Vaginismo

CID 10: F52.5 — Vaginismo não orgânico

CID 10: N94.1 — Dispareunia

Introdução

  • O termo “vaginismo” foi parcialmente incorporado no DSM-5 ao diagnóstico de Transtorno da Dor Gênito-Pélvica/Penetração (TDGPP).

  • Caracteriza-se por:

    • dificuldade persistente ou recorrente à penetração vaginal;

    • contração involuntária da musculatura do assoalho pélvico;

    • medo/ansiedade antecipatória de dor;

    • dor vulvovaginal associada à tentativa de penetração.

  • A condição possui etiologia multifatorial:

    • fatores musculares;

    • hipervigilância dolorosa;

    • experiências sexuais traumáticas;

    • ansiedade;

    • fatores relacionais;

    • comorbidades ginecológicas.

  • Há impacto significativo sobre:

    • qualidade de vida;

    • autoestima;

    • relacionamentos;

    • saúde mental;

    • fertilidade e rastreamento ginecológico.

  • O manejo isoladamente farmacológico costuma falhar.

  • A abordagem multidisciplinar é considerada padrão-ouro.

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Definição e critérios diagnósticos

DSM-5 — Transtorno da Dor Gênito-Pélvica/Penetração

  • Presença persistente ou recorrente (≥ 6 meses) de um ou mais:

    • dificuldade de penetração vaginal;

    • dor vulvovaginal/pélvica durante tentativa de penetração;

    • medo ou ansiedade marcantes relacionados à dor;

    • contração/tensão da musculatura do assoalho pélvico.

  • Deve causar:

    • sofrimento clinicamente significativo.

  • Não deve ser melhor explicado por:

    • outro transtorno mental;

    • violência sexual ativa;

    • condição médica isolada;

    • efeito de substâncias.

Classificação clínica

  • Primário:

    • nunca houve penetração sem dor/importante contração.

  • Secundário:

    • início após período prévio de relações sem dificuldade.

  • Generalizado:

    • ocorre em qualquer situação de penetração.

  • Situacional:

    • ocorre apenas em contextos específicos.

Epidemiologia

  • A prevalência exata é incerta devido:

    • subdiagnóstico;

    • vergonha;

    • heterogeneidade diagnóstica;

    • confusão entre dispareunia e vaginismo.

  • Mais frequente:

    • em mulheres jovens;

    • em pacientes com histórico de trauma sexual;

    • em transtornos ansiosos;

    • em pacientes com dor sexual prévia.

  • Muitas pacientes demoram anos para buscar atendimento.

Fatores associados e fisiopatologia

Componentes musculares

  • Hipertonia do assoalho pélvico.

  • Espasmo involuntário peri-introital.

  • Sensibilização dolorosa.

Componentes psicológicos

  • Ansiedade antecipatória.

  • Medo de dor.

  • Educação sexual repressiva.

  • Trauma sexual prévio.

  • Culpa associada à sexualidade.

  • TOC e transtornos ansiosos podem coexistir.

Componentes orgânicos associados

  • Vulvodínia.

  • Vestibulodínia.

  • Endometriose.

  • Atrofia geniturinária.

  • Candidíase recorrente.

  • Líquen escleroso.

  • Pós-parto.

  • Cirurgias pélvicas.

Quadro clínico

Sintomas principais

  • Dor à penetração.

  • Impossibilidade parcial ou completa de penetração vaginal.

  • Sensação de “bloqueio” vaginal.

  • Ansiedade intensa durante tentativa de exame ginecológico.

  • Evitação sexual.

Situações frequentemente associadas

  • Dificuldade para:

    • introduzir absorvente interno;

    • coletor menstrual;

    • espéculo vaginal;

    • dedo vaginal.

Repercussões emocionais

  • Sofrimento psíquico.

  • Conflitos conjugais.

  • Baixa autoestima.

  • Culpa.

  • Evitação de intimidade.

Diagnóstico

Diagnóstico clínico

  • Baseado em:

    • anamnese sexual detalhada;

    • exame físico cuidadoso;

    • exclusão de causas orgânicas.

