Prevenção da Anemia Ferropriva em Lactentes

Introdução

  • A deficiência de ferro é a principal causa de anemia em lactentes e, além de comprometer a eritropoiese, associa-se a prejuízos no crescimento e no desenvolvimento neurocognitivo e motor, com potencial impacto sobre a capacidade de aprendizagem, inclusive com efeitos que podem persistir após a correção dos parâmetros hematológicos.

  • Em gestantes, a anemia relaciona-se a maior risco de parto prematuro, baixo peso ao nascer e aumento da morbimortalidade materna e neonatal. [4]

  • No Brasil, a prevalência de anemia ferropriva varia amplamente conforme o contexto avaliado, estimando-se que acometa entre 19% e 35% das crianças de 6 a 24 meses de idade, com maior concentração em regiões de vulnerabilidade social.

  • Apesar de estratégias nacionais já implementadas, como a fortificação obrigatória de farinhas, o Programa Nacional de Suplementação de Ferro (PNSF) e a promoção do aleitamento materno, a condição permanece prevalente em diversos contextos locais. [4]

Fatores de risco

Fatores de risco para deficiência de ferro e anemia ferropriva: o quadro organiza, em duas colunas, as principais categorias de risco para deficiência de ferro e anemia ferropriva, associando cada categoria aos seus respectivos fatores causais. Os fatores maternos incluem baixa reserva de ferro, gestações múltiplas, curto intervalo intergestacional, dieta deficiente, perdas sanguíneas maternas, suplementação inadequada na gestação e diabetes gestacional. Os fatores fisiológicos e de desenvolvimento abrangem prematuridade, baixo peso ao nascer, crescimento acelerado nos primeiros dois anos de vida, adolescência, lactentes, perdas menstruais significativas e atletas em competição. A diminuição do fornecimento de ferro contempla clampeamento precoce do cordão umbilical, aleitamento materno prolongado sem introdução alimentar adequada, alimentação complementar pobre em ferro, consumo de leite de vaca antes de 12 meses e dietas vegetarianas sem orientação. Os fatores dietéticos relacionam-se à baixa diversidade alimentar, ingestão insuficiente de carnes e vísceras e presença de inibidores de absorção como fitatos, polifenóis e cálcio. As perdas sanguíneas incluem causas traumáticas, cirúrgicas, gastrointestinais (verminoses, DII, enteropatias) e ginecológicas (menorragia), além de discrasias sanguíneas. A má absorção envolve doença celíaca, doença inflamatória intestinal, gastrite atrófica, cirurgia gástrica e uso de antiácidos, bloqueadores H2 ou inibidores da bomba de prótons. Doenças associadas englobam processos inflamatórios crônicos, obesidade, infecções parasitárias e neoplasias. Os fatores relacionados à prevenção incluem baixa adesão à suplementação profilática e falha na orientação pelos profissionais de saúde. Por fim, o quadro registra a IRIDA (iron-refractory iron deficiency anaemia) como causa de anemia refratária ao ferro. Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria. Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes – Atualização 2026.

Exames laboratoriais

Deve-se realizar investigação laboratorial da deficiência de ferro nos seguintes casos:

  • Crianças nascidas prematuramente e/ou com baixo peso ao nascer

  • Falha na suplementação profilática de ferro medicamentoso

  • Alimentação deficiente de fonte de ferro com boa biodisponibilidade

  • Crescimento inadequado (deficiente ou excessivo)

  • Presença de algum fator de risco descrito na tabela do tópico acima.

Nesses casos, pode-se realizar

  • Hemograma

  • Ferritina sérica

  • PCR

Quando solicitar?

  • Entre 9 e 12 meses de vida, ou no momento em que o profissional de saúde considerar pertinente, diante dos fatores de risco e da história clínica.

