 10% para a maioria dos pacientes, individualizada por risco e benefício (Classe IIa, Nível B) [1].

    • Perda ≥ 5% já traz benefício cardiometabólico, de pressão arterial, de humor, de dor musculoesquelética e função sexual.

    • Perda ≥ 10% favorece MASH, saúde mental, apneia do sono, diabetes e desfechos cardiovasculares; em mulheres, também reduz sintomas de incontinência urinária e melhora a disfunção ovariana.

    • Metas menores para IMC < 27 kg/m², idosos, e pacientes com maior risco de perda de massa óssea ou magra.

  • Metas por risco cardiovascular [2]

    • Risco DASCV moderado: perda ≥ 5% do peso atual, para reduzir HAS e dislipidemia e atrasar diabetes tipo 2 (Classe I, Nível A).

    • Risco DASCV moderado ou alto: considerar perda ≥ 10% do PMAV, mantida a longo prazo, para reduzir eventos cardiovasculares (Classe IIa, Nível B).

    • Fibrilação atrial: perda ≥ 10% do peso, para reduzir complicações relacionadas (Classe I, Nível B).

Classificação proposta para obesidade "reduzida" e "controlada" com base no índice de massa corporal máximo: a tabela apresenta critérios de perda ponderal para classificar a obesidade como inalterada, reduzida ou controlada, estratificados por duas faixas de IMC máximo já atingido pelo paciente. Para IMC máximo de 30 a 39,9 kg/m², a obesidade é considerada inalterada quando a perda de peso é menor que 5% do peso máximo atingido na vida (PMAV), reduzida quando a perda está entre 5 e 9,9% do PMAV, e controlada quando a perda é igual ou maior que 10% do PMAV. Para IMC máximo de 40 a 50 kg/m², a obesidade é considerada inalterada quando a perda de peso é menor que 10% do PMAV, reduzida quando a perda está entre 10 e 14,9% do PMAV, e controlada quando a perda é igual ou maior que 15% do PMAV. Essa classificação é aplicável a adultos de 18 a 65 anos com IMC de 30 a 50 kg/m², excluindo-se os casos de perda de peso involuntária por doença em estágio terminal, uso agudo de corticosteroide ou outro medicamento que cause ganho de peso, síndrome de Cushing, alteração da composição corporal após os 65 anos, ou peso máximo atingido durante a gravidez.

Fonte: ABESO/SBEM, 2026.

Manejo hierarquizado por potência

  • Priorizar fármacos de alta potência sempre que viável: maior impacto em desfechos clínicos e qualidade de vida (Classe IIa, Nível C) [1].

Perda de peso subtraída do placebo de fármacos aprovados no Brasil para o tratamento da obesidade: a tabela organiza os fármacos aprovados no Brasil para tratamento da obesidade em três níveis de potência farmacológica, com a perda de peso subtraída do placebo em 52 semanas e entre 53 e 104 semanas de uso. Na potência muito baixa (menor que 4%), está o orlistate, com perda de peso subtraída do placebo de 2,1% (intervalo de -2,9 a 7,2) em 52 semanas e 3,16% (intervalo de 2,3 a 4,0) entre 53 e 104 semanas. Na potência baixa a média (4 a 9,9%), estão três fármacos: a sibutramina, cujos dados foram expressos em kg e extraídos de metanálise adicional, com perda de 4,2 kg (intervalo de 3,6 a 4,7 kg) em 52 semanas e sem dado disponível para 53 a 104 semanas; a associação de naltrexona com bupropiona, com perda de 4,8% (intervalo de 3,7 a 5,8) tanto em 52 semanas quanto entre 53 e 104 semanas; e a liraglutida, com perda de 6,8% (intervalo de 2,1 a 11,6) em 52 semanas e 5,00% (intervalo de 0,0 a 10,0) entre 53 e 104 semanas. Na potência alta (igual ou maior que 10%), estão dois fármacos: a semaglutida, com perda de 12,0% (intervalo de 9 a 15,19) em 52 semanas e 12,5% (intervalo de 8,3 a 16,7) entre 53 e 104 semanas; e a tirzepatida, com perda de 14,8% (intervalo de 11,7 a 17,9) em 52 semanas e 16,9% (intervalo de 15,9 a 17,9) entre 53 e 104 semanas.

Fonte: ABESO, 2026.
  • Quando alta potência não for viável (custo, disponibilidade, contraindicação, intolerância): escolher por comorbidades, segurança, tolerabilidade, comodidade posológica, custo e padrão de comportamento alimentar (Classe IIb, Nível C) [1].

    • Entre baixa e média potência: liraglutida e naltrexona + bupropiona têm perfis de eficácia e indicações mais específicas; sibutramina tem menor custo, sem benefício clínico comprovado além da perda de peso.

Combinação medicamentosa

  • Resposta clínica insuficiente à monoterapia: considerar combinação de 2 a 3 fármacos com mecanismos distintos (Classe IIb, Nível C) [1].

  • Não combinar liraglutida, tirzepatida e semaglutida entre si. Não combinar sibutramina com naltrexona + bupropiona [1].

