Recém-Nascido na Sala de Parto e Reanimação Neonatal

CID-10: P21 - Asfixia ao nascer

Introdução

  • A transição da vida intrauterina para a extrauterina exige mudanças fisiológicas complexas. Embora a maioria dos recém-nascidos (RN) realize essa transição sem auxílio, cerca de 10% necessitam de assistência e menos de 1% requer manobras avançadas de reanimação. [2][3]

  • A ventilação pulmonar é o procedimento mais importante e efetivo da reanimação neonatal. Quando indicada, deve ser iniciada nos primeiros 60 segundos de vida ("Minuto de Ouro"); o risco de morte ou morbidade aumenta em 16% a cada 30 segundos de demora para iniciá-la, independentemente do peso, da idade gestacional ou de complicações na gravidez ou no parto. [2][3]

  • Classificação do RN quanto à Idade Gestacional (IG): [1]

    • Prematuro extremo: < 28 semanas.

    • Muito prematuro: 28 a 31 semanas e 6 dias.

    • Prematuro moderado: 32 a 33 semanas e 6 dias.

    • Prematuro tardio: 34 a 36 semanas e 6 dias.

    • Termo: 37 a 41 semanas e 6 dias.

  • Classificação quanto ao Peso: [1]

    • Baixo peso: < 2.500 g.

    • Muito baixo peso: < 1.500 g.

    • Extremo baixo peso: < 1.000 g.

    • Macrossomia: > 4.000 g.

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Preparação para Assistência

A preparação antecipada é o passo mais crítico para uma reanimação eficaz. [2][3]

  • Anamnese perinatal: identificar fatores de risco maternos (ex.: hipertensão, diabetes, infecções) e fetais (ex.: prematuridade, mecônio, sofrimento fetal). [2][3]

  • Equipe (RN ≥34 semanas): em todo parto deve estar presente pelo menos um profissional capaz de realizar os passos iniciais e a VPP com máscara facial, cuja única responsabilidade seja o RN. Diante de fatores de risco, são necessários 2 a 3 profissionais treinados, sendo pelo menos um médico apto a intubar e indicar massagem cardíaca e medicações, de preferência pediatra. [3]

  • Equipe (RN <34 semanas): devem estar presentes 2 a 3 profissionais, incluindo ao menos um pediatra capaz de realizar todos os procedimentos da reanimação, com responsabilidade exclusiva pelo RN. Em gestações múltiplas, dispor de equipe própria para cada RN. [2]

  • Briefing: antes de cada nascimento, a equipe deve realizar reunião rápida para planejar ações, dividir funções e definir a liderança, reduzindo erros e estresse. [2][3]

  • Ambiente: manter a temperatura da sala de parto entre 23 e 25°C, com portas fechadas para evitar correntes de ar, e ligar a fonte de calor radiante antes do nascimento. [2][3]

  • Material mínimo: mesa de reanimação com acesso por 3 lados e calor radiante, fonte de O2 e de ar comprimido com fluxômetro e blender, sistema de umidificação e aquecimento de gases, aspirador a vácuo, material para intubação, estetoscópio neonatal, oxímetro de pulso e monitor cardíaco de 3 vias. Todo o material deve ser previamente testado, com uso de lista de verificação. [2][3]

Passos Iniciais

  • RN ≥34 semanas [3]

    • Ao nascimento, avaliar simultaneamente:

      • Gestação ≥34 semanas?

      • Respirando ou chorando?

      • Tônus muscular em flexão?

    • ✅ Se todas as respostas forem "SIM" (boa vitalidade):

      • O RN apresenta boa vitalidade. Promover contato pele a pele imediato, coberto com tecido de algodão seco e aquecido, mantendo normotermia (36,5 a 37,5°C) e estimulando a amamentação na primeira hora.

      • Clampeamento de cordão: realizar no mínimo 60 segundos após o nascimento, preferencialmente após o início da respiração.

    • ⚠️ Se qualquer resposta for "NÃO" (sem boa vitalidade):

      • Realizar estímulo tátil delicado no dorso por cerca de 15 segundos, antes do clampeamento, para tentar desencadear a respiração espontânea ainda com suporte placentário.

