Tendinopatia do Tendão de Aquiles

CID-10: M76.6 – Tendinite do tendão calcâneo (tendão de Aquiles)

Introdução

  • A tendinopatia do tendão de Aquiles é uma afecção musculoesquelética caracterizada por dor, redução da capacidade funcional e alterações degenerativas do tendão calcâneo;

  • É uma das principais causas de dor no retropé, acometendo tanto atletas quanto indivíduos sedentários;

  • Atualmente, entende-se que a doença resulta predominantemente de um processo de falha na reparação tendínea, e não de inflamação isolada, motivo pelo qual o termo tendinopatia é preferível a "tendinite" na maioria dos casos;

  • O quadro clínico costuma ser insidioso, relacionado à sobrecarga mecânica repetitiva, embora também possa ocorrer após aumento abrupto da atividade física ou em pacientes com fatores de risco sistêmicos;

  • Aproximadamente dois terços dos casos acometem a porção média do tendão, enquanto o restante corresponde à tendinopatia insercional.

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Epidemiologia

  • Representa uma das tendinopatias mais frequentes dos membros inferiores.

  • Incidência estimada na população geral:

    • aproximadamente 2 a 3 casos por 1.000 habitantes/ano.

  • Corresponde a cerca de:

    • 6–18% das lesões em corredores recreacionais;

    • até 18% das lesões relacionadas à corrida em atletas.

  • Acomete principalmente indivíduos entre:

    • 30 e 60 anos.

  • Pode ocorrer em:

    • atletas de alto rendimento;

    • praticantes recreacionais;

    • indivíduos sedentários.

  • Homens são discretamente mais acometidos que mulheres.

Anatomia e fisiopatologia

Anatomia

  • Tendão de Aquiles

    • É o maior e mais resistente tendão do corpo humano.

    • Formado pela confluência dos músculos:

      • gastrocnêmio medial;

      • gastrocnêmio lateral;

      • sóleo.

    • Insere-se na tuberosidade posterior do calcâneo.

    • Suporta cargas de até:

      • 6 a 8 vezes o peso corporal durante a marcha;

      • 10 a 12 vezes o peso corporal durante corrida e saltos.

Vascularização

  • Irrigação proveniente de:

    • artéria tibial posterior;

    • artéria fibular;

    • vasos intratendíneos.

  • A região situada aproximadamente 2 a 6 cm proximal à inserção calcânea apresenta menor vascularização, constituindo o local mais frequentemente acometido pela tendinopatia da porção média.

Fisiopatologia

  • A tendinopatia decorre de incapacidade do tendão em reparar microlesões causadas por sobrecarga mecânica repetitiva.

  • O processo caracteriza-se por:

    • desorganização das fibras de colágeno;

    • aumento da substância fundamental;

    • proliferação de tenócitos;

    • neovascularização;

    • degeneração mucoide.

  • Diferentemente da tendinite aguda, há pouca ou nenhuma infiltração inflamatória significativa nas fases crônicas.

  • A dor parece estar relacionada principalmente à:

    • neovascularização;

    • neo-inervação;

    • alterações bioquímicas locais;

    • sensibilização periférica.

Classificação

Quanto à localização

  • Tendinopatia da porção média (midportion)

    • Corresponde a aproximadamente 55–65% dos casos.

    • Localiza-se entre:

      • 2 e 6 cm proximais à inserção no calcâneo.

    • Geralmente associada à sobrecarga repetitiva.

  • Tendinopatia insercional

    • Corresponde a aproximadamente 20–25% dos casos.

    • Compromete a inserção do tendão no calcâneo.

    • Pode estar associada a:

      • entesopatia;

      • calcificações;

      • deformidade de Haglund;

      • bursite retrocalcânea.

Quanto ao tempo de evolução

  • Aguda

    • Sintomas com duração inferior a 6 semanas.

  • Subaguda

    • Sintomas entre 6 e 12 semanas.

  • Crônica

    • Sintomas persistentes por mais de 3 meses.

    • Geralmente associada a alterações degenerativas do tendão.

Quanto ao mecanismo

  • Tendinopatia por sobrecarga

    • Forma mais frequente.

    • Decorre de aumento da carga mecânica sem tempo adequado para adaptação tendínea.

  • Tendinopatia associada a doenças sistêmicas

    • Pode ocorrer em pacientes com:

      • diabetes mellitus;

      • artrite reumatoide;

      • espondiloartrites;

      • hipercolesterolemia;

      • insuficiência renal crônica;

      • gota.

