Lesão por Pressão (Escara)
CID-10: L89 — Úlcera de decúbito e área por pressão
Introdução
Lesão por pressão (LPP), anteriormente denominada úlcera por pressão ou escara, é uma lesão localizada na pele e/ou tecidos moles subjacentes, geralmente sobre proeminência óssea ou relacionada ao uso de dispositivos médicos, decorrente de pressão intensa e/ou prolongada associada ao cisalhamento.
A terminologia “lesão por pressão” é atualmente preferida pelas principais diretrizes internacionais, pois nem todas as lesões apresentam ulceração aberta.
Representa importante causa de morbidade, prolongamento de internação, aumento de custos assistenciais e redução da qualidade de vida.
Ocorre principalmente em:
Pacientes acamados.
Idosos frágeis.
Pacientes críticos.
Pessoas com limitação de mobilidade.
Pacientes com incontinência urinária/fecal.
Portadores de lesão medular.
As regiões mais acometidas incluem:
Sacro.
Calcâneos.
Trocânteres.
Ísquios.
Maleolos.
Occipital.
Fatores de risco
Imobilidade prolongada.
Redução da percepção sensorial.
Fricção e cisalhamento.
Umidade excessiva:
Incontinência urinária.
Incontinência fecal.
Sudorese.
Exsudato persistente.
Desnutrição e hipoalbuminemia.
Desidratação.
Idade avançada.
Hipoperfusão tecidual:
Choque.
Insuficiência vascular.
Uso de vasopressores.
Diabetes mellitus.
Neuropatias.
Dispositivos médicos:
Máscaras.
Colares cervicais.
Cateteres.
Tubos e sondas.
Fisiopatologia
Resulta da combinação de:
Pressão prolongada.
Cisalhamento.
Fricção.
Alteração do microclima cutâneo.
A pressão sustentada excede a pressão de perfusão capilar, causando:
Isquemia.
Hipóxia tecidual.
Necrose celular.
O cisalhamento promove deformação vascular e dano profundo dos tecidos, podendo causar lesões inicialmente não aparentes na superfície cutânea.
Classificação / Estadiamento

Estágio 1
Pele íntegra com eritema não branqueável localizado sobre proeminência óssea.
Pode haver:
Dor.
Alteração de temperatura.
Endurecimento.
Mudança de sensibilidade.
Em pele escura, pode manifestar-se como alteração persistente de coloração sem eritema evidente.
Estágio 2
Perda parcial da pele com exposição da derme.
Aspecto possível:
Úlcera rasa.
Bolha íntegra ou rota.
Não utilizar este estágio para:
Dermatite associada à incontinência.
Lesões por adesivos.
Lesões por fricção.
Estágio 3
Perda total da pele com exposição do tecido adiposo.
Pode apresentar:
Esfacelo.
Tunelização.
Descolamento.
Não há exposição de:
Fáscia.
Músculo.
Tendão.
Osso.
Estágio 4
Perda total da pele e tecido com exposição ou palpação direta de:
Fáscia.
Músculo.
Tendão.
Cartilagem.
Osso.
Frequentemente associada a:
Tunelização.
Cavidades.
Esfacelo.
Escara.
Lesão por pressão não classificável
Perda total da pele e tecido cuja profundidade não pode ser determinada devido à cobertura por:
Escara.
Esfacelo.
Após remoção do tecido desvitalizado, geralmente evidencia-se estágio 3 ou 4.
Lesão tissular profunda
Área persistente de coloração:
Vermelha escura.
Marrom.
Arroxeada.
Pode evoluir rapidamente para necrose extensa.
Resulta de dano profundo causado por pressão e cisalhamento intensos.
Lesão relacionada a dispositivo médico
Decorre da pressão exercida por dispositivos diagnósticos ou terapêuticos.
Geralmente reproduz o formato do dispositivo.
Avaliação clínica
📝 Avaliar e documentar:
Localização.
Tamanho.
Profundidade.
Presença de tunelização.
Presença de descolamento.
Tipo de tecido no leito.
Quantidade de exsudato.
Odor.
Dor.
Integridade da pele adjacente.
Sinais de infecção.
🦠 Sinais sugestivos de infecção:
Aumento de exsudato.
Eritema periférico.
Dor progressiva.
Mau odor persistente.
Necrose extensa.
Retardo de cicatrização.
Febre ou sinais sistêmicos.
⚠️ Avaliação de risco:
Escala de Braden pode ser utilizada para estratificação do risco.
Deve-se reavaliar periodicamente pacientes internados ou com alteração clínica relevante.
Diagnóstico
O diagnóstico é predominantemente clínico:
Deve-se:
Classificar corretamente o estágio.
Identificar fatores contribuintes.
