Hipotireoidismo Adquirido na Criança e Adolescente
Introdução
O hipotireoidismo é uma das doenças hormonais mais frequentes em pediatria, resultante da produção insuficiente ou da ação inadequada dos hormônios tireoidianos (HT) nos tecidos. [3]
Os quadros clínicos decorrentes dessa deficiência dependem do grau e da duração da disfunção hormonal, afetando praticamente todos os tecidos em maior ou menor intensidade. [3]
Na forma adquirida, a deficiência hormonal se instala após o período neonatal.
A tireoidite crônica linfocitária autoimune (tireoidite de Hashimoto) constitui a principal causa de hipotireoidismo adquirido em crianças e adolescentes, sendo também reconhecida como a tireopatia mais frequente nessa faixa etária. [1][3]
A doença predomina no sexo feminino, com relação de 4:1 a 8:1 conforme a origem geográfica dos estudos, é rara antes dos 4 anos e apresenta pico de incidência entre 10 e 11 anos. [3]
A prevalência do hipotireoidismo adquirido após o nascimento tem sido reportada entre 1,7% e 9,5% em crianças e adolescentes. [5]
O hipotireoidismo subclínico (HSC) constitui apresentação relevante na infância, definido bioquimicamente pela elevação do TSH sérico acima do limite superior da referência na presença de T4 livre (T4L) normal.
Sua prevalência em crianças é estimada em torno de 1,7%, sendo inferior à observada em adultos. [2][4]
Etiologia
Tireoidite de Hashimoto: principal causa de hipotireoidismo adquirido e de bócio não tóxico em crianças e adolescentes; causa mais frequente de HSC, especialmente em maiores de 8 anos [1][2][3]
Causas iatrogênicas: intervenções cirúrgicas sobre a tireoide, terapia antitireoidiana, iodo radioativo [3]
Ingestão excessiva de medicamentos contendo iodo [3]
Mutações genéticas
Receptor de TSH: mutações heterozigóticas reportadas em 11,4 a 29,0% dos casos de HSC não autoimune [2]
Gene DUOX2: associado a defeitos de organificação do iodeto; causa HSC persistente [2]
Síndromes genéticas
Síndrome de Down: prevalência de HSC de 25,3 a 60,0%; risco de desenvolver disfunção tireoidiana ao longo da vida próximo a 50%; a tireoidite de Hashimoto é mais frequente do que na população geral [2][5]
Síndrome de Turner: prevalência de HSC de até 58%, principalmente associada à tireoidite de Hashimoto [2][5]
Síndrome de Williams: associada a HSC [4]
Medicamentos: amiodarona, interferon-alfa (IFN-α) e antiepilépticos (ácido valproico, fenitoína, carbamazepina, fenobarbital) [2][4]
Obesidade: HSC detectado em 10 a 23% das crianças obesas; a hipertireotropinemia é consequência da obesidade, e não sua causa; níveis de TSH tendem a normalizar com perda de peso; a obesidade isolada não constitui indicação de rastreio de disfunção tireoidiana em crianças [2][5]
Anemia ferropriva: 16,6% das crianças com anemia ferropriva apresentam HSC; associação também com disfunção cognitiva [2]
Síndrome nefrótica: HSC durante a fase ativa de proteinúria, por perda urinária de HT livres e ligados a proteínas; pode agravar hipotireoidismo pré-existente e aumentar a necessidade de LT4 [2]
Fibrose cística e insuficiência renal crônica: condições associadas a HSC [4]
Deficiência ou excesso de iodo: ingestão cronicamente baixa pode causar HSC, bócio e hipotireoidismo manifesto; ingestão excessiva também associada a HSC [2]
Radiação ionizante: crianças expostas a radioterapia ou radiação ambiental apresentam risco aumentado de desenvolver HSC [2]
HSC idiopático: sem etiologia definida; função tireoidiana geralmente estável com baixo risco de deterioração; risco de progressão para hipotireoidismo manifesto em torno de 11% e probabilidade de normalização espontânea do TSH em torno de 40% [2][4]
Tireoidite de Hashimoto
Etiopatogenia
