Dor Torácica no Adulto: Diagnósticos Diferenciais
CID 10: R07.4 — Dor torácica não especificada
Introdução
Dor torácica é uma das principais causas de atendimento em serviços de emergência e APS. A maioria dos casos possui etiologia benigna e não cardiovascular, entretanto, o principal objetivo da avaliação inicial é identificar rapidamente causas potencialmente fatais.
O raciocínio clínico deve priorizar:
Identificação de instabilidade hemodinâmica
Reconhecimento de diagnósticos tempo-dependentes
Estratificação de risco
Definição racional de exames complementares
Principais diagnósticos ameaçadores à vida:
Síndrome coronariana aguda (SCA)
Dissecção aguda da aorta
Tromboembolismo pulmonar (TEP)
Pneumotórax hipertensivo
Tamponamento cardíaco
Ruptura esofágica
Na atenção primária, as causas mais prevalentes são:
Dor musculoesquelética
Doença do refluxo gastroesofágico
Transtornos ansiosos/pânico
Observações importantes:
A ausência de fatores de risco cardiovasculares não exclui doença grave.
A abordagem deve ser sistemática, protocolar e orientada pela probabilidade pré-teste.
Fluxograma Diagnóstico de Dor Torácica Aguda

Objetivos da Avaliação Inicial
🎯 Principal objetivo da avaliação inicial:
Identificar imediatamente situações de risco iminente de morte
Definir necessidade de:
Sala de emergência
Monitorização contínua
ECG seriado
Internação
Investigação complementar urgente
Diferenciar:
Dor isquêmica
Dor pleurítica
Dor musculoesquelética
Dor gastrointestinal
Dor psicogênica
Reduzir:
Subdiagnóstico de doenças graves
Excesso de exames desnecessários
Fluxo Inicial da Avaliação da Dor Torácica
Passo 1 — Avaliação Primária
Avaliar:
Via aérea
Respiração
Circulação
Estado neurológico
Verificar sinais de gravidade:
Hipotensão
Choque
Hipoxemia
Rebaixamento do nível de consciência
Cianose
Congestão pulmonar
Arritmias
Monitorização:
Oximetria
Monitor cardíaco
Pressão arterial
ECG em até 10 minutos
Em qualquer suspeita cardiovascular.
Passo 2 — Identificação de Diagnósticos Tempo-Sensíveis
Diagnósticos prioritários
Síndrome Coronariana Aguda - Dor em aperto, esforço, irradiação, fatores de risco;
Dissecção aórtica - Dor súbita, lancinante, migratória, assimetria de pulso;
TEP - Dispneia súbita, dor pleurítica, taquicardia;
Pneumotórax - Dor súbita + redução do MV;
Tamponamento cardíaco - Hipotensão + turgência jugular;
Ruptura esofágica - Dor após vômitos intensos + enfisema subcutâneo.
Caracterização da Dor Torácica
Anamnese Direcionada
Caracterização obrigatória da dor (Utilizar sistematicamente):
Início - Súbito ou progressivo;
Localização - Retroesternal, lateral, difusa;
Irradiação - Braço, mandíbula, dorso;
Qualidade - Aperto, peso, pontada, queimação;
Intensidade - Escala numérica;
Duração - Segundos, minutos, horas;
Fatores desencadeantes - Esforço, alimentação, movimento;
Fatores de melhora - Repouso, posição, analgésicos;
Sintomas associados - Dispneia, síncope, febre.
🫀 Dor tipicamente isquêmica
Retroesternal
Em aperto, pressão ou peso
Relacionada ao esforço ou estresse
Pode irradiar para:
Membros superiores
Mandíbula
Dorso
Epigástrio
Duração geralmente:
2–15 minutos
Melhora:
Repouso
Nitrato
🤔 Dor menos sugestiva de isquemia
Localizada à palpação
Pleurítica
Dependente da posição
Reprodutível ao movimento
Em pontada isolada
Duração de horas ou dias contínuos
Fatores de Risco Importantes
Cardiovasculares
HAS
DM
Dislipidemia
Tabagismo
DAC prévia
História familiar precoce
Tromboembólicos
Imobilização
Cirurgia recente
Neoplasia
TVP prévia
Uso de estrogênio
Aórticos
HAS grave
Síndrome de Marfan
Valva bicúspide
Cocaína
Exame Físico
Avaliação cardiovascular
Frequência cardíaca
Perfusão periférica
Ausculta cardíaca
Pulsos periféricos
PA em ambos os braços
Achados importantes
Assimetria de pulsos → Dissecção aórtica
Atrito pericárdico na ausculta → Pericardite
Hipofonese unilateral → Pneumotórax
Crepitações → Edema pulmonar
Dor reprodutível → Musculoesquelética
Principais Diagnósticos Diferenciais
🫀Síndrome Coronariana Aguda (SCA)
Quando suspeitar
Dor retroesternal em aperto
Relação com esforço
Dispneia associada
Náuseas ou sudorese
Equivalentes isquêmicos:
Dispneia isolada
Síncope
Mal-estar
ECG
Realizar em até 10 minutos
Repetir se persistência da dor:
A cada 10–20 minutos
Lembrar:
ECG inicial pode ser normal
Troponina
Preferir troponina ultrassensível
Interpretar conforme:
Tempo de início dos sintomas
Delta seriado
Valor absoluto
🫁Tromboembolismo Pulmonar
Quando suspeitar
Dispneia súbita
Dor pleurítica
Taquicardia
Hipoxemia
Hemoptise
Sinais de TVP
Estratégia diagnóstica
Baixa probabilidade
Wells ou YEARS
D-dímero
Probabilidade intermediária/alta
AngioTC de tórax
🫀Dissecção Aguda da Aorta
Sinais de alerta
Dor abrupta e intensa
Irradiação para dorso
Dor migratória
Assimetria de pulso/PA
Sopro de insuficiência aórtica
Exames úteis
Radiografia:
Mediastino alargado
D-dímero:
Pode auxiliar exclusão em baixo risco
AngioTC:
