Larva Migrans Cutânea (Bicho Geográfico)
CID-10: B76.9
Introdução
Definição
Síndrome infecciosa cutânea causada pela migração de larvas de ancilostomídeos através da pele humana.
Também denominada dermatite linear serpiginosa, bicho geográfico ou verme da areia.
O ser humano é um hospedeiro acidental: as larvas penetram a epiderme, mas são incapazes de atravessar a membrana basal por não produzirem colagenase, permanecendo confinadas à camada superficial da pele.
A doença tem curso autolimitado, porém o tratamento é recomendado para encurtar a duração, aliviar o prurido e evitar complicações.
Epidemiologia
Classicamente observada em climas quentes e úmidos: sudeste dos Estados Unidos, América Latina, Caribe, Sudeste Asiático e África.
A prevalência é maior durante as estações chuvosas, quando a dissolução das fezes favorece a eclosão dos ovos e a penetração larval.
Em países industrializados, a maioria dos casos ocorre em turistas que retornam de áreas endêmicas — destinos frequentes incluem Jamaica, Barbados, Brasil, Tailândia e México.
Turistas afetados tendem a ser mais jovens.
Acomete tