Osteoartrite / osteoartrose de joelho

CID-10: M17.9 — Gonartrose não especificada

Introdução

  • A osteoartrite (OA) do joelho é uma doença articular degenerativa caracterizada por perda progressiva da cartilagem articular, remodelamento ósseo subcondral, formação de osteófitos e inflamação sinovial de baixo grau.

  • O termo “osteoartrite” vem sendo preferido em relação à “artrose”, pois reconhece o componente inflamatório envolvido na fisiopatologia da doença.

  • Representa uma das principais causas de dor crônica e incapacidade funcional em adultos e idosos.

  • O acometimento do compartimento medial do joelho é o mais frequente, relacionado à maior distribuição de carga nesse compartimento.

  • A incidência aumenta progressivamente com o envelhecimento, obesidade, desalinhamentos do membro inferior e lesões articulares prévias.

Conteúdo direto ao ponto, revisado e atualizado por médicos especialistas.
Exclusivo para médicos e estudantes de medicina.
Acesse o conteúdo completo

Fatores de risco

  • Idade avançada.

  • Sexo feminino.

  • Obesidade.

  • Lesão meniscal prévia.

  • Trauma articular.

  • Instabilidade ligamentar.

  • Desalinhamentos do membro inferior.

  • Artrites inflamatórias.

  • Artrite séptica prévia.

  • Doenças hematológicas:

    • Hemofilia;

    • Anemia falciforme.

Quadro clínico

  • Anamnese

    • Dor mecânica progressiva:

      • Piora com esforço e carga;

      • Melhora parcial com repouso.

    • Dor inicialmente localizada, tornando-se difusa em fases avançadas.

    • Rigidez matinal geralmente < 30 minutos.

    • Limitação funcional:

      • Dificuldade para subir escadas;

      • Levantar-se;

      • Agachar;

      • Caminhar longas distâncias.

    • Crepitação articular.

    • Derrame articular recorrente pode ocorrer.

    • Dor em repouso ou noturna sugere doença avançada ou diagnóstico alternativo.

    • Avaliar:

      • História de trauma;

      • Cirurgias prévias;

      • Sintomas inflamatórios sistêmicos;

      • Dor referida de quadril ou coluna.

  • ⚠️ Sinais de gravidade

    • Dor incapacitante.

    • Limitação importante da marcha.

    • Deformidade progressiva.

    • Restrição importante do arco de movimento.

    • Derrame persistente importante.

    • Suspeita de artrite séptica:

      • Febre;

      • Derrame intenso;

      • Incapacidade funcional aguda.

Considerações diagnósticas

  • Diagnóstico

    • O diagnóstico é predominantemente clínico-radiográfico.

  • Radiografia

    • Exames recomendados

      • Radiografia AP com carga.

      • Perfil do joelho.

      • Axial de patela.

      • Incidência de Rosenberg pode detectar redução precoce do espaço articular.

      • Radiografia panorâmica dos membros inferiores auxilia na avaliação do eixo mecânico.

    • Achados radiográficos

      • Redução do espaço articular.

      • Osteófitos.

      • Esclerose subcondral.

      • Aplainamento condilar.

      • Cistos subcondrais.

      • Deformidade óssea.

  • Ressonância magnética

    • Indicada principalmente:

      • Casos iniciais;

      • Diagnóstico diferencial;

      • Suspeita de lesão meniscal ou osteocondral associada.

    • Mais sensível que radiografia para alterações precoces.

  • Tomografia computadorizada

    • Pouco utilizada rotineiramente.

    • Pode auxiliar no planejamento cirúrgico e avaliação de deformidades.

Diagnóstico diferencial

  • Artrite reumatoide.

  • Artrite séptica.

  • Gota.

  • Osteonecrose.

  • Osteocondrite dissecante.

  • Lesão meniscal.

  • Bursites periarticulares.

  • Dor referida de quadril ou coluna lombar.

Abordagem inicial

  • Avaliar o impacto da doença na vida cotidiana dos pacientes em função da qualidade de vida, ocupação, humor, relacionamentos e atividades de lazer.