Exame de escolha
🫁Pneumotórax
Suspeitar quando
Dor torácica súbita unilateral
Dispneia aguda
Redução do murmúrio vesicular
Sinais de tensão
Hipotensão
Desvio traqueal
Hipoxemia grave
Exames
Radiografia
Ultrassom point-of-care
🫀Pericardite Aguda
Características
Dor ventilatório-dependente
Melhora sentado/inclinado para frente
Piora em decúbito
Achados
Atrito pericárdico
Supra difuso no ECG
Derrame pericárdico ao ECO
🦴Dor Musculoesquelética
Sugestiva quando
Dor localizada
Reprodutível à palpação
Relação com movimento
Ausência de sintomas sistêmicos
Diagnósticos comuns
Costocondrite
Contratura muscular
Trauma torácico
🤮Causas Gastrointestinais
Refluxo gastroesofágico
Queimação retroesternal
Relação pós-prandial
Piora ao deitar
Espasmo esofágico
Pode simular angina
Associado à disfagia
Ruptura esofágica
Dor intensa após vômitos
Enfisema subcutâneo
Instabilidade
🧠Causas Psiquiátricas
Considerar quando
Dor recorrente
Exames prévios normais
Associação com ansiedade
Hiperventilação
Atenção
Diagnóstico de exclusão
Não atribuir dor à ansiedade antes de excluir causas orgânicas relevantes
Estratificação de Risco





Exames Complementares
Eletrocardiograma
Indicações
Todo paciente com suspeita cardiovascular
Dor torácica aguda não explicada
Utilidades
SCA
Arritmias
Pericardite
Sobrecarga de VD
Radiografia de Tórax
Útil para identificar
Pneumotórax
Pneumonia
Derrame pleural
Alargamento mediastinal
Troponina
Utilidade
Diagnóstico de injúria miocárdica
Estratificação de risco
Limitações
Não define etiologia isoladamente
D-dímero
Indicações
Suspeita de TEP
Suspeita de dissecção em baixo risco
Não indicado
Alta probabilidade clínica
Ecocardiograma e POCUS
Utilidade na emergência
Disfunção segmentar
Derrame pericárdico
Sobrecarga de VD
Avaliação rápida da aorta
Pneumotórax
Situações que Exigem Investigação Acelerada
Dor persistente
ECG alterado
Troponina elevada
Instabilidade hemodinâmica
Hipoxemia
Síncope
Arritmias
Congestão pulmonar
Suspeita de:
TEP
Dissecção
Tamponamento
Pneumotórax hipertensivo
Armadilhas Comuns e Dicas Clínicas
⚠️Armadilhas Comuns:
ECG inicial normal não exclui SCA
Troponina normal isolada não exclui IAM precoce
Jovens também podem apresentar SCA
Ansiedade não deve ser diagnóstico inicial sem exclusão orgânica
Dor reprodutível não exclui totalmente SCA
Dissecção pode coexistir com IAM
💡Dicas Clínicas:
Palpar pulsos nos quatro membros em toda dor torácica aguda
Aferir PA bilateralmente
Repetir ECG em sintomas persistentes
Lembrar / considerar os equivalentes isquêmicos:
Dispneia (o equivalente mais frequente, especialmente em idosos)
Fadiga ou diminuição da tolerância ao esforço
Síncope ou sensação de tontura
Dor ou desconforto no ombro, mandíbula, pescoço, braço ou dorso
Dor epigástrica
Náuseas e vômitos
Diaforese
Palpitações
Sensação de queimação torácica
Dormência ou peso torácico
Novas anormalidades eletrocardiográficas
POCUS acelera diferenciação diagnóstica
Diagnósticos graves frequentemente coexistem com exames iniciais pouco alterados
Dor Torácica na Atenção Primária à Saúde
Avaliação inicial
Excluir sinais de gravidade
Identificar fatores de risco cardiovascular
Definir necessidade de encaminhamento
Encaminhar imediatamente se:
Dor típica anginosa
Dispneia importante
Síncope
Hipotensão
Saturação reduzida
Dor súbita intensa
Baixo risco
Dor reprodutível
Dor crônica estável
Associação clara com movimento
Ausência de sinais sistêmicos
Telemedicina
Encaminhar para avaliação presencial imediata se:
Dor súbita intensa
Dispneia
Síncope
Dessaturação
Dor típica isquêmica
Sinais de esforço respiratório
Limitações
Impossibilidade de:
Exame físico
ECG
Estratificação adequada de emergência
Referências
[1] COLLET, J. P. et al. 2020 ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes in patients presenting without persistent ST-segment elevation. European Heart Journal, 2021. Disponível em: https://academic.oup.com/eurheartj. Acesso em: 15 maio 2026.
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[4] GUSSO, G.; LOPES, J. M. C.; DIAS, L. C. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
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[6] KOHN, M. A.; WORSTER, A. ED Chest Pain Rules: Follow Your HEART? Academic Emergency Medicine, 2019. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com. Acesso em: 15 maio 2026.
[7] MOTT, T.; JONES, G.; ROMAN, K. Costochondritis: Rapid Evidence Review. American Family Physician, 2021. Disponível em: https://www.aafp.org. Acesso em: 15 maio 2026.
[8] NICOLAU, J. C. et al. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST – 2021. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2021. Disponível em: https://abccardiol.org. Acesso em: 15 maio 2026.
[9] SILVA, P. G. M. B. et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025. Disponível em: https://abccardiol.org. Acesso em: 15 maio 2026.
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