Tratamento farmacológico da obesidade com terapia combinada: a tabela reúne, em duas seções, combinações de fármacos para o tratamento da obesidade e os comentários clínicos associados a cada uma. Na seção de terapia dupla, a combinação de GLP-1 ou tirzepatida com orlistate exige monitorar efeitos gastrointestinais e é considerada conceitualmente boa; a combinação de GLP-1 com naltrexona e bupropiona tem dados observacionais que sugerem benefício adicional; a combinação de tirzepatida com naltrexona e bupropiona ainda não tem estudos específicos e requer monitoramento de pressão arterial e humor; a combinação de GLP-1 ou tirzepatida com sibutramina também não tem estudos específicos e traz o risco cardiovascular associado à sibutramina; a combinação de orlistate com sibutramina baseia-se em dados antigos e também carrega o risco cardiovascular da sibutramina; e a combinação de orlistate com naltrexona e bupropiona não tem estudos específicos e requer atenção a efeitos gastrointestinais e do sistema nervoso central. Na seção de terapia tripla, a combinação de GLP-1 ou tirzepatida com orlistate, naltrexona e bupropiona ainda não tem estudos específicos e requer monitorar efeitos gastrointestinais; e a combinação de GLP-1 ou tirzepatida com orlistate e sibutramina carrega o risco cardiovascular da sibutramina. CV: cardiovascular; GI: efeitos adversos gastrointestinais (náusea, vômitos, diarreia, constipação, dor ou desconforto abdominal; esteatorreia para orlistate); GLP-1: agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1 (como liraglutida e semaglutida); PA: pressão arterial; SNC: sistema nervoso central.

Fonte: ABESO, 2026.

Manutenção do peso perdido

  • Tratamento farmacológico recomendado para manutenção do peso perdido em longo prazo, com reavaliação periódica de eficácia e segurança (Classe I, Nível A) [1].

    • Manter, em geral, o mesmo fármaco do tratamento inicial, se eficaz e bem tolerado.

    • Interromper temporariamente em gestação planejada, confirmada, ou lactação.

  • Regra geral de reavaliação: perda < 5% do peso inicial após 12 semanas na dose plena indica considerar troca ou combinação [1].

    • Sibutramina (regra própria de bula): perda < 2 kg em 4 semanas indica reavaliar; perda < 2 kg em 4 semanas após ajuste para 15 mg indica suspender [1][8].

    • Naltrexona + bupropiona: suspender se perda < 5% após 12 semanas na dose de manutenção [1].

    • Esta regra não é universal: parte do benefício de alguns tratamentos (por exemplo, o benefício cardiovascular da semaglutida) é independente da perda de peso; não suspender só por meta de peso não atingida quando o desfecho perseguido for outro [1].

Tratamento Não Farmacológico

Tem o objetivo de alcançar ou manter uma perda de peso de 5 a 10% através de uma combinação de mudanças dietéticas e atividade física.

Objetivos terapêuticos

  • Perda inicial ≥ 5% do peso (benefício metabólico comprovado).

  • Ideal:

    • ≥10% → melhora significativa metabólica

    • ≥15% → impacto em remissão de DM2

    • ≥20% → perfil semelhante à cirurgia em alguns casos.

Terapia nutricional:

  • Dietas com redução do número total de calorias (hipocalóricas). 

  • Dietas que alteram a proporção de macronutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras). 

  • Dieta individualizada

  • Padrões possíveis:

    • Mediterrânea

    • Low-carb

    • DASH

    • Hipocalórica tradicional

  • Foco em:

    • Alimentos in natura

    • Proteína adequada

    • Redução ultraprocessados

Atividade física:

  • Utilizar como atividade física qualquer tipo de gasto energético acima do usual do paciente. Isso inclui, porém não se restringe a: 

    • Atividades recreativas ou de ócio como esportes individuais ou coletivos;

    • Deslocamentos a pé ou de bicicleta;

    • Atividades ocupacionais e tarefas domésticas

  • No mínimo 150 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada ou 75 minutos de atividade física aeróbica vigorosa;

  • Recomenda-se realizar 2 vezes ou mais por semana atividade para fortalecimento muscular.

Intervenção comportamental

  • Terapia cognitivo-comportamental

  • Monitoramento alimentar

  • Metas realistas

  • Prevenção de recaída

Escolha do Fármaco

Resumo dos principais efeitos das medicações aprovadas para o tratamento da obesidade no Brasil: a tabela cruza seis medicações aprovadas no Brasil para o tratamento da obesidade — sibutramina, orlistate, liraglutida, semaglutida, tirzepatida e naltrexona/bupropiona — com treze desfechos clínicos, classificando o nível de evidência disponível para cada combinação em cinco categorias: ensaios clínicos randomizados robustos ou metanálises, ensaios clínicos menores e estudos observacionais, ensaios clínicos com eventos adversos que merecem atenção, ensaios clínicos com risco cardiovascular para pacientes de risco alto, e ausência de evidências. Para pré-diabetes, há evidência robusta com orlistate, liraglutida, semaglutida e tirzepatida, e ausência de evidência com sibutramina e naltrexona/bupropiona. Para controle glicêmico no diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e para o perfil lipídico, todas as seis medicações apresentam evidência robusta. Para pressão arterial, sibutramina e naltrexona/bupropiona apresentam eventos adversos que merecem atenção, enquanto orlistate, liraglutida, semaglutida e tirzepatida apresentam evidência robusta. Para apneia obstrutiva do sono, sibutramina e orlistate têm evidência de estudos menores, liraglutida e tirzepatida têm evidência robusta, e semaglutida e naltrexona/bupropiona não apresentam evidência. Para síndrome dos ovários policísticos (SOP), orlistate tem evidência robusta, sibutramina, liraglutida e semaglutida têm evidência de estudos menores, e tirzepatida e naltrexona/bupropiona não apresentam evidência. Para hipogonadismo masculino, sibutramina e liraglutida têm evidência de estudos menores, e orlistate, semaglutida, tirzepatida e naltrexona/bupropiona não apresentam evidência. Para a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), liraglutida, semaglutida e tirzepatida têm evidência robusta, enquanto sibutramina, orlistate e naltrexona/bupropiona têm evidência de estudos menores. Para doença osteoarticular, orlistate e semaglutida têm evidência robusta, e sibutramina, liraglutida, tirzepatida e naltrexona/bupropiona não apresentam evidência. Para doença renal crônica (DRC), semaglutida tem evidência robusta, liraglutida e tirzepatida têm evidência de estudos menores, e sibutramina, orlistate e naltrexona/bupropiona não apresentam evidência. Para doença cardiovascular (DCV), sibutramina apresenta risco cardiovascular para pacientes de risco alto, semaglutida tem evidência robusta, e orlistate, liraglutida, tirzepatida e naltrexona/bupropiona não apresentam evidência. Para insuficiência cardíaca (IC), sibutramina apresenta risco cardiovascular para pacientes de risco alto, semaglutida e tirzepatida têm evidência robusta, e orlistate, liraglutida e naltrexona/bupropiona não apresentam evidência. Para qualidade de vida, todas as seis medicações apresentam evidência robusta. A tabela ressalva que foram excluídos estudos destinados primariamente ao tratamento do diabetes.