Avaliar sinais de infecção.
Excluir diagnósticos diferenciais.
Diagnósticos diferenciais:
Dermatite associada à incontinência.
Úlcera venosa.
Úlcera arterial.
Lesões por fricção.
Vasculites cutâneas.
Neuropatia diabética.
Prevenção
Mudança de decúbito
Reposicionar regularmente pacientes restritos ao leito ou cadeira.
A frequência deve ser individualizada conforme:
Tolerância tecidual.
Superfície de apoio.
Estado clínico.
Mobilidade residual.
Evitar apoio direto prolongado sobre proeminências ósseas.
Superfícies de redistribuição de pressão
Utilizar superfícies apropriadas em pacientes de risco:
Colchão pneumático.
Colchão de espuma de alta especificação.
Almofadas de redistribuição de pressão.
Colchões tipo “caixa de ovo” isoladamente não são recomendados como estratégia única de prevenção.
Cuidados com a pele
Manter pele limpa e seca.
Reduzir exposição prolongada à umidade.
Utilizar barreiras protetoras em pacientes com incontinência.
Evitar massagem vigorosa sobre áreas hiperemiadas.
Suporte nutricional
Realizar triagem nutricional.
Garantir ingestão calórico-proteica adequada.
Considerar suplementação nutricional em pacientes desnutridos ou de risco.
Mobilização
Incentivar mobilização precoce sempre que possível.
Implementar fisioterapia motora conforme condição clínica.
Manejo da lesão e analgesia
🎯 Objetivos do tratamento
Controle da pressão local.
Promoção da cicatrização.
Controle de exsudato e umidade.
Prevenção e tratamento de infecção.
Controle da dor.
Alívio de pressão
Não posicionar o paciente diretamente sobre a lesão.
Utilizar superfícies de redistribuição de pressão.
Suspender calcâneos do leito quando necessário.
Limpeza da ferida
Limpar a lesão a cada troca de curativo.
Preferir:
SF 0,9%.
Água potável limpa quando apropriado.
Evitar agentes citotóxicos rotineiramente:
PVPI.
Água oxigenada.
Hipoclorito.
Desbridamento
Indicado para remoção de tecido desvitalizado quando apropriado.
Desbridamento cirúrgico
Considerar em:
Necrose extensa.
Infecção profunda.
Celulite.
Sepse.
Desbridamento autolítico
Pode ser realizado com coberturas que mantenham ambiente úmido.
Desbridamento enzimático
Pode ser considerado conforme disponibilidade e perfil da lesão.
Coberturas
Lesões com baixo exsudato
Considerar coberturas que mantenham ambiente úmido:
Hidrocoloide.
Hidrogel.
Lesões com exsudato moderado/intenso
Considerar coberturas absorventes:
Espuma de poliuretano.
Alginato.
Hidrofibra.
Lesões infectadas ou criticamente colonizadas
Pode-se considerar cobertura antimicrobiana conforme avaliação clínica.
Terapia por pressão negativa
Pode ser considerada em lesões profundas selecionadas com grande exsudato ou cavidades.
Analgesia
Dipirona (Novalgina®) comp. 500 mg
Tomar 1 a 2 cp VO de 6/6h se dor.
Dose máxima: 4 g/dia.
Dipirona (Novalgina®) sol. oral 500 mg/mL
Adultos: 20 a 40 gotas VO de 6/6h se dor.
Dose máxima: 4 g/dia.
Paracetamol (Tylenol®) comp. 500 mg ou 750 mg
Tomar 1 cp VO de 6/6h se dor.
Dose máxima: 3 g/dia.
Tramadol (Tramal®) caps. 50 mg
Tomar 1 cápsula VO de 8/8h se dor moderada/intensa.
Dose máxima: 400 mg/dia.
Infecção e antibioticoterapia
Considerações:
Colonização bacteriana isolada não indica antibioticoterapia sistêmica.
Não indicar antibióticos sistêmicos apenas por:
Presença de exsudato.
Mau odor isolado.
Cultura positiva sem sinais clínicos de infecção.
Indicações de antibiótico sistêmico
Celulite associada.
Osteomielite.
Bacteremia.
Sepse.
Infecção profunda com sinais sistêmicos.
Esquema antibiótico:
Não há esquema antibiótico padrão universal para lesão por pressão. Consulte alguns cenários comuns descritos abaixo, e os esquemas mais indicados para cada situação específica.
Considerar cobertura para infecção polimicrobiana em lesões profundas infectadas.
A escolha deve considerar:
Sítio infeccioso.
Gravidade clínica.
Cultura quando disponível.
Perfil microbiológico local.
Exemplos de cenários clínicos e esquemas antimicrobianos
Celulite perilesional sem sinais sistêmicos graves
Considerações:
Cobertura direcionada principalmente para: Staphylococcus aureus; Streptococcus spp.
