Delirium no Idoso
CID-10: F05 — Delirium não induzido por álcool ou outras substâncias psicoativas
Introdução
Síndrome neuropsiquiátrica aguda caracterizada por:
Alteração da consciência
Déficit de atenção
Comprometimento cognitivo global
Geralmente secundária a condição clínica subjacente (orgânica)
Início e evolução:
Início agudo (horas a dias)
Evolução flutuante ao longo do dia
Alta relevância clínica:
Subdiagnosticado (até 65–88% dos casos)
Associado a:
Aumento de mortalidade
Declínio funcional
Risco de demência
Fisiopatologia
Modelo atual (Mecanismo não completamente elucidado)
Falência de integração de sistemas
Envolve:
Envelhecimento neuronal
Estresse oxidativo
Neuroinflamação
Disfunção neuroendócrina
Alteração do ritmo circadiano
Consequência final:
Desequilíbrio de neurotransmissores
Desconexão de redes cerebrais funcionais
Neurotransmissores envolvidos:
↓ Acetilcolina (principal)
Alterações:
Dopamina
Noradrenalina
GABA
Implicação prática:
Drogas anticolinérgicas aumentam o risco de delirium
Epidemiologia
Prevalência:
23% dos adultos hospitalizados
29–64% em enfermarias geriátricas
35% em cuidados paliativos
8–17% em emergência
Em ambiente de terapia intensiva (UTI):
32% dos internados
50–80% em ventilação mecânica
Idosos:
Até 50% dos hospitalizados acometidos
Quadro clínico
Características principais
Déficit de atenção:
Dificuldade em focar, sustentar ou alternar atenção
Alteração da consciência:
Obnubilação
Redução da percepção ambiental
Cognição:
Desorientação (auto e alopsíquica)
Déficit de memória (principalmente recente)
Pensamento desorganizado
Sensopercepção:
Ilusões
Alucinações (predomínio visual)
Comportamento:
Agitação ou lentificação psicomotora
Afeto:
Labilidade emocional
Ansiedade, medo, irritabilidade
Sono:
Inversão do ciclo sono-vigília
Subtipos
Hiperativo:
Agitação, agressividade, delírios
Hipoativo:
Letargia, lentificação (frequentemente subdiagnosticado)
Misto:
Alternância entre os dois
Curso
Início:
Horas a dias
Duração:
Geralmente até 7 dias
Pode persistir por meses
Evolução flutuante ao longo do dia
Fatores de risco
Predisponentes
Idade ≥ 75 anos
Demência ou déficit cognitivo
Dependência funcional
Comorbidades múltiplas
Déficits sensoriais
Doença renal ou hepática crônica
Desnutrição
História prévia de delirium
Precipitantes
Infecções
Polifarmácia:
Sedativos
Anticolinérgicos
Opioides
Distúrbios metabólicos:
Hipo/hipernatremia
Hipoglicemia
Pós-operatório
Dor
Privação de sono
Contenção física
Retenção urinária / fecal
Desidratação
Diagnóstico
Princípios
Diagnóstico clínico
Baseado em:
História (preferencialmente com familiar/cuidador)
Exame físico
Identificação de fatores precipitantes
Critérios DSM-5-TR
Déficit de atenção + consciência
Início agudo e curso flutuante
Alteração cognitiva associada
Não explicado por demência isoladamente
Evidência de causa orgânica
Ferramentas auxiliares
CAM (Confusion Assessment Method)
CAM-ICU
4AT
Exames e diagnóstico diferencial
Exames:
Os exames devem ser direcionados conforme suspeita clínica
Objetivo: Identificar causa base
Diagnóstico diferencial
Demência
Depressão maior
Transtornos psicóticos
Status epiléptico não convulsivo
Lesões neurológicas focais
Prognóstico e complicações
Associado a:
↑ tempo de internação
↑ institucionalização