        • Se o RN iniciar a respiração: aguardar o clampeamento no mínimo 60 segundos após o nascimento.

        • Se permanecer em apneia, respiração irregular e/ou tônus flácido: clampear o cordão e levar à mesa de reanimação sob calor radiante.

      • Ordenha de cordão: opção quando não for possível aguardar 60 segundos; comprimir cerca de 20 cm do cordão da placenta em direção ao RN ao longo de aproximadamente 2 segundos, seguida de clampeamento antes de 60 segundos.

      • Clampeamento imediato: indicado na interrupção da circulação placentária (descolamento prematuro de placenta, placenta prévia com sangramento, nó verdadeiro de cordão).

      • Passos iniciais na mesa (em até 30 segundos):

        • Prover calor: fonte de calor radiante, RN em decúbito dorsal.

        • Secar a cabeça e o corpo, desprezar os campos úmidos e colocar a touca.

        • Posicionar o pescoço em leve extensão, evitando hiperextensão ou flexão.

        • Aspirar boca e depois narinas apenas se houver obstrução de vias aéreas por secreções (sonda nº 8 a 10, pressão 80 a 100 mmHg).

      • Líquido amniótico meconial: a aspiração de rotina não é recomendada, independentemente da viscosidade. A laringoscopia direta e a aspiração traqueal de rotina não devem ser realizadas, pois não modificam o prognóstico e atrasam a VPP. A aspiração traqueal fica reservada aos raros casos de obstrução de vias aéreas em RN não vigoroso.

  • Particularidades do RN <34 semanas [2]

    • Avaliar ao nascimento:

      • Respirando ou chorando?

      • Tônus muscular em flexão?

    • ✅ Com boa vitalidade:

      • Clampeamento no mínimo 60 segundos após o nascimento. Durante o clampeamento, secar a cabeça, aplicar cobertura plástica estéril e, acima, campo estéril aquecido para prevenir hipotermia.

      • RN 32 a 33 semanas: contato pele a pele pode ser considerado, com monitorização contínua de temperatura, FC, respiração e SpO2.

      • RN <32 semanas: após o clampeamento, conduzir à mesa de reanimação sob calor radiante para estabilização inicial.

    • ⚠️ Sem boa vitalidade: realizar estímulo tátil no dorso por cerca de 15 segundos antes do clampeamento; se iniciar respiração, aguardar 60 segundos; se permanecer em apneia, respiração irregular e/ou tônus flácido, clampear e levar à mesa.

      • Ordenha de cordão: pode ser considerada em RN ≥28 semanas quando não for possível aguardar 60 segundos; é contraindicada em RN <28 semanas.

    • Estabilização térmica: não secar o corpo. Envolver o tronco e os membros em saco plástico de polietileno e colocar touca dupla (malha ou lã); usar colchão térmico químico para RN <1.000 g.

    • Monitorização precoce: instalar oxímetro de pulso no membro superior direito (pré-ductal) e monitor cardíaco (3 eletrodos) para leitura rápida e contínua da FC. Aspirar vias aéreas apenas se obstruídas.

Sinais Vitais e Apgar

  • Frequência cardíaca (FC): principal parâmetro para as decisões na reanimação. Avaliar inicialmente pela ausculta do precórdio com estetoscópio, auscultando por 6 segundos e multiplicando por 10; considera-se adequada FC ≥100 bpm. [2][3]

  • Monitor cardíaco: uso obrigatório assim que se indica a VPP, para detecção rápida e contínua da FC. [2][3]

  • Oximetria de pulso: obrigatória sempre que houver indicação de VPP ou uso de O2 suplementar; sensor no pulso radial direito (pré-ductal). [2][3]

  • Alvos de SpO2 pré-ductal (por minuto após o nascimento): [2][3]

    • 2 minutos: 65 a 70%

    • 3 minutos: 70 a 75%

    • 4 minutos: 75 a 80%

    • 5 minutos: 80 a 85%

    • 10 minutos: 85 a 95%

  • Boletim de Apgar: determinado no 1º e 5º minutos; não é utilizado para indicar procedimentos, mas tem valor prognóstico. Se Apgar <7 no 5º minuto, repetir a cada 5 minutos até 20 minutos após o nascimento. [3]

