Hantavirose
CID-10: B33.4 - Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus
CID-10: A98.5 - Febre Hemorrágica com Síndrome Renal
Introdução
A hantavirose é uma zoonose viral aguda causada por vírus do gênero Orthohantavirus, família Hantaviridae, ordem Bunyavirales, cujos reservatórios naturais são roedores silvestres assintomáticos. [2][4]
A infecção humana ocorre predominantemente por inalação de aerossóis de urina, fezes ou saliva de roedores infectados. [2][4]
A doença pode se apresentar sob duas formas clínicas principais:
Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), predominante nas Américas e forma exclusiva no Brasil.
Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR), predominante na Ásia e na Europa. [3][4][5]
No Brasil, a hantavirose é doença de notificação compulsória e apresenta letalidade histórica em torno de 40 a 42%. [2][4][5]
Entre 1993 e 2026, foram confirmados casos em todas as macrorregiões do país, com maior concentração nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. [1]
No perfil epidemiológico brasileiro (2007–2025), 76% dos casos acometem homens na faixa etária de 20 a 49 anos, 81% ocorrem em zona rural, 93% dos casos confirmados evoluem para hospitalização e a letalidade é mais elevada em idosos. [1]
Em dados históricos (1993–2009), cerca de 80% dos casos acometeram o sexo masculino, com mediana de idade de 33 anos e taxa geral de letalidade de 42%. [5]
Os primeiros casos brasileiros foram confirmados em novembro de 1993, no município de Juquitiba, estado de São Paulo, acometendo simultaneamente três irmãos residentes em área rural, associados ao fenômeno da "ratada" e ao desmatamento de áreas naturais. [5]
Etiologia
Os hantavírus pertencem ao gênero Orthohantavirus, família Hantaviridae, ordem Bunyavirales [3][4]
Vírus RNA de fita simples, polaridade negativa, envelopados [3][5]
Virion com tamanho entre 70 e 160 nm [3]; outras fontes descrevem 80 a 120 nm [5]
Segmento L: codifica RNA polimerase RNA-dependente [3][5]
Segmento M: codifica as glicoproteínas de envelope G1 e G2 [3][5]
Segmento S: codifica a proteína N do nucleocapsídeo [3][5]
Infectam células endoteliais, epiteliais, dendríticas e linfócitos por ligação da glicoproteína viral a receptores de superfície celular [3]
Sorotipos circulantes no Brasil e seus hospedeiros reservatório: [4][5]
Araraquara: Necromys lasiurus (associado a letalidade em torno de 50% em algumas áreas do país; amplamente disseminado em Cerrado e Caatinga)
Juquitiba: Oligoryzomys nigripes
Castelo dos Sonhos: Oligoryzomys utiaritensis
Anajatuba: Oligoryzomys fornesis
Rio Mearim: Holochilus sciurus
Laguna Negra: Calomys aff. callosus
Jaborá: Akodon montensis
Rio Mamoré: Oligoryzomys microtis
Principais sorotipos nas Américas (contexto comparativo): [3][4][5]
Sin Nombre: América do Norte; hospedeiro Peromyscus maniculatus
Andes: América do Sul (Argentina e Chile); hospedeiro Oligoryzomys longicaudatus; único sorotipo com transmissão pessoa a pessoa documentada
Transmissão
Via principal:
Inalação de aerossóis formados a partir de urina, fezes, saliva ou ninhos de roedores infectados [2][4][5][6]
A exposição pode ocorrer após apenas alguns minutos em ambiente fechado contaminado [4]
Os roedores permanecem portadores assintomáticos por semanas a anos [4][5]
Outras vias possíveis: [2][4][5]
Mordedura de roedor
Contato do vírus com pele não íntegra, conjuntivas ou mucosas
Ingestão de água ou alimentos contaminados
Transmissão pessoa a pessoa: documentada exclusivamente para o vírus Andes (Argentina e Chile); não ocorre com os sorotipos circulantes no Brasil [2][4][5][6]
