Sepse Neonatal Precoce
CID-10: P36 - Septicemia bacteriana do recém-nascido
Introdução
Definição:
A sepse neonatal é uma síndrome clínica caracterizada por sinais sistêmicos de infecção e inflamação decorrentes da presença de um patógeno em fluído estéril, como sangue ou líquor [1].
É uma das principais causas de morbimortalidade em recém-nascidos (RN), especialmente em prematuros e de baixo peso [2].
Epidemiologia:
Incidência estimada entre 0,8 a 5 casos por mil nascidos vivos [1].
Classificação:
Precoce: Início nas primeiras 48 a 72 horas de vida; relacionada a fatores maternos e perinatais [3].
Tardia: Ocorre após 48 a 72 horas de vida; associada à assistência à saúde e procedimentos invasivos [3].
Etiologia (Sepse Precoce): [1][3]
Principais agentes incluem:
Streptococcus agalactiae (Grupo B)
Escherichia coli
Listeria monocytogenes
Patogênese
Vias de Infecção
A contaminação do recém-nascido e o desenvolvimento da sepse precoce ocorrem predominantemente por via ascendente ou durante o parto, a partir da microbiota vaginal materna [1][3].
As principais vias incluem:
Via Ascendente: As bactérias da flora vaginal colonizam o líquido amniótico após a ruptura das membranas, podendo infectar o feto ainda intraútero [3].
Aspiração: O recém-nascido aspira o líquido amniótico infectado ou secreções vaginais contaminadas, utilizando os pulmões como a principal porta de entrada para a disseminação sistêmica [1].
Via Hematogênica: Ocorre a transmissão transplacentária de patógenos a partir de uma bacteremia materna, sendo a via clássica para infecções por Listeria monocytogenes [3].
Canal do Parto: Caracteriza-se pela exposição direta e colonização do neonato durante a passagem pelo canal vaginal infectado [1][3].
Quadro Clínico
As manifestações da sepse neonatal são inespecíficas e sutis, exigindo que a suspeita clínica precoce seja a prioridade [2].
Os sinais dividem-se conforme os sistemas afetados:
Manifestações Respiratórias (Presentes em 90% dos casos): [3]
Taquipneia, gemência, dessaturação e batimento de asa de nariz.
Apneia: Deve ser diferenciada da apneia da prematuridade pela presença de outros sinais infecciosos associados.
Pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória aguda grave.
Manifestações Hemodinâmicas:
Hipotensão, taquicardia e extremidades frias.
Choque Séptico: Caracterizado por palidez cutânea, má perfusão periférica (TEC prolongado), redução do débito urinário e letargia.
Nota: O quadro de choque é observado principalmente na sepse causada por EGB (Streptococcus do Grupo B).
Manifestações Neurológicas:
Hipoatividade, hipotonia, letargia, irritabilidade e convulsões.
Instabilidade Térmica:
Hipotermia: Sinal mais frequente em recém-nascidos pré-termo (RNPT).
Hipertermia: Mais comum em recém-nascidos a termo (RNT).
Manifestações Gastrointestinais (35–40% dos casos):
Intolerância ou recusa alimentar, vômitos, estase gástrica, distensão abdominal, hepatomegalia e diarreia.
Alterações Metabólicas e Icterícia:
Intolerância à Glicose: Hiperglicemia, especialmente em RNPT, devido à resposta inadequada à insulina durante o estresse infeccioso.
Icterícia: Elevação da bilirrubina direta (em até 1/3 dos casos), sendo um sinal comum em infecções por germes gram-negativos.
Sinais de Sangramento:
Petéquias, hematúria e sangramento em locais de punção; indicativo de Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD) associada ao choque.
Diagnóstico
O diagnóstico de certeza é bacteriológico, mas a decisão terapêutica baseia-se na combinação de fatores de risco, sinais clínicos e exames laboratoriais. [3]
Culturas (Padrão-Ouro):
Coletar 2 amostras de hemoculturas de 2 sítios diferentes, volume mínimo de 1 mL por amostra.
Punção Lombar se hemocultura positiva, deterioração clínica ou antes de iniciar ATB em suspeita de meningite.
Escore de Rodwell (Hematológico):
Utilizado para aumentar a precisão diagnóstica através da análise do hemograma.
Atribui-se 1 ponto para cada um dos seguintes critérios:
Leucopenia ou neutrofilia;
Elevação de neutrófilos imaturos;
Índice neutrofílico aumentado;
Razão de neutrófilos imaturos/segmentados > 0,3;
Plaquetopenia ≤ 150.000/mm³.