Escore de APGAR: a tabela apresenta o método de avaliação clínica do recém-nascido, realizado no 1º e no 5º minuto de vida, com repetição a cada 5 minutos até 20 minutos caso o escore seja inferior a 7. São avaliados cinco sinais, cada um pontuado em 0, 1 ou 2. Na frequência cardíaca, atribui-se 0 quando ausente, 1 quando menor que 100 bpm e 2 quando maior ou igual a 100 bpm. No esforço respiratório, atribui-se 0 quando ausente, 1 quando fraco ou irregular com choro débil e 2 quando há choro forte e respiração regular. No tônus muscular, atribui-se 0 quando flácido, 1 quando há alguma flexão de extremidades e 2 quando há movimento ativo e boa flexão. Na irritabilidade reflexa, atribui-se 0 quando ausente, 1 quando há careta ou movimento discreto e 2 quando há choro, tosse ou espirro. Na cor da pele, atribui-se 0 quando cianótico ou pálido, 1 quando o corpo está rosado com extremidades cianóticas (acrocianose) e 2 quando completamente rosado. A interpretação do escore total classifica o recém-nascido em três faixas: 7 a 10 indica recém-nascido em boas condições; 4 a 6 indica depressão moderada; e 0 a 3 indica depressão grave. Fonte: Apgar V. (1953); American Academy of Pediatrics / American Heart Association — Neonatal Resuscitation Program (NRP), 8ª ed., 2021.

Reanimação RN ≥ 34 semanas

Considerações:

  • A VPP é o procedimento mais importante e efetivo da reanimação neonatal. O risco de morte ou morbidade aumenta 16% a cada 30 segundos de demora para iniciá-la.

Ventilação com Pressão Positiva (VPP)

  • Indicação: apneia, respiração irregular e/ou FC <100 bpm após os passos iniciais. Iniciar nos primeiros 60 segundos de vida ("Minuto de Ouro"). [3]

  • Concentração inicial de O2: [3]

    • Iniciar com ar ambiente (O2 21%); não iniciar com O2 a 100% (a VPP com ar ambiente associou-se a redução de 27% da mortalidade intra-hospitalar).

    • Se a SpO2 estiver abaixo do alvo, verificar e corrigir a técnica antes de oferecer O2 suplementar.

    • Ajustar a oferta em 20% a cada 30 segundos conforme a SpO2 pré-ductal, com uso obrigatório do blender.

  • Técnica: [3]

    • Frequência: 30 a 60 movimentos por minuto.

      • Com balão autoinflável: ritmo "aperta/solta/solta".

      • Com VMM com peça T: ritmo "ocluui/solta/solta".

    • Pressão inspiratória inicial: 20 a 30 cmH2O.

    • Com VMM com peça T: fluxo ao redor de 10 L/minuto, pressão inspiratória 20 a 30 cmH2O, PEEP 5 cmH2O; limite de pressão máxima do circuito ajustado em 30 a 40 cmH2O.

    • Após 3 a 5 ventilações: reajustar a pressão para leve expansão torácica com entrada de ar audível.

    • Principal sinal de eficácia: aumento da FC, em geral nos primeiros 15 segundos.

      • Se após 30 segundos de VPP com máscara facial a FC >100 bpm e há respiração espontânea e regular: suspender o procedimento.

      • Se a FC permanecer <100 bpm ou a respiração não for retomada: aplicar a sequência de ações corretivas antes de escalar a interface.

        • Readaptar a máscara à face delicadamente.

        • Reposicionar a cabeça (pescoço em leve extensão).

        • Aspirar secreções da boca e do nariz.

        • Ventilar com a boca levemente aberta.

        • Aumentar a pressão em cerca de 5 cmH2O, até no máximo 40 cmH2O.

    • VPP prolongada: inserir sonda orogástrica para diminuir a distensão gástrica, mantida aberta durante a VPP.

  • Equipamento: balão autoinflável ou VMM com peça T são aceitáveis, sendo preferível o VMM com peça T por fornecer pressão mais consistente e reduzir displasia broncopulmonar e o tempo de VPP. O balão autoinflável deve estar sempre disponível como reserva. [3]

  • Interface: [3]

    • Iniciar com máscara facial, que deve cobrir queixo, boca e nariz, aplicada no sentido queixo para nariz com a técnica "CE". O ajuste adequado é crítico; a má adaptação gera escape de 50 a 70%. De cada 10 RN que recebem VPP com máscara facial, 9 melhoram sem outros procedimentos.

