Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) no Adulto

CID 10: F42 — Transtorno obsessivo-compulsivo

Introdução

  • O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é um transtorno psiquiátrico caracterizado pela presença de:

    • obsessões;

    • compulsões;

    • ou ambos.

  • Atualmente, o TOC integra o grupo dos “Transtornos Obsessivo-Compulsivos e Relacionados” no DSM-5.

    • As obsessões consistem em:

      • pensamentos;

      • impulsos;

      • imagens recorrentes e intrusivas;

      • percebidos como indesejados e geradores de ansiedade.

    • As compulsões correspondem a:

      • comportamentos repetitivos;

      • atos mentais;

      • executados para reduzir ansiedade ou prevenir eventos temidos.

  • O curso tende a ser:

    • crônico;

    • flutuante;

    • com importante prejuízo funcional quando não tratado.

  • A idade de início ocorre frequentemente:

    • adolescência;

    • início da vida adulta.

  • É comum associação com:

    • transtornos de ansiedade;

    • depressão maior;

    • transtorno de tique;

    • transtorno dismórfico corporal;

    • transtornos relacionados ao uso de substâncias.

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Critérios Diagnósticos

Características essenciais

  • Obsessões

    • Pensamentos, impulsos ou imagens:

      • recorrentes;

      • persistentes;

      • intrusivos;

      • indesejados.

    • Associados a:

      • ansiedade;

      • angústia;

      • desconforto intenso.

    • O indivíduo tenta:

      • ignorar;

      • neutralizar;

      • suprimir;

      • compensar com compulsões.

  • Compulsões

    • Comportamentos repetitivos:

      • lavagem;

      • checagem;

      • ordenação;

      • contagem.

    • Ou atos mentais:

      • rezar;

      • repetir palavras;

      • neutralizações mentais.

    • Executados conforme:

      • regras rígidas;

      • sensação de obrigação.

    • Objetivam:

      • reduzir ansiedade;

      • prevenir evento temido.

    • Não possuem relação realista com o evento temido ou são claramente excessivos.

Critérios adicionais

  • Consumo significativo de tempo:

    • 1 hora/dia;

    • ou prejuízo funcional relevante.

  • Não atribuível:

    • a substâncias;

    • condição médica;

    • outro transtorno mental.

Epidemiologia

  • Prevalência ao longo da vida:

    • aproximadamente 2–3%.

  • Distribuição semelhante entre sexos na vida adulta.

  • Maior prevalência de início precoce em homens.

  • Frequentemente subdiagnosticado:

    • vergonha;

    • ocultação dos sintomas;

    • baixa procura espontânea.

Quadro Clínico

Sintomas obsessivos frequentes

  • Contaminação

  • Dúvida patológica

  • Necessidade de simetria

  • Pensamentos agressivos

  • Conteúdo sexual intrusivo

  • Conteúdo religioso/moral

  • Medo de causar dano

  • Pensamentos proibidos ou tabu

Compulsões frequentes

  • Lavagem excessiva

  • Checagem repetitiva

  • Repetição ritualística

  • Ordenação

  • Contagem

  • Acúmulo

  • Busca de reassurance

  • Rituais mentais

Achados associados

  • Evitação comportamental

  • Lentificação funcional

  • Sofrimento subjetivo intenso

  • Insight variável:

    • bom;

    • razoável;

    • pobre;

    • ausente/delirante.

Avaliação Clínica

Anamnese

  • Caracterizar:

    • tipo de obsessão;

    • tipo de compulsão;

    • gatilhos;

    • tempo consumido;

    • impacto funcional.

  • Avaliar:

    • insight;

    • sofrimento psíquico;

    • risco de suicídio;

    • comorbidades psiquiátricas.

  • Investigar:

    • uso de substâncias;

    • história familiar;

    • história de tique.

Escalas úteis

  • Y-BOCS (Yale-Brown Obsessive Compulsive Scale)

    • principal escala de gravidade.

