Abdome Agudo Obstrutivo no Adulto
CID-10: K56 — Íleo paralítico e obstrução intestinal sem hérnia
CID-10: K564 - Outras obstruções do intestino
Introdução
O abdome agudo é definido pela presença de dor abdominal aguda, de origem não traumática, com intensidade suficiente para levar o paciente a procurar atendimento médico. [4]
O abdome agudo obstrutivo (AAO) é caracterizado pela interrupção do trânsito intestinal, culminando em quadro clínico com dores abdominais difusas do tipo cólica ou periumbilicais, acompanhadas de náuseas, vômitos, parada de eliminação de flatos e fezes, e distensão abdominal progressiva. [1]
O AAO corresponde a aproximadamente 20% dos casos de abdome agudoatendidos no departamento de emergência. [2] O paciente pode se apresentar de formas variadas, desde quadros graves com necessidade de abordagem cirúrgica imediata até situações que demandam apenas conduta e seguimento clínico. [1]
A avaliação diagnóstica parte da anamnese e do exame físico, com exames complementares solicitados de acordo com a suspeita clínica e a etiologia identificada. [2] O diagnóstico preciso e oportuno é fundamental, uma vez que a maior parte das etiologias é potencialmente fatal se não tratada adequadamente
Classificação
A obstrução intestinal pode ser classificada de acordo com três critérios principais: [1][2]
Mecanismo etiológico
Obstrutivo mecânico: existe um obstáculo físico, como massa estenosante ou torção, fechando a luz intestinal e impedindo a progressão do trânsito, geralmente em um único ponto
Causas mais comuns: aderências, hérnias e tumores [1][2]
Outras causas: diverticulite, corpo estranho (incluindo cálculos biliares), vólvulo (torção do intestino no seu mesentério), intussuscepção (invaginação de um segmento intestinal para dentro do segmento adjacente, podendo ocorrer em qualquer porção do intestino, sendo a junção ileocecal a localização mais comum em adultos) e impactação fecal [1][2]
Obstrutivo funcional (íleo adinâmico ou paralítico): alterações neuro-hormonais com supressão do sistema nervoso parassimpático levam a hipotonia ou atonia do tubo digestivo; ocorre tipicamente em pós-operatórios abdominais (manipulação de alças) e em pacientes graves, sépticos e politraumatizados [1][2]
Destaque para a pseudo-obstrução colônica aguda (síndrome de Ogilvie) [1][4]
Altura do trato digestivo [1][2]
Alta: obstrução do intestino delgado
Baixa: obstrução do cólon
Grau de oclusão [1][2]
Completa: bloqueio total do trânsito
Parcial (sub-oclusão): parte das secreções e do gás intestinal ainda progride
Alça fechada: a lesão oclui o mesmo segmento de alça em dois pontos
Fisiopatologia
Na obstrução intestinal, ocorre um bloqueio do fluxo alimentar. Alimentos, líquidos ingeridos, secreções digestivas e gás acumulam-se acima do nível da obstrução. [1][2]
Obstrução simples (sem comprometimento vascular) [2]
O intestino proximal distende-se e o distal sofre colapso
As funções secretoras e absortivas da mucosa ficam prejudicadas
A parede intestinal torna-se edemaciada e congesta
A distensão intestinal é autoperpetuada e progressiva, intensificando o peristaltismo e os distúrbios secretórios, aumentando os riscos de desidratação e progressão para obstrução por estrangulamento
Obstrução por estrangulamento (com comprometimento vascular) [2]
Ocorre em aproximadamente 25 a 40% dos pacientes com obstrução do intestino delgado, sendo a estimativa variável conforme a etiologia e o tempo de evolução
Frequentemente associada a hérnias, vólvulo e intussuscepção
A obstrução venosa ocorre primeiro, seguida de oclusão arterial, resultando em rápida isquemia da parede intestinal
O intestino isquêmico torna-se edemaciado e infartado, podendo evoluir para gangrena e perfuração em tempo tão curto quanto 6 horas