    • Máscara laríngea: pode ser considerada quando a máscara facial falha ou a intubação é difícil; no Brasil, o menor tamanho é o nº 1 (peso 2 a 5 kg). Não permite aspiração traqueal, administração de medicações nem uso durante a massagem cardíaca.

    • Cânula traqueal: indicada quando a VPP com máscara não é efetiva após correção técnica (FC permanece <100 bpm), quando a VPP é prolongada ou quando há indicação de massagem cardíaca.

      • Cada tentativa de intubação deve durar no máximo 30 segundos.

      • A confirmação de posição é feita pelo aumento da FC; a detecção de CO2 exalado é o método mais acurado e rápido (menos de 10 segundos).

Massagem Cardíaca

  • Indicação: FC <60 bpm após 30 segundos de VPP com cânula traqueal e técnica adequada. As compressões só devem ser iniciadas com via aérea assegurada e ventilação bem estabelecida. Aumentar o O2 para 100% quando indicada a massagem. [3]

  • Técnica dos dois polegares (preferencial): [3]

    • Local: terço inferior do esterno, logo abaixo da linha intermamilar, poupando o apêndice xifoide.

    • Polegares sobrepostos ou justapostos, com os demais dedos circundando o tórax e suporte ao dorso.

    • Profundidade: 1/3 da dimensão anteroposterior do tórax, com reexpansão plena após cada compressão.

    • O profissional que massageia posiciona-se atrás da cabeça do RN; o que ventila desloca-se para um dos lados.

  • Coordenação com a ventilação: relação 3:1 (3 compressões para 1 ventilação), totalizando 120 eventos por minuto (90 compressões e 30 ventilações). Aplicar por 60 segundos antes de reavaliar a FC, evitando interrupções desnecessárias. [3]

  • Melhora: FC >60 bpm após 60 segundos: interromper a massagem; se FC ≥100 bpm com respiração espontânea regular, suspender também a VPP. [3]

  • Falha: FC <60 bpm após 60 segundos de VPP com cânula traqueal, O2 a 100% e massagem: verificar a técnica e indicar adrenalina. [3]

Medicações

  • Bicarbonato de sódio e naloxone não são recomendados na reanimação neonatal em sala de parto. A necessidade de medicações em RN ≥34 semanas é de 1 a 3 em cada 1.000 nascidos vivos quando a reanimação segue os passos preconizados. [3]

  • Via preferencial: cateterismo venoso umbilical; na presença de colapso cardiovascular, não se recomenda tentar acesso venoso periférico. [3]

    • Via traqueal: apenas para adrenalina, enquanto o cateterismo é realizado; absorção lenta e imprevisível.

    • Via intraóssea: alternativa quando o cateterismo umbilical não é factível; risco de complicações graves (fraturas, isquemia de membros, osteomielite, síndrome compartimental).

  • Adrenalina (epinefrina) amp. 1 mg/mL [3][4]

    • Diluição obrigatória: 1 mL da ampola em 9 mL de SF 0,9% (concentração final 1 mg/10 mL).

    • Via intravascular (endovenosa ou intraóssea, preferencial): 0,01 a 0,03 mg/kg; na prática, 0,02 mg/kg (0,2 mL/kg da solução diluída), em seringa de 1 mL, infundir rápido seguido de flush de 3 mL de SF 0,9%.

      • Peso 2 kg: 0,4 mL

      • Peso 3 kg: 0,6 mL

      • Peso 4 kg: 0,8 mL

    • Via endotraqueal (uso único, enquanto se obtém acesso venoso): 0,05 a 0,1 mg/kg; na prática, 0,1 mg/kg (1,0 mL/kg da solução diluída), em seringa de 5 mL, infundir diretamente na cânula traqueal, sem flush.

      • Peso 2 kg: 2,0 mL; peso 3 kg: 3,0 mL; peso 4 kg: 4,0 mL.

    • Dose máxima: doses >0,1 mg/kg por qualquer via são contraindicadas (risco de hipertensão grave, disfunção miocárdica e piora neurológica).