  • Tendinopatia induzida por medicamentos

    • Os principais medicamentos associados incluem:

      • fluoroquinolonas;

      • corticosteroides sistêmicos;

      • infiltrações intratendíneas com corticosteroides;

      • inibidores da aromatase.

  • Nesses casos, deve-se avaliar a suspensão ou substituição do medicamento, quando clinicamente possível.

Fatores de risco

Intrínsecos

  • Idade entre 30 e 60 anos.

  • Sexo masculino.

  • Obesidade.

  • Diabetes mellitus.

  • Dislipidemia.

  • Hipertensão arterial.

  • Artrite reumatoide.

  • Espondiloartrites.

  • Gota.

  • Insuficiência renal crônica.

  • Rigidez da musculatura da panturrilha.

  • Fraqueza dos flexores plantares.

  • Limitação da dorsiflexão do tornozelo.

  • Pé cavo.

  • Hiperpronação do retropé.

  • Discrepância do comprimento dos membros inferiores.

Extrínsecos

  • Aumento abrupto da carga de treinamento.

  • Corrida em aclives.

  • Corrida em superfícies rígidas.

  • Calçados inadequados.

  • Mudança recente de calçado esportivo.

  • Baixa recuperação entre treinos.

  • Sedentarismo seguido de atividade intensa.

  • Atividades com saltos repetitivos.

Medicamentos associados

  • Maior risco em pacientes em uso de:

    • fluoroquinolonas;

    • corticosteroides sistêmicos;

    • infiltrações locais com corticosteroides;

    • inibidores da aromatase.

Quadro clínico

Pontos-chave para a prática clínica

  • A tendinopatia da porção média é a apresentação mais frequente.

  • A fisiopatologia é predominantemente degenerativa, justificando o uso preferencial do termo "tendinopatia".

  • A maioria dos casos está relacionada à sobrecarga mecânica progressiva, tornando o manejo da carga um dos pilares do tratamento.

  • O reconhecimento de fatores sistêmicos e medicamentos associados é essencial para reduzir o risco de recorrência.

Quadro clínico

  • A apresentação clínica varia conforme a localização da lesão e o tempo de evolução.

  • Sintomas

    • Dor no tendão de Aquiles durante ou após atividade física.

    • Rigidez matinal, geralmente com duração inferior a 30 minutos.

    • Dor nos primeiros passos pela manhã ou após repouso prolongado.

    • Piora com corrida, saltos e subida de escadas.

    • Melhora parcial durante o aquecimento, com recorrência após o exercício.

    • Redução do desempenho esportivo.

Exame físico

Achados ao exame

  • Dor à palpação do tendão.

  • Espessamento tendíneo.

  • Nódulos palpáveis (principalmente na porção média).

  • Dor durante flexão plantar resistida.

  • Limitação da dorsiflexão do tornozelo.

  • Edema discreto em alguns pacientes.

Tendinopatia da porção média

  • Dor entre 2–6 cm proximal à inserção calcânea.

  • Espessamento fusiforme do tendão.

Tendinopatia insercional

  • Dor diretamente na inserção do calcâneo.

  • Dor ao uso de calçados fechados.

  • Pode haver aumento de volume associado à deformidade de Haglund ou bursite retrocalcânea.

Diagnóstico e diagnósticos diferenciais

O diagnóstico é predominantemente clínico.

Critérios clínicos

  • História compatível de dor relacionada à carga mecânica.

  • Dor localizada no tendão.

  • Sensibilidade à palpação.

  • Espessamento tendíneo.

  • Limitação funcional.

Testes clínicos

  • Royal London Hospital Test

    • Dor à palpação que diminui durante dorsiflexão máxima do tornozelo.

    • Auxilia no diagnóstico da tendinopatia da porção média.

  • Arc Sign

    • O espessamento do tendão desloca-se com a movimentação do tornozelo.

    • Sugere comprometimento intratendíneo.

Exames complementares

  • Não são necessários rotineiramente.

  • Ultrassonografia

    • Indicações:

      • dúvida diagnóstica;

      • suspeita de ruptura parcial;

      • planejamento terapêutico.

    • Achados:

      • espessamento tendíneo;

      • desorganização fibrilar;

      • áreas hipoecoicas;

      • neovascularização ao Doppler.

  • Ressonância magnética

    • Indicada quando:

      • suspeita de ruptura parcial;

      • falha do tratamento conservador;

      • planejamento cirúrgico;

      • diagnóstico incerto.

    • Achados:

      • aumento da espessura do tendão;

      • degeneração intratendínea;

      • edema;

      • roturas parciais.