Fonte: Diretriz para tratamento da obesidade e prevenção de doença cardiovascular. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2025.

Impacto do Tratamento Medicamentoso da Obesidade nos Desfechos Relacionados: a tabela apresenta uma matriz que cruza oito doenças e complicações relacionadas à obesidade com seis opções de tratamento farmacológico — orlistate, sibutramina, liraglutida, semaglutida, naltrexona + bupropiona e tirezepatida — classificando o nível de evidência disponível para cada combinação por meio de código de cores em quatro categorias. Na apneia obstrutiva do sono, liraglutida e tirezepatida apresentam ECR com benefícios definidos em desfechos relevantes. Na doença renal crônica, semaglutida e tirezepatida contam com ECR de menor número de participantes. Na MASH, semaglutida possui evidência robusta, enquanto liraglutida e tirezepatida apresentam ECR com menor número de participantes. No pré-diabetes, orlistate, liraglutida, semaglutida e tirezepatida dispõem de ECR com benefícios definidos. No hipogonadismo masculino, liraglutida, semaglutida e tirezepatida apresentam ECR com menor número de participantes. Na ICFEp, semaglutida e tirezepatida apresentam ECR com menor número de participantes. Na doença cardiovascular aterosclerótica, a sibutramina possui ECR com evidência de risco, enquanto a semaglutida demonstra benefício definido restrito a pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida sem diabetes. Na osteoartrite, a semaglutida apresenta benefício definido restrito a pacientes com osteoartrite de joelho, e o orlistate conta com ECR de menor número de participantes. A naltrexona + bupropiona não apresenta estudos disponíveis para nenhuma das complicações listadas. ECR: ensaios clínicos randomizados; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; MASH: esteato-hepatite associada à disfunção metabólica. Fonte: Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – ABESO 2026.

Nota: a tabela acima é fornecida pela diretriz ABESO 2026, que não aborda o manejo em pacientes diabéticos, por isso este público não é representado nesta tabela. Para conferir o manejo da obesidade em diabéticos, confira o tópico correspondente abaixo.

Como Prescrever?

Este tópico reúne informações úteis para prescrição dos fármacos para tratamento da obesidade. Para informações sobre indicações de uso, cenários preferenciais e escolha ideal da medicação, consulte os tópicos abaixo.

Coagonista GLP-1/GIP

  • Tirzepatida (Mounjaro®) solução injetável SC, canetas de 2,5 mg, 5 mg, 7,5 mg, 10 mg, 12,5 mg e 15 mg.

    • Titulação:

      • 1ᵃ a 4ᵃ semana: 2,5 mg/semana;

      • A partir da 5ᵃ semana: 5 mg/semana, com incrementos de 2,5 mg a cada 4 semanas [3].

    • Dose máxima: 15 mg/semana. Reavaliar se perda < 5% do peso inicial em até 6 meses na dose máxima tolerada [3].

  • Considerações

    • Não combinar com Agonistas do receptor GLP-1; ver "Combinação medicamentosa", em "Esquema de tratamento", para as demais combinações avaliadas.

Agonistas do receptor GLP-1

  • Semaglutida (Wegovy®) solução injetável SC, canetas de 0,25 mg, 0,5 mg, 1 mg, 1,7 mg e 2,4 mg.

    • Titulação (dose de obesidade):

      • Semana 1 a 4: 0,25 mg/semana;

      • Semana 5 a 8: 0,5 mg/semana;

      • Semana 9 a 12: 1 mg/semana;

      • Semana 13 a 16: 1,7 mg/semana;

      • A partir da semana 17: 2,4 mg/semana (manutenção) [4].

    • Dose máxima habitual: 2,4 mg/semana.

      • Em IMC ≥ 30 kg/m² com resposta insuficiente após ≥ 4 semanas em 2,4 mg, pode-se intensificar para 7,2 mg/semana (3 injeções de 2,4 mg); não indicado para IMC 27 a 30 kg/m² [4][5].

    • Única medicação antiobesidade com benefício cardiovascular comprovado em obesidade sem diabetes, até o momento [1][2].

  • Semaglutida (Ozempic®) solução injetável SC, canetas de 0,25/0,5 mg e de 1 mg.

    • Titulação (dose de diabetes):

      • Semana 1 a 4: 0,25 mg/semana;

      • A partir da semana 5: 0,5 mg/semana; se necessário, aumentar para 1 mg/semana [10].

    • Apresentação e titulação de uso em diabetes, distintas das do Wegovy® (obesidade); não confundir nem substituir uma pela outra [1][4][10].

  • Semaglutida (Rybelsus®) comprimidos de 3 mg, 7 mg e 14 mg.

    • Titulação:

      • Mês 1: 3 mg/dia;

      • A partir do mês 2: 7 mg/dia; se necessário, aumentar para 14 mg/dia [11].

    • Tomar em jejum, pela manhã, com até 120 mL de água; aguardar 30 minutos antes de comer, beber ou tomar outro medicamento oral [11].

  • Liraglutida (Saxenda®) solução injetável SC 6 mg/mL, caneta de 3 mL, doses de 0,6 a 3,0 mg.