A tireoidite de Hashimoto é determinada por mecanismos imunológicos, com produção de anticorpos antitireoglobulina (anti-Tg) e antiperoxidase (anti-TPO). A tireoidite linfocitária crônica e a doença de Graves compartilham haplótipos HLA e são controladas por processos autoimunes alterados. [3]
Os genes do complexo maior de histocompatibilidade (MHC) são responsáveis pelas diferentes respostas imunológicas aos autoantígenos tireoidianos. A maior incidência no sexo feminino sugere participação de genes dominantes mutantes no cromossomo X, o que também explicaria a alta incidência da doença nas síndromes de Turner e Down. Famílias afetadas apresentam elevada frequência de doenças autoimunes associadas: diabetes mellitus, anemia perniciosa, miastenia grave, artrite reumatoide e doença de Addison. [3]
Na forma clássica (bociogênica), a tireoidite se caracteriza por infiltrado linfoplasmocitário com formação de centros germinativos, bócio difuso e anticorpos em títulos elevados. Na forma atrófica, predominam fibrose glandular e redução da perfusão sanguínea, com progressão mais rápida para hipotireoidismo grave. Anticorpos bloqueadores do receptor de TSH (anti-TSHR bloqueadores) podem contribuir para as alterações atróficas ao suprimir a sinalização trófica do TSH sobre a glândula. [1][3]
Quadro Clínico e História Natural
A história natural da tireoidite de Hashimoto segue a seguinte sequência: [3]
Fase 1: tireoidite tóxica, transitória e autolimitada; dados laboratoriais podem confundir com hipertireoidismo
Fase 2: bócio eutireóideo
Fase 3: hipotireoidismo com ou sem bócio
Na primeira consulta, a criança pode estar em qualquer dessas fases, sem duração predeterminada. Muitas crianças mantêm-se eutireóideas por anos antes de evoluir para hipotireoidismo manifesto. O HSC é o segundo padrão bioquímico mais comum na apresentação da tireoidite de Hashimoto em crianças, superado apenas pelo eutireoidismo. [3][4]
O bócio é uma das principais queixas: a glândula se apresenta difusamente aumentada (2 a 5 vezes o volume normal), geralmente sem nodularidade. Em crianças com hipotireoidismo mais grave sem bócio, a glândula pode ter se tornado fibrótica. Portadores de tireoidite de Hashimoto devem ser reavaliados periodicamente, com atenção ao aparecimento de nódulos ao ultrassom; 10 a 25% dos nódulos tireoidianos podem corresponder a carcinomas. [3]
A associação com doença celíaca e outros fatores de risco concomitantes piora a evolução do HSC relacionado à tireoidite de Hashimoto. [4]
Encefalopatia de Hashimoto
Envolvimento do SNC com quadro de encefalopatia em pacientes com anticorpos tireoidianos positivos, mesmo em situação de eutireoidismo [3]
Adolescentes com anticorpos positivos e declínio cognitivo progressivo devem ser investigados para essa condição [3]
Boa resposta a glicocorticoides, sugerindo mecanismo inflamatório ou autoimune [3]
Anticorpos antitireoidianos funcionam como marcadores dos pacientes que se beneficiarão do tratamento com corticosteroides [3]
Quadro Clínico
A intensidade das manifestações depende do grau e da duração da deficiência hormonal. As principais indicações de investigação diagnóstica na população pediátrica compreendem um conjunto de sinais e sintomas compatíveis com o quadro clínico de hipotireoidismo franco. [3][5]
Crescimento e Maturação Óssea
Diminuição da velocidade de crescimento: sinal mais sensível; presente em 77% dos casos de hipotireoidismo grave por tireoidite autoimune em série pediátrica [1]
Atraso de idade óssea: proporcional ao grau e à duração da deficiência hormonal; crianças com baixa estatura ou velocidade de crescimento progressivamente diminuída e atraso de idade óssea, mesmo sem outros achados clínicos, podem apresentar HSC [1][3][5]
Baixa estatura absoluta (altura < percentil 3): presente em apenas 38% dos casos graves; o retardo do crescimento é mais sensível do que a baixa estatura absoluta [1]
