Disfagia: Abordagem Diagnóstica
CID-10: R13 — Disfagia
Introdução
Disfagia é a sensação de dificuldade na progressão do bolo alimentar da cavidade oral até o estômago.
Pode ocorrer em qualquer fase da deglutição:
Disfagia orofaríngea.
Disfagia esofágica.
Representa sintoma associado a amplo espectro de doenças estruturais, motoras, inflamatórias, neurológicas e sistêmicas.
A diferenciação inicial entre disfagia orofaríngea e esofágica é o principal passo da investigação diagnóstica, pois direciona os exames complementares subsequentes.
Sinais de alarme exigem investigação rápida devido ao risco de neoplasia, obstrução significativa ou complicações aspirativas.
Conceitos Fundamentais
Disfagia orofaríngea
Dificuldade em iniciar a deglutição.
Geralmente relacionada a doenças neurológicas, musculares ou alterações estruturais da orofaringe e laringe.
Frequentemente associada a:
Tosse durante alimentação.
Engasgos.
Regurgitação nasal.
Disfonia.
Aspiração.
Disfagia esofágica
Sensação de alimento parado após o início da deglutição.
Pode decorrer de:
Lesões mecânicas/estruturais.
Distúrbios motores do esôfago.
Odinofagia
Dor à deglutição.
Sugere principalmente:
Esofagite infecciosa.
Esofagite medicamentosa.
Esofagite cáustica.
Neoplasia.
Globus faríngeo
Sensação de “bolo na garganta” sem dificuldade objetiva para progressão alimentar.
Habitualmente não caracteriza disfagia verdadeira.
Objetivos da Avaliação Diagnóstica
Confirmar se o sintoma representa disfagia verdadeira.
Diferenciar disfagia orofaríngea de esofágica.
Identificar sinais de gravidade e necessidade de investigação urgente.
Diferenciar causas mecânicas de distúrbios motores.
Identificar risco de broncoaspiração.
Direcionar adequadamente os exames complementares.
Avaliação Clínica Inicial
Anamnese
Caracterizar:
Início.
Progressão.
Duração.
Intermitência.
Determinar o tipo de alimento associado:
Disfagia para sólidos inicialmente:
Sugere causa mecânica/obstrutiva.
Disfagia para sólidos e líquidos desde o início:
Sugere distúrbio motor.
Investigar sintomas associados:
Tosse durante alimentação.
Engasgos.
Aspiração.
Regurgitação nasal.
Pirose.
Regurgitação alimentar.
Dor torácica.
Perda ponderal.
Disfonia.
Sialorreia.
Halitose.
Impactação alimentar.
Avaliar antecedentes relevantes:
Doença cerebrovascular.
Doença de Parkinson.
Demência.
Miastenia gravis.
Esclerodermia.
Radioterapia cervical ou torácica.
Cirurgias prévias.
DRGE.
Tabagismo e etilismo.
Uso de medicamentos associados a esofagite medicamentosa.
⚠️ Sinais de alarme
Disfagia progressiva.
Perda ponderal involuntária.
Odinofagia.
Hemorragia digestiva.
Anemia ferropriva.
Vômitos persistentes.
Idade avançada com sintomas recentes.
História familiar de câncer gastrointestinal alto.
Rouquidão persistente.
Linfonodomegalias cervicais.
Pneumonia aspirativa recorrente.
Exame físico
Avaliação neurológica completa.
Avaliação do estado nutricional e hidratação.
Inspeção da cavidade oral e orofaringe.
Avaliação cervical:
Massas.
Linfonodos.
Bócio.
Avaliação da voz e qualidade da fala.
Pesquisa de sinais de doenças neuromusculares.
Abordagem da Disfagia Orofaríngea
Características clínicas sugestivas
Dificuldade para iniciar a deglutição.
Tosse imediata após ingestão.
Engasgos frequentes.
Voz “molhada”.
Regurgitação nasal.
Pneumonia aspirativa recorrente.
Etiologias na Disfagia Orofaríngea
Neurológicas
AVC.
Doença de Parkinson.
Demências.
Esclerose lateral amiotrófica.
Esclerose múltipla.
Neuromusculares
Miastenia gravis.
Miopatias inflamatórias.
Distrofias musculares.
Estruturais
Divertículo de Zenker.
Tumores de cabeça e pescoço.
Osteófitos cervicais/doença de Forestier.
Avaliação fonoaudiológica
Todo paciente com suspeita de disfagia orofaríngea deve ser avaliado por fonoaudiólogo.
