Abdome Agudo Obstrutivo em Pediatria
Introdução
CID 10: R100 - Abdome agudo
CID 10: K564 - Outras obstruções do intestino
Definição:
O abdome agudo obstrutivo (AAO) em pediatria é uma síndrome clínica caracterizada pela interrupção súbita ou progressiva do trânsito intestinal normal.
Esse bloqueio pode ser de natureza mecânica (barreira física) ou funcional (alteração da motilidade).
No período neonatal e em lactentes jovens, o vômito (especialmente quando bilioso) é o sintoma-chave que organiza o raciocínio diagnóstico. Em crianças maiores, a dor abdominal em cólica associada à parada de eliminação de gases e fezes assume papel central.
Epidemiologia
A dor abdominal é responsável por aproximadamente 9% das visitas de emergência em pediatria [1].
Embora a maioria das dores abdominais na infância tenha causas clínicas (não cirúrgicas), o AAO representa uma parcela significativa das emergências cirúrgicas neonatais e em lactentes [1][3].
Distribuição por Faixa Etária:
Período Neonatal: Predominam as malformações congênitas. A incidência de atresias intestinais é de cerca de 1 em cada 2.000 a 5.000 nascidos vivos [5].
Lactentes (3-6 semanas): A Estenose Hipertrófica do Piloro tem incidência de 2 a 4 por 1.000 nascidos vivos, sendo mais comum em meninos primogênitos [5].
Lactentes (3 meses a 2 anos): A intussuscepção intestinal é a causa mais comum de obstrução mecânica nesta fase [3].
Morbimortalidade:
O prognóstico está diretamente ligado à rapidez do diagnóstico. O vômito bilioso no neonato é uma regra de ouro epidemiológica: deve ser tratado como emergência cirúrgica (como má rotação com volvo) até que se prove o contrário, devido ao alto risco de perda total do intestino médio por necrose em poucas horas [5].
Fisiopatologia
A obstrução leva à estase do conteúdo intestinal, seguida de distensão progressiva das alças a montante. Esse processo aumenta a pressão intraluminal, o que prejudica a drenagem linfática e venosa, resultando em edema de parede [1][5].
Se a pressão persistir, ocorre comprometimento da irrigação arterial, levando à isquemia, necrose e eventual perfuração.
Além disso, a estase favorece o supercrescimento bacteriano e a translocação para a corrente sanguínea, aumentando o risco de sepse de foco abdominal [3][5]
Principais causas
Atresia Esofágica:
RN com sialorreia e engasgos na primeira mamada; impossibilidade de progressão de sonda gástrica [5].
Atresia Duodenal:
Associada à Síndrome de Down; RX mostra sinal da "dupla bolha" [5].
Má Rotação com Volvo:
Causa grave de vômitos biliosos; risco iminente de necrose total do intestino médio [3][5].
Íleo Meconial:
Obstrução por mecônio espesso, frequentemente associada à fibrose cística [3][5].
Doença de Hirschsprung:
Aganglionose intestinal levando a atraso na eliminação de mecônio (> 48h) e distensão [5].
Lactentes e Crianças:
Estenose Hipertrófica do Piloro:
Comum entre 3-6 semanas de vida; vômitos em jato, não biliosos, em criança "faminta". Presença da "oliva pilórica" [1][5].
Intussuscepção Intestinal:
Principal causa entre 3 meses e 2 anos; dor em cólica súbita, massa palpável ("sinal da salsicha") e fezes em "geleia de morango" [1][3].
Hérnia Inguinal Encarcerada:
Causa importante de obstrução mecânica que exige redução ou cirurgia de urgência [3].
Diagnóstico
Laboratório:
No abdome agudo obstrutivo proximal (como na Estenose de Piloro), é clássico encontrar alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica devido aos vômitos persistentes [1][5].
Imagem:
Radiografia (RX):
Avalia níveis hidroaéreos e sinais específicos como "dupla bolha" (atresia duodenal) ou "sonda enrolada" no esôfago (atresia esofágica) [5].
Ultrassonografia (USG): [1][5]
Estenose de Piloro (espessura da parede muscular ≥ 4 mm, com comprimento do canal pilórico ≥ 17 mm como critério complementar)
Intussuscepção (sinal do alvo)
Tratamento
Estabilização Inicial:
Jejum absoluto, hidratação venosa vigorosa e descompressão gástrica com sonda em sifonagem [3][5].
Correção Metabólica:
No caso de Estenose de Piloro, a cirurgia (piloromiotomia) só deve ser realizada após a correção dos distúrbios hidroeletrolíticos [1][5].
Intervenção Cirúrgica:
Indicada na maioria das obstruções anatômicas (atresias, volvo, bridas).
Redução Clínica:
A intussuscepção pode ser tratada com enema salino ou pneumático se não houver sinais de peritonite [1][3].
Analgesia
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Dipirona gotas 500mg/1mL/20 gotas
Dar 0,6 a 1 gota/kg (max 40 gotas), a cada 6 h se dor ou febre
Dose: 15 a 25 mg/kg/dose
Obs: > 3 meses de idade
Dipirona sol. injetável. 1g/2mL ou 500mg/1mL
5 a 8 kg: 0,1 a 0,2 mL IM, a cada 6h se necessário.
9-15 kg: 0,2 a 0,5 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
16-23 kg: 0,3 a 0,8 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
24-30 kg: 0,4 a 1,0 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
31-45 kg: 0,5 a 1,5 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
46-53 kg: 0,8 a 1,8 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
≥ 54 kg: 2 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário (máx. 4g/dia)
Antibioticoterapia (Se indicado)
Indicada se houver sinais de peritonite, perfuração ou antes de procedimentos cirúrgicos para causas inflamatórias/obstrutivas complicadas [3].
Procedimentos Específicos
Enema (Salino ou Pneumático): Indicado para redução de intussuscepção intestinal em pacientes sem sinais de peritonite ou perfuração [1][3].
Piloromiotomia: Tratamento cirúrgico da Estenose de Piloro após estabilização [5].
Observação:
É imperativo que o médico realize o reconhecimento precoce e preciso do quadro, assegurando o encaminhamento ágil do paciente a uma unidade hospitalar para confirmação diagnóstica e intervenção definitiva.
Referências
[1] NASCIMENTO, Fernanda Lopes et al. Abdome agudo em pediatria: diagnóstico e tratamento. In: Fundamentos e Práticas Pediátricas e Neonatais. Capítulo 09. 2026.
[2] ALBERT EINSTEIN. Sociedade Beneficente Israelita Brasileira. Guia do Episódio de Cuidado: Dor Abdominal Aguda em Crianças e Adolescentes. São Paulo, 2023.
[3] NOGUEIRA, Jorge Henrique Bittar de Moraes Alexandrino; SILVEIRA, Gladma Rejane Araújo da. Abdome agudo em crianças: principais causas e abordagens. UNIFACIG, Minas Gerais, 2020.
[4] STRACIERI, Luiz Donizeti da Silva. Protocolo clínico e de regulação para dor abdominal aguda na criança. USP. p. 1223-32.
[5] BRUN, Marília Maroneze. Cirurgia Pediátrica: Obstrução Intestinal no RN e Lactente. Material de Internato em Pediatria, 2025.
Autoria e Curadoria
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