Peso e Composição Corporal
Ganho ponderal com ingestão alimentar normal ou reduzida, por redistribuição do tecido subcutâneo decorrente do mixedema [1][3]
Ganho ponderal rápido presente em 58% dos casos graves; obesidade absoluta (IMC > 2 DP) em 38% [1]
A obesidade não é característica clássica do hipotireoidismo e raramente é sua causa isolada [3][5]
Manifestações Cutâneas e de Fâneros
Pele seca, áspera, fria, pálida ou amarelada (impregnação por caroteno) [1][3]
Mixedema: acúmulo de mucopolissacarídeos no tecido celular subcutâneo e em outros tecidos [3]
Alopecia [1][3]
Hipertricose: achado incomum nos casos graves, com distribuição generalizada; regride com a reposição hormonal; atribuída ao excesso prolongado de TSH sobre os folículos pilosos, diferentemente da alopecia, que resulta da deficiência dos HT [1]
Manifestações Neuromusculares
Lentidão de movimentos e de reflexos osteotendíneos [3]
Pseudo-hipertrofia muscular nos casos de mixedema grave [3]
Fraqueza, fadiga, sonolência, redução da atividade [1][3]
Manifestações Gastrointestinais
Obstipação intestinal [3][5]
Perda de apetite [1]
Manifestações Cardiovasculares
Mixedema cardíaco com aumento de volume cardíaco e possível derrame pericárdico nos casos graves e de longa duração [3]
Bradicardia [5]
Manifestações Puberais e Ginecológicas
Irregularidades menstruais em meninas; aumento do fluxo menstrual é mais frequente que amenorreia no hipotireoidismo leve a moderado, relacionado principalmente à anovulação crônica e à redução de fator de von Willebrand e fator VIII; amenorreia tende a predominar nos casos graves e de longa duração [1][3][9]
Puberdade precoce pseudoisosexual em crianças pré-puberais com hipotireoidismo grave: telarca e/ou menarca em meninas, aumento testicular isolado em meninos [1]
Puberdade atrasada e infantilismo sexual nos casos de hipotireoidismo de longa duração sem tratamento [3][5]
Manifestações Neurológicas no Hipotireoidismo Grave
Cefaleia: presente em 15% dos casos; convulsões em 4% [1]
Atraso no desenvolvimento neuropsicomotor e/ou atraso escolar [5]
Hipertrofia hipofisária secundária: deve ser considerada em todo paciente com hipotireoidismo grave, sobretudo na presença de cefaleia, distúrbios visuais ou convulsões; resulta da hipersecreção de TRH com consequente hipersecreção de TSH e prolactina; pode simular adenoma hipofisário [1][3]
Achados no Adolescente
No adolescente, o hipotireoidismo adquirido frequentemente evolui de forma insidiosa, com: [3][5]
Fadiga e dificuldades escolares
Obstipação
Pele e cabelos secos, queda de cabelo, unhas quebradiças
Intolerância ao frio
Apetite diminuído
Hipotireoidismo Subclínico
Definição e Classificação
O HSC é uma condição bioquímica caracterizada por TSH sérico acima do limite superior da referência com T4L dentro dos valores normais. Conforme o grau de elevação do TSH, classifica-se em: [2][4]
HSC leve: TSH entre 4,5 e 10 mIU/L
HSC grave: TSH > 10 mIU/L
Manifestações Clínicas
As manifestações do HSC variam de ausência de sintomas a disfunção tireoidiana franca, conforme a idade, a sensibilidade individual à deficiência hormonal e a duração do quadro. [2] As alterações mais frequentes na população pediátrica são bócio, ganho de peso, sonolência, fraqueza, anemia e elevação do colesterol. A gravidade dos sintomas não é sempre proporcional aos níveis de TSH. [2]
Consequências do HSC Não Tratado
Função cardíaca: associação com risco aumentado de hipertensão; dados sobre função ventricular são conflitantes [2]
Função endotelial e tecido adiposo epicárdico: maior espessura do tecido adiposo epicárdico (EFT) e menor dilatação mediada pelo fluxo (FMD) em crianças com HSC leve por Hashimoto [2]
Perfil lipídico: [2][4]
Leve redução de HDL-C e aumento da relação triglicerídeos/HDL-C