Na obstrução do intestino grosso, o estrangulamento é raro, exceto com o vólvulo
Risco de perfuração [2]
Pode ocorrer em segmento isquêmico (tipicamente do intestino delgado) ou quando há grande dilatação
O risco é alto quando o ceco se dilata até diâmetro maior ou igual a 13 cm
A perfuração de um tumor ou divertículo pode ocorrer no local da obstrução
Quadro Clínico
O paciente com AAO apresenta tipicamente: [1][2]
Dor abdominal: referida como dor em cólica, difusa ou periumbilical
Obstrução alta: dor mais intensa, de menor duração e com intervalo entre episódios mais curto; isso ocorre porque a frequência e intensidade das ondas peristálticas e o calibre das alças diferem entre o intestino delgado e o intestino grosso [2]
Obstrução baixa: dor menos intensa e de maior duração [1][2]
Progressão para dor parietal: ocorre quando os receptores são ativados por inflamação, estiramento ou ruptura; transmitida por fibras mielinizadas, é descrita como mais aguda, intensa e localizada [1]
Vômitos: o aspecto depende do local da obstrução [1]
Conteúdo gástrico ou biliar nas obstruções altas
Aspecto fecaloide nas obstruções baixas e nas fases mais avançadas
Parada de eliminação de flatos e fezes [1][2]
Distensão abdominal progressiva [1][2]
Náuseas [1][2]
Febre: pode estar presente nos casos de complicação (isquemia, perfuração, sepse) [2][4]
Diagnóstico
Anamnese Dirigida
Os principais elementos a serem pesquisados na história clínica incluem: [1][2]
Localização, irradiação, início, frequência e duração da dor
Descrição da dor (tipo: cólica, aperto, pontada)
Sintomas associados: náuseas, vômitos, febre, constipação, anorexia
Intensidade da dor (escala numérica de 0 a 10)
Histórico médico anterior, incluindo cirurgias prévias (risco de obstrução por aderências)
Histórico de medicamentos que possam causar constipação (opioides)
Perda ponderal importante e rápida (suspeita de neoplasia) [2]
Exame Físico
O exame físico deve ser focado, completo e concluído prontamente. O objetivo principal é determinar quais pacientes necessitam de intervenção urgente ou emergencial. [1]
Sinais vitais e estado geral: observar alterações hemodinâmicas e grau de desconforto [1]
Inspeção abdominal: [1]
Distensão abdominal
Abaulamentos sugestivos de hérnia encarcerada ou estrangulada
Ausculta: [1]
Ruídos intestinais agudos (hiperativos): sugestivos de obstrução mecânica em fase inicial
Ruídos ausentes ou hipoativos: sugestivos de íleo paralítico ou obstrução avançada
Timpanismo à percussão: indica distensão de alças
Palpação: [1]
Sensibilidade difusa ou localizada
Pesquisa de massas palpáveis
Paciente completamente imobilizado com dor aumentada: sinal de peritonite
Toque retal com anuscopia: obrigatório nos casos de suspeita de obstrução intestinal, a fim de identificar possíveis massas ou obstruções baixas [1][4]
Achados clássicos que devem gerar suspeita de AAO: dor, vômitos e obstipação, associados a distensão abdominal, ruídos intestinais agudos ou ausentes, sensibilidade e abdome timpânico. [1]Sinais de Alarme
Exames laboratoriais:
Todo paciente com AAO deve ser submetido à coleta de exames laboratoriais na admissão para definição de conduta. [1] São recomendados: [1][4]
Hemograma completo
Leucocitose e acidose metabólica com lactato elevado (hiperlactatemia) podem sugerir estrangulamento; entretanto, esses sinais podem estar ausentes [2]
Tipagem sanguínea
Ureia e creatinina
Sódio e potássio
Em casos de vômitos repetidos, é provável que os níveis séricos de sódio e potássio estejam depletados [2]
RNI (coagulograma)
Glicemia
PCR
Gasometria arterial com lactato
AST, ALT, GGT
Fosfatase alcalina
Bilirrubina total e frações
Beta-hCG em mulheres com idade fértil
Exames de Imagem:
Radiografia de Abdome