Transmissão nosocomial pelo vírus Andes foi relatada, porém parece ser incomum [4]
Acredita-se que ocorra durante o estágio prodrômico ou logo após, afetando principalmente contatos domiciliares e íntimos [4]
Perfil de exposição de risco no Brasil (2007–2025): [1]
53%: limpeza de galpão ou depósito
45%: desmatamento ou aragem de terra
45%: contato direto com roedor
Mais de 70%: atividades rurais
Atividades de risco descritas na literatura brasileira: [5]
Colheita mecanizada ou manual de sementes de capim braquiária, grãos de milho, amendoim e outras culturas
Limpeza de silos, depósitos de grãos ou celeiros
Atividades domésticas em ambientes fechados ou abandonados, incluindo varredura do peridomicílio
Desmatamento, corte de árvores e atividades florestais
Sazonalidade por região (2007–2026): [1][2]
A maioria dos casos ocorre nos meses mais secos, no período de estiagem [2]
Região Sul: pico em outubro e novembro
Região Sudeste: distribuição mais uniforme, com aumento em abril e maio
Região Centro-Oeste: pico em janeiro
Região Norte: distribuição relativamente uniforme ao longo do ano
Região Nordeste: casos muito escassos em todo o período
Sobrevida viral no ambiente: [4][5]
O vírus pode sobreviver de alguns dias a semanas em temperatura ambiente, dependendo da umidade, presença de matéria orgânica e exposição à luz solar
Em ambientes fechados, sem ação solar e do vento, o vírus pode sobreviver por volta de 7 dias [5]
Vírus secos perdem viabilidade em 24 horas à temperatura ambiente [4]
Inativado pela luz solar em até 4 horas ao ar livre [5]
Fisiopatologia
A fisiopatologia da SCPH envolve dano mediado pelo sistema imune, e não efeito citopático viral direto. [3][4][5]
Após a inalação, o vírus deposita-se nos alvéolos ou bronquíolos terminais [3]
A infecção dos macrófagos alveolares gera viremia com disseminação ao endotélio capilar pulmonar [3]
A entrada viral nas células ocorre pela ligação da glicoproteína viral às integrinas beta-3, receptores que regulam ativação plaquetária e permeabilidade vascular [3][5]
A interferência das integrinas beta-3 pelo vírus justifica a trombocitopenia observada precocemente [3][5]
Células dendríticas imaturas atuam como carreadoras do vírus até os linfonodos regionais, onde ocorre replicação adicional [3]
A infecção induz maturação das células dendríticas e resposta intensa de células T CD8+ específicas [3]
O aumento do RNA viral desencadeia tempestade de citocinas, com liberação de TNF-α, IFN-γ e óxido nítrico [3][5]:
Aumento da permeabilidade capilar pulmonar: edema pulmonar não cardiogênico
Depressão miocárdica pelo TNF: choque cardiogênico
Edema pulmonar resultante pode progredir para falência de múltiplos órgãos [3]
Achados anatomopatológicos na SCPH: [5]
Pulmões densos, semelhantes à borracha e pesados, podendo atingir o dobro do peso normal; podem ser encontrados flutuando em fluidos na cavidade pleural
Histologia: dilatação capilar, edema endotelial, infiltrado intersticial linfocitário, edema alveolar difuso e membranas hialinas
Imunoblastos nas regiões periarteriolares do baço, fígado e linfonodos; possível necrose centrolobular hepática
Quadro Clínico
Período de incubação
Varia de 5 a 42 dias, com média de 14 dias [2]
Outras fontes descrevem de 7 a 39 dias [3]; o intervalo de 1 a 7 semanas também é referido para a SCPH [4]
O período mínimo registrado foi de 3 dias e o máximo de 60 dias [5]
A maior parte dos casos apresenta os primeiros sintomas em torno de duas semanas após a exposição [5]
🫀🫁 Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH)
Forma exclusiva no Brasil e predominante nas Américas. [2][3][5]
Evolui em quatro fases distintas.