Maior índice aterogênico em crianças com HSC leve por Hashimoto
O índice triglicerídeos/HDL-C é preditor de rigidez arterial aumentada em crianças e pode selecionar aquelas que necessitam de intervenção preventiva de aterosclerose
Alterações lipídicas não atingem o nível de dislipidemia franca, mas configuram perfil pró-aterogênico
Adiposidade visceral: crianças não tratadas com HSC prolongado podem desenvolver aumento da adiposidade visceral [4]
Resistência insulínica: resultados conflitantes nos estudos disponíveis [2]
Função cognitiva: escores cognitivos, nível de atenção e fluência verbal comprometidos em crianças com HSC [2]
Crescimento e densidade óssea: sem alterações significativas associadas ao HSC [2][4]
História Natural e Preditores de Progressão
O fator mais determinante da história natural do HSC é sua etiologia. [2][4]
HSC idiopático leve: [4]
Condição geralmente benigna e autolimitada
Risco de progressão para hipotireoidismo manifesto em torno de 11%
Probabilidade de normalização espontânea do TSH em torno de 40%
Sem alterações em crescimento, IMC, maturação óssea e função cognitiva mesmo após 2 a 5 anos sem tratamento
Tratamento com LT4 por 2 anos não modifica o curso natural da hipotirotropinemia nessa população
HSC relacionado à tireoidite de Hashimoto: [4]
Risco de deterioração da função tireoidiana superior a 50%
Probabilidade de normalização espontânea do TSH em torno de 20%
Crianças com Hashimoto que iniciam com HSC têm maior probabilidade de evoluir para hipotireoidismo manifesto ou hipertireoidismo ao longo do acompanhamento, em comparação com as que iniciam eutireóideas
A associação com síndrome de Turner ou Down agrava o prognóstico funcional tireoidiano
Preditores de progressão para hipotireoidismo manifesto: [2][4]
TSH elevado ao diagnóstico (especialmente > 10 mIU/L)
Sexo feminino e idade crescente
Presença de bócio
Anti-TPO positivo; nível crescente do anti-TPO é preditivo de disfunção tireoidiana iminente [5]
História familiar de doença tireoidiana autoimune
Doenças autoimunes associadas (doença celíaca) [4]
Síndromes genéticas (Down, Turner) [2][4]
Diagnóstico
Rastreio de Disfunção Tireoidiana
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) posiciona-se contra a triagem universal para hipotireoidismo, recomendando rastreio para grupos de alto risco. Não há recomendações específicas da SBEM para a população pediátrica. [5]
Situações com indicação de rastreio, mesmo na ausência de sintomas de hipotireoidismo franco: [5]
Baixa estatura ou velocidade de crescimento progressivamente diminuída com atraso de idade óssea: indicação legitimada pela literatura
Síndrome de Down: rastreio anual, iniciando ao nascimento, aos 6 meses, aos 12 meses e, a partir de então, anualmente [8]
Síndrome de Turner: rastreio anual conforme diretrizes internacionais
Diabetes mellitus tipo 1:
ISPAD 2022: ao diagnóstico de DM1 e a cada 1 a 2 anos; seguimento mais frequente se anticorpos positivos ou sintomas presentes [6]
ADA: após estabilização do diabetes; a cada 1 a 2 anos se resultado inicial normal
Dislipidemia: a American Thyroid Association (ATA) recomenda rastreio de disfunção tireoidiana em todos os pacientes com hipercolesterolemia
Doenças autoimunes associadas: doença celíaca, lúpus eritematoso sistêmico (LES), artrite idiopática juvenil (AIJ), síndrome de Sjögren
Histórico de radioterapia da glândula tireoidiana ou uso de amiodarona, lítio ou antiepilépticos
História familiar de doença autoimune da tireoide
Situações sem indicação de rastreio baseado em evidências: [5]
Obesidade isolada, sem outros sinais ou sintomas de hipotireoidismo: a obesidade é sequela da disfunção tireoidiana, não sua causa; a elevação de TSH é reversível com perda de peso; a Academia Americana de Pediatria não indica rastreio tireoidiano de rotina em crianças obesas