Avaliação laboratorial dos diferentes estágios da deficiência de ferro: a tabela compara os achados laboratoriais em três estágios progressivos da deficiência de ferro — depleção dos estoques, deficiência de ferro e anemia ferropriva — para cinco parâmetros. Na morfologia da hemácia (VCM, HCM, RDW), os estágios de depleção dos estoques e de deficiência de ferro apresentam morfologia normal, enquanto na anemia ferropriva observam-se VCM diminuído (microcitose), HCM diminuída (hipocromia) e RDW aumentado. A ferritina está diminuída nos três estágios. O ferro sérico é normal na depleção dos estoques e diminuído tanto na deficiência de ferro quanto na anemia ferropriva. A capacidade total de ligação do ferro (TIBC) é normal na depleção dos estoques e aumentada na deficiência de ferro e na anemia ferropriva. O índice de saturação da transferrina é normal na depleção dos estoques e diminuído na deficiência de ferro e na anemia ferropriva. Legenda: HCM, hemoglobina corpuscular média; RDW, red cell distribution width (medida da anisocitose); TIBC, capacidade total de ligação do ferro; VCM, volume corpuscular médio. Os parâmetros VCM e HCM variam com a idade, e o índice de saturação da transferrina é calculado pela fórmula (Ferro/TIBC) x 100. Fonte: Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes – Atualização 2026. Sociedade Brasileira de Pediatria. Nº 32, 17 de março de 2026.Pontos de corte da ferritina sérica para definição de deficiência de ferro, segundo faixa etária e presença de infecção ou inflamação: a tabela apresenta os valores de ferritina sérica, em mcg/dL, abaixo dos quais se define deficiência de ferro, estratificados por faixa etária e pela presença ou ausência de infecção ou inflamação. Para lactentes de 0 a 23 meses, o ponto de corte é <12 mcg/dL na ausência de infecção e inflamação, e <30 mcg/dL na presença de infecção ou inflamação. Para crianças de 24 a 59 meses, os pontos de corte são os mesmos da faixa anterior: <12 mcg/dL sem infecção e inflamação, e <30 mcg/dL com infecção ou inflamação. Para crianças de 5 a menos de 10 anos, o ponto de corte é <15 mcg/dL sem infecção e inflamação, e <70 mcg/dL com infecção ou inflamação. Para a faixa de 10 a menos de 20 anos, os pontos de corte permanecem <15 mcg/dL sem infecção e inflamação, e <70 mcg/dL com infecção ou inflamação. Fonte: Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes – Atualização 2026. Sociedade Brasileira de Pediatria. Nº 32, 17 de março de 2026.

Orientações Gerais

A prevenção da anemia ferropriva deve ser abordada de forma integrada e longitudinal, iniciando-se no período pré-concepcional e estendendo-se ao longo dos dois primeiros anos de vida. [4]

  • Período gestacional

    • Identificação e tratamento da deficiência materna por pré-natal qualificado [4]

    • Suplementação sistemática de ferro e ácido fólico na gestante [4]

    • A adequada reserva materna contribui para melhores estoques fetais e reduz o risco de anemia no primeiro ano de vida [4]

  • Momento do parto

    • Clampeamento do cordão umbilical preferencialmente após o primeiro minuto de vida — medida simples e eficaz para aumentar a transferência placentária de ferro ao recém-nascido [4]

  • Período pós-natal

    • Aleitamento materno exclusivo até os seis meses e complementado até dois anos ou mais — o ferro do leite materno apresenta elevada biodisponibilidade [4]

    • Introdução oportuna da alimentação complementar diversificada a partir do sexto mês, com ênfase em alimentos-fonte de ferro de boa biodisponibilidade, especialmente ferro heme (carnes bovinas, suínas, aves e peixes) [4]

    • Evitar leite de vaca no primeiro ano de vida pelo baixo teor de ferro, potencial efeito inibitório da absorção e risco de microssangramentos intestinais [4]

    • Na impossibilidade de aleitamento materno, as fórmulas infantis são a melhor alternativa para reduzir o risco de anemia ferropriva [4]

    • Suplementação profilática de ferro: detalhado nos tópicos abaixo.

Esquema geral

  • Nascido a termo:

    • Duração: suplementar a partir dos *6 meses, até os 15 meses.

      • *Iniciar aos 4 meses em crianças que recebem leite de vaca.

    • Esquema: 2 ciclos de suplementação por 3 meses, com pausas intercaladas (atualização 2026).