  • A decisão de prescrever qualquer intervenção deve ser baseada em achados considerando a relação risco versus benefício, intensidade da dor, status funcional, a preferência do paciente e utilização de recursos (os scores SF 6D, WOMAC e Knee Society Score (KSS) são sugeridos para essa avaliação).

Tratamento não medicamentoso

  • Considerações:

    • 🎯 O objetivo terapêutico inclui:

      • Controle da dor;

      • Melhora funcional;

      • Retardo da progressão;

      • Preservação da qualidade de vida.

    • O tratamento conservador é a primeira linha na maioria dos casos.

  • Tratamento não farmacológico

    • Educação do paciente

      • Orientar natureza crônica da doença.

      • Estimular adesão ao exercício físico regular.

      • Orientar redução de atividades de alto impacto.

    • Perda de peso

      • Recomendado em pacientes com sobrepeso ou obesidade.

      • A redução ponderal diminui sobrecarga articular e melhora sintomas.

    • Exercício físico

      • Recomendar exercícios de baixo impacto e sem flexão excessiva dos joelhos.

      • Exercícios devem ser realizados preferencialmente com supervisão adequada.

      • Opções:

        • Caminhada leve;

        • Bicicleta;

        • Hidroginástica;

        • Natação.

      • Fortalecimento de quadríceps apresenta benefício funcional importante.

    • Fisioterapia

      • Recomendada para:

        • Analgesia;

        • Fortalecimento do quadríceps;

        • Melhora funcional.

      • Pode incluir:

        • Exercícios resistidos;

        • Alongamentos;

        • Treino proprioceptivo.

    • Crioterapia

      • Aplicar gelo local 3x/dia por aproximadamente 20 minutos.

    • Órteses e dispositivos auxiliares

      • Bengalas podem reduzir carga articular.

      • O uso de palmilhas e órteses apresenta benefício variável conforme guideline.

Tratamento medicamentoso

  • Analgésicos simples

    • Considerações:

      • Recomendados para uso rotineiro em pacientes com dor.

    • Dipirona (Novalgina®) comp. 500 mg ou 1 g

      • Tomar 500–1.000 mg VO de até 4/4h, se dor.

      • Dose máxima: 4 g/dia.

    • Dipirona (Novalgina®) gotas 500 mg/mL

      • Adultos: tomar 20–40 gotas VO de até 4/4h, se dor.

      • Dose máxima: 4 g/dia.

    • Paracetamol (Tylenol®) comp. 500 mg ou 750 mg

      • Tomar 500 mg VO de até 6/6h, se dor.

      • Dose máxima: 3 g/dia.

      • Utilizar com cautela em hepatopatia.

  • AINEs sistêmicos

    • Considerações:

      • Úteis principalmente nas exacerbações dolorosas por curto período.

      • Evitar uso contínuo devido ao risco de eventos adversos.

      • Utilizar com cautela em idosos pelo maior risco cardiovascular, renal e gastrointestinal.

      • Contraindicados em pacientes com doença renal crônica significativa.

      • A associação com inibidor de bomba de prótons pode reduzir risco de doença ulcerosa péptica.

      • Formulações tópicas apresentam melhor perfil de segurança e são recomendadas para OA do joelho.

    • AINEs não-seletivos da COX-2

      • Cetoprofeno comp. 100 mg

        • Tomar 100 mg VO de 12/12h por 7 dias.

      • Ibuprofeno comp. 200 mg, 400 mg ou 600 mg

        • Tomar 200–600 mg VO de até 6/6h por 7 dias.

        • Dose máxima: 2.400 mg/dia.

      • Diclofenaco potássico comp. 50 mg

        • Tomar 50 mg VO de até 8/8h por 7 dias.

        • Dose máxima: 150 mg/dia.

      • Naproxeno comp. 250 mg ou 500 mg

        • Tomar 250–500 mg VO de 12/12h por 7 dias.

        • Dose máxima: 1 g/dia.

      • Indometacina comp. 25 mg ou 50 mg

        • Tomar 50 mg VO de até 6/6h por 7 dias.

      • Piroxicam comp. 10 mg ou 20 mg

        • Tomar 10–20 mg VO 1x/dia por 7 dias.