    • Titulação:

      • Semana 1: 0,6 mg/dia;

      • Semana 2: 1,2 mg/dia;

      • Semana 3: 1,8 mg/dia;

      • Semana 4: 2,4 mg/dia;

      • A partir da semana 5: 3,0 mg/dia (manutenção) [6].

    • Dose máxima: 3,0 mg/dia. Suspender se perda < 5% do peso inicial após 12 semanas na dose máxima [6].

  • Dulaglutida (Trulicity®) solução injetável SC, canetas de 0,75 mg/0,5 mL e 1,5 mg/0,5 mL.

    • Titulação:

      • Monoterapia: iniciar com 0,75 mg/semana; pode-se aumentar para 1,5 mg/semana [9];

      • Terapia combinada: 1,5 mg/semana [9].

    • Dose máxima: 1,5 mg/semana. Administrar em qualquer horário, independentemente de refeições [9].

    • Aprovada em bula para diabetes tipo 2 e redução de risco cardiovascular; sem indicação aprovada para obesidade sem diabetes [9].

  • Considerações

    • Não combinar entre si (mesma classe), e nem com tirzepatida [1]; ver "Combinação medicamentosa", em "Esquema de tratamento", para as demais combinações avaliadas.

    • Semaglutida SC dose de obesidade e dose de diabetes têm apresentações e titulações distintas; não substituir uma pela outra [1][4][10].

Inibidor da lipase

  • Orlistate (Xenical®) cápsulas de 120 mg.

    • Posologia: 120 mg, 3x/dia, junto às refeições com gordura [1].

    • Dose máxima: 360 mg/dia [1].

Sibutramina

  • Sibutramina cápsulas de 15 mg.

    • Titulação:

      • Dose inicial: 10 mg/dia, pela manhã;

      • Se perda < 2 kg em 4 semanas: reavaliar; pode-se aumentar para 15 mg/dia ou suspender;

      • Se perda < 2 kg em 4 semanas após ajuste para 15 mg/dia: suspender [8].

    • Dose máxima: 15 mg/dia. Duração de uso: até 2 anos, conforme bula [8].

Combinação naltrexona + bupropiona

  • Naltrexona + bupropiona (Contrave®) comprimidos revestidos de liberação prolongada de 8 mg + 90 mg.

    • Titulação:

      • Semana 1: 1 comprimido pela manhã;

      • Semana 2: 1 comprimido pela manhã e 1 comprimido à noite;

      • Semana 3: 2 comprimidos pela manhã e 1 comprimido à noite;

      • A partir da semana 4: 2 comprimidos pela manhã e 2 comprimidos à noite (dose de manutenção) [7].

    • Dose máxima: 2 comprimidos por tomada, até 4 comprimidos/dia (32 mg + 360 mg/dia) [7].

    • Suspender se perda < 5% do peso inicial após 12 semanas na dose de manutenção [1].

Fármacos off-label

  • Topiramato (Topamax®) comprimidos de 25, 50 ou 100 mg.

    • Dose: inicial 25 a 50 mg/dia; máxima 200 mg, 2x/dia [1].

    • Indicação preferencial: obesidade com enxaqueca, compulsão alimentar ou epilepsia [1].

    • Considerações: contraindicado em glaucoma agudo de ângulo fechado e acidose metabólica; cautela em predisposição a litíase renal; pode causar parestesias, disgeusia e déficit cognitivo; contracepção eficaz obrigatória, uso não seguro na gestação [1].

  • Bupropiona (Wellbutrin XL®) comprimidos de liberação prolongada de 150 ou 300 mg.

    • Dose: 150 a 450 mg, 1x/dia, pela manhã [1].

    • Indicação preferencial: obesidade com sintomas depressivos [1].

    • Considerações: contraindicada em epilepsia, bulimia ou anorexia atual ou prévia, HAS não controlada, e em associação com IMAO [1].

  • Dimesilato de lisdexanfetamina (Venvanse®) cápsulas de 30, 50 ou 70 mg.

    • Dose: 30, 50 ou 70 mg, 1x/dia, pela manhã [1].

    • Indicação preferencial: obesidade com compulsão alimentar e TDAH [1].

    • Considerações: não usar sem transtorno de compulsão alimentar; não usar em HAS não controlada; não associar a naltrexona + bupropiona, por risco de síndrome serotoninérgica [1].

  • Metformina (Glifage®, Glifage XR®) comprimidos de 500, 850 ou 1.000 mg (liberação imediata), ou 500, 750 e 1.000 mg (liberação prolongada).

    • Pré-diabetes, em alto risco: dose ≥ 1.700 mg/dia;

    • Uso off-label associado a antipsicótico: 750 a 1.000 mg, 2x/dia, antes do café e do jantar, ou antes do almoço e do jantar [1].

    • Dose máxima diária: 2.550 mg/dia.

    • Considerações: não usar se TFG ≤ 30 mL/min/1,73 m²; indicada antes de iniciar antipsicótico de alto risco de ganho de peso (olanzapina, clozapina) ou de risco médio com fator de risco cardiometabólico associado (quetiapina, paliperidona, risperidona) [1].

      • Também indicada, independentemente do antipsicótico, se: idade entre 10 e 25 anos; IMC entre 25 e 30 kg/m²; ou ganho de peso > 3% em 12 meses com qualquer antipsicótico já em uso [1].

      • Obs: Antipsicóticos como olanzapina e clozapina (e, em menor grau, quetiapina, paliperidona, risperidona) estão entre os fármacos que mais induzem ganho de peso e resistência à insulina, por efeito em receptores histaminérgicos e serotoninérgicos que aumentam apetite e alteram o metabolismo de glicose e lipídeos. A metformina entra aí porque o mecanismo dela (redução da produção hepática de glicose, melhora da sensibilidade à insulina, leve efeito favorável sobre peso) age diretamente sobre esse efeito colateral metabólico.