A associação do exame físico com a radiografia ainda é utilizada como conduta de primeira linha na suspeita de obstrução; entretanto, seu valor diagnóstico é fraco e limitado. Tanto a radiografia quanto a ultrassonografia têm limitações na identificação da localização, etiologia e gravidade da obstrução. [1][2]
Deve ser solicitada preferencialmente em 3 incidências, e apenas na indisponibilidade de exame de maior acurácia diagnóstica ou na instabilidade do paciente que impeça sua saída da sala de emergência. [4]
Achados pesquisados na radiografia: [1][2]
Distensão de alças intestinais sem pregas
Nível líquido dentro de alças (próximas à obstrução)
Pneumoperitônio
Fecaloma
Objetos inseridos
Sinal do empilhamento de moedas: nas obstruções de delgado [1]
Sinal do grão de café ou U invertido: na presença de vólvulo [1]
Gás na parede intestinal (pneumatose intestinal): indica gangrena [2]
Obstrução do intestino grosso: distensão do cólon proximal em relação à obstrução [2]
Vólvulo de ceco: grande bolha de gás no mesogástrio ou no hipocôndrio esquerdo [2]
Vólvulo de sigmoide ou ceco: enema contrastado pode mostrar deformidade em "bico de pássaro" típica no local da torção [2]
Ultrassonografia Abdominal
Ferramenta de segunda linha, indicada na impossibilidade de realização de TC de abdome [1]
Útil para avaliar aneurisma de aorta abdominal, hidronefrose, derrame pericárdico e hemoperitônio [1]
Apresenta grande limitação nos casos com distensão de alças, devido à dispersão do eco em meio ao gás [1]
É a modalidade de imagem inicial em pacientes grávidas; se não for útil, a ressonância magnética (RM) abdominal é o próximo passo [1]
Deve ser evitada na presença de distensão abdominal ou obesidade (IMC > 30) [4]
Ressonância Magnética
Excelente ferramenta diagnóstica na obstrução intestinal [1]
Permite identificar com detalhes a causa e a localização da parada de trânsito, incluindo: [1]
Dilatação das alças intestinais a montante da obstrução
Identificação precisa do ponto de obstrução
Sinal da "fecalização" do intestino delgado (conteúdo particulado), indicativo de obstrução mecânica importante
Espessamento de parede de alça e presença de líquido livre
Superior à TC na avaliação do sofrimento da alça: permite avaliar o movimento intestinal em tempo real e não utiliza radiação ionizante [1]
Indicada em pacientes grávidas quando a ultrassonografia não for conclusiva [1]
Tomografia Computadorizada de Abdome com Contraste
A TC de abdome com contraste é o padrão-ouro para o AAO, com sensibilidade superior a 90% na identificação do local, causa e grau da obstrução. [1][4]
Vantagens: [1]
Localiza com exatidão o ponto da obstrução
Identifica com precisão tumores, hérnias, aderências ou cálculos geradores do bloqueio
Detecta complicações: o contraste venoso é crucial para avaliar a vascularização intestinal e identificar precocemente isquemia, sofrimento de alça ou perfuração
Diferencia com segurança obstrução mecânica de íleo paralítico
O contraste intravenoso destaca vasos, tumores e inflamações
Nota: realizar TC sem contraste nos casos de hipersensibilidade ao contraste iodado. [4]
Sinais de alarme
⚠️ Os seguintes achados indicam maior gravidade e necessidade de abordagem imediata: [4]
Temperatura ≥ 37,8 °C
Alterações cardiovasculares: FC > 100 bpm ou < 50 bpm, PAM < 65 mmHg, TEC > 3 s, Shock-index ≥ 1,0
Alterações respiratórias: SpO₂ < 92% ou FR > 24 irpm
Alterações do estado mental: redução do nível de consciência, confusão ou agitação psicomotora
Outros sinais de choque: palidez cutânea, livedo reticular ou diaforese
Dor de início súbito com intensidade máxima
Critérios para sepse
Pontos de atenção: pacientes idosos (> 60 anos), imunossuprimidos ou com história prévia de neoplasia merecem avaliação com limiar reduzido de gravidade.