Objetivos:
Avaliar segurança da via oral.
Identificar risco aspirativo.
Orientar consistências alimentares seguras.
Exames na Disfagia Orofaríngea
Videofluoroscopia da deglutição
Considerada padrão-ouro para avaliação funcional da disfagia orofaríngea.
Também denominada:
Deglutograma de bário modificado.
Videodeglutograma.
Permite avaliar:
Fases oral e faríngea da deglutição.
Penetração laríngea.
Aspiração.
Eficiência da deglutição.
Resposta a manobras compensatórias.
Videoendoscopia da deglutição (FEES)
Realizada por endoscopia flexível transnasal.
Permite visualização dinâmica das estruturas faríngeas e laríngeas.
Útil para:
Avaliação do risco aspirativo.
Avaliação seriada à beira-leito.
Pacientes sem condições de transporte.
Abordagem da Disfagia Esofágica
Raciocínio inicial
Diferenciar:
Causas mecânicas/estruturais.
Distúrbios motores.
Sugestão de causa mecânica
Disfagia progressiva.
Inicialmente para sólidos.
Perda ponderal associada.
Impactação alimentar.
Sugestão de distúrbio motor
Disfagia para sólidos e líquidos desde o início.
Sintomas intermitentes.
Dor torácica não cardíaca associada.
Exames na Disfagia Esofágica
Endoscopia Digestiva Alta (EDA)
Papel na investigação
Habitualmente representa o primeiro exame na investigação da disfagia esofágica.
Especialmente indicada na presença de sinais de alarme.
Objetivos
Identificar causas estruturais.
Permitir realização de biópsias.
Excluir neoplasia.
Avaliar esofagites.
Possibilitar intervenção terapêutica em casos selecionados.
Principais achados possíveis
Neoplasias esofágicas.
Estenoses pépticas.
Anéis e membranas esofágicas.
Esofagite eosinofílica.
Esofagites infecciosas.
Impactação alimentar.
Biópsias endoscópicas
Devem ser consideradas mesmo em mucosa macroscopicamente normal quando houver suspeita clínica de esofagite eosinofílica.
Esofagograma Contrastado
Indicações
Complementação da EDA.
EDA negativa com persistência dos sintomas.
Suspeita de alterações sutis não identificadas pela endoscopia.
Avaliação anatômica funcional complementar.
Situações em que pode ter maior sensibilidade
Pequenos anéis esofágicos.
Divertículos.
Doença de Forestier.
Distúrbios motores específicos.
Padrões radiológicos clássicos
“Bico de pássaro” - Acalásia;
“Saca-rolhas” - Espasmo esofagiano difuso;
“Maçã mordida” - Neoplasia esofágica.
Manometria Esofágica
Papel diagnóstico
Exame padrão-ouro para diagnóstico dos distúrbios motores do esôfago.
Preferencialmente realizada por manometria de alta resolução.
Principais indicações
Disfagia com EDA sem causa obstrutiva.
Suspeita de acalásia.
Suspeita de espasmo esofagiano.
Avaliação pré-operatória em algumas situações.
Classificação de Chicago
Utilizada para categorização dos distúrbios motores esofágicos.
Principais grupos:
Acalásia.
Obstrução da junção esofagogástrica.
Espasmo esofagiano distal.
Esôfago hipercontrátil.
Motilidade ineficaz.
Investigação Complementar Conforme Suspeita Clínica
Exames laboratoriais
Devem ser direcionados pela hipótese etiológica.
Possibilidades:
Hemograma.
Perfil inflamatório.
Sorologias específicas.
Autoanticorpos.
Função tireoidiana.
Creatinofosfoquinase.
Tomografia computadorizada
Pode ser útil em:
Compressões extrínsecas.
Tumores mediastinais.
Estadiamento oncológico.
Avaliação cervical.
Nasofibrolaringoscopia
Indicada especialmente em:
Rouquidão.
Suspeita de lesões laríngeas.
Sintomas orofaríngeos.
Diagnósticos Diferenciais Importantes
Causas orofaríngeas
AVC.
Doença de Parkinson.
Miastenia gravis.
Divertículo de Zenker.
Tumores de cabeça e pescoço.
Causas esofágicas mecânicas
Neoplasia esofágica.
Estenose péptica.
Anel de Schatzki.
Esofagite eosinofílica.
Compressão extrínseca.
Distúrbios motores
Acalásia.
Espasmo esofagiano distal.
Esôfago hipercontrátil.
Hipomotilidade esofágica.
Esclerodermia.
Referências
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