Avaliação Laboratorial
TSH e T4L: exames recomendados para triagem inicial e confirmação diagnóstica em crianças e adolescentes; T3 e sua fração livre adicionam custo à triagem e frequentemente apresentam valores anormais em indivíduos sem patologia tireoidiana, não sendo recomendados na avaliação inicial [5]
Hipotireoidismo primário: T4L baixo + TSH elevado [3]
Hipotireoidismo central: T4L baixo + TSH normal ou baixo; resposta diminuída ao TRH no teste de estimulação [3]
HSC: TSH elevado + T4L normal [2]
Diante de valores laboratoriais alterados, nova dosagem de TSH e T4L deve ser solicitada em intervalo de 2 a 3 meses para descartar erro laboratorial ou alteração transitória [2][5]
Anticorpos antitireoidianos (anti-TPO e anti-Tg): indicados após confirmação laboratorial de hipotireoidismo para investigação etiológica; o anti-TPO crescente é preditivo de disfunção tireoidiana iminente e útil para orientar seguimento e decisão terapêutica no HSC; anticorpos positivos podem ocorrer em crianças sem doença tireoidiana autoimune, o que limita seu uso isolado como teste de triagem [2][5]
Deve-se solicitar especialmente após os 4 anos em crianças com baixa estatura, retardo de crescimento, atraso de idade óssea ou outros sinais de hipotireoidismo [3]
Anti-TSHR: indicado particularmente em pacientes sem bócio, para identificar anticorpos bloqueadores que contribuem para atrofia glandular [1]
Tireoglobulina sérica: indica lesão do parênquima; pode ser marcador tumoral [3]
Perfil Bioquímico no Hipotireoidismo Grave por Tireoidite Autoimune
Os seguintes achados foram observados em série de 26 crianças com TSH > 100 µIU/mL por tireoidite autoimune: [1]
Hemograma
Redução de RBC em 38% dos casos; redução de hemoglobina em 42%
VCM normal ou discretamente elevado na maioria; correlação negativa significativa entre TSH e RBC (R = −0,75) e hemoglobina (R = −0,74)
Perfil lipídico
Colesterol total elevado (mediana: 255 mg/dL; ref. < 170 mg/dL)
LDL-C elevado (mediana: 170,4 mg/dL; ref. < 110 mg/dL)
Triglicerídeos elevados (mediana: 109,5 mg/dL; ref. < 90 mg/dL)
Correlações mais fortes com T4L e T3L do que com TSH
Enzimas hepáticas
AST elevada em 82% dos casos; ALT elevada em 65%
Predomínio de elevação de AST sobre ALT, sugerindo componente miopático associado
Função renal
Creatinina elevada em 4 pacientes; TFG reduzida em 11 dos 15 pacientes em que foi calculada
Comprometimento renal pode não se normalizar completamente mesmo após anos de tratamento
Avaliação por Imagem
Ultrassonografia da tireoide: [2][3]
Padrão hipoecogênico típico da tireoidite autoimune; pode preceder o surgimento dos anticorpos
Avaliação de volume glandular, nódulos e perfusão vascular
Nódulos tireoidianos requerem atenção especial: 10 a 25% podem corresponder a carcinomas [3]
TSH elevado em criança com nódulo tireoidiano é preditor independente de malignidade [2][4]
A SBEM não recomenda ultrassonografia de rotina na triagem; reserva-se para investigação de HSC persistente sem etiologia definida e seguimento de pacientes tratados e não tratados [5]
Cintilografia com radioisótopos (99mTc ou 123I): indicada para identificar glândula ectópica, agenesia ou disgenesias tireoidianas [3]
Ressonância magnética da hipófise: indicada na presença de cefaleia intensa, distúrbios visuais ou convulsões, para investigar hipertrofia hipofisária secundária ao hipotireoidismo grave [1]
Diagnóstico Diferencial
Deve ser realizado com: síndrome de Down, síndrome de Beckwith, mucopolissacaridoses, condrodistrofias, hipopituitarismo e obesidade. Ressalta-se que o hipotireoidismo raramente se associa à obesidade. [3]
Tratamento
Considerações:
A levotiroxina sódica (L-T4) é a droga de escolha para reposição hormonal no hipotireoidismo adquirido.