Diagnósticos diferenciais

  • Ruptura parcial do tendão de Aquiles.

  • Ruptura completa do tendão de Aquiles.

  • Bursite retrocalcânea.

  • Bursite subcutânea do calcâneo.

  • Deformidade de Haglund.

  • Fasciíte plantar.

  • Tendinopatia do tibial posterior.

  • Artrite inflamatória.

  • Espondiloartrites.

  • Fratura por estresse do calcâneo.

  • Radiculopatia S1.

  • Compressão do nervo sural.

Tratamento conservador

É o tratamento de primeira linha.

Educação do paciente

  • Explicar a natureza degenerativa da doença.

  • Orientar redução temporária das atividades que desencadeiam dor.

  • Evitar repouso absoluto.

Controle de carga

  • Reduzir volume e intensidade das atividades.

  • Retorno gradual conforme melhora clínica.

Exercícios terapêuticos

  • São a principal intervenção.

  • Exercícios excêntricos

    • Considerados tratamento de primeira linha.

    • Realizar progressão gradual conforme tolerância.

    • Manter por pelo menos 12 semanas.

  • Exercícios de fortalecimento

    • Progressão para exercícios de alta carga e baixa velocidade.

    • Associar fortalecimento de gastrocnêmio e sóleo.

Fisioterapia

  • Pode incluir:

    • exercícios terapêuticos;

    • alongamentos;

    • treino funcional;

    • correção biomecânica;

    • retorno progressivo ao esporte.

Órteses e palmilhas

  • Considerar em pacientes com:

    • hiperpronação;

    • alterações biomecânicas;

    • dor insercional.

  • Elevação temporária do calcâneo pode reduzir a tensão tendínea.

Terapia por ondas de choque

  • Pode ser considerada em pacientes com sintomas persistentes após programa adequado de exercícios.

Tratamento farmacológico

Considerações:

  • Os medicamentos promovem apenas alívio sintomático e não aceleram a recuperação do tendão.

  • Os AINEs podem proporcionar analgesia nas fases iniciais, porém não demonstram benefício consistente na regeneração tendínea e devem ser utilizados pelo menor tempo possível.

Alternativas de medicamentos:

  • Paracetamol (Tylenol®) comp. 500 mg ou 750 mg

    • Tomar 500–750 mg VO a cada 6–8 horas, se dor (máx. 3 g/dia).

  • Dipirona (Novalgina®) comp. 500 mg ou 1 g

    • Tomar 500 mg a 1 g VO a cada 6 horas, se dor (máx. 4 g/dia).

  • Ibuprofeno (Alivium®) comp. 400 mg ou 600 mg

    • Tomar 400 mg VO a cada 8 horas por curto período, quando houver importante componente inflamatório ou dor intensa (máx. 2.400 mg/dia).

  • Naproxeno (Flanax®) comp. 250 mg ou 500 mg

    • Tomar 250–500 mg VO a cada 12 horas por curto período (máx. 1.000 mg/dia).

Procedimentos intervencionistas

Tratamento cirúrgico

  • Indicado quando:

    • falha do tratamento conservador após 3–6 meses;

    • dor incapacitante persistente;

    • limitação funcional importante;

    • alterações degenerativas extensas.

  • As técnicas incluem:

    • desbridamento do tecido degenerado;

    • tenoplastia;

    • transferência tendínea (casos selecionados);

    • ressecção da deformidade de Haglund, quando indicada.

Prognóstico

  • A maioria dos pacientes apresenta melhora com tratamento conservador.

  • A recuperação pode levar de 3 a 12 meses.

  • O retorno precoce à atividade intensa aumenta o risco de recorrência.

  • Exercícios de fortalecimento são o principal fator associado à recuperação funcional.

Critérios de encaminhamento

Encaminhar ao ortopedista quando houver:

  • suspeita de ruptura parcial ou completa;

  • incapacidade funcional importante;

  • falha do tratamento conservador por 3–6 meses;

  • necessidade de avaliação cirúrgica;

  • dúvida diagnóstica;

  • dor persistente com limitação importante das atividades diárias.

Referências

[1] LONGO, Umile Giuseppe; RUSSO, Valerio; RISI AMITRANO, Mario et al. Achilles Tendinopathy. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538149/.

[2] MARTIN, RobRoy L. et al. Achilles Pain, Stiffness, and Muscle Power Deficits: Revision 2024 Clinical Practice Guideline. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 2024.

[3] PAAVOLA, M. et al. Achilles tendinopathy. Journal of Bone and Joint Surgery, 2002.

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