Deficiência de vitamina B12 e folato (anemia megaloblástica)
CID-10: D51 (Deficiência de vitamina B12)
CID-10: D52 (Deficiência de folato)
CID-10: D53.1 (Outras anemias megaloblásticas)
Introdução
A deficiência de vitamina B12 (cobalamina) e de folato (vitamina B9) constitui uma das principais causas de anemia megaloblástica, caracterizada por eritropoiese ineficaz e macrocitose decorrentes da síntese inadequada de DNA.
Embora ambas provoquem alterações hematológicas semelhantes, apenas a deficiência de vitamina B12 cursa com manifestações neurológicas, tornando sua identificação precoce fundamental para evitar sequelas permanentes.
Na Atenção Primária, o objetivo é reconhecer os pacientes de risco, confirmar o diagnóstico, iniciar a reposição adequada e encaminhar os casos complexos.
Epidemiologia
A deficiência de vitamina B12 é mais frequente em:
idosos;
pacientes submetidos à gastrectomia ou cirurgia bariátrica;
anemia perniciosa;
doença de Crohn envolvendo íleo terminal;
doença celíaca;
uso prolongado de metformina;
uso prolongado de inibidores da bomba de prótons;
dietas vegetarianas estritas ou veganas sem suplementação.
A deficiência de folato ocorre principalmente em:
alcoolismo;
desnutrição;
dietas pobres em vegetais verdes;
gestação;
síndromes disabsortivas;
doenças hemolíticas crônicas;
uso de anticonvulsivantes (fenitoína, fenobarbital);
metotrexato;
trimetoprim.
Anamnese
Sintomas comuns
fadiga;
dispneia aos esforços;
palpitações;
tontura;
redução da capacidade funcional.
Sugestivos de deficiência de vitamina B12
parestesias;
perda de sensibilidade vibratória;
dificuldade para caminhar;
ataxia;
fraqueza;
déficit cognitivo;
depressão;
irritabilidade;
glossite.
Sugestivos de deficiência de folato
glossite;
perda ponderal;
diarreia;
desnutrição;
anemia sem alterações neurológicas.
Diagnóstico
Exames iniciais
Solicitar:
Hemograma completo;
Reticulócitos;
VCM;
Vitamina B12;
Ácido fólico;
Ferritina;
Saturação de transferrina;
Creatinina;
TSH;
Função hepática.
Achados laboratoriais

Quando investigar a causa
Após confirmar a deficiência, investigar:
anemia perniciosa (anticorpo anti-fator intrínseco);
cirurgia bariátrica;
doença celíaca;
doença de Crohn;
uso de metformina;
IBP crônico;
dieta restritiva;
alcoolismo.
Tratamento inicial
Deficiência de vitamina B12
Paciente sem sintomas neurológicos
Primeira linha
Cianocobalamina inj. 1.000 mcg/2 mL
Aplicar 1 ampola IM, 1 vez por semana durante 4 semanas.
Depois: 1 ampola IM uma vez por mês, enquanto persistir a causa da deficiência.
Paciente com sintomas neurológicos
Primeira linha
Cianocobalamina inj. 1.000 mcg/2 mL
Aplicar 1 ampola IM em dias alternados por 1 semana (ou diariamente por 5 dias em casos graves).
Depois: 1 ampola IM semanal por 4 semanas.
Depois: 1 ampola IM mensal.
Alternativa via oral (em casos leves, quando absorção intestinal estiver preservada)
Cianocobalamina comp. 1.000 a 2.000 mcg
Tomar 1 comprimido ao dia.
Pode ser utilizada em pacientes aderentes e sem doença disabsortiva importante.
Deficiência de folato
Importante: Nunca iniciar ácido fólico antes de excluir deficiência de vitamina B12.
Primeira linha
Ácido Fólico comp. 5 mg
Tomar 1 comprimido ao dia durante 4 meses.
Em pacientes com síndromes disabsortivas, doses maiores podem ser necessárias conforme avaliação especializada.


Profilaxia em grupos de risco
Risco de deficiência de vitamina B12
Considerar suplementação em:
cirurgia bariátrica;
anemia perniciosa;
gastrectomia;
veganismo;
ressecção ileal;
doença de Crohn com acometimento do íleo.
Esquema habitual (via oral OU IM):
Cianocobalamina inj. 1.000 mcg
Aplicar 1 ampola IM mensalmente, quando indicada.
Cianocobalamina comp. 1.000 mcg
Tomar 1 comprimido ao dia.
Indicado em pacientes sem má absorção intensinal.
Deficiência de folato
Considerar suplementação em:
alcoolismo;
desnutrição;
síndromes disabsortivas;
anemia hemolítica crônica;
dietas muito restritivas.
Ácido Fólico comp. 1 mg
Tomar 1 comprimido ao dia.
Monitorização
Após / durante a reposição, espera-se:
reticulocitose em 5–7 dias;
melhora da hemoglobina em 2–4 semanas;
normalização do VCM em aproximadamente 2 meses;
melhora neurológica em semanas a meses.
Repetir:
Exames:
hemograma;
vitamina B12;
folato;
Frequência:
Repetir em aproximadamente 4 semanas, depois 6 meses e, quando houver fator de risco permanente, anualmente.
Critérios de Encaminhamento
Encaminhar para Hematologia ou Clínica Médica quando houver:
anemia grave;
sintomas neurológicos importantes;
suspeita de anemia perniciosa;
pancitopenia;
ausência de resposta à reposição;
suspeita de síndrome mielodisplásica;
diagnóstico duvidoso;
necessidade de investigação de doença medular.
Referências
[1] BRITISH COMMITTEE FOR STANDARDS IN HAEMATOLOGY. Guidelines for the diagnosis and treatment of cobalamin and folate disorders. British Journal of Haematology, v. 166, n. 4, p. 496-513, 2014. DOI: 10.1111/bjh.12959.
[2] DUNCAN, B. B.; SCHMIDT, M. I.; GIUGLIANI, E. R. J. Medicina Ambulatorial: Condutas Clínicas em Atenção Primária. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
[3] MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Manual de Condutas Gerais do Programa Nacional de Suplementação de Ferro e Micronutrientes e documentos técnicos correlatos sobre deficiência de vitamina B12 e folato. Brasília: Ministério da Saúde, versão vigente. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 30 jul. 2026.
[4] TelessaúdeRS-UFRGS. Como deve ser feita a reposição de vitamina B12?. 2023. Disponível em: https://telessauders.ufrgs.br/perguntas/como-deve-ser-feita-a-reposicao-de-vitamina-b12
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