Automutilação e Ideação Suicida: Abordagem Inicial

CID 10: X84 — Lesão autoprovocada intencionalmente por meios não especificados

CID 10: X78 - Lesão autoprovocada intencionalmente por objeto cortante ou penetrante

CID 10: Z91.5 — História pessoal de lesão autoprovocada

Introdução

  • A automutilação e a ideação suicida representam situações clínicas frequentes em todos os níveis de atenção à saúde, especialmente na Atenção Primária, urgência e emergência.

    • Automutilação compreende comportamentos autolesivos com ou sem intenção suicida.

      • Pode incluir cortes, queimaduras, escoriações, intoxicações intencionais, ingestão medicamentosa excessiva e outros métodos.

    • Ideação suicida corresponde a pensamentos, desejos, planejamento ou intenção de provocar a própria morte.

  • O risco suicida é dinâmico:

    • Pode variar rapidamente conforme fatores ambientais, acesso a meios letais, uso de substâncias, impulsividade, suporte social e presença de transtornos mentais.

  • A abordagem clínica inicial deve priorizar:

    • Identificação do risco imediato.

    • Redução de danos e proteção da vida.

    • Manejo clínico e psiquiátrico inicial.

    • Definição do local adequado de seguimento.

    • Construção de plano de segurança.

  • O comportamento suicida é multifatorial:

    • Não deve ser interpretado como “manipulação”, “busca de atenção” ou “fraqueza moral”.

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Conceitos Importantes

  • Ideação suicida:

    • Pensamentos sobre morrer, desaparecer, não acordar ou provocar a própria morte.

  • Plano suicida:

    • Organização de método, local, horário ou preparação para o ato.

  • Tentativa de suicídio:

    • Comportamento autolesivo com intenção de morrer, independentemente da letalidade.

  • Automutilação não suicida:

    • Autolesão sem intenção declarada de morte.

    • Frequentemente associada a regulação emocional disfuncional.

  • Risco suicida iminente:

    • Presença de intenção atual, planejamento estruturado, acesso a método letal e incapacidade de pactuar segurança.

Fatores Associados e Sinais de Alerta

  • ‼️ Fatores de Risco

    • História prévia de tentativa de suicídio.

      • Principal fator de risco isolado.

    • Transtornos psiquiátricos:

      • Depressão.

      • Transtorno bipolar.

      • Esquizofrenia.

      • Transtornos relacionados ao uso de substâncias.

      • Transtorno de personalidade borderline.

      • Transtornos alimentares.

    • Uso abusivo de álcool e outras drogas.

    • Impulsividade importante.

    • Dor crônica ou doenças incapacitantes.

    • Histórico de violência, abuso físico ou sexual.

    • Luto recente, separação, desemprego ou perdas significativas.

    • Isolamento social.

    • Tentativas recentes na família ou exposição a suicídio.

    • Acesso facilitado a meios letais:

      • Armas de fogo.

      • Medicamentos.

      • Agrotóxicos.

      • Cordas.

      • Locais altos.

    • Populações vulneráveis:

      • Adolescentes.

      • Pessoas LGBTQIA+.

      • Povos indígenas.

      • Idosos.

      • Pessoas privadas de liberdade.

  • ✅ Fatores de Proteção

    • Rede familiar e social estruturada.

    • Vinculação ao serviço de saúde.

    • Espiritualidade ou religiosidade.

    • Responsabilidades familiares.

    • Boa capacidade de resolução de problemas.

    • Acesso facilitado a tratamento em saúde mental.

    • Ausência de acesso a meios letais.

  • ⚠️ Sinais de Alerta

    • Verbalizações diretas:

      • “Queria morrer.”

      • “Vocês ficariam melhor sem mim.”

      • “Não aguento mais.”

    • Pesquisa sobre métodos suicidas.

    • Organização de despedidas.

    • Doação de pertences.

    • Isolamento social progressivo.

    • Agravamento abrupto de sintomas depressivos.

    • Agitação psicomotora intensa.

    • Mudança súbita de comportamento após período depressivo.

    • Automutilação recorrente.

    • Intoxicação alcoólica ou por drogas associada a desesperança.

Avaliação Inicial

  • Considerações:

    • A abordagem deve ser direta, empática e sem julgamentos.

    • Perguntar sobre suicídio não induz comportamento suicida.

  • Deve-se avaliar:

    • Ideação suicida atual.

    • Frequência e intensidade dos pensamentos.

    • Existência de plano.

    • Letalidade do método.

    • Acesso ao método.

    • Intenção de morrer.

    • Tentativas prévias.

    • Uso de álcool e drogas.

    • Rede de apoio.

    • Presença de psicose, agitação ou impulsividade.

  • Perguntas úteis na avaliação

    • “Tem pensado em morrer ou em machucar a si mesmo?”

    • “Já pensou em como faria isso?”

    • “Tem acesso ao método?”

    • “Já tentou antes?”

    • “O que impede você de fazer isso agora?”

    • “Existe alguém com quem possa contar?”

  • Registro em Prontuário

    • Registrar:

      • Ideação suicida.