Interpretação:
Escore ≥ 3: Alta probabilidade de sepse (Sensibilidade: 96% | Especificidade: 78%).
Escore 0 a 2: Baixa probabilidade (Valor Preditivo Negativo: 99%).
Nota clínica: Embora útil pela alta sensibilidade, o escore tem sido menos utilizado na prática atual em favor de calculadoras de risco neonatal e biomarcadores como a PCR [1][3].
Exames Complementares:
Hemograma:
Avaliação de leucopenia (< 5.000/mm³), leucocitose (> 25.000/mm³ ao nascimento) ou índice neutrofílico (I/T) ≥ 0,2.
Proteína C-Reativa (PCR):
Valores > 1 a 3 mg/dL. Deve ser coletada preferencialmente após 12h do início dos sintomas para maior acurácia.
Importante: PCR precisa fazer curva para acompanhamento do quadro. O resultado isolado é de baixa sensibilidade e especificidade.
Antibioticoterapia Empírica
O tratamento deve ser iniciado precocemente após a coleta de hemoculturas.
Esquema de antibioticoterapia empírica:
A escolha inicial para sepse precoce foca na cobertura de germes do canal de parto:
1ª escolha para Sepse Precoce (Padrão)
Ampicilina + Gentamicina
Cobertura de germes do canal de parto (SGB e E. coli) [3].
Suspeita ou confirmação de Meningite
Ampicilina + Cefotaxima
Possui excelente penetração no SNC [2][3].
Suspeita de SGB ou Sífilis
Penicilina G Cristalina
Utilizada em substituição à Ampicilina em casos específicos [3].
Duração da antibioticoterapia:
Cultura Negativa:
Suspender em 36-48h se RN assintomático e exames normais [3][4].
Sepse sem Foco:
Completar 10 dias se hemocultura positiva [3].
EGB Confirmado:
Mínimo de 14 dias de tratamento [3].
Meningite Gram-negativa:
Mínimo 21 dias [2]
Prescrição: [2][3]
Ampicilina frasco-ampola 500mg ou 1g
RN < 7 dias: 50 mg/kg/dose, IV, a cada 12 horas.
RN 7 a 28 dias: 50 mg/kg/dose, IV, a cada 8 horas.
Dose máxima pediátrica: máximo 400 mg/kg/dia - não exceder 12 g/dia.
Casos especiais:
Meningite suspeita/confirmada: 100 mg/kg/dose, IV, seguindo o intervalo por idade descrito acima.
Gentamicina (Garamicina®) ampola 10 mg/2mL, 40 mg/mL ou 80 mg/2mL
Dose Usual: 4 a 5 mg/kg/dose, via IV (infusão em 30 min) ou IM, a cada 24 horas.
Dose máxima pediátrica: 7,5 mg/kg/dia.
Observação:
Monitorar rigorosamente a função renal; o intervalo pode ser de 36-48h em prematuros extremos.
Penicilina G Cristalina (Cristalpen®) frasco-ampola 5.000.000 UI
RN < 7 dias: 50.000 UI/kg/dose, IV, a cada 12 horas.
RN 7 a 28 dias: 50.000 UI/kg/dose, IV, a cada 8 horas.
Dose máxima pediátrica: 24.000.000 UI/dia.
Cefotaxima (Claforan®) frasco-ampola 500 mg ou 1g
Dose: 50 mg/kg/dose, IV, a cada 12h (< 7 dias) ou 8h (> 7 dias).
Dose máxima pediátrica: 200 mg/kg/dia (não exceder 12 g/dia).
Referências
[1] AYRES, Greyce de Freitas. Avaliação do Recém-Nascido de Risco para Sepse Neonatal Precoce. Porto Alegre: HCPA, 2021.
[2] RODRIGUES, J. C. T. et al. Abordagem atual da sepse neonatal e pediátrica na emergência. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 7, n. 3, 2025.
[3] SÃO PAULO. SMS. Protocolo: Diagnóstico e Tratamento Precoce da Sepse em Recém-Nascidos. HME Dra. Mário de Moraes Altenfelder Silva. São Paulo, 2023.
[4] Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neonatologia. Sepse neonatal precoce e a abordagem dorecém-nascido de risco: o que há de novo? Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria; 2022. Disponível em:https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23488cDC_Sepse_neonatal_precoce_e_abordagem_RN_de_risco.pdf
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