      • Tenoxicam comp. 20 mg

        • Tomar 20 mg VO 1x/dia por 7 dias.

    • AINEs seletivos da COX-2

      • Celecoxibe comp. 100 mg ou 200 mg

        • Tomar 100–200 mg VO de até 12/12h por 7 dias.

      • Nimesulida comp. 100 mg

        • Tomar 50–200 mg VO de 12/12h por 7 dias.

      • Meloxicam comp. 7,5 mg ou 15 mg

        • Tomar 7,5–15 mg VO 1x/dia por 7 dias.

        • Meloxicam é preferentemente seletivo para COX-2, embora não seja tão seletivo quanto os coxibs.

  • AINEs tópicos

    • Considerações:

      • Formulações tópicas apresentam melhor perfil de segurança e são recomendadas para OA do joelho.

      • Escolher uma das opções abaixo.

    • Diclofenaco dietilamônio gel 11,6 mg/g

      • Aplicar fina camada no local da dor 3x/dia.

    • Cetoprofeno gel tópico

      • Aplicar fina camada no local da dor 3x/dia.

    • Aceclofenaco creme ou gel tópico

      • Aplicar fina camada no local da dor 3x/dia.

  • Opioides

    • Considerações:

      • Utilizar apenas em dor refratária.

      • O uso rotineiro deve ser desestimulado.

    • Tramadol comp. 50 mg ou 100 mg

      • Tomar 50–100 mg VO de até 6/6h se dor intensa refratária.

      • Dose máxima: 400 mg/dia.

      • Pode causar tontura, náusea e sonolência.

    • Fosfato de codeína comp. 30 mg

      • Tomar 30–60 mg VO de até 4/4h se dor intensa.

    • Oxicodona comp. 10 mg

      • Tomar 10–30 mg VO de 12/12h em casos selecionados de dor refratária.

  • Medicamentos adjuvantes

    • Considerações:

      • Podem ser consideradas em pacientes com dor crônica persistente, sensibilização central ou sintomas associados.

    • Duloxetina (Cymbalta®) cáps. 30 mg ou 60 mg

      • Iniciar 30 mg VO 1x/dia.

      • Após 1–2 semanas, aumentar para 60 mg VO 1x/dia conforme tolerância. Dose máxima de 120 mg/dia.

      • Pode auxiliar no controle de dor crônica musculoesquelética.

      • Utilizar com cautela em hepatopatia.

Profilaxia de úlcera gástrica

  • Indicado para pacientes que necessitam de tratamento com AINE oral por mais de 5 dias ou que tenha risco de eventos adversos do trato gastrointestinal superior.

    • Omeprazol comp. 10mg ou 20mg ou 40mg 

      • Tomar 1cp (10 ou 20mg) pela manhã em jejum (max 40mg/dia), OU

    • Pantoprazol comp. 20mg ou 40mg

      • Tomar 1 cp (20 ou 40mg) pela manhã em jejum (max 40mg de 12/12h)

Terapias adjuvantes

Condroprotetores

  • Considerações:

    • Preferencialmente utilizados em pacientes com artrose leve.

    • O benefício clínico permanece controverso na literatura.

    • Em geral utilizados por períodos prolongados conforme resposta clínica.

  • Escolher uma das opções:

    • Condroitina + glucosamina sachê ou cápsulas 1.200 mg + 1.500 mg

      • Tomar 1 dose VO pela manhã, preferencialmente em jejum.

    • Diacereína comp. 50 mg

      • Tomar 50 mg VO 1x/dia durante o primeiro mês.

      • Após adaptação: 50 mg VO de 12/12h.

      • Pode causar diarreia.

    • Persea americana Mill. + Glycine max (L.) Merr. 100 mg + 200 mg comp.

      • Tomar 1 comp VO ao dia.

    • Colágeno não hidrolisado tipo II cáps. 40 mg

      • Tomar 40 mg VO 1x/dia.

Infiltração intra-articular com corticoide

  • Considerações:

    • Podem ser utilizados para alívio sintomático de curto prazo.

