Hérnia Inguinal e Femoral
CID 10: K40 - Hérnia inguinal
CID 10: K41 - Hérnia femoral
Introdução
Hérnia corresponde à protrusão de conteúdo abdominal ou pré-peritoneal através de área de fraqueza da parede abdominal.
As hérnias da região inguinocrural (inguinais e femorais) são as mais frequentes na prática clínica.
Apresentam relevância pela:
Alta prevalência
Impacto funcional (dor, limitação)
Risco de complicações (encarceramento e estrangulamento)
Anatomia Relevante
Orifício miopectíneo de Fruchaud: área de fraqueza por onde ocorrem hérnias inguinais e femorais
Limites:
Medial: bainha do reto abdominal
Lateral: músculo psoas maior
Superior: músculos oblíquo interno e transverso
Inferior: linha pectínea
Triângulo de Hesselbach (importante na classificação):
Medial: músculo reto abdominal
Lateral: vasos epigástricos inferiores
Inferior: ligamento inguinal
Canal femoral:
Limites:
Superior: trato iliopúbico
Inferior: ligamento de Cooper
Lateral: veia femoral
Medial: ligamento lacunar
Epidemiologia
Hérnia Inguinal
Representa ~75% das hérnias da parede abdominal
Mais comum em:
Homens
Lado direito
Predomínio do tipo indireto (≈ 2/3)
Estrangulamento: 1–3%
Pediatria: geralmente indireta (persistência do conduto peritoneovaginal)
Hérnia Femoral
Cerca de 3% das hérnias inguinais
Mais comum em:
Mulheres
Lado direito
Maior risco de complicação:
Estrangulamento: 15–20%
Fatores de Risco
Idade avançada
História prévia de hérnia
Tosse crônica (ex.: DPOC)
Constipação crônica
Tabagismo
História familiar
Condições com aumento de pressão intra-abdominal
Classificação
Hérnia Inguinal
Indireta
Lateral aos vasos epigástricos
Percorre o canal inguinal
Geralmente congênita
Direta
Medial aos vasos epigástricos
Através do triângulo de Hesselbach
Associada à fraqueza da parede
Mista (pantaloon)
Componentes direto + indireto
Classificação Nyhus/Stoppa
Tipo I: indireta com anel normal
Tipo II: indireta com dilatação do anel
Tipo III: defeito parede posterior
A: direta
B: mista
C: femoral
Tipo IV: recidiva
Quadro Clínico
Anamnese
Abaulamento em região inguinal ou crural
Dor ou desconforto local
Piora com esforço (Valsalva, tosse)
Pode ser assintomática
História de aumento progressivo
Exame Físico
Realizar em ortostase e decúbito
Inspeção e palpação:
Abaulamento ou massa
Redutibilidade
Tamanho do defeito
Manobra de Valsalva:
Evidencia hérnia
Diferenciação clínica (limitada):
Indireta: lateral → medial
Direta: protrusão anterior
Femoral: abaixo do ligamento inguinal
Complicações
Encarceramento
Hérnia irreduzível
Estrangulamento
Dor intensa
Sinais flogísticos
Pode evoluir com:
Febre
Náuseas/vômitos
Obstrução intestinal
Diagnóstico
Diagnóstico Clínico (principal método)
Sensibilidade: ~74,5%
Especificidade: ~96%
Exames Complementares
Indicados se:
Dúvida diagnóstica
Pacientes obesos
Hérnias pequenas
USG
Primeiro exame
Sensibilidade: 33–77%
Especificidade: 81–100%
RM
Melhor acurácia
Sensibilidade: ~94,5%
Especificidade: ~96,3%
TC
Planejamento cirúrgico (casos complexos)
Diagnóstico diferencial
Lipoma
Adenomegalia
Hidrocele
Varicocele
Tumores da parede abdominal
Osteíte púbica
Hérnia do esporte
Abscesso de psoas
Varizes do ligamento redondo (gestantes)
Conduta
Hérnia Inguinal
Encaminhamento
Encaminhar ao cirurgião após diagnóstico
Tratamento Conservador
Pode ser considerado em:
Homens assintomáticos ou pouco sintomáticos
Idosos com alto risco cirúrgico
Gestantes
Evolução:
70% desenvolvem sintomas em até 2 anos
Taxa de complicação:
0,3–3% ao ano
Tratamento Cirúrgico
Indicação baseada principalmente em:
Sintomas
Impacto na qualidade de vida
Técnicas:
Aberta (ex.: Lichtenstein – mais comum)
Laparoscópica (TAPP, TEP)
Uso de tela:
Recomendado → reduz recidiva
Situações especiais
Urgência (encarceramento/estrangulamento):
Usar tela se campo limpo
Hérnia Femoral
Conduta padrão:
Cirurgia sempre indicada ao diagnóstico
Justificativa:
Alto risco de estrangulamento
Técnicas:
Aberta (ex.: McVay)
Laparoscópica (menor dor e recorrência)
Complicações Pós-operatórias
Infecção
Hematoma / seroma
Recidiva
Dor crônica (≥ 3 meses)
Lesão nervosa
Atrofia testicular
Dor Crônica Pós-Herniorrafia
Definição:
Dor ≥ 3 meses após cirurgia
Fatores de risco:
Jovens
Dor prévia
Cirurgia aberta
Recidiva
Manejo:
Multidisciplinar
Analgésicos
Bloqueios
Cirurgia em casos selecionados
Referências
[1] CLAUS, C. M. P. et al. Guidelines of the Brazilian Hernia Society. Rev Col Bras Cir, 2019. Disponível em: https://www.scielo.brx
[2] DUNCAN, B. B.; SCHMIDT, M. I.; GIUGLIANI, E. R. J. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
[3] GOULART, A.; MARTINS, S. Hérnia inguinal: diagnóstico e tratamento. Rev Port Cir, 2015.
[4] GUSSO, G.; LOPES, J. M. C.; DIAS, L. C. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
[5] MURPHY, K. P.; O'CONNOR, O. J.; MAHER, M. M. Adult abdominal hernias. AJR, 2014.
[6] SIMONS, M. P. et al. European Hernia Society guidelines. Hernia, 2009.
[7] STABILINI, C. et al. Update of the international HerniaSurge guidelines. BJS Open, 2024. Disponível em: https://academic.oup.com/bjsopen
[8] TOWNSEND, C. M. et al. Sabiston textbook of surgery. 21. ed. Philadelphia: Elsevier, 2024.
[9] WANG, F. et al. Global burden of hernias. International Journal of Surgery, 2024.
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