      • Existência de plano.

      • Fatores de risco e proteção.

      • Exame do estado mental.

      • Orientações e encaminhamentos realizados.

Estratificação do Risco

🔵 Baixo risco

  • Critérios:

    • Ideação passiva.

    • Ausência de plano estruturado.

    • Sem intenção atual.

    • Boa crítica e cooperação.

    • Rede de apoio presente.

    • Ausência de tentativa recente.

  • Conduta:

    • Manejo ambulatorial possível.

    • Construir plano de segurança.

    • Orientar retirada de meios letais.

    • Encaminhar para acompanhamento em saúde mental.

    • Reavaliar precocemente.

🟠 Risco moderado

  • Critérios:

    • Ideação frequente.

    • Plano pouco estruturado.

    • Ambivalência importante.

    • Histórico de tentativa prévia.

    • Uso de substâncias.

    • Suporte social limitado.

  • Conduta:

    • Avaliação psiquiátrica prioritária.

    • Considerar observação em serviço de urgência.

    • Não liberar desacompanhado.

    • Intensificar seguimento.

    • Construir plano de segurança formal.

🔴 Alto risco

  • Critérios:

    • Plano definido.

    • Intenção atual de morrer.

    • Acesso imediato a método letal.

    • Tentativa recente.

    • Psicose, comando alucinatório ou agitação grave.

    • Incapacidade de pactuar segurança.

    • Ausência de suporte social.

  • Conduta

    • Encaminhamento imediato para emergência psiquiátrica.

    • Considerar internação psiquiátrica.

    • Vigilância contínua.

    • Não deixar o paciente sozinho.

    • Remover meios letais.

    • Acionar familiares ou rede de apoio.

Exame do Estado Mental

  • Aparência e autocuidado.

  • Nível de consciência.

  • Humor e afeto.

  • Presença de desesperança.

  • Conteúdo do pensamento:

    • Ideias suicidas.

    • Delírios.

    • Culpa excessiva.

  • Percepção:

    • Alucinações auditivas de comando.

  • Juízo crítico.

  • Impulsividade.

  • Capacidade de planejamento.

Manejo Inicial na Atenção Primária

Medidas iniciais:

  • Realizar acolhimento qualificado.

  • Garantir ambiente reservado.

  • Evitar postura confrontadora ou moralizante.

  • Avaliar necessidade de suporte clínico imediato.

  • Investigar comorbidades psiquiátricas.

  • Orientar familiares e cuidadores.

  • Elaborar plano terapêutico singular.

  • Definir periodicidade de seguimento.

  • Registrar detalhadamente a avaliação em prontuário.

Medidas de segurança

  • Restrição de acesso a:

    • Armas.

    • Medicamentos.

    • Agrotóxicos.

    • Objetos perfurocortantes.

  • Orientar supervisão familiar em crises agudas.

  • Evitar permanência isolada quando houver risco elevado.

Plano de Segurança

  • Estratégia estruturada para manejo de crises.

  • Deve ser simples, escrita e compartilhada com paciente e familiares.

Componentes do plano

  • Identificação de sinais de piora.

  • Estratégias pessoais de enfrentamento.

  • Pessoas de confiança para contato.

  • Serviços de emergência disponíveis.

  • Restrição de meios letais.

  • Combinação de retorno precoce.

Critérios para Encaminhamento Imediato à Emergência

  • Tentativa de suicídio recente.

  • Intoxicação exógena.

  • Lesões graves.

  • Rebaixamento do nível de consciência.

  • Psicose aguda.

  • Agitação psicomotora grave.

  • Intenção suicida persistente.

  • Incapacidade de pactuar segurança.

  • Falha de suporte familiar.

  • Alto risco social.

Critérios para Internação Psiquiátrica

  • Alto risco de suicídio.

  • Tentativa com elevada letalidade.

  • Persistência de intenção suicida.

  • Psicose grave.

  • Mania grave.

  • Dependência química grave associada.

  • Incapacidade de autocuidado.

  • Ausência de suporte social mínimo.

Manejo Farmacológico Inicial

Considerações:

  • O tratamento farmacológico depende do transtorno de base.

  • Não existe medicamento específico para “ideação suicida”.

  • Deve-se evitar fornecer grandes quantidades de medicações potencialmente letais.

  • Benzodiazepínicos podem ser úteis em situações selecionadas de ansiedade intensa ou agitação.

  • Antidepressivos podem ser indicados quando houver transtorno depressivo.

    • Monitorar piora inicial da impulsividade, especialmente em adolescentes e adultos jovens.

Se agitação psicomotora:

  • Haloperidol (Haldol®) sol. inj. 5 mg/mL

    • 2,5 a 5 mg IM.

    • Pode repetir conforme resposta clínica.

    • Dose máxima habitual: 20 mg/dia.

    • Monitorar sintomas extrapiramidais e prolongamento de QT.

  • Prometazina (Fenergan®) sol. inj. 25 mg/mL

    • 25 a 50 mg IM associada ao haloperidol em casos selecionados.

    • Evitar em idosos frágeis.