    • Dose: com dose fixa, independente do peso (atualização 2026).

      • 1) Ciclo de Suplementação I:

        • > 6-9 meses: 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa independente do peso).

          • *Iniciar aos 4 meses em crianças que recebem leite de vaca.

      • 2) Pausa:

        • > 9-12 meses: pausa na suplementação.

      • 3) Ciclo de Suplementação II:

        • > 12-15 meses: 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa independente do peso).

      • 4) Pausa:

        • > 15 meses: término da suplementação.

  • Prematuro (< 37 sem) OU peso ao nascer < 2,5 kg

    • Duração: suplementar a partir de 30 dias aos 2 anos.

    • Esquema: contínuo dos 30 dias aos 2 anos, sem pausas.

    • Dose:

      • Dose no primeiro ano de vida:

        • Peso ao nascer entre 1,5 e 2,5 kg: 2 mg/kg/dia

        • Peso ao nascer entre 1,0 e 1,5 kg: 3 mg/kg/dia

        • Peso ao nascer < 1 kg: 4 mg/kg/dia

      • Dose no segundo ano de vida:

        • 1 mg/kg/dia, independente do peso ao nascer.

*Observação: recomendações atualizadas conforme: “Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes. Sociedade Brasileira de Pediatria, 17 de março de 2026.”

Nascido a Termo

  • Considerações (atualizado 2026):

    • Cenário: Nascido a termo (> 37 sem) E peso ao nascer > 2,5 kg

    • Duração: suplementar a partir dos *6 meses, até os 15 meses.

      • *Iniciar aos 4 meses em crianças que recebem leite de vaca.

    • Esquema: 2 ciclos de suplementação por 3 meses, com pausas intercaladas (atualização 2026).

    • Dose: dose fixa, independente do peso (atualização 2026).

      • 1) Ciclo de Suplementação I:

        • *6-9 meses: 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa independente do peso).

          • *Iniciar aos 4 meses em crianças que recebem leite de vaca.

      • 2) Pausa:

        • 9-12 meses: pausa na suplementação.

      • 3) Ciclo de Suplementação II:

        • 12-15 meses: 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa independente do peso).

      • 4) Pausa:

        • 15 meses: término da suplementação.

  • Como prescrever?

    • Sulfato ferroso sol. gotas 25mg/ml de Fe (*1 gota= 0,65 a 1 mg de Fe)

      • Dose: 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa independente do peso).

      • *A concentração de Fe por gota pode variar conforme o fabricante:

        • FURP: 1 mL = 25 gotas = 25 mg de ferro elementar (1 gota = 1 mg Fe).

          • Na prática: Dar 10 a 12 gotas por dia, via oral.

        • Anemifer® (Pharmascience): 1 mL = 35 gotas = 25 mg de ferro elementar (1 gota = 0,71 mg Fe).

          • Na prática: Dar 14 a 17 gotas por dia, via oral.

        • Fersil® (Hipolabor): 1 mL = 38 gotas = 25 mg de ferro elementar (1 gota = 0,65 mg Fe).

          • Na prática: Dar 15 a 19 gotas por dia, via oral.

    • Glicinato férrico (Neutrofer®) sol. gotas 50mg/ml de Fe (1 gota= 2,5 mg de Fe)

      • Dose: 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa independente do peso).

      • Na prática: Dar 4 a 5 gotas por dia, via oral.

    • Ferro polimaltosado (Dexfer®) sol. gotas 100mg/ml de Fe (1 gota= 5 mg de Fe)

      • Dose: 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa independente do peso).

      • Na prática: Dar 2 gotas por dia, via oral.

    • Ferro polimaltosado (Noripurum®) sol. gotas 50mg/ml de Fe (1 gota= 2,5 mg de Fe)

      • Dose: 10 a 12,5 mg/dia de ferro elementar (dose fixa independente do peso).

      • Na prática: Dar 4 a 5 gotas por dia, via oral.