    • Sem reversão da bradicardia: repetir por via intravascular a cada 3 a 5 minutos e considerar expansor de volume.

  • Cloreto de sódio 0,9% (soro fisiológico) [3][5]

    • Indicação: ausência de aumento da FC em resposta às demais medidas e/ou sinais de choque hipovolêmico (palidez, má perfusão, pulsos débeis).

    • Dose: 10 mL/kg por via endovenosa, lentamente em 5 a 10 minutos.

      • Peso 2 kg: 20 mL; peso 3 kg: 30 mL; peso 4 kg: 40 mL.

    • Pode-se repetir 10 mL/kg após correção de outros fatores se não houver resposta.

    • Concentrado de glóbulos tipo O Rh negativo: reservado à suspeita de anemia fetal grave, de preferência após prova cruzada com sangue materno.

    • Cautela: a expansão pode ser deletéria na lesão miocárdica induzida por asfixia; o Ringer lactato em geral não está disponível na sala de parto e pode precipitar com hemoderivados.

CPAP pós-VPP

  • Pode ser considerado, com cautela pela associação com pneumotórax, nas seguintes situações: [3]

    • RN com respiração espontânea e FC ≥100 bpm, mas com desconforto respiratório.

    • RN que precisou de VPP por máscara facial ou laríngea, com FC ≥100 bpm e respiração espontânea, mas persiste com SpO2 abaixo do alvo e/ou desconforto respiratório.

    • RN que precisou de VPP por cânula traqueal, foi extubado e mantém FC ≥100 bpm e respiração espontânea, mas persiste com SpO2 abaixo do alvo e/ou desconforto respiratório.

    • Equipamento: VMM com peça T (não é possível aplicar CPAP com balão autoinflável); fluxo ~10 L/minuto, PEEP 5 cmH2O, O2 titulado conforme a SpO2 alvo.

    • Se o CPAP se prolonga, considerar sonda orogástrica.

    • Atenção: coorte com 6.913 RN ≥35 semanas mostrou aumento de 5,5 vezes na chance de pneumotórax com CPAP em sala de parto; se a SpO2 se mantém no alvo, adotar conduta conservadora sem suporte pressórico.

Reanimação RN < 34 semanas

Considerações:

  • A VPP é o procedimento mais importante e efetivo da reanimação neonatal. Deve ser iniciada nos primeiros 60 segundos de vida ("Minuto de Ouro").

Ventilação com Pressão Positiva (VPP)

  • Indicação: apneia, respiração irregular e/ou FC <100 bpm após os passos iniciais. Iniciar nos primeiros 60 segundos de vida. [2]

  • Concentração inicial de O2: [2]

    • Iniciar com O2 a 60%, titulando conforme a SpO2 pré-ductal; o blender é obrigatório na sala de parto.

    • Os mecanismos antioxidantes do prematuro são imaturos e a hiperóxia causa lesão tecidual difusa; por outro lado, a falha em atingir SpO2 ≥80% aos 5 minutos associa-se a maior risco de morte e lesão cerebral.

    • Ajustar a oferta em 20% a cada 30 segundos conforme a SpO2; verificar e corrigir a técnica antes de aumentar o O2.

    • Oferecer O2 a 100% quando a VPP for acompanhada de massagem cardíaca.

  • Técnica: [2]

    • Frequência: 30 a 60 movimentos por minuto, ritmo "ocluui/solta/solta".

    • Fluxo ~10 L/minuto; pressão inspiratória 20 a 25 cmH2O; PEEP 5 a 6 cmH2O; limite de pressão máxima do circuito 30 a 40 cmH2O.

    • Usar gases umidificados aquecidos para manter a normotermia.

    • Após 3 a 5 ventilações: reajustar a pressão para leve expansão torácica com entrada de ar audível.

    • Principal sinal de eficácia: aumento da FC, em geral nos primeiros 15 segundos.

    • Insuflação sustentada: não recomendada na prática clínica; associa-se a aumento de óbitos nos primeiros 2 dias, especialmente em RN <28 semanas.