  • Escolher uma das opções:

    • Triancinolona suspensão inj. 20 mg/mL ou 40 mg/mL

      • Aplicar 20–40 mg intra-articular.

    • Dexametasona sol. inj. 4 mg/mL

      • Aplicar 2–4 mg intra-articular.

Tratamento cirúrgico

  • Indicado na falha do tratamento conservador associado a:

    • Dor persistente;

    • Limitação funcional importante;

    • Comprometimento da qualidade de vida;

    • Deformidade progressiva;

    • Instabilidade articular;

    • Redução importante do arco de movimento.

  • A escolha da técnica depende de:

    • Idade;

    • Nível funcional;

    • Grau de acometimento articular;

    • Compartimento acometido;

    • Alinhamento do membro;

    • Presença de instabilidade ligamentar;

    • Comorbidades clínicas.

Critérios de encaminhamento

  • Critérios de encaminhamento para ortopedia:

    • Dor persistente apesar de tratamento clínico otimizado.

    • Limitação funcional progressiva.

    • Deformidade importante.

    • Instabilidade articular.

    • Necessidade de infiltração intra-articular.

    • Suspeita de indicação cirúrgica.

    • Dúvida diagnóstica.

Referências

[1] ABRAMOFF, B.; CALDERA, F. E. Osteoarthritis. Medical Clinics of North America, v. 104, n. 2, p. 293-311, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32035570/. Acesso em: 10 maio 2026.

[2] ALLEN, K. D.; THOMA, L. M.; GOLIGHTLY, Y. M. Epidemiology of osteoarthritis. Osteoarthritis and Cartilage, v. 30, n. 2, p. 184-195, 2022. Disponível em: https://www.oarsijournal.com. Acesso em: 10 maio 2026.

[3] BANNURU, R. R. et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis and Cartilage, v. 27, n. 11, p. 1578-1589, 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31278997/. Acesso em: 10 maio 2026.

[4] BEATY, James H.; AZAR, Frederick M. Campbell's Operative Orthopaedics. 14. ed. Philadelphia: Elsevier, 2020.

[5] BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Bulas de medicamentos. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br. Acesso em: 10 maio 2026.

[6] BRUYÈRE, O. et al. An updated algorithm recommendation for the management of knee osteoarthritis from the European Society for Clinical and Economic Aspects of Osteoporosis, Osteoarthritis and Musculoskeletal Diseases (ESCEO). Seminars in Arthritis and Rheumatism, v. 49, n. 3, p. 337-350, 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31027619/. Acesso em: 10 maio 2026.

[7] CAO, M. et al. Efficacy and safety of mesenchymal stem cells in knee osteoarthritis: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Stem Cell Research & Therapy, 2025. Disponível em: https://stemcellres.biomedcentral.com. Acesso em: 10 maio 2026.

[8] DUNCAN, Bruce B.; SCHMIDT, Maria Inês; GIUGLIANI, Elsa R. J. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.

[9] GIORGINO, R. et al. Knee Osteoarthritis: Epidemiology, Pathogenesis, and Mesenchymal Stem Cells: What Else Is New? An Update. International Journal of Molecular Sciences, v. 24, n. 7, 2023. Disponível em: https://www.mdpi.com/1422-0067/24/7/6405. Acesso em: 10 maio 2026.

[10] GUSSO, Gustavo; LOPES, José Mauro Ceratti; DIAS, Lêda Chaves. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.

[11] JANG, S.; LEE, K.; JU, J. H. Recent Updates of Diagnosis, Pathophysiology, and Treatment on Osteoarthritis of the Knee. International Journal of Molecular Sciences, v. 22, n. 5, 2021. Disponível em: https://www.mdpi.com/1422-0067/22/5/2619. Acesso em: 10 maio 2026.

[12] KOLASINSKI, Sharon L. et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. Arthritis Care & Research, v. 72, n. 2, p. 149-162, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31908149/. Acesso em: 10 maio 2026.

[13] LIU, X. et al. Dietary supplements for treating osteoarthritis: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, v. 52, n. 3, p. 167-175, 2018. Disponível em: https://bjsm.bmj.com. Acesso em: 10 maio 2026.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.