Tratamento clínico
O tratamento do AAO depende da etiologia e da gravidade do quadro. [1]
Estabilização Inicial e Manejo Clínico
Em casos de obstrução não estrangulante e sem sinais de perfuração, o manejo conservador é indicado, seguindo as medidas abaixo: [1][2]
Jejum: visa reduzir a distensão abdominal e o risco de broncoaspiração [1]
Correção hidreletrolítica: corrigir desidratação e desequilíbrios eletrolíticos; utilizar soro fisiológico 0,9% ou ringer lactato para reposição de volume; a reposição de eletrólitos deve ser guiada pelos resultados laboratoriais [1][2]
Descompressão nasogástrica: inserção de sonda nasogástrica para reduzir a pressão abdominal, diminuir os vômitos e auxiliar na reposição hidreletrolítica [1][2]
Sonda vesical de demora: indicada para monitorar a perda de líquidos [2]
Controle da dor: utilizar analgésicos para alívio da dor
Monitoramento: avaliar sinais vitais, estado geral do paciente e complicações potenciais como sepse e perfuração [1]
Pró-cinéticos: uso ponderado e individualizado, não recomendado livremente a todos os casos [1]
metoclopramida, domperidona, bromoprida
Sinais de deterioração que devem ser monitorados: dor intensa, vômitos persistentes, febre e distensão abdominal acentuada [1]
Tempo máximo de tratamento clínico: [1]
Geralmente até 48 horas antes de se considerar a cirurgia
Conforme as Diretrizes de Bolonha para diagnóstico e tratamento da obstrução intestinal, a terapia não operatória deve ser limitada a 3 dias
Tratamento cirúrgico
A laparotomia exploradora é indicada em condição de urgência nas seguintes situações: [1]
Insucesso do tratamento clínico após 24 a 48 horas
Diagnóstico de obstrução intestinal mecânica completa, incluindo:
Hérnia encarcerada ou estrangulada
Brida
Vólvulo
Intussuscepção
Neoplasia
Isquemia intestinal
Considerações adicionais sobre casos específicos: [2]
Vólvulo de sigmoide sem sinais de isquemia ou peritonite:
A descompressão endoscópica (retossigmoidoscopia rígida ou colonoscopia) é a abordagem de primeira escolha, com taxas de sucesso de 70 a 90%; o enema contrastado tem papel diagnóstico confirmatório, não sendo a abordagem terapêutica preferencial para redução; após descompressão endoscópica bem-sucedida, a sigmoidectomia eletiva está indicada pela alta taxa de recorrência [2]
Vólvulo de ceco:
A colonoscopia raramente é útil; o tratamento definitivo é cirúrgico [2]
Fecaloma:
Pode ser tentada redução manual, com sonda retal e solução glicerinada antes da decisão cirúrgica (conforme fluxograma do protocolo HC-UFU)
Antibióticoterapia
Esquema A: fluoroquinolona + nitroimidazol [5] [7]
Ciprofloxacino (Cipro®, Hifloxan®) sol. inj. 2 mg/mL — frasco 100 mL (200 mg) ou frasco 200 mL (400 mg)
Dose: 400 mg EV a cada 12h nas infecções moderadas; 400 mg EV a cada 8h nas infecções graves com risco de vida.
Dose máxima: 1.200 mg/dia (função renal normal).
Administração:
Diluição: produto disponível pronto para uso; referência em glicose 5%, genérico em cloreto de sódio 0,9%. Não diluir em Ringer Lactato.
Tempo de infusão: 60 minutos, em veia de grosso calibre.
Ajuste renal:
ClCr 30–50 mL/min: dose máxima 800 mg/dia EV;
ClCr < 30 mL/min: dose máxima 400 mg/dia EV.