  • PHQ-9

  • GAD-7

Diagnósticos diferenciais

  • Transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva

  • Transtorno de ansiedade generalizada

  • Transtorno depressivo maior

  • Esquizofrenia

  • Transtorno delirante

  • Transtorno dismórfico corporal

  • Transtorno de acumulação

  • Transtornos de tique

  • TEA

Manejo Inicial na APS

Objetivos

  • Redução da gravidade dos sintomas

  • Recuperação funcional

  • Prevenção de cronificação

  • Identificação precoce de risco suicida

  • Encaminhamento adequado

Medidas iniciais

  • Psicoeducação:

    • explicar natureza involuntária dos sintomas;

    • reduzir culpa e vergonha;

    • orientar familiares.

  • Avaliar gravidade:

    • leve;

    • moderada;

    • grave.

  • Investigar comorbidades.

  • Excluir causas secundárias.

Tratamento Não Medicamentoso

Terapia cognitivo-comportamental (TCC)

  • Principal modalidade

    • TCC com exposição e prevenção de resposta (EPR/ERP).

    • Considerada tratamento de primeira linha.

    • Pode ser:

      • individual;

      • grupo;

      • guiada;

      • teleatendimento.

  • Componentes principais

    • Exposição gradual ao estímulo ansiogênico

    • Prevenção do ritual compulsivo

    • Reestruturação cognitiva

    • Habituação da ansiedade

  • Indicações

    • TOC leve a moderado:

      • TCC isolada pode ser suficiente.

    • TOC moderado a grave:

      • preferir associação com farmacoterapia.

Tratamento Medicamentoso

Considerações gerais

  • ISRS são primeira linha (monoterapia)

    • ⚠️ Não associar medicamentos da mesma classe.

  • TOC frequentemente exige:

    • doses mais altas;

    • tempo terapêutico maior;

    • resposta mais lenta que depressão.

  • Avaliar resposta após:

    • 8 a 12 semanas;

    • sendo ideal pelo menos 4–6 semanas em dose máxima tolerada.

  • Após resposta:

    • manter tratamento por pelo menos 1–2 anos.

  • Suspensão:

    • gradual;

    • lenta;

    • monitorando recaída.

Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS)

  • Fluoxetina (Prozac®) caps. 20 mg

    • Iniciar 20 mg VO pela manhã.

    • Titulação gradual conforme resposta.

    • Dose usual: 40–60 mg/dia.

    • Dose máxima: 80 mg/dia.

    • Pode aumentar ansiedade nas primeiras semanas.

  • Sertralina (Zoloft®) comp. 25 mg, 50 mg ou 100 mg

    • Iniciar 25–50 mg VO/dia.

    • Aumentar progressivamente.

    • Dose usual: 100–200 mg/dia.

    • Dose máxima: 200 mg/dia.

  • Fluvoxamina (Luvox®) comp. 50 mg ou 100 mg

    • Iniciar 50 mg VO à noite.

    • Ajustar gradualmente.

    • Dose usual: 100–300 mg/dia.

    • Dose máxima: 300 mg/dia.

    • Maior potencial de interações medicamentosas.

  • Paroxetina (Pondera®) comp. 20 mg

    • Iniciar 20 mg VO/dia.

    • Dose usual: 40–60 mg/dia.

    • Dose máxima: 60 mg/dia.

    • Maior risco de síndrome de descontinuação.

  • Escitalopram (Lexapro®) comp. 10 mg ou 20 mg

    • Iniciar 10 mg VO/dia.

    • Dose usual: 20 mg/dia.

    • Alguns casos exigem doses superiores sob acompanhamento especializado.

  • Citalopram (Cipramil®) comp. 20 mg ou 40 mg

    • Iniciar 20 mg VO/dia.

    • Dose usual: 40 mg/dia.

    • Evitar doses elevadas pelo risco de prolongamento do QT.