Nota: na diretriz da SBP 2021 havia uma divisão no esquema de prevenção para crianças “a termo com fatores de risco”. No entanto, na diretriz de 2026, o esquema torna-se o mesmo, embora o início possa ter antecipado (aos 4 meses) em crianças com fator de risco, declarado especificamente pela diretriz crianças que recebem leite de vaca.

Prematuro ou < 2,5kg

  • Considerações:

    • Cenário: Prematuro (< 37 sem) OU peso ao nascer < 2,5 kg

    • Duração: Suplementar a partir de 30 dias aos 2 anos.

    • Dose:

      • Dose no primeiro ano de vida:

        • Peso ao nascer entre 1,5 e 2,5 kg: 2 mg/kg/dia

        • Peso ao nascer entre 1,0 e 1,5 kg: 3 mg/kg/dia

        • Peso ao nascer < 1 kg: 4 mg/kg/dia

      • Dose no segundo ano de vida:

        • 1 mg/kg/dia, independente do peso ao nascer.

  • Como prescrever os medicamentos?

    • Sulfato ferroso sol. gotas 25mg/mL de Fe (*1 gota= 0,65 a 1 mg de Fe)

      • Dose: varia conforme idade e peso ao nascer. Consulte o texto acima “dose”.

      • *A concentração de Fe por gota pode variar conforme o fabricante:

        • FURP: 1 mL = 25 gotas = 25 mg de ferro elementar (1 gota = 1 mg Fe).

          • Na prática: Peso/1 = gotas por dia.

          • Multiplicar por 1, 2, 3 ou 4, a depender da dose desejada (1, 2, 3 ou 4 mg/kg/dia)

        • Anemifer® (Pharmascience): 1 mL = 35 gotas = 25 mg de ferro elementar (1 gota = 0,71 mg Fe).

          • Na prática: Peso/0,71 = gotas por dia.

          • Multiplicar por 1, 2, 3 ou 4, a depender da dose desejada (1, 2, 3 ou 4 mg/kg/dia)

        • Fersil® (Hipolabor): 1 mL = 38 gotas = 25 mg de ferro elementar (1 gota = 0,65 mg Fe).

          • Na prática: Peso/0,65 = gotas por dia.

          • Multiplicar por 1, 2, 3 ou 4, a depender da dose desejada (1, 2, 3 ou 4 mg/kg/dia)

    • Glicinato férrico (Neutrofer®) sol. gotas 50mg/ml de Fe (1 gota= 2,5 mg de Fe)

      • Dose: varia conforme idade e peso ao nascer. Consulte o texto acima “dose”.

      • Na prática:

        • Peso/2,5 = gotas por dia (na dose de 1mg/kg/dia)

        • Multiplicar por 1, 2, 3 ou 4, a depender da dose desejada (1, 2, 3 ou 4 mg/kg/dia)

    • Ferro polimaltosado (Dexfer®) sol. gotas 100mg/ml de Fe (1 gota= 5 mg de Fe)

      • Dose: varia conforme idade e peso ao nascer. Consulte o texto acima “dose”.

      • Na prática:

        • Peso/5 = gotas por dia (na dose de 1mg/kg/dia)   

        • Multiplicar por 1, 2, 3 ou 4, a depender da dose desejada (1, 2, 3 ou 4 mg/kg/dia)

    • Ferro polimaltosado (Noripurum®) sol. gotas 50mg/ml de Fe (1 gota= 2,5 mg de Fe)

      • Dose: varia conforme idade e peso ao nascer. Consulte o texto acima “dose”.

      • Na prática:

        • Peso/2,5 = gotas por dia (na dose de 1mg/kg/dia)

        • Multiplicar por 1, 2, 3 ou 4, a depender da dose desejada (1, 2, 3 ou 4 mg/kg/dia)

Referências

[1] Consenso Sobre Anemia Ferropriva: mais que uma doença, uma urgência médica. Sociedade Brasileira de Pediatria. Junho, 2018.

[2] Boletim da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Suplementação de nutrientes. Out 2019.

[3] Consenso sobre Anemia ferropriva - Atualização: destaques 2021

[4] Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes – Atualização 2026. Sociedade Brasileira de Pediatria. Nº 32, 17 de março de 2026.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.