Não requer ajuste hepático isolado.
Atenção: risco de prolongamento do intervalo QT; monitorar em cardiopatia, hipocalemia, hipomagnesemia e uso concomitante de antiarrítmicos das classes IA e III.
Metronidazol (Flagyl®) sol. inj. 5 mg/mL — frasco 100 mL (500 mg)
Dose: 500 mg EV a cada 8h.
Dose máxima: 1.500 mg/dia.
Administração:
Diluição: produto pronto para uso.
Tempo de infusão: 20–30 minutos (taxa máxima: 5 mL/min).
Não requer ajuste renal em doses habituais; reduzir dose em hepatopatia grave.
Monitorar RNI em uso concomitante de anticoagulantes cumarínicos (potencializa efeito anticoagulante)
Esquema B: cefalosporina de 3ª geração + nitroimidazol [6] [7]
Ceftriaxona (Rocefin®, Triaxin®) pó inj. — frasco-ampola 1 g
Dose: 1–2 g EV a cada 24h (dose única diária); nas infecções graves, pode-se fracionar em 1 g a cada 12h.
Dose máxima: 4 g/dia (infecções graves).
Administração:
Reconstituição EV direta: diluir 1 g em 10 mL de água para injetáveis; administrar em 2–4 minutos.
Para infusão: após reconstituição, diluir em 40 mL de SF 0,9% ou SG 5%.
Tempo de infusão: mínimo 30 minutos.
Não requer ajuste renal, exceto em insuficiência renal pré-terminal (ClCr < 10 mL/min): dose máxima 2 g/dia.
Não requer ajuste hepático isolado; monitorar em disfunção hepatorrenal concomitante.
Incompatível com soluções contendo cálcio; não misturar com aminoglicosídeos, vancomicina ou fluconazol no mesmo frasco.
Metronidazol (Flagyl®) sol. inj. 5 mg/mL — frasco 100 mL (500 mg)
Dose: 500 mg EV a cada 8h.
Dose máxima: 1.500 mg/dia.
Administração:
Diluição: produto pronto para uso.
Tempo de infusão: 20–30 minutos (taxa máxima: 5 mL/min).
Não requer ajuste renal em doses habituais; reduzir dose em hepatopatia grave.
Monitorar RNI em uso concomitante de anticoagulantes cumarínicos (potencializa efeito anticoagulante)
Alternativa ao metronidazol (nos casos de hipersensibilidade):
Clindamicina (Dalacin C®, Hyclin®) sol. inj. 150 mg/mL — ampola 4 mL (600 mg) [8]
Dose: 600–900 mg EV a cada 6–8h nas infecções intra-abdominais graves.
Dose máxima: 2.700 mg/dia EV; doses de até 4.800 mg/dia foram utilizadas em casos selecionados.
Administração:
Diluição: concentração máxima de 18 mg/mL em SF 0,9% ou SG 5%. Não administrar em bolus EV sem diluição.
Tempo de infusão: 10–60 minutos; taxa máxima de infusão: 30 mg/min. Não administrar mais de 1.200 mg em infusão única de 1 hora.
Não requer ajuste renal; usar com cautela em hepatopatia grave.
Atenção: risco de colite pseudomembranosa por Clostridioides difficile; suspender o medicamento e instituir tratamento específico diante de diarreia grave ou persistente.
Infecções intra-abdominais adquiridas na comunidade (quadro grave ou risco elevado de desfecho desfavorável / infecções associadas à assistência à saúde) [4]
Esquema A: Piperacilina-tazobactam
Piperacilina-tazobactam (Tazocin®) pó inj. — frasco-ampola 4 g/0,5 g (4,5 g) [9]
Dose: 4,5 g EV a cada 6–8h nas infecções graves.
Dose máxima: 18 g de piperacilina + 2,25 g de tazobactam por dia.