Considerar cobertura para MRSA (sulfametoxazol-trimetoprima ou clindamicina) conforme epidemiologia local e fatores de risco.
Opções ambulatoriais:
Cefalexina (Keflex®) comp. 500 mg
Tomar 1 cp VO de 6/6h por 7 a 10 dias.
Amoxicilina + Clavulanato (Clavulin®) comp. 875/125 mg
Tomar 1 cp VO de 12/12h por 7 a 10 dias.
Lesão profunda infectada com necrose e odor fétido
Considerações:
Considerar infecção polimicrobiana com cobertura para: Gram-positivos; Gram-negativos; Anaeróbios.
Avaliar necessidade de desbridamento cirúrgico associado.
Duração da antibioticoterapia: 7 a 14 dias dependendo do caso.
Opções hospitalares:
Esquemas:
Opção A: Vancomicina + Piperacilina-Tazobactam, OU
Opção B: Vancomicina + Ceftriaxona + Metronidazol
Vancomicina pó inj. 500 mg ou 1 g
Dose inicial: 15 a 20 mg/kg IV de 8/8h a 12/12h.
Ajustar conforme função renal e níveis séricos.
Piperacilina-Tazobactam (Tazocin®) pó inj. 4,5 g
Aplicar 4,5 g IV de 6/6h.
Ceftriaxona (Rocefin®) pó inj. 1 g
Aplicar 2 g IV 1x/dia.
Metronidazol (Flagyl®) sol. inj. 500 mg/100 mL
Aplicar 500 mg IV de 8/8h.
Osteomielite associada à lesão por pressão
Considerações:
Preferir coleta de culturas profundas/ósseas antes do início da antibioticoterapia quando viável.
Frequentemente requer: internação, desbridamento e tratamento prolongado.
Ajustar posteriormente conforme culturas e avaliação da infectologia.
Duração da antibioticoterapia: pode variar de 4 a 6 semanas dependendo do caso.
Esquema empírico inicial hospitalar:
Esquema: Vancomicina + Cefepime
Vancomicina pó inj. 500 mg ou 1 g
Dose inicial: 15 a 20 mg/kg IV de 8/8h a 12/12h.
Ajustar conforme função renal e níveis séricos.
Cefepime pó inj. 1 g ou 2 g
Aplicar 2 g IV de 8/8h.
Osteomielite associada
Suspeitar em:
Lesões profundas crônicas.
Exposição óssea.
Falha de cicatrização.
Febre persistente.
Aumento de marcadores inflamatórios.
Avaliação pode incluir:
Radiografia.
Ressonância magnética.
Cultura óssea quando indicada.
Antibioticoterapia empírica inicial para osteomielite associada à lesão por pressão:
Considerações:
Preferir coleta de culturas profundas/ósseas antes do início da antibioticoterapia quando viável.
Frequentemente requer: internação, desbridamento e tratamento prolongado.
Ajustar posteriormente conforme culturas e avaliação da infectologia.
Duração da antibioticoterapia: pode variar de 4 a 6 semanas dependendo do caso.
Esquema: Vancomicina + Cefepime
Vancomicina pó inj. 500 mg ou 1 g
Dose inicial: 15 a 20 mg/kg IV de 8/8h a 12/12h.
Ajustar conforme função renal e níveis séricos.
Cefepime pó inj. 1 g ou 2 g
Aplicar 2 g IV de 8/8h.
Critérios de encaminhamento / internação
Considerar encaminhamento e/ou internação se:
Lesão estágio 3 ou 4 extensa.
Necessidade de desbridamento cirúrgico.
Suspeita de osteomielite.
Celulite extensa.
Sepse.
Falha terapêutica ambulatorial.
Dor de difícil controle.
Necessidade de terapia por pressão negativa ou reconstrução cirúrgica.
Complicações
As possíveis complicações da Lesão por Pressão incluem:
Celulite.
Abscesso.
Osteomielite.
Bacteremia.
Sepse.
Dor crônica.
Fístulas.
Referências
[1] BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES n.º 05/2023: práticas seguras para prevenção de lesão por pressão em serviços de saúde. Brasília: ANVISA, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa. Acesso em: 16 maio 2026.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo para prevenção de úlcera por pressão. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 16 maio 2026.
[3] NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL (NPIAP); EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL (EPUAP); PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE (PPPIA). Prevention and treatment of pressure ulcers/injuries: clinical practice guideline. 2025. Disponível em: https://internationalguideline.com. Acesso em: 16 maio 2026.
[4] BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Bulário eletrônico da ANVISA. Brasília: ANVISA, 2026. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br. Acesso em: 16 maio 2026.
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