Paciente Hígido

Compreende o paciente com risco cardiovascular baixo, sem diabetes tipo 2, e sem nenhuma das demais comorbidades tratadas nos tópicos seguintes (pré-diabetes, risco cardiovascular aumentado, esteatose hepática, osteoartrite de joelho, doença renal crônica, câncer relacionado à obesidade, hipogonadismo masculino, apneia obstrutiva do sono).

  • Fármacos de alta potência, preferenciais (Classe IIa, Nível C): [1]

    • Semaglutida ou

    • Tirzepatida

  • Se alta potência não for viável (custo, disponibilidade, contraindicação, intolerância) (Classe IIb, Nível C): [1]

    • Liraglutida

    • Naltrexona + bupropiona

    • Sibutramina (potência baixa a média)

    • Orlistate (potência muito baixa)

    • Escolha entre essas opções guiada por comorbidades, segurança, tolerabilidade, comodidade posológica, custo e padrão de comportamento alimentar;

      • Ver "Manejo hierarquizado por potência", em "Esquema de tratamento".

  • Resposta clínica insuficiente à monoterapia:

    • Considerar combinação de 2 a 3 fármacos, conforme "Combinação medicamentosa", em "Esquema de tratamento" (Classe IIb, Nível C) [1].

  • Posologia completa de todos os fármacos: ver "Como prescrever?".

Diabetes Tipo 2

Diabetes tipo 2 classifica o paciente, por si só, como risco cardiovascular alto (ver "Categorias de risco", em "Esquema de tratamento"). As condutas abaixo aplicam-se de forma geral a todo paciente com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2, com estratos adicionais para doença renal crônica e insuficiência cardíaca associadas.

Para redução de eventos cardiovasculares:

  • Agonista do receptor GLP-1 puro, recomendado: liraglutida, dulaglutida ou semaglutida (subcutânea ou oral) (Classe I, Nível A [2].

  • Considerações:

    • Tirzepatida não consta nesta recomendação. A diretriz conjunta SBD/ABESO/SBEM/SBC/ABS restringe, nesta indicação específica (redução de eventos cardiovasculares no paciente com diabetes tipo 2 e risco cardiovascular alto), a agonistas puros do receptor GLP-1; a tirzepatida, coagonista GLP-1/GIP, não integra essa lista nem os estudos citados [2]. Fora desta indicação, a tirzepatida permanece disponível como opção geral de alta potência para o paciente com diabetes tipo 2, sem restrição por status de diabetes na hierarquização por potência (ver "Manejo hierarquizado por potência", em "Esquema de tratamento") [1].

    • Dulaglutida: aprovada em bula para diabetes tipo 2 e redução de risco cardiovascular; sem indicação aprovada para obesidade sem diabetes [9].

    • Semaglutida subcutânea (Ozempic®) e semaglutida oral (Rybelsus®): apresentação e titulação de uso em diabetes, distintas das do Wegovy® (obesidade); não confundir nem substituir uma pela outra [1][4][10].

Se doença renal crônica associada:

  • Semaglutida 1,0 mg (dose de diabetes) considerar para redução de eventos cardiorrenais, em TFG ≥ 25 mL/min/1,73 m² (Classe IIa, Nível B) [2].

    • Uso por faixa de função renal [2]:

      • TFG 50 a 75, com RAC > 300 e < 5.000 mg/g: pode-se considerar.

      • TFG 25 a 50, com RAC > 100 e < 5.000 mg/g: pode-se considerar.

      • TFG 15 a 25: usar com cautela, por ausência de evidências.

      • TFG < 15: evitar.

    • Distinta da indicação de semaglutida na dose de obesidade (2,4 mg) para DRC em pacientes sem diabetes (ver "Doença renal crônica") [1].

Se risco alto de insuficiência cardíaca associado:

  • Combinação de iSGLT2 com agonista GLP-1 considerar para redução adicional de desfechos relacionados à ICFEp, além da monoterapia com qualquer um dos dois (Classe IIa, Nível B) [2].

    • Evidência predominantemente observacional; ainda carece de ensaio clínico dedicado.

    • iSGLT2 não é fármaco antiobesidade; indicação aqui é cardiorrenal, não de perda de peso.

  • Posologia completa de todos os fármacos citados: ver "Como prescrever?".

Pré-diabetes

Tratamento farmacológico recomendado, associado a MEV, para prevenir ou retardar a progressão para diabetes tipo 2 e reduzir risco cardiometabólico (Classe I, Nível A) [1].

  • Metformina ≥ 1.700 mg/dia: considerar em alto risco (< 60 anos, IMC ≥ 35 kg/m², glicemia de jejum ≥ 110 mg/dL, HbA1c ≥ 6,0%, ou diabetes gestacional prévio) [1].

  • Orlistate: pode ser considerado [1].

  • Liraglutida, semaglutida e tirzepatida, nas doses de obesidade: reduzem a progressão para diabetes tipo 2 nesta população [1].

  • A escolha segue a hierarquização por potência de "Esquema de tratamento": agonistas de incretina têm maior impacto absoluto; metformina e orlistate são alternativas de menor custo.

  • Posologia completa de todos os fármacos: ver "Como prescrever?".

Risco cardiovascular aumentado sem diabetes

Trata do paciente sem diabetes tipo 2 classificado como risco cardiovascular moderado ou alto, com ou sem doença cardiovascular estabelecida, e do paciente com insuficiência cardíaca sem diabetes. Para o paciente com diabetes tipo 2, ver "Diabetes tipo 2".

Risco cardiovascular moderado ou alto, sem doença estabelecida (prevenção primária)

  • Agonista do receptor GLP-1 (semaglutida, liraglutida) ou coagonista GLP-1/GIP (tirzepatida), para redução de peso e de fatores de risco cardiovascular (Classe I, Nível A) [2].

  • Se não for viável: orlistate ou naltrexona + bupropiona, com eficácia e segurança cardiovascular comprovadas (Classe IIb, Nível B; estudos XENDOS e LIGHT) [2].