↑ mortalidade (38–41% em 1 ano)
Complicações:
Declínio cognitivo persistente
Úlcera por pressão
Pneumonia aspirativa
Tratamento não farmacológico
Princípios gerais
Identificar e tratar causa de base
Remover fatores precipitantes
Medidas Não Farmacológicas (1ª linha)
Intervenção multicomponente:
Reorientação frequente:
Relógios, calendários, familiares
Higiene do sono:
Reduzir estímulos noturnos
Mobilização precoce
Correção de déficits sensoriais:
Óculos, aparelhos auditivos
Controle ambiental:
Redução de ruído e luz excessiva
Suporte clínico:
Hidratação
Nutrição
Controle da dor
Evitar:
Contenção mecânica (evitar sempre que possível)
Tratamento farmacológico
Indicações
Delirium hiperativo com:
Risco para paciente ou equipe
Falha das medidas não farmacológicas
Antipsicóticos (uso off-label)
Haloperidol (Haldol®) sol. inj. 5 mg/mL
Agitação psicomotora: 2,5 a 5 mg IM
Repetir a cada 30–60 minutos conforme necessidade
Dose máxima: 20 mg/dia
Considerar redução de dose em idosos frágeis
Monitorar:
Efeitos extrapiramidais
Prolongamento do QT
Risperidona (Risperdal®) comp. 1 mg, 2 mg, 3 mg
Dose inicial: 0,5 a 1 mg VO 1–2x/dia
Ajustar conforme resposta clínica
Dose usual: 1 a 2 mg/dia
Dose máxima sugerida: 4 mg/dia
Quetiapina (Seroquel®) comp. 25 mg, 100 mg, 200 mg
Dose inicial: 12,5 a 25 mg VO à noite
Pode aumentar gradualmente conforme necessidade
Dose usual: 25 a 100 mg/dia
Olanzapina (Zyprexa®) comp. 5 mg, 10 mg / sol. inj. 10 mg
VO: 2,5 a 5 mg/dia
IM: 2,5 a 10 mg em dose única
Repetir conforme necessidade clínica
Dose máxima: 20 mg/dia
Sedação em UTI
Dexmedetomidina (Precedex®) sol. inj. 100 mcg/mL
Infusão contínua IV: 0,2 a 0,7 mcg/kg/h
Pode ser titulada conforme sedação desejada
Uso restrito à UTI
Monitorar:
Bradicardia
Hipotensão
Benzodiazepínicos (apenas em situações específicas)
Considerações:
Usar preferencialmente em: Abstinência alcoólica e/ou Abstinência de sedativos
⚠️Evitar uso rotineiro: Pode piorar delirium.
Lorazepam comp. 1 mg, 2 mg / sol. inj. 2 mg/mL
Dose inicial: 0,5 a 1 mg VO/IV
Repetir conforme necessidade clínica.
Profilaxia
Evitar
Fenotiazinas:
Clorpromazina
Levomepromazina
Justificativa:
Sedação excessiva
Efeito anticolinérgico
Prevenção
Foco em fatores precipitantes modificáveis:
Controle da dor
Evitar polifarmácia
Revisão medicamentosa (ex.: Beers Criteria)
Estimulação cognitiva
Higiene do sono
Mobilização precoce
Correção sensorial
Redução de estímulos nocivos
Referências
[1] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 2023. Disponível em: https://www.psychiatry.org
[2] DUNCAN, B. B.; SCHMIDT, M. I.; GIUGLIANI, E. R. J. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed; 2022.
[3] GUSSO, G.; LOPES, J. M. C.; DIAS, L. C. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed; 2019.
[4] IGLSEDER, B.; FRÜHWALD, T.; JAGSCH, C. Delirium in geriatric patients. Wien Med Wochenschr. 2022.
[5] KEENAN, C. R.; JAIN, S. Delirium. Med Clin North Am. 2022.
[6] NETO, R. A. B.; SOUZA, H. P. D.; MARINO, L. O. et al. Medicina de emergência: abordagem prática. 17. ed. Barueri: Manole, 2023.
[7] TIBERIO, P. J.; PRENDERGAST, N. T.; GIRARD, T. D. Pharmacologic Management of Delirium in the Intensive Care Unit. Clin Chest Med. 2022.
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