    • Se a FC permanecer <100 bpm ou a respiração não for retomada após 30 segundos: aplicar a sequência de ações corretivas (readaptar a máscara, reposicionar a cabeça, aspirar secreções, ventilar com a boca levemente aberta, aumentar a pressão ~5 cmH2O até no máximo 40 cmH2O).

    • VPP prolongada: inserir sonda orogástrica delicadamente, mantida aberta durante a VPP.

  • Equipamento: VMM com peça T é o equipamento de eleição, por oferecer pressão inspiratória mais constante, PEEP e CPAP consistentes e maior sobrevida sem displasia broncopulmonar. O balão autoinflável deve estar sempre disponível como reserva, apenas quando o VMM com peça T não estiver disponível ou não funcionar. [2]

  • Interface: [2]

    • Iniciar com máscara facial, aplicada delicadamente; o posicionamento na região nasotrigeminal pode desencadear reflexo do nervo trigêmeo, sendo a apneia inversamente proporcional à IG. Escape superior a 60% ocorre em mais de 40% das insuflações, reforçando a importância do ajuste e do treinamento.

    • Máscara laríngea: de modo geral não indicada em RN <34 semanas, pois o menor tamanho disponível foi desenhado para peso mínimo de 2.000 g e sua segurança nessa faixa não é conhecida.

    • Cânula traqueal: indicada quando a VPP com máscara não é efetiva após correção técnica, quando é prolongada ou quando há indicação de massagem cardíaca. Não há indicação de intubação profilática para administração de surfactante. Confirmar posição pelo aumento da FC e, de preferência, pela detecção de CO2 exalado.

CPAP em Sala de Parto

  • Indicação: RN <34 semanas com FC ≥100 bpm e respiração espontânea, mas com desconforto respiratório e/ou SpO2 abaixo do alvo logo após os passos iniciais. [2]

  • Também deve ser considerado após VPP bem-sucedida, quando o RN mantém FC ≥100 bpm e respiração espontânea (por máscara ou após extubação) mas persiste com desconforto respiratório e/ou SpO2 abaixo do alvo. [2]

  • O CPAP iniciado em sala de parto reduz a necessidade de ventilação mecânica e de surfactante, com redução do risco de morte ou displasia broncopulmonar, especialmente nos <28 semanas. [2]

  • Administração: [2]

    • Equipamento: VMM com peça T (não é possível aplicar CPAP com balão autoinflável, mesmo com válvula de PEEP).

    • Interface: máscara facial. Há sinalização de possível superioridade da máscara nasal para o sucesso do CPAP, mas ainda sem definição.

    • Fluxo ~10 L/minuto; pressão 5 a 6 cmH2O; O2 titulado conforme a SpO2 alvo.

    • Usar gases umidificados aquecidos para manter a normotermia.

    • Se o CPAP se prolonga por mais de alguns minutos, considerar sonda orogástrica.

    • Atenção: o posicionamento da máscara na região nasotrigeminal pode desencadear reflexo do nervo trigêmeo (bradicardia, irregularidade respiratória, fechamento da glote); aplicar com extrema delicadeza.

Surfactante

  • Não há recomendação de uso rotineiro de surfactante na sala de parto. [2]

  • O manejo inicial prioriza o suporte respiratório com CPAP ou VPP; a indicação do surfactante ocorre posteriormente, nas primeiras duas horas de vida, conforme a evolução clínica. [2]

Massagem Cardíaca

  • Indicação: FC <60 bpm após 30 segundos de VPP com cânula traqueal e técnica adequada, com via aérea assegurada e ventilação bem estabelecida. Aumentar o O2 para 100% quando indicada. [2]

  • A massagem não é evento raro no prematuro: 11% dos RN de 23 a 27 semanas e 3% dos de 28 a 31 semanas a receberam em sala de parto. [2]

  • Técnica dos dois polegares (preferencial): terço inferior do esterno, logo abaixo da linha intermamilar, poupando o apêndice xifoide; profundidade de 1/3 da dimensão anteroposterior, com reexpansão plena. O profissional que massageia posiciona-se atrás da cabeça do RN; o que ventila desloca-se para um dos lados. [2]

  • Coordenação com a ventilação: relação 3:1 (90 compressões e 30 ventilações por minuto, 120 eventos). Aplicar por 60 segundos antes de reavaliar a FC. [2]