    • Sibutramina não integra esta alternativa em risco DASCV alto: contraindicada nesse estrato (ver abaixo).

Doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida, sem diabetes (prevenção secundária)

  • Semaglutida: recomendada para reduzir morte cardiovascular, infarto e AVC, em IMC ≥ 27 kg/m² sem diabetes com doença cardiovascular estabelecida (Classe I, Nível B; estudo SELECT) [1][2].

    • Única medicação antiobesidade com benefício cardiovascular comprovado em obesidade sem diabetes, até o momento [1][2].

  • Se semaglutida não for viável: preferir liraglutida ou tirzepatida (Classe IIb, Nível C) [1].

  • Sibutramina não é recomendada em risco DASCV alto, doença cardiovascular estabelecida, ou diabetes tipo 2 com fator de risco cardiovascular adicional (Classe III, Nível B; estudo SCOUT, aumento de eventos cardiovasculares) [1][2].

Insuficiência cardíaca

  • Redução de peso recomendada em obesidade com IC estabelecida, para qualidade de vida, função cardíaca e capacidade de exercício (Classe I, Nível A) [2].

  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp)

    • Semaglutida (2,4 mg/semana) ou tirzepatida (dose-alvo de 15 mg/semana, ou dose máxima tolerada): recomendadas em IMC ≥ 30 kg/m² com ICFEp estabelecida, para redução de peso, sintomas e melhora de qualidade de vida (Classe I, Nível B; estudo STEP-HFpEF) [1].

      • A diretriz conjunta SBD/ABESO/SBEM/SBC/ABS classifica a mesma indicação como Classe I, Nível A (estudos STEP-HFpEF e SUMMIT), e descreve a faixa de dose de tirzepatida como 5 a 15 mg/semana [2].

    • Inibidores de SGLT2 recomendados em IC estabelecida, qualquer fração de ejeção, para reduzir hospitalização e morte cardiovascular (Classe I, Nível A) [2].

      • Não são fármacos antiobesidade; indicação aqui é cardiorrenal, não de perda de peso.

  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFEr)

    • Agonista do receptor GLP-1 pode ser considerado para redução de peso, exceto em classe funcional IV/NYHA (Classe IIb, Nível B) [2].

      • Atenção de segurança: evidência em ICFEr é limitada. Em dois estudos com liraglutida (nenhum na dose de obesidade, nenhum desenhado para tratar obesidade), houve sinal de aumento de eventos cardíacos e de hospitalização por IC nesta população [1][2].

      • Sem ensaios clínicos de perda de peso em ICFEr classes III e IV; restrição calórica exige monitorização por risco de caquexia. São necessários mais estudos de segurança para as doses de alta potência (semaglutida 2,4 mg, tirzepatida 15 mg) nessas classes [1][2].

  • Obesidade grau 3 (IMC ≥ 40 kg/m²) com risco alto de IC, sem IC estabelecida

    • Semaglutida (2,4 mg/semana) ou tirzepatida (10 a 15 mg/semana): recomendadas para qualidade de vida e prevenção de sintomas de IC, independentemente da fração de ejeção (Classe I, Nível C) [2].

      • Recomendação por opinião de especialistas; sem ensaio clínico dedicado a esta população.

      • Divergência interna da própria fonte: o texto da recomendação registra a faixa de tirzepatida como 10 a 15 mg/semana; o quadro-resumo ao final do mesmo documento registra 5 a 15 mg/semana para a mesma recomendação. Adota-se aqui a faixa mais restritiva (10 a 15 mg/semana) [2].

Posologia completa (titulação, apresentação) de todos os fármacos citados no tópico "Como prescrever?".

Esteatose hepática

Refere-se à doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) e à esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), na nomenclatura da fonte.

  • Tratamento farmacológico recomendado em MASLD, com objetivo de perda de peso (Classe I, Nível B) [1].

  • Semaglutida recomendada em MASH com fibrose hepática, para redução ou resolução da esteatose, da MASH e da fibrose (Classe I, Nível B; estudo ESSENCE) [1].

  • Se semaglutida não for viável:

    • Tirzepatida pode ser considerada (5, 10 ou 15 mg/semana [1].

  • Liraglutida pode ser considerada para esteatose e MASH, mas sem dado de melhora de fibrose (estudo LEAN, dose de diabetes testada, não a de obesidade) [1].

  • Cirrose compensada por MASH:

    • Semaglutida pode ser considerada para tratamento do excesso de peso; estudo dedicado a essa população não mostrou benefício histológico significativo sobre placebo, embora com perfil de segurança aceitável [1].

Posologia completa: ver "Como prescrever?".

Osteoartrite de joelho

  • Semaglutida: considerar em IMC ≥ 30 kg/m² com osteoartrite de joelho, para melhora de sintomas articulares e qualidade de vida (Classe IIa, Nível B; estudo STEP 9) [1].

    • Corte de IMC ≥ 30 kg/m² vem da população do estudo; extrapolar para IMC menor, em articulação de carga, caso a caso.

  • Se semaglutida não for viável: outros medicamentos visando perda > 10% do peso (Classe IIb, Nível C) [1].

    • A diretriz não nomeia fármaco alternativo; pela hierarquização por potência, apenas tirzepatida atinge esse patamar de forma consistente.

  • Cada 5 unidades a mais de IMC aumenta o risco de osteoartrite de joelho; perdas de 5 a 10% já melhoram dor e função; perdas próximas a 10% trazem ganho funcional mais consistente [1].

Posologia completa: ver "Como prescrever?".

Doença renal crônica

Trata da indicação em pacientes sem diabetes tipo 2. Para DRC com diabetes tipo 2, ver "Diabetes tipo 2" (mesmo fármaco de base, semaglutida, em dose diferente).