Administração:
Reconstituição: dissolver o frasco 4,5 g em 20 mL de SF 0,9% ou água estéril para injetáveis; após, diluir em volume adicional de solução compatível para infusão.
Tempo de infusão: 20–30 minutos (convencional) ou 3–4 horas (infusão estendida — estratégia off-label para otimização farmacodinâmica em infecções por germes com CIM elevada).
Ajuste renal: ClCr 20–40 mL/min: 2,25 g a cada 6h; ClCr < 20 mL/min: 2,25 g a cada 8h; hemodiálise: 2,25 g a cada 8h com dose suplementar de 0,75 g após cada sessão.
Não administrar por via intramuscular. Não misturar com aminoglicosídeos no mesmo frasco (risco de inativação mútua). Incompatível com Ringer Lactato.
Esquema B: Meropenem
Meropeném (Meronem®) pó inj. — frasco-ampola 500 mg ou 1 g [10]
Dose: 1 g EV a cada 8h nas infecções intra-abdominais.
Dose máxima: 6 g/dia (3 doses de 2 g a cada 8h) em infecções por Pseudomonas aeruginosa confirmada ou suspeita.
Administração:
Para infusão: diluir em SF 0,9% ou SG 5%; administrar em 15–30 minutos.
Reconstituição para bolus: diluir 1 g em 20 mL de água para injetáveis; administrar em aproximadamente 5 minutos. Dados de segurança limitados para bolus de 2 g.
Para infusão: diluir em SF 0,9% ou SG 5%; administrar em 15–30 minutos.
Ajuste renal: ClCr 26–50 mL/min: 1 g a cada 12h; ClCr 10–25 mL/min: 500 mg a cada 12h; ClCr < 10 mL/min: 500 mg a cada 24h; hemodiálise: reinstituir a dose adequada ao final de cada sessão.
Não requer ajuste hepático.
Esquema C: Cefepima + Metronidazol
Cefepima (Maxcef®) pó inj. — frasco-ampola 1 g ou 2 g [11]
Dose: 2 g EV a cada 8h nas infecções graves e sepse de foco abdominal.
Dose máxima: 6 g/dia (função renal normal).
Administração:
Reconstituição: diluir em SF 0,9% ou SG 5%.
Tempo de infusão: 30 minutos.
Ajuste renal: ClCr 30–60 mL/min: 2 g a cada 12h; ClCr 11–29 mL/min: 1 g a cada 12h; ClCr < 11 mL/min: 1 g a cada 24h.
Não requer ajuste hepático.
Atenção: risco de neurotoxicidade (encefalopatia, mioclonia, convulsões não convulsivas) quando a dose não é ajustada à função renal; monitorar rigorosamente em idosos e pacientes com insuficiência renal.
Metronidazol (Flagyl®) sol. inj. 5 mg/mL — frasco 100 mL (500 mg)
Dose: 500 mg EV a cada 8h.
Dose máxima: 1.500 mg/dia.
Administração:
Diluição: produto pronto para uso.
Tempo de infusão: 20–30 minutos (taxa máxima: 5 mL/min).
Não requer ajuste renal em doses habituais; reduzir dose em hepatopatia grave.
Monitorar RNI em uso concomitante de anticoagulantes cumarínicos (potencializa efeito anticoagulante)
Critérios para encaminhamento
As seguintes situações indicam necessidade de encaminhamento para avaliação cirúrgica hospitalar: [3][4]
Sinais de alarme presentes
Exame físico fortemente sugestivo de abdome agudo cirúrgico, mesmo sem diagnóstico definido
Instabilidade hemodinâmica ou insuficiência respiratória
Sepse de origem abdominal
Necessidade de observação hospitalar
Dor abdominal sem diagnóstico definido após investigação completa e necessidade de vigilância clínica
Incapacidade de manter hidratação ou alimentação por via oral
Condição clínica grave com necessidade de antibioticoterapia endovenosa ou cuidados intensivos
Necessidade de intervenção cirúrgica imediata (ex: hérnia de parede abdominal encarcerada/estrangulada)
Necessidade de exame complementar indisponível na unidade, sem alternativa diagnóstica local
Referências
[1] CASTANHEIRA, Gustavo Borges. Abdome Agudo Obstrutivo. Protocolo Assistencial PRO.CIR.001. Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU). Versão 1.0. Emissão: jan. 2026. Disponível em: acervo institucional HC-UFU. Acesso em: 31 mai. 2026.