1) Fase prodrômica (duração: 1 a 6 dias; excepcionalmente até 15 dias) [2][5]
Febre [2][3][5]
Cefaleia [2][3][5]
Mialgia intensa, incluindo dor dorsolombar [2][3][5]
Náuseas, vômitos e diarreia [2][3][5]
Dor abdominal (pode simular abdome agudo em casos intensos) [2][4][5]
Tosse seca pode surgir no final desta fase; sem sintomas de vias aéreas superiores [2][5]
Trombocitopenia pode surgir já nesta fase [3][4]
Achados laboratoriais típicos: [5]
Linfócitos atípicos >10%
Plaquetopenia (<150.000 até 20.000/mm³)
Leucócitos normais ou elevados com desvio à esquerda (>5.600 células/mm³)
Hemoconcentração (hematócrito >45%)
Radiografia de tórax: normal ou com infiltrados intersticiais difusos uni ou bilaterais
2) Fase cardiopulmonar (duração: 4 a 5 dias) [2][5]
Surgimento abrupto de tosse e dispneia grave, aproximadamente 3 a 6 dias após o pródromo [2][3]
Edema agudo de pulmão não cardiogênico por aumento da permeabilidade vascular no leito capilar pulmonar [2][3][5]
Taquicardia, taquipneia e hipoxemia [2][3][5]
Hipotensão e choque [3][5]
Choque cardiogênico secundário à depressão miocárdica: índice cardíaco baixo e resistência vascular periférica elevada (padrão oposto ao choque séptico) [2][3][5]
Acidose metabólica por infecção grave [3]
Comprometimento renal de leve a moderado; insuficiência renal aguda possível, especialmente com vírus Bayou, Black Creek Canal e Andes [5]
Derrame pleural, principalmente bilateral e de pequena magnitude, é comum; área cardíaca normal à radiografia [5]
Colapso cardiovascular possível; óbito ocorre mais comumente entre o 5º e o 6º dia do início da doença [5]
Indicadores prognósticos adversos: lactato plasmático >4,0 mmol/L ou índice cardíaco <2,2 L/min/m² [6]
Letalidade ao atingir esta fase: 45 a 50% [3][5]
Achados laboratoriais típicos: [5]
Leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda, formas jovens e granulócitos imaturos
Linfopenia relativa com linfócitos atípicos; hemoconcentração; plaquetopenia
Redução da atividade protrombínica; TTPA levemente prolongado [2][3]; fibrinogênio normal [5]
Acidose metabólica [2]; hipocapnia pode estar presente na fase de hiperventilação compensatória inicial [3]
Elevação sérica de TGO, TGP e DHL; hipoproteinemia e albuminemia [5]
Radiografia de tórax: infiltrado pulmonar bilateral, podendo ocorrer derrame pleural
3) Fase diurética (duração: 5 dias iniciais mais intensos, podendo prolongar-se até a convalescença) [5]
Recuperação das alterações de permeabilidade endotelial com reabsorção do líquido do terceiro espaço e interstício [5]
Diurese intensa, especialmente nos primeiros 5 dias [5]
Recuperação hemodinâmica e resolução da febre [5]
4) Fase de convalescença (duração: 2 semanas a 2 meses) [5]
Persistência de adinamia e prostração [5]
Melhora gradativa dos sinais e sintomas; lenta recuperação das anormalidades hemodinâmicas e da função respiratória [5]
Sobreviventes frequentemente evoluem com poliúria durante a convalescença e melhoram rapidamente [6]
🌡️🩸 Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR)
Não ocorre no Brasil; forma predominante na Ásia e norte da Europa. [2][5]
Evolui em cinco fases: [5]
1) Fase febril (3 a 7 dias): febre, cefaleia, mialgias, dor abdominal, náuseas, vômitos, rubor facial, petéquias, hemorragia conjuntival [2][5]
2) Fase hipotensiva (2 horas a 3 dias): náuseas, vômitos, taquicardia, hipotensão, choque, hemorragias [5]
3) Fase oligúrica (3 a 7 dias): oligúria, anúria, hemorragias graves (vias aéreas, gastrointestinal, geniturinária, SNC); ureia e creatinina elevadas, proteinúria acentuada, hematúria [2][5]
4) Fase diurética (dias a semanas): poliúria de 3 a 6 litros por dia [5]
5) Fase de convalescença (semanas a meses): recuperação clínica lenta; anemia e hipostenúria podem persistir por meses [5]
Manifestações extrarrenais possíveis: CIVD, miocardite, hepatite e pancreatite [2]
Diagnóstico
Suspeita clínica
Deve-se suspeitar de SCPH em todo paciente febril que resida, trabalhe ou mantenha atividades em área rural ou silvestre, apresentando: [2][5]