  • Semaglutida (dose de obesidade, 2,4 mg/semana): pode-se considerar em IMC ≥ 27 kg/m² com doença cardiovascular estabelecida, sem diabetes, para reduzir progressão de DRC (Classe IIb, Nível C; análise renal do estudo SELECT) [1].

  • Posologia completa: ver "Como prescrever?".

Câncer relacionado à obesidade

Tratamento farmacológico da obesidade pode ser considerado em comum acordo com a equipe de oncologia, para melhorar resposta ao tratamento oncológico, qualidade de vida, e reduzir risco de complicações (Classe IIb, Nível B) [1].

  • Sem fármaco ou posologia específicos definidos para esta indicação; seguir os critérios de "Esquema de tratamento" e "Paciente hígido" ou o tópico de cenário clínico aplicável, ajustados ao quadro oncológico.

  • Plausibilidade biológica de que a perda de peso reduza incidência de câncer a longo prazo, mas sem ensaio clínico randomizado que comprove isso; associação observacional entre GLP-1 e menor incidência de câncer não estabelece causalidade.

  • Monitorização de massa magra é essencial durante tratamento oncológico (ver "Sarcopenia").

Hipogonadismo masculino

  • Tratamento farmacológico da obesidade pode ser considerado para melhorar níveis de testosterona (Classe IIa, Nível B) [1].

    • Sem dose "recomendada" definida para esta indicação especificamente; evidência vem de estudos pequenos e abertos, com doses variadas:

      • Liraglutida 3,0 mg/dia (dose de obesidade): elevou testosterona e reduziu peso, superior à testosterona transdérmica isolada.

      • Semaglutida 1 mg/semana (dose de diabetes, não a de obesidade): melhorou morfologia espermática; reposição de testosterona piorou parâmetros seminais.

      • Tirzepatida 2,5 a 5 mg (doses iniciais, abaixo da manutenção habitual): melhorou parâmetros hormonais e reduziu peso e massa gorda.

    • Lacuna declarada na diretriz: sem estudo de semaglutida na dose de obesidade (2,4 mg) para função testicular; sem dados de orlistate, sibutramina ou naltrexona + bupropiona nesta indicação; sem dado de segurança periconcepcional [1].

  • Posologia padrão dos fármacos citados (fora das doses de estudo acima, que são as efetivamente testadas nesta indicação): ver "Como prescrever?".

Apneia obstrutiva do sono

  • Perda de peso recomendada para melhora dos episódios de apneia/hipopneia, proporcional à magnitude da perda, com resultado mais expressivo a partir de 10% (Classe I, Nível A) [1].

  • Tirzepatida:

    • Considerar em IMC ≥ 30 kg/m² com apneia moderada a grave, para redução da gravidade ou remissão (Classe IIa, Nível B; estudo SURMOUNT-OSA, base de aprovação da tirzepatida pela FDA nesta indicação) [1][2]. Dose estudada: 10 a 15 mg/semana.

  • Liraglutida:

    • Pode-se considerar, mesmo cenário, para redução da gravidade (Classe IIb, Nível B; estudo SCALE Sleep Apnea) [1][2].

  • No subgrupo já classificado como risco cardiovascular alto, a diretriz conjunta SBD/ABESO registra as mesmas duas recomendações, com a mesma classe e nível de evidência [2].

  • CPAP isolado não reduz peso; medidas farmacológicas continuam indicadas mesmo em paciente já adaptado ao CPAP [1].

  • Posologia completa: ver "Como prescrever?".

Sarcopenia

  • Avaliar sarcopenia antes de iniciar tratamento farmacológico em todo paciente com obesidade e mais de 60 anos, ou em risco de sarcopenia (Classe I, Nível C) [1].

  • Fluxo de rastreio e diagnóstico [1]

    1. Triagem: IMC e/ou cintura elevados + sintomas, suspeita clínica ou questionário (SARC-F em idosos).

    2. Diagnóstico: força/função muscular (preensão palmar, sentar-levantar, extensão de joelhos) + composição corporal (gordura corporal aumentada com massa muscular reduzida, por DEXA ou bioimpedância).

    3. Estadiamento: estágio 1 (sem complicação) ou estágio 2 (com complicação funcional, metabólica, cardiovascular ou respiratória atribuída).

      • Sem acesso a composição corporal: rastreio, força muscular e monitoramento clínico bastam.

    • Em > 60 anos, ou obesidade sarcopênica em qualquer idade: associar treinamento de força e aporte proteico adequado ao tratamento farmacológico, para manter capacidade funcional e minimizar perda de massa muscular (Classe IIa, Nível B) [1].

      • Treinamento resistido: 2 a 3x/semana, idealmente com exercício aeróbico associado.

      • Proteína: 1 a 1,2 g/kg/dia; acima de 1,4 g/kg/dia, com cautela e conforme função renal.

    • Esta orientação vale para qualquer fármaco já escolhido nos demais tópicos; nenhum fármaco antiobesidade deve ser evitado ou preferido especificamente por risco de sarcopenia [1].

Medicamentos off-label

  • Na impossibilidade de usar tratamento aprovado: considerar off-label, com eficácia e segurança demonstradas em ensaio clínico para obesidade, ou evidência na própria comorbidade (Classe IIb, Nível C) [1].

  • Entre as opções não aprovadas, topiramato tem a melhor evidência [1].

  • Demais opções: bupropiona isolada (obesidade com sintomas depressivos), dimesilato de lisdexanfetamina (obesidade com compulsão alimentar e TDAH) e metformina (obesidade com pré-diabetes, ou em uso de antipsicótico associado a ganho de peso) [1].

  • Posologia completa em "Como prescrever?".

Fórmulas magistrais

Não recomendado o uso de fórmulas magistrais ou produtos manipulados para tratamento da obesidade, incluindo diuréticos, hormônios tireoidianos, esteroides anabolizantes, implantes hormonais ou hCG (Classe III, Nível C) [1].