  • Melhora: FC >60 bpm após 60 segundos: interromper a massagem; se FC ≥100 bpm com respiração espontânea regular, suspender também a VPP; considerar CPAP após extubação, sobretudo no muito baixo peso. [2]

  • Falha: FC <60 bpm após 60 segundos de VPP com cânula traqueal, O2 a 100% e massagem: verificar a técnica e indicar adrenalina. [2]

Medicações

  • Via preferencial: cateterismo venoso umbilical; na presença de colapso cardiovascular, não se recomenda tentar acesso venoso periférico. A via intraóssea é alternativa apenas quando o cateterismo umbilical não é factível, com risco de complicações potencialmente maior no prematuro pela fragilidade óssea. [2]

  • Adrenalina (epinefrina) amp. 1 mg/mL [2][4]

    • Diluição obrigatória: 1 mL da ampola em 9 mL de SF 0,9% (concentração final 1 mg/10 mL).

    • Via intravascular (endovenosa ou intraóssea, preferencial): 0,01 a 0,03 mg/kg; na prática, 0,02 mg/kg (0,2 mL/kg da solução diluída), em seringa de 1 mL, infundir rápido seguido de flush de 3 mL de SF 0,9%.

      • Peso 1 kg: 0,2 mL; peso 2 kg: 0,4 mL; peso 3 kg: 0,6 mL.

    • Via endotraqueal (uso único, enquanto se obtém acesso venoso): 0,05 a 0,1 mg/kg; na prática, 0,1 mg/kg (1,0 mL/kg da solução diluída), em seringa de 5 mL, infundir diretamente na cânula traqueal, sem flush.

      • Peso 1 kg: 1,0 mL; peso 2 kg: 2,0 mL; peso 3 kg: 3,0 mL.

    • Dose máxima: doses >0,1 mg/kg por qualquer via são contraindicadas.

    • Sem reversão da bradicardia: repetir por via intravascular a cada 3 a 5 minutos e considerar expansor de volume.

  • Cloreto de sódio 0,9% (soro fisiológico) [2][5]

    • Indicação: ausência de aumento da FC em resposta às demais medidas e/ou sinais de choque hipovolêmico (palidez, má perfusão, pulsos débeis).

    • Dose: 10 mL/kg por via endovenosa, lentamente em 5 a 10 minutos.

      • Atenção: no prematuro, administrar em pelo menos 5 a 10 minutos, pois a expansão rápida associa-se a hemorragia intracraniana.

      • Peso 1 kg: 10 mL; peso 2 kg: 20 mL; peso 3 kg: 30 mL.

    • Pode-se repetir 10 mL/kg após correção de outros fatores, sempre em 5 a 10 minutos.

    • Concentrado de glóbulos tipo O Rh negativo: reservado à suspeita de anemia fetal grave, de preferência após prova cruzada com sangue materno.

  • Considerações:

    • Bicarbonato de sódio e naloxone não são recomendados na reanimação neonatal em sala de parto. Cerca de 2/3 dos prematuros que recebem VPP e massagem cardíaca necessitam de medicações, com maior frequência nos mais imaturos. [2]

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes Estratégicas para a Atenção Integral à Saúde do Recém-Nascido. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

[2] GUINSBURG, Ruth; ALMEIDA, Maria Fernanda Branco de; Coordenadores Estaduais do PRN-SBP; Grupo Executivo do PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria, 2026. DOI: https://doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-2. Disponível em: https://www.sbp.com.br/especiais/reanimacao.

[3] ALMEIDA, Maria Fernanda Branco de; GUINSBURG, Ruth; Coordenadores Estaduais do PRN-SBP; Grupo Executivo do PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria, 2026. DOI: https://doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-1. Disponível em: https://www.sbp.com.br/especiais/reanimacao.

[4] HIPOLABOR FARMACÊUTICA LTDA. Epinefrina (cloridrato de epinefrina): solução injetável. Bula do medicamento (Referência). Belo Horizonte, 2023.

[5] EQUIPLEX INDÚSTRIA FARMACÊUTICA. Solução de Cloreto de Sódio 0,9%: solução injetável. Bula do medicamento. Aparecida de Goiânia, 2023.

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