Neutrofilia com desvio à esquerda
Hemoconcentração
Trombocitopenia
Presença de linfócitos atípicos
A hipótese de SCPH deve ser cogitada em paciente previamente saudável com febre associada a sinais de insuficiência respiratória aguda ou edema pulmonar não cardiogênico na primeira semana da doença [5][6]
Antecedentes epidemiológicos reforçam a suspeita; a ausência de exposição documentada não descarta o diagnóstico [5]
Definições de caso (Vigilância Epidemiológica) [5]
Caso suspeito:
Paciente com quadro viral (febre >38°C, mialgia e cefaleia) com sinais de insuficiência respiratória aguda de etiologia não determinada na primeira semana; ou
Paciente com insuficiência respiratória aguda evoluindo para óbito na primeira semana; ou
Paciente com quadro viral exposto a situação de risco relacionada ou não a casos confirmados
Caso confirmado:
Critério laboratorial: sorologia IgM reagente, imuno-histoquímica positiva ou RT-PCR positivo para hantavírus
Critério clínico-epidemiológico: insuficiência respiratória aguda com evolução a óbito sem coleta de amostras, em paciente que frequentou área conhecida de transmissão ou foi exposto à mesma situação de risco nos últimos 60 dias
Estadiamento pela contagem de plaquetas
A trombocitopenia é o primeiro marcador laboratorial significativamente alterado, sendo o mais útil para estadiamento da doença e predição de progressão [3]
Queda progressiva ou trombocitopenia ao hemograma indica hospitalização para avaliação [3]
Exames laboratoriais
Hemograma: [2][3][5]
Leucocitose (com ou sem desvio à esquerda)
Linfocitose atípica e imunoblastos circulantes
Plaquetopenia
Hemoconcentração
Esfregaço periférico nas formas graves: mielócitos, metamielócitos e promielócitos com trombocitopenia grave [3]
Bioquímica e outros: [2][3][5]
Eletrólitos: hiponatremia pode estar presente [3]
Função renal: ureia e creatinina
CPK e DHL
Lactato arterial (valor >4,0 mmol/L associado a pior prognóstico) [6]
Gasometria arterial: hipoxemia variável, acidose metabólica e hipocapnia na fase de hiperventilação compensatória [2][3]
Coagulograma: muito alterado na FHSR; TTPA levemente prolongado na SCPH [2][3][5]
Urina I: hematúria e proteinúria [2][3][5]
Proteína sérica reduzida [3]
Nota: A fonte [3] (StatPearls) menciona elevação leve de LDL como achado associado à hantavirose. Esse dado não é corroborado pelas demais fontes disponíveis e não consta como achado consistente em diretrizes ou estudos clínicos específicos de SCPH. Não deve ser utilizado como critério diagnóstico.
Exames de imagem
Radiografia de tórax: [2][3][5]
Infiltrado pulmonar bilateral, intersticial, com focos de alveolização (padrão de SARA) [2]
Cerca de 1/3 dos pacientes apresenta edema pulmonar bilateral já na radiografia inicial [3]
Quase a totalidade desenvolve edema intersticial em 48 horas de internação [3]
Dois terços evoluem com opacidades bibasais ou perihilares e derrame pleural [3]
Área cardíaca normal (elemento diferencial em relação ao edema cardiogênico) [5]
Diagnóstico sorológico e molecular
ELISA para IgM: método preferencial; anticorpos IgM específicos detectáveis desde o início dos sintomas, em cerca de 95% dos pacientes [2][3][4][5]
IgM específico ou elevação do título de IgG são diagnósticos [4]
Podem ser detectados até 60 dias após o início dos sintomas [5]
Coleta da primeira amostra na admissão; segunda amostra quando o diagnóstico não for conclusivo na primeira coleta [5]
RT-PCR: permite diagnóstico durante a fase aguda pela amplificação do RNA viral [2][4][5]
Eficiente em amostras coletadas até o 7º dia do início dos sintomas [5]
Em caso de óbito, coletar amostras até 8 horas após o óbito [5]
Outros métodos disponíveis: imunofluorescência, imunoblot (Western blot), imunocromatografia, imunoistoquímica em tecidos [3][4][5]
Diagnóstico Diferencial
Doenças infecciosas: [2][3][5]
Dengue
Leptospirose
Malária
Pneumocistose (em pacientes com HIV/AIDS)
Histoplasmose aguda
Legionelose