Anamnese

  • Investigar:

    • início dos sintomas;

    • história sexual;

    • traumas;

    • abuso sexual;

    • dor ginecológica prévia;

    • infecções recorrentes;

    • sintomas urinários/intestinais;

    • fatores relacionais;

    • uso de medicamentos.

Exame físico

  • Deve ser gradual e consentido.

  • Evitar abordagem traumática.

  • Avaliar:

    • vulva;

    • introito vaginal;

    • tônus do assoalho pélvico;

    • pontos gatilho dolorosos.

  • Em casos graves:

    • exame pode ser de difícil realização, ou até impossibilitado, inicialmente.

Achados sugestivos

Considerações:

  • Contração involuntária à aproximação do exame.

  • Hipertonia muscular.

  • Dor à palpação vestibular.

Exames complementares

  • Não há exame confirmatório.

  • Solicitar conforme suspeita:

    • secreção vaginal;

    • IST;

    • ultrassonografia;

    • investigação dermatológica;

    • investigação hormonal.

Diagnósticos diferenciais

  • Vulvodínia.

  • Vestibulodínia provocada.

  • Dispareunia superficial.

  • Endometriose.

  • Atrofia geniturinária da menopausa.

  • Líquen escleroso.

  • Candidíase vulvovaginal recorrente.

  • Trauma genital.

  • Anormalidades anatômicas.

  • Transtornos ansiosos.

  • TEPT.

Tratamento não farmacológico

Princípios gerais

  • Explicar o mecanismo da doença.

  • Validar a dor sem reforçar comportamento evitativo.

  • Estabelecer metas graduais.

  • Evitar foco exclusivo na penetração.

  • A abordagem multidisciplinar apresenta melhores resultados.

Educação sexual

  • Explicar:

    • anatomia;

    • resposta sexual;

    • mecanismo de dor;

    • hipertonias musculares.

  • Corrigir crenças disfuncionais.

Psicoterapia

  • Terapia cognitivo-comportamental:

    • redução de ansiedade;

    • dessensibilização;

    • reestruturação cognitiva.

  • Terapia sexual:

    • melhora da intimidade;

    • redução de medo da penetração.

  • Considerar:

    • terapia de casal;

    • tratamento de trauma sexual.

Fisioterapia pélvica

  • Um dos pilares terapêuticos.

  • Objetivos:

    • relaxamento muscular;

    • consciência perineal;

    • dessensibilização;

    • biofeedback;

    • treino respiratório.

  • Técnicas possíveis:

    • terapia manual;

    • liberação miofascial;

    • eletroestimulação;

    • exercícios de relaxamento.

Dilatadores vaginais

  • Introdução gradual e progressiva.

  • Associar:

    • lubrificação;

    • técnicas respiratórias;

    • relaxamento.

  • Progressão conforme tolerância.

Exercícios domiciliares

  • Relaxamento do assoalho pélvico.

  • Respiração diafragmática.

  • Dessensibilização progressiva.

Tratamento farmacológico

Considerações gerais

  • Não existe medicação específica curativa.

  • Medicamentos são adjuvantes.

  • Direcionar conforme:

    • dor;

    • ansiedade;

    • comorbidades;

    • menopausa;

    • vulvodínia associada.

Lubrificantes vaginais

  • Lubrificante vaginal hidrossolúvel gel vaginal

    • Aplicar antes da atividade sexual.

    • Preferir formulações sem fragrância e sem espermicidas.

Anestésicos tópicos

  • Lidocaína gel 2% ou pomada 5%

    • Aplicar pequena quantidade na região vestibular 10–20 min antes da penetração ou fisioterapia.

    • Pode auxiliar em vestibulodínia associada.

    • Evitar excesso devido redução de sensibilidade.

Antidepressivos (quando dor crônica/ansiedade associada)

  • Amitriptilina comp. 10mg ou 25mg

    • Iniciar com 10–25 mg à noite.

    • Ajustar gradualmente conforme tolerância.

    • Dose usual: 25–75 mg/dia.

    • Monitorar:

      • sedação;

      • boca seca;

      • constipação.