Permite a dosagem sérica de T4 para avaliação da eficácia e ajuste de dose, com meia-vida de aproximadamente 7 dias.
O estado de equilíbrio e a resposta clínica e bioquímica máxima são atingidos após 4 a 6 semanas de tratamento.
A reavaliação laboratorial após início ou ajuste de dose deve ser realizada com intervalo mínimo de 4 a 6 semanas. É administrada uma vez ao dia, pela manhã. [3][7]
Medicação:
Levotiroxina (Puran T4®, Euthyrox®) comp. 25 mcg, 50 mcg, 75 mcg, 88 mcg, 100 mcg, 112 mcg, 125 mcg, 150 mcg, 175 mcg, 200 mcg [3]
Doses recomendadas por faixa etária:
0 a 3 meses: 10 a 15 mcg/kg/dia
3 a 12 meses: 6 a 10 mcg/kg/dia
1 a 3 anos: 4 a 6 mcg/kg/dia
3 a 10 anos: 3 a 5 mcg/kg/dia
10 a 16 anos: 2 a 4 mcg/kg/dia
Reajuste de dose conforme variações laboratoriais [3]
Monitorar sinais de superdosagem: irritabilidade, insônia, rubor, diarreia, taquicardia, sudorese [3]
Em lactentes, doses excessivas podem provocar cranioestenose [3]
Monitorização cuidadosa dos níveis de TSH para evitar supressão abaixo do normal: HT estimulam reabsorção óssea e aumentam o número de osteoclastos em doses suprafisiológicas [3]
Indicações de Tratamento com LT4 no HSC
A decisão terapêutica deve ser individualizada, levando em conta o grau de elevação do TSH, a etiologia, a presença de sintomas, achados clínicos e bioquímicos e condições associadas. [2][4][5]
Tratamento recomendado: [2][4][5]
TSH > 10 mU/L, independentemente da etiologia
TSH entre 4,5 e 10 mU/L nas seguintes situações:
Presença de bócio
Sinais ou sintomas de hipotireoidismo
Tireoidite de Hashimoto com deterioração progressiva da função tireoidiana ao longo do tempo
Síndromes cromossômicas associadas (Down, Turner)
Etiologia genética confirmada
Nódulo tireoidiano ou bócio nodular (com objetivo de normalizar TSH e reduzir risco de carcinoma tireoidiano) [2][4]
Presença de anormalidades metabólicas pró-aterogênicas durante o seguimento [4]
Tratamento não indicado: [4]
HSC leve e idiopático com anticorpos antitireoidianos negativos, sem bócio, sem sintomas e sem evidência de tireoidite ao ultrassom: tratamento com LT4 por 2 anos não modifica o curso natural da hipotirotropinemia nessa população
Situações Especiais [2][5]
Neonatos com TSH persistentemente > 20 mIU/L com T4L normal: iniciar LT4
Neonatos com TSH entre 6 e 20 mIU/L com T4L normal: decisão individualizada
Anemia ferropriva com HSC e TSH > 10 mIU/L: LT4 melhora a resposta ao tratamento com reposição de ferro
Síndrome nefrótica com HSC: LT4 para evitar deterioração da função tireoidiana e os efeitos deletérios da deficiência hormonal
Uso de antiepilépticos ou IFN-alfa com TSH > 10 mIU/L: tratar até suspensão do medicamento causador [2]
HSC em criança com DM1: rastreio ao diagnóstico e seguimento periódico; decisão terapêutica conforme nível de TSH e presença de sintomas [5]
Monitorização sem Tratamento (HSC Leve Assintomático)
Em crianças com HSC leve (TSH 4,5 a 10 mU/L) sem indicação de tratamento: [2][4]
Avaliação de TSH e T4L a cada 6 meses
Anticorpos antitireoidianos e ultrassom anuais [2]
Após 2 anos com função tireoidiana estável, o intervalo de monitorização pode ser espaçado [4]
Acompanhamento especialmente necessário em crianças com alterações cromossômicas, doenças autoimunes associadas ou maior risco de progressão [2]