Pneumonias bacterianas e atípicas (Micoplasma, Clamídia, Legionella, Coxiella burnetti)
Influenza e outros vírus respiratórios (excluir por PCR específico) [3][6]
Febre hemorrágica viral [3]
Rickettsiose, tuberculose, psitacose [5]
Doenças não infecciosas: [2][3][5]
SARA de diversas etiologias
Síndrome de Goodpasture
Pneumonite eosinofílica
Colagenoses (lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide)
Miocardiopatia com edema agudo de pulmão
Estenose mitral
Neoplasia pulmonar
Elemento diferencial da SCPH em relação à leptospirose (hemorragia pulmonar bilateral): [5]
Na SCPH: eritrossedimentação normal ou com leve aumento; hematócrito elevado; imunócitos presentes; líquido aspirado do pulmão semelhante ao plasma, sem sinais hemorrágicos
Na leptospirose: eritrossedimentação elevada; hematócrito normal ou baixo; imunócitos ausentes; presença de hemorragia pulmonar franca
Tratamento
Considerações:
Não há tratamento específico de eficácia comprovada. O manejo é essencialmente de suporte clínico intensivo. [2][3][4][5][6]
Para todo caso suspeito de SCPH, deve-se providenciar vaga em UTI imediatamente. O início precoce do cuidado intensivo é crítico, pois o quadro pode evoluir rapidamente para gravidade extrema e óbito. [5][6] Pacientes em unidades ambulatoriais ou de baixa complexidade devem ser removidos em unidade de suporte avançado de vida com médico habilitado. [5]
Suporte respiratório
Não protelar a intubação orotraqueal [2]
Oxigênio suplementar e ventilação mecânica quando necessário, seguindo estratégia protetora para SARA [2][3]
Cerca de 40% dos casos requerem ventilação mecânica [3]
O manejo criterioso de fluidos pode evitar a intubação em até metade dos pacientes hospitalizados [3]
Em insuficiência respiratória leve com quadro instável: ventilação não invasiva precoce (BiPAP/CPAP) [5]
Em insuficiência respiratória grave com critérios de SARA (FR >30 irpm, SatO₂ <80%): ventilação mecânica invasiva [5]
Estratégia protetora pulmonar: [5][7]
Volume corrente: 4 a 8 mL/kg de peso predito; iniciar com 6 mL/kg e ajustar conforme Pplat, PaCO₂ e pH [7]
Pressão de platô (Pplat): ≤ 30 cmH₂O [7]
Driving pressure (pressão de distensão = Pplat − PEEP): ≤ 15 cmH₂O [7]
PEEP: 10 a 18 cmH₂O [5]; evitar PEEP <5 cmH₂O [7]
FiO₂: mínima necessária para manter SpO₂ entre 92 e 96% [7]
Se houver melhora nos primeiros dias, há boa probabilidade de extubação ainda na primeira semana [3]
Suporte hemodinâmico [2][5]
Drogas vasoativas devem ser introduzidas precocemente em infusão EV contínua para manter as condições hemodinâmicas e prevenir o choque.
💡Dica: consulte a Calculadora de Drogas Vasoativas.
Cuidado extremo com infusão de volume: manter balanço hídrico próximo de zero ou negativo
Soluções coloidais e plasma podem ser utilizados para otimizar a volemia.
Monitorização hemodinâmica invasiva com cateter de artéria pulmonar nos casos graves; manter pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP) entre 8 e 10 mmHg [5]
Parâmetros dinâmicos de responsividade a fluidos (variação da pressão de pulso, variação do volume sistólico, passive leg raising) são preferíveis à PVC como guia de reposição volêmica [6]
Noradrenalina sol. inj. 4mg/4mL
0,01 a 1,0 µg/kg/min EV contínuo. [5]
Indicada para suporte vasopressor e manutenção das condições hemodinâmicas.
Dobutamina sol. inj. 250mg/20mL
Iniciar com 2 a 5 µg/kg/min EV contínuo; titular progressivamente até efeito clínico desejado. [5]
Faixa terapêutica habitual: 2 a 20 µg/kg/min. [5]
Indicada precocemente diante de depressão miocárdica; em pacientes com hipotensão grave, considerar associação com noradrenalina para evitar vasodilatação paradoxal.
Dopamina sol. inj. 50mg/10mL
Faixa de efeito predominantemente dopaminérgico: 2 a 5 µg/kg/min EV contínuo. [5]
Faixa de efeito predominantemente betaadrenérgico (inotrópico): 5 a 10 µg/kg/min EV contínuo. [5]
Nota: o uso de dopamina em baixas doses com intenção renoprotegida não é recomendado com base em evidências atuais; seu papel na hantavirose está relacionado ao suporte hemodinâmico.