  • Sertralina comp. 25mg ou 50mg

    • Ansiedade associada:

      • iniciar 25–50 mg/dia.

    • Ajustar progressivamente.

    • Dose usual: 50–200 mg/dia.

  • Escitalopram comp. 10mg ou 20mg

    • Iniciar 5–10 mg/dia.

    • Dose usual: 10–20 mg/dia.

Estrogênio vaginal (quando atrofia geniturinária associada)

  • Estriol creme vaginal 1mg/g

    • Aplicar 1 aplicação vaginal à noite por 2–3 semanas.

    • Após melhora:

      • manutenção 2–3x/semana.

  • Promestrieno creme vaginal 10mg/g

    • Aplicar conforme protocolo da formulação.

    • Considerar principalmente em menopausa.

Tratamentos com evidência limitada

  • Toxina botulínica

    • Pode ser considerada:

      • em casos refratários;

      • com hipertonia importante.

    • Evidência ainda limitada.

  • Cirurgia

    • Não possui papel rotineiro no vaginismo.

    • Pode ser considerada apenas em patologias associadas específicas.

Condutas práticas na APS

O que fazer na primeira consulta?

  • Permitir narrativa sem interrupções.

  • Evitar minimizar sintomas.

  • Não forçar exame físico.

  • Investigar violência sexual.

  • Excluir causas orgânicas evidentes.

  • Iniciar educação em dor sexual.

  • Encaminhar precocemente para:

    • fisioterapia pélvica;

    • psicoterapia sexual.

O que piora prognóstico?

  • Repetição de exames traumáticos.

  • Medicalização isolada.

  • Comunicação inadequada.

  • Insistência em penetração dolorosa.

Critérios de encaminhamento

Encaminhar para Ginecologia se:

  • Dor persistente sem diagnóstico.

  • Suspeita de:

    • endometriose;

    • vulvodínia;

    • dermatoses vulvares;

    • alterações anatômicas.

Encaminhar para Psiquiatria/Psicologia se:

  • TEPT.

  • Trauma sexual.

  • Ansiedade grave.

  • Depressão.

  • Sofrimento psíquico relevante.

Encaminhar para Fisioterapia pélvica se:

  • Casos moderados/graves.

  • Hipertonia importante.

  • Refratariedade inicial.

Prognóstico

  • Geralmente favorável com abordagem multidisciplinar.

  • Recuperação costuma ser gradual.

  • Recidivas podem ocorrer:

    • em períodos de estresse;

    • após dor genital recorrente;

    • em conflitos relacionais.

  • Tratamento precoce melhora desfechos.

Referências

[1] AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS (ACOG). Persistent Vulvar Pain. Committee Opinion No. 673. 2016. Disponível em: https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/committee-opinion/articles/2016/09/persistent-vulvar-pain. Acesso em: 24 maio 2026.

[2] CARLSON, Karen; MIKES, Beverly A. Dyspareunia. StatPearls Publishing, 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK562159/. Acesso em: 24 maio 2026.

[3] DIAS-AMARAL, Ana; MARQUES-PINTO, André. Female Genito-Pelvic Pain/Penetration Disorder: Review of the Related Factors and Overall Approach. Cureus, 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10309300/. Acesso em: 24 maio 2026.

[4] MANUAL MSD. Transtorno da dor gênito-pélvica/penetração. 2023. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt-pt/casa/problemas-de-sa%C3%BAde-feminina/disfun%C3%A7%C3%A3o-sexual-em-mulheres/transtorno-da-dor-g%C3%AAnito-p%C3%A9lvica-penetra%C3%A7%C3%A3o. Acesso em: 24 maio 2026.

[5] TRONCON, Júlia Kefalás; PANDOCHI, Heliana Aparecida da Silva; LARA, Lúcia Alves. Abordagem da dor gênito-pélvica/penetração. Revista Brasileira de Sexualidade Humana, v. 28, n. 2, p. 69–74, 2017. Disponível em: https://www.rbsh.org.br/revista_sbrash/article/view/25. Acesso em: 24 maio 2026.

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