Hiperuricemia Assintomática no Adulto
CID-10: E79.0 — Hiperuricemia sem sinais de artrite inflamatória e doença tofácea
Introdução
Hiperuricemia corresponde à elevação persistente do ácido úrico sérico acima do limite de saturação fisiológica do urato monosódico, geralmente > 6,8 mg/dL.
A maioria dos indivíduos com hiperuricemia permanece assintomática durante toda a vida.
Hiperuricemia isolada não equivale a gota.
Pode estar associada a:
gota;
nefrolitíase por ácido úrico;
doença renal crônica (DRC);
síndrome metabólica;
obesidade;
hipertensão arterial sistêmica;
diabetes mellitus tipo 2.
A prevalência aumenta com:
idade;
sexo masculino;
uso de diuréticos;
consumo de álcool;
obesidade;
redução da taxa de filtração glomerular.
Fisiopatologia
Resulta de:
superprodução de ácido úrico;
redução da excreção renal;
combinação de ambos.
Aproximadamente 90% dos casos decorrem de redução da excreção renal de urato.
O ácido úrico é produto final do metabolismo das purinas.
Níveis persistentemente elevados favorecem:
formação de cristais de urato monossódico;
deposição articular;
formação de cálculos urinários.
Causas e fatores associados
Redução da excreção renal:
DRC;
desidratação;
uso de diuréticos tiazídicos e de alça;
ácido acetilsalicílico em baixa dose;
ciclosporina;
tacrolimo.
Aumento da produção:
dieta rica em purinas;
etilismo;
neoplasias mieloproliferativas;
lise tumoral;
psoríase extensa.
Associação metabólica:
obesidade;
resistência insulínica;
síndrome metabólica.
Avaliação clínica inicial
Confirmar hiperuricemia em nova dosagem sérica, idealmente fora de intercorrências agudas.
Investigar:
episódios prévios sugestivos de gota;
nefrolitíase;
história familiar;
uso de medicamentos hiperuricemiantes;
etilismo;
consumo excessivo de carne vermelha e bebidas adoçadas com frutose.
Avaliar comorbidades:
hipertensão;
obesidade;
DRC;
diabetes mellitus;
doença cardiovascular.
Exames complementares
Ácido úrico sérico.
Creatinina sérica e estimativa da TFG.
EAS:
avaliar hematúria;
cristalúria;
proteinúria.
Relação albumina/creatinina urinária quando suspeita de DRC.
Ultrassonografia de rins e vias urinárias:
considerar se história de nefrolitíase.
Quando NÃO tratar farmacologicamente
Diretrizes atuais não recomendam tratamento farmacológico rotineiro da hiperuricemia assintomática.
Não há evidência consistente de benefício em:
prevenção cardiovascular;
prevenção de DRC;
redução de mortalidade.
ACR 2020 recomenda contra uso rotineiro de terapia redutora de urato em indivíduos sem:
artrite gotosa;
tofos;
nefrolitíase por urato.
🤔 Situações em que pode-se considerar terapia redutora de urato (a decisão deve ser individualizada):
Pode-se considerar tratamento em:
ácido úrico persistentemente muito elevado (ex.: > 9–10 mg/dL);
nefrolitíase recorrente por ácido úrico;
uricosúria importante;
síndrome de lise tumoral ou alto risco onco-hematológico.
Alguns consensos asiáticos sugerem abordagem mais intervencionista, porém sem uniformidade internacional.
Medidas não farmacológicas
Redução ponderal em pacientes com sobrepeso/obesidade.
Redução do consumo de:
álcool, especialmente cerveja e destilados;
bebidas adoçadas com frutose;
carnes vermelhas em excesso;
vísceras;
frutos do mar ricos em purinas.
Incentivar:
hidratação adequada;
atividade física regular;
padrão alimentar mediterrâneo/DASH.
Revisar medicamentos hiperuricemiantes quando possível (p. ex. Hidroclorotiazida).
Terapia farmacológica
Inibidores da xantina oxidase
Alopurinol
Considerações:
Não indicado rotineiramente na hiperuricemia assintomática isolada.
Monitorar função renal e hepática;
Risco raro de síndrome de hipersensibilidade grave.
Prescrição:
Alopurinol (Zyloric®) comp. 100 mg ou 300 mg
Dose usual inicial: 100 mg/dia.
Em DRC avançada, considerar dose inicial ≤ 50 mg/dia.
Dose máxima: 800 mg/dia.
Ajustar progressivamente conforme uricemia e função renal.
Febuxostate
Considerações:
Alternativa quando intolerância ou contraindicação ao alopurinol.
Usar com cautela em doença cardiovascular estabelecida.
Prescrição:
Febuxostate (Adenuric®) comp. 40 mg ou 80 mg
Dose inicial: 40 mg VO 1x/dia.
Pode aumentar para: 80 mg/dia conforme meta de urato.
Situações especiais
Doença renal crônica
Hiperuricemia é frequente em pacientes com DRC.
Não se recomenda iniciar terapia redutora de urato apenas para retardar progressão da DRC em pacientes assintomáticos.
Síndrome de lise tumoral
Representa exceção importante.
Pode haver indicação profilática de redução de urato antes de quimioterapia.
Profilaxia de lise tumoral:
Alopurinol (Zyloric®) comp. 100 mg ou 300 mg
100–300 mg VO a cada 8h;
iniciar 1–2 dias antes da quimioterapia quando indicado.
Rasburicase (Fasturtec®) pó inj. 1,5 mg
Pacientes de alto risco para lise tumoral: 0,2 mg/kg IV em 30 min 1x/dia.
Contraindicada em deficiência de G6PD.
Acompanhamento
Reavaliar:
ácido úrico sérico;
função renal;
fatores de risco metabólicos.
Periodicidade individualizada conforme:
valor da uricemia;
presença de DRC;
comorbidades.
Critérios para encaminhamento
Encaminhar à reumatologia quando:
suspeita diagnóstica de gota;
dúvida diagnóstica;
hiperuricemia grave persistente;
intolerância a terapias redutoras de urato.
Encaminhar à nefrologia quando:
DRC avançada;
nefrolitíase recorrente;
deterioração progressiva da função renal.
Referências
[1] DUNCAN, Bruce B.; SCHMIDT, Maria Inês; GIUGLIANI, Elsa R. J. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
[2] FITZGERALD, John D. et al. 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout. Arthritis Care & Research, Hoboken, v. 72, n. 6, p. 744-760, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32391934/. Acesso em: 18 maio 2026.
[3] FITZGERALD, John D. et al. 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout. American College of Rheumatology, 2020. Disponível em: https://rheumatology.org/press-releases/acr-releases-gout-management-guideline-with-emphasis-on-treat-to-target-strategy-for-urate-lowering-therapy. Acesso em: 18 maio 2026.
[4] GUSSO, Gustavo; LOPES, José Mauro Ceratti; DIAS, Lêda Chaves. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
[5] KDIGO. Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). Disponível em: https://kdigo.org/. Acesso em: 18 maio 2026.
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