  • Diazepam (Valium®) sol. inj. 10 mg/2mL

    • 5 a 10 mg IV lento ou IM.

    • Monitorar depressão respiratória.

    • Maior cautela em idosos e em associação com álcool.

Se episódio depressivo associado:

  • Sertralina (Zoloft®) comp. 25 mg ou 50 mg

    • Iniciar com 25 a 50 mg/dia.

    • Ajustar gradualmente conforme resposta.

    • Dose habitual: 50 a 200 mg/dia.

  • Escitalopram (Lexapro®) comp. 10 mg ou 20 mg

    • Iniciar com 5 a 10 mg/dia.

    • Dose habitual: 10 a 20 mg/dia.

Situações Especiais

Considerações:

  • Antidepressivos possuem latência terapêutica.

  • O início do tratamento não elimina risco suicida imediato.

  • Reavaliação precoce é mandatória.

  • Em adolescentes, monitorar intensivamente nas primeiras semanas.

População Pediátrica e Adolescente

  • Automutilação é frequente na adolescência.

  • Deve-se diferenciar:

    • Comportamento exploratório isolado.

    • Regulação emocional disfuncional.

    • Tentativa suicida estruturada.

  • Fatores associados:

    • Bullying.

    • Violência.

    • Conflitos familiares.

    • Redes sociais.

    • Transtornos psiquiátricos.

  • A presença de automutilação aumenta risco futuro de tentativa de suicídio.

  • Condutas específicas:

    • Entrevistar adolescente e responsáveis.

    • Avaliar violência e abuso.

    • Investigar uso de substâncias.

    • Articular escola e rede intersetorial quando necessário.

    • Evitar banalização do comportamento autolesivo.

Idosos

  • Tentativas tendem a apresentar maior letalidade.

  • Associar investigação de:

    • Depressão.

    • Dor crônica.

    • Luto.

    • Isolamento.

    • Declínio funcional.

  • Maior atenção a verbalizações indiretas:

    • “Sou um peso.”

    • “Minha vida acabou.”

Uso de álcool e outras drogas

  • Associado a maior impulsividade e risco de tentativa.

  • Reavaliar risco após estabilização clínica.

Pacientes psicóticos

  • Maior risco na presença de:

    • Alucinações auditivas de comando.

    • Delírios persecutórios.

    • Agitação importante.

  • Necessitam avaliação psiquiátrica urgente.

Condutas Contraindicadas

  • Algumas condutas contraindicadas no manejo da Automutilação e Ideação Suicida:

    • Minimizar sofrimento.

    • Julgar ou confrontar.

    • Utilizar frases como:

      • “Isso é falta de Deus.”

      • “Quem quer se matar não avisa.”

      • “Você quer chamar atenção.”

    • Prometer sigilo absoluto diante de risco iminente.

    • Liberar paciente grave desacompanhado.

Notificação

  • Casos de violência autoprovocada e tentativa de suicídio são de notificação compulsória.

  • Deve-se seguir o fluxo local e as normativas do Ministério da Saúde.

  • Em crianças e adolescentes, considerar investigação de violência e necessidade de acionamento da rede de proteção.

Seguimento Ambulatorial

  • O risco de recorrência é maior nas primeiras semanas após a crise.

  • Recomenda-se:

    • Retorno precoce.

    • Reavaliação frequente de ideação, plano suicida e acesso a meios letais.

    • Coordenação do cuidado pela APS.

    • Integração com CAPS e rede especializada.

    • Orientação familiar.

Abordagem Familiar

  • Orientar familiares a:

    • Não minimizar falas suicidas.

    • Restringir acesso a meios letais.

    • Não deixar paciente grave sozinho.

    • Procurar emergência diante de agravamento clínico.

Rede de Apoio e Serviços

  • USF (Unidade de Saúde da Família) / Estratégia Saúde da Família.

  • CAPS.

  • UPA.

  • Emergência hospitalar.

  • SAMU 192.

  • Centro de Valorização da Vida (CVV) — telefone 188.

Referências

[1] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Practice guideline for the assessment and treatment of patients with suicidal behaviors. Arlington: APA, 2024. Disponível em: American Psychiatric Association. Acesso em: 24 maio 2026.

[2] Associação Brasileira de Psiquiatria. Suicídio: informando para prevenir. Brasília: CFM/ABP, 2022. Disponível em: Associação Brasileira de Psiquiatria. Acesso em: 24 maio 2026.

[3] BRASIL. Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019. Institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. Brasília: Presidência da República, 2019. Disponível em: Planalto – Lei 13.819/2019. Acesso em: 24 maio 2026.

[4] BRASIL. Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – Suicídio (Prevenção). Acesso em: 24 maio 2026.

[5] DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Manual de orientações para o atendimento à pessoa em risco de suicídio. Brasília: SES-DF, 2021. Disponível em: Manual SES-DF – Atendimento à pessoa em risco de suicídio. Acesso em: 24 maio 2026.

[6] World Health Organization. Suicide worldwide in 2019: global health estimates. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: WHO – Suicide worldwide in 2019. Acesso em: 24 maio 2026.

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