Adrenalina e fenilefrina: drogas de segunda escolha quando as anteriores não estiverem disponíveis [5]
Outras medidas de suporte
Evitar antiagregantes plaquetários; atenção no uso de anticoagulantes [2]
Antibioticoterapia empírica de espectro compatível com pneumonias bilaterais atípicas deve ser mantida até os resultados laboratoriais específicos; reavaliada com o diagnóstico de SCPH pelo risco de superinfecção [5]
ECMO: utilizada em centros especializados em choque refratário [3][5][6]
O início precoce ao primeiro sinal de descompensação está associado a sobrevida de 80%, mesmo em colapso cardiopulmonar estabelecido [6]
Outros estudos descrevem sobrevidas de 70% [3] e 60% [5]; as diferenças refletem populações e critérios de inclusão distintos
Eficácia não estabelecida em ensaios clínicos formais, dado o caráter raro da doença [3]
Em caso de óbito: CIVD com hemorragia franca e leucocitose intensa são os achados mais frequentemente associados [3]
Intervenções sem eficácia comprovada ou em investigação
Ribavirina na SCPH: ribavirina intravenosa foi testada em pacientes com SCPH e não demonstrou eficácia para o tratamento da SCPH. [6] Esse dado é corroborado pelas fontes [2][3][4]. O uso na SCPH não é recomendado.
Ribavirina na FHSR (uso em investigação): há evidências de possível redução de mortalidade quando administrada precocemente na fase prodrômica, embora a eficácia não esteja formalmente estabelecida. [5]
Ribavirina sol. inj. (posologia de referência para uso na FHSR) [5]
Dose de ataque: 2 g EV, dose única inicial.
Manutenção, fase 1: 1 g EV de 6/6h durante 4 dias.
Manutenção, fase 2: 0,5 g EV de 8/8h por mais 6 dias.
Duração total: 10 dias.
Parece ser mais eficaz quando iniciada antes do 4º dia de doença. [5]
Para pacientes com peso corporal significativamente abaixo de 60 kg, o ajuste proporcional de dose é necessário, respeitando os valores máximos acima indicados.
Contraindicada na gestação: efeito teratogênico.
Efeito adverso cardinal: anemia hemolítica dose-dependente; monitorizar hemoglobina durante o tratamento.
Ajuste em insuficiência renal grave: redução de dose necessária.
Corticosteroides (uso empírico, sem eficácia comprovada): sem evidências concretas de eficácia em ensaio clínico randomizado [2][5]; utilizados empiricamente em alguns serviços. [5]
Hidrocortisona pó inj. 100mg
400 mg/dia EV na fase de pneumonite intersticial inicial.
Suposto mecanismo: redução de citocinas inflamatórias e estímulo à produção de surfactante.
Resultados controversos em estudos com maior número de pacientes na região nordeste de São Paulo. [5]
Conduta em gestantes
Dois casos documentados em gestantes no Brasil sem detalhamento de evolução clínica [5]
Todas as ocorrências de SCPH na gestação devem ser registradas de forma detalhada para subsidiar futuras recomendações [5]
Seguimento da gestante durante toda a gestação, parto e puerpério, com coleta de IgM, IgG e RT-PCR em diferentes momentos [5]
Em caso de óbito materno ou fetal: necropsia completa com estudos anatomopatológicos e pesquisa de antígeno por imuno-histoquímica, inclusive da placenta [5]
Mães em lactação com SCPH: suspender a amamentação e solicitar RT-PCR do leite materno [5]
Ribavirina é contraindicada na gestação pelo efeito teratogênico [8].