Tricíclico serotoninérgico.

  • Considerações

    • A clomipramina é considerado eficaz no TOC.

    • Maior carga de efeitos adversos comparado aos ISRS.

    • Geralmente reservado para:

      • falha aos ISRS;

      • resposta parcial.

  • Clomipramina (Anafranil®) comp. 10 mg, 25 mg ou 75 mg

    • Iniciar 25 mg VO à noite.

    • Aumentar gradualmente.

    • Dose usual: 100–250 mg/dia.

    • Dose máxima: 250 mg/dia.

    • Monitorar:

      • hipotensão;

      • sedação;

      • constipação;

      • retenção urinária;

      • alterações cardíacas.

TOC Resistente

Definição

  • Resposta inadequada após:

    • TCC adequada;

    • pelo menos 2 ensaios adequados com ISRS/clomipramina.

Estratégias

  • Otimização da dose

  • Associação TCC + farmacoterapia

  • Troca de ISRS

  • Clomipramina

  • Potencialização com antipsicótico

Potencialização antipsicótica

  • Risperidona (Risperdal®) comp. 1 mg ou 2 mg

    • Iniciar 0,5–1 mg VO à noite.

    • Dose usual: 1–3 mg/dia.

    • Monitorar:

      • sintomas extrapiramidais;

      • hiperprolactinemia;

      • ganho ponderal.

  • Aripiprazol (Abilify®) comp. 10 mg ou 15 mg

    • Iniciar 5 mg VO/dia.

    • Dose usual: 10–15 mg/dia.

Situações Especiais

Risco de suicídio

  • Avaliar:

    • desesperança;

    • depressão associada;

    • ideação suicida.

  • Maior risco:

    • sintomas graves;

    • comorbidade depressiva;

    • baixo funcionamento global.

Gravidez

  • Individualizar risco-benefício.

  • Sertralina costuma apresentar melhor perfil de segurança relativo.

  • Evitar mudanças abruptas.

Internação psiquiátrica

  • Considerar quando:

    • Risco suicida importante

    • Incapacidade funcional extrema

    • Desnutrição/autonegligência

    • Compulsões incapacitantes

    • Comorbidade grave

Critérios de Encaminhamento

Encaminhar para psiquiatria

  • Dúvida diagnóstica

  • TOC moderado a grave

  • Falha terapêutica inicial

  • Risco suicida

  • Psicose associada

  • Necessidade de potencialização

  • Comorbidades complexas

Encaminhar para psicoterapia especializada

  • Necessidade de EPR estruturada

  • Recaídas frequentes

  • Evitação importante

  • Prejuízo funcional persistente

Prognóstico

  • Melhor prognóstico:

    • início gradual;

    • bom insight;

    • boa adesão;

    • resposta precoce.

  • Pior prognóstico:

    • início precoce;

    • sintomas graves;

    • tiques;

    • comorbidade psiquiátrica;

    • insight pobre.

Referências

[1] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed. Washington: APA Publishing, 2022. Disponível em: American Psychiatric Association. Acesso em: 24 maio 2026.

[2] GREENBERG, William M. Obsessive-Compulsive Disorder Guidelines. Medscape, 2024. Disponível em: Medscape OCD Guidelines. Acesso em: 24 maio 2026.

[3] NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Obsessive-compulsive disorder and body dysmorphic disorder: treatment. NICE Guideline CG31. Londres, 2024. Disponível em: NICE Guideline CG31. Acesso em: 24 maio 2026.

[4] NATIONAL COLLABORATING CENTRE FOR MENTAL HEALTH. Obsessive-Compulsive Disorder: Core Interventions in the Treatment of Obsessive-Compulsive Disorder and Body Dysmorphic Disorder. Leicester: British Psychological Society, 2006. Disponível em: NCBI Bookshelf OCD Guideline. Acesso em: 24 maio 2026.

Autoria e Curadoria

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