  • Sem comprovação de eficácia e segurança em ensaio clínico; sem padrão de controle de qualidade; risco de composição incerta, dose incorreta e substância não declarada.

  • Levantamentos identificaram concentrações incorretas, geralmente superiores às descritas, em fórmulas magistrais comercializadas.

  • A ABESO posiciona-se de forma desfavorável a essas formulações em pareceres a Conselhos Regionais de Medicina e ao Conselho Federal de Medicina.

Monitorização

  • Reavaliar após 12 semanas na dose plena:

    • Perda ≥ 5% → manter terapia

    • Perda < 5% → considerar:

      • Escalonar dose (se possível)

      • Trocar classe

      • Associar abordagem intensiva

  • Monitorar:

    • Peso

    • PA

    • FC

    • Glicemia

    • Perfil lipídico

    • Sintomas gastrointestinais

    • Sintomas psiquiátricos

Tratamento Cirúrgico

  • Critérios para cirurgia bariátrica:

    • Indivíduos maiores de 18 e menores de 60 anos de idade;

    • Indivíduos que apresentem IMC³ > 50 Kg/m²;

    • Indivíduos que apresentam IMC³ > 40 Kg/m² (e < 50Kg/m²), com ou sem comorbidades, sem sucesso no tratamento clínico longitudinal realizado na Atenção Primária à Saúde (APS) e/ou na atenção ambulatorial especializada, por no mínimo dois anos e que tenham seguido protocolos clínicos;

    • Indivíduos com IMC > 35 kg/m² (e < 40Kg/m²) com comorbidades, tais como pessoas com alto risco cardiovascular, Diabetes Mellitus e/ou Hipertensão Arterial Sistêmica de difícil controle, apneia do sono, doenças articulares degenerativas, sem sucesso no tratamento clínico. 

  • Critérios para exclusão para cirurgia bariátrica:

    • Insuficiência cardíaca grave

    • Doença arterial coronariana instável

    • Doença pulmonar em estágio terminal

    • Tratamento ativo do câncer

    • Hipertensão portal

    • Dependência de drogas/álcool

    • Limitação intelectual significativa

    • Pacientes sem suporte familiar adequado.

    • Transtorno psiquiátrico não controlado, incluindo uso contínuo de álcool ou drogas ilícitas.

      • No entanto, quadros psiquiátricos graves, alcoólatras e adictos sob controle não são contraindicações à cirurgia.

Referências

[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E SÍNDROME METABÓLICA (ABESO). Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – ABESO 2026. 5. ed. São Paulo: Scientific, 2026. Disponível em: http://doi.org/10.47626/2026-abeso-0001.

[2] VALERIO, Cynthia M.; SARAIVA, Jose F. K.; ROCHA, Viviane Z.; RACHED, Fabiana H.; DRAGER, Luciano F.; HALPERN, Bruno; SANDE-LEE, Simone Van de; VALENTE, Fernando; JUNIOR, Wellington S. S.; TRUJILHO, Fabio R.; DORNELLAS, Neuton; SILVA FILHO, Ruy Lyra da; SALLES, João Eduardo N.; ASSAD, Marcelo H. V.; MANCINI, Marcio; MIRANDA, Paulo A. C.; LAMOUNIER, Rodrigo N.; MOREIRA, Rodrigo; KAISER, Sergio; BERTOLUCI, Marcello. Diretriz para tratamento da obesidade e prevenção de doença cardiovascular. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2025. DOI: 10.29327/5738826.2025-1. Disponível em: https://diretriz.diabetes.org.br/diretriz-para-tratamento-da-obesidade-e-prevencao-de-doenca-cardiovascular-2/. Acesso em: 24 ago. 2026.

[3] ELI LILLY DO BRASIL LTDA. Mounjaro (tirzepatida): bula do paciente. Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2026. Disponível em: https://bula-anvisa.s3.sa-east-1.amazonaws.com/112600202_paciente.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

[4] NOVO NORDISK FARMACÊUTICA DO BRASIL LTDA. Wegovy (semaglutida): bula do paciente. 2026. Disponível em: https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/patient/Wegovy_Bula_Paciente.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

[5] AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Anvisa aprova atualização da posologia do medicamento Wegovy. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-aprova-atualizacao-da-posologia-do-medicamento-wegovy. Acesso em: 24 ago. 2026.

[6] NOVO NORDISK FARMACÊUTICA DO BRASIL LTDA. Saxenda (liraglutida): bula do paciente. Disponível em: https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/patient/Saxenda_Bula_Paciente1.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

[7] MERCK S.A. Contrave (cloridrato de naltrexona + cloridrato de bupropiona): bula do paciente. Disponível em: https://img.drogasil.com.br/raiadrogasil_bula/contrave-bula.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

[8] ACHÉ LABORATÓRIOS FARMACÊUTICOS S.A. Cloridrato de sibutramina monoidratado: bula do paciente. Disponível em: https://www.ache.com.br/wp-content/uploads/application/pdf/Bula-–-Sibutramina.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

[9] ELI LILLY DO BRASIL LTDA. Trulicity (dulaglutida): bula do paciente. Disponível em: https://img.drogasil.com.br/raiadrogasil_bula/Trulicity.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

[10] NOVO NORDISK FARM. DO BRASIL LTDA. Ozempic (semaglutida): bula do paciente. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: https://bula-anvisa.s3.sa-east-1.amazonaws.com/1176600360050_paciente.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

[11] NOVO NORDISK FARMACÊUTICA DO BRASIL LTDA. Rybelsus (semaglutida): bula do paciente. Disponível em: https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/patient/Rybelsus_Bula_PACIENTE.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

[12] American College of Cardiology (ACC). Scientific Statement on the Management of Obesity in Adults With Heart Failure. 2025. Disponível em: https://www.acc.org

[13] Lancet Diabetes & Endocrinology Commission. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2025.

[14] Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Sobrepeso e Obesidade em Adultos. 2020. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude

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