Ultrassonografia tireoidiana mantida no seguimento de pacientes tratados e não tratados com histórico de elevação de TSH, especialmente na presença de nódulo tireoidiano [4]
Acompanhamento Multidisciplinar
Crianças com hipotireoidismo que apresentam algum grau de comprometimento do desenvolvimento neuropsicomotor podem necessitar de acompanhamento fonoaudiológico, fisioterápico e psicopedagógico. [3]
Referências
[1] KUCHARSKA, Anna Małgorzata; WITKOWSKA-SĘDEK, Ewelina; LABOCHKA, Dominika; RUMINSKA, Małgorzata. Clinical and Biochemical Characteristics of Severe Hypothyroidism Due to Autoimmune Thyroiditis in Children. Frontiers in Endocrinology, v. 11, art. 364, jul. 2020. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fendo.2020.00364. Acesso em: 17 abr. 2026.
[2] METWALLEY, Kotb Abbass; FARGHALY, Hekma Saad. Subclinical hypothyroidism in children: updates for pediatricians. Annals of Pediatric Endocrinology & Metabolism, v. 26, p. 80-85, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.6065/apem.2040242.121. Acesso em: 17 abr. 2026.
[3] SETIAN, Nuvarte. Hypothyroidism in children: diagnosis and treatment. Jornal de Pediatria, v. 83, n. 5 (Supl.), p. S209-S216, 2007. Disponível em: https://doi.org/10.2223/JPED.1716. Acesso em: 17 abr. 2026.
[4] CRISAFULLI, Giuseppe; AVERSA, Tommaso; ZIRILLI, Giuseppina; PAJNO, Giovanni Battista; CORICA, Domenico; DE LUCA, Filippo; WASNIEWSKA, Malgorzata. Subclinical Hypothyroidism in Children: When a Replacement Hormonal Treatment Might Be Advisable. Frontiers in Endocrinology, v. 10, art. 109, fev. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fendo.2019.00109. Acesso em: 17 abr. 2026.
[5] CHAGAS, Nathalia Bordeira; ANTONELLI, Leonardo; FURINO, Vanessa; MELO, Debora Gusmão; GERMANO, Carla Maria Ramos. Triagem de hipotireoidismo em crianças: visão dos médicos da atenção primária à saúde de um município de médio porte. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Rio de Janeiro, v. 11, n. 38, p. 1-10, jan./dez. 2016. Disponível em: https://doi.org/10.5712/rbmfc11(38)1088. Acesso em: 17 abr. 2026.
[6] FRÖHLICH-REITERER, Elke et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Other complications and associated conditions in children and adolescents with type 1 diabetes. Pediatric Diabetes, v. 23, n. 8, p. 1451-1467, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1111/pedi.13445. Acesso em: 22 abr. 2026.
[7] JONKLAAS, Jacqueline et al. Guidelines for the Treatment of Hypothyroidism: Prepared by the American Thyroid Association Task Force on Thyroid Hormone Replacement. Thyroid, v. 24, n. 12, p. 1670-1751, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1089/thy.2014.0028. Acesso em: 22 abr. 2026.
[8] BULL, Marilyn J. et al. Health Supervision for Children and Adolescents With Down Syndrome. Pediatrics, v. 149, n. 5, e2022057010, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1542/peds.2022-057010.
[9] KRASSAS, Gerasimos E.; POPPE, Kris; GLINOER, Daniel. Thyroid Function and Human Reproductive Health. Endocrine Reviews, v. 31, n. 5, p. 702-755, 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1210/er.2009-0041. Acesso em: 22 abr. 2026.
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