Isolamento e biossegurança hospitalar
As recomendações divergem conforme a literatura, mas o Manual do Ministério da Saúde [5] recomenda, em razão da confirmação da transmissão inter-humana pelo vírus Andes na Argentina e no Chile, adotar para todos os pacientes hospitalizados: [5]
Precauções de contato: avental, luvas e óculos de proteção
Precauções para aerossóis: máscara N95
Quarto privativo ou coorte, preferencialmente com pressão negativa
Lavagem das mãos antes e após contato com cada paciente e após retirada das luvas
Cuidado no manuseio de perfurocortantes; nunca reencapar agulhas
Restringir número de visitas e profissionais em atendimento direto ao paciente
Prevenção
A prevenção é a principal estratégia de redução da morbimortalidade, com foco na diminuição do contato humano com roedores e suas secreções. [3][4][5]
Controle de roedores no domicílio e no trabalho: [4][5]
Vedar fendas e aberturas com diâmetro superior a 0,5 cm nas edificações
Armazenar alimentos de consumo humano, grãos e rações em recipientes fechados à prova de roedores, sobre estrados a pelo menos 40 cm do solo
Eliminar entulhos, objetos inúteis e vegetação rasteira em raio de pelo menos 40 m ao redor das edificações
Manter depósitos (silos, tulhas) a distância mínima de 40 m do domicílio [5]
Produtos colhidos e restos de colheita não devem pernoitar no campo [5]
Utilizar raticidas em ambiente peridoméstico quando necessário, sempre associados ao controle mecânico [5]
Limpeza segura de ambientes possivelmente infestados: [4][5]
Arejar o ambiente por pelo menos 30 minutos antes de iniciar a limpeza [5]
Umedecer a área contaminada com desinfetante antes da remoção de resíduos; evitar varrição a seco (risco de aerossolização)
Utilizar panos úmidos ou esfregões molhados
Usar EPI: luvas de borracha, óculos de proteção, botas e máscara com filtro PFF3
Desinfecção de superfícies e materiais: [4][5]
Hipoclorito de sódio 2,5% (água sanitária) diluído a 10%, tempo de contato de 60 minutos [5]
Lisofórmio a 10%, tempo de contato de 60 minutos [5]
Compostos fenólicos a 10%, tempo de contato de 60 minutos [5]
Etanol 70%: inativa o vírus em 15 minutos [5]
Ácido peracético 1 a 5% [4]
Inativação pelo calor: 56°C por pelo menos 15 minutos (vírus em solução) ou 2 horas (vírus secos) [4]
Inativação pela luz solar: até 4 horas em ambiente externo [5]
Proteção em exposição ocupacional: [3][4][5]
Trabalhadores rurais, biólogos de campo, militares, agentes de controle de roedores e trabalhadores florestais devem utilizar EPI adequado ao grau de exposição: máscara com filtro PFF3, luvas e óculos
Lavar as mãos após manusear roedores e antes de alimentar-se ou preparar alimentos
Profissionais que apresentem febre ou doença respiratória em até 60 dias após exposição de risco devem buscar assistência médica imediatamente e relatar a história epidemiológica [5]
Monitoramento de contatos (contexto do vírus Andes): [4]
Pessoas em contato próximo com paciente infectado pelo vírus Andes devem ser monitoradas quanto a sintomas prodrômicos
Vacinas: disponíveis na Coreia do Sul e na China para FHSR (vírus Hantaan e Seoul), mas sem resultados claros à longo prazo; sem disponibilidade comercial no Brasil [3][4]
Referências
[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Hantavirose: situação epidemiológica. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Dados do SINAN; atualizado em 27 abr. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude.
[2] REIS, Isabella Scutti; GONÇALVES, Pedro; FONSECA, Benedito Antônio Lopes da. Hantavirose na Sala de Urgência. Revista QualidadeHC, FMRP-USP. Última alteração: 24 jul. 2017. Disponível em: https://www.hcrp.usp.br/revistaqualidadehc/.
[3] MOORE, Ross A.; GRIFFEN, David. Hantavirus Pulmonary Syndrome. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Última atualização: 20 abr. 2024. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK513243/.
[4] ROVID, Anna; MENDES, Ricardo Evandro; OLIVEIRA, Felipe. Hantavírus. Ames: Center for Food Security and Public Health, Iowa State University, 2018. Traduzido e adaptado por Mendes, Ricardo e Oliveira, Felipe, 2019. Disponível em: https://www.cfsph.iastate.edu/diseaseinfo/factsheets-pt/.
[5] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual de Vigilância, Prevenção e Controle das Hantaviroses. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 94 p. ISBN 978-85-334-2093-9. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_vigilancia_prevencao_controle_hantaviroses.pdf.
[6] CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Clinician Brief: Hantavirus Pulmonary Syndrome (HPS). Atlanta: CDC, 2024. Disponível em: https://www.cdc.gov/hantavirus/hcp/clinical-overview/hps.html. Acesso em: 09 mai. 2026.
[7] ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB); SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA (SBPT). Orientações Práticas de Ventilação Mecânica. Brasil: AMIB/SBPT, 2024. Aprovado em reunião plenária, Florianópolis, nov. 2023.
[8] Bula do Profissional da Saúde. Ribavirina cápsula 250 mg. Fundação Oswaldo Cruz / Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), 12 dez. 2025. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/.
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