[2] BRITO, Cleidiana Alves de et al. Abdômen agudo obstrutivo: aspectos clínicos e cirúrgicos. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 6, p. 331–340, 5 jun. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2024v6n6p331-340. Acesso em: 31 mai. 2026.
[3] PEREIRA JÚNIOR, Gerson Alves; SANTOS, José Sebastião dos. Protocolo Clínico e de Regulação para Dor Abdominal Aguda no Adulto e no Idoso. Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto / HU-USP. [s.d.]. Disponível em: https://www.hu.usp.br/wp-content/uploads/sites/176/2017/06/432_Funda_protocolo_clinico_e_de_regulacao_do_acesso_para_dor_abdominal.pdf. Acesso em: 31 mai. 2026.
[4] HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Guia do Episódio de Cuidado: Manejo da Dor Abdominal Aguda em Adultos nas Unidades de Urgência e Emergência, APS e Walk-in. Versão 4. Revisão periódica: 05 set. 2025. Disponível em: https://medicalsuite.einstein.br/pratica-medica/Pathways/Dor-Abdominal-Aguda-em-Adultos.pdf. Acesso em: 31 mai. 2026.
[5] EUROFARMA LABORATÓRIOS S.A. Ciprofloxacino — Solução para Infusão 2 mg/mL. Bula profissional. Aprovada pela Anvisa em 27/02/2026. Disponível em: https://eurofarma.com.br/produtos/bulas/patient/pt/bula-ciprofloxacino.pdf. Acesso em: 01 jun. 2026.
[6] TEUTO BRASILEIRO S.A. Ceftriaxona Sódica — Pó para Solução Injetável 1 g. Bula padrão aprovada pela Anvisa em 26/10/2023. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario. Acesso em: 01 jun. 2026.
[7] ISOFARMA INDUSTRIAL FARMACÊUTICA LTDA. Metronidazol — Solução para Infusão 5 mg/mL. Bula aprovada pela Anvisa. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario. Acesso em: 01 jun. 2026.
[8] HYPOFARMA — INSTITUTO DE HYPODERMIA E FARMÁCIA LTDA. Hyclin® — Fosfato de Clindamicina 150 mg/mL. Bula aprovada pela Anvisa. Disponível em: https://hypofarma.com.br/wp-content/uploads/2022/07/1-0387-0036.pdf. Acesso em: 01 jun. 2026.
[9] VIATRIS FARMACÊUTICA DO BRASIL LTDA. Piperacilina Sódica + Tazobactam Sódico — Pó para Solução Injetável 4,5 g. Bula profissional aprovada pela Anvisa em 06/03/2026. Disponível em: https://www.viatris.com.br/-/media/project/common/viatriscombr/pdf/leaflets_legacy_myl_brazil/piperacilina-sod-tazobactam-sod_bula_profissional_2024.pdf. Acesso em: 01 jun. 2026.
[10] FRESENIUS KABI BRASIL LTDA. Meropeném — Pó para Solução Injetável 500 mg e 1 g. Bula profissional aprovada pela Anvisa em 02/02/2024. Disponível em: https://www.fresenius-kabi.com/content/dam/fresenius-kabi/br/documents/bulas/medicamentos/Meropeném%20-%20Bula%20Profissional%20da%20Saúde%20(511%20KB).pdf. Acesso em: 01 jun. 2026.
[11] EUROFARMA LABORATÓRIOS S.A. Cloridrato de Cefepima — Pó para Solução Injetável 1 g e 2 g. Bula profissional aprovada pela Anvisa. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario. Acesso em: 01 jun. 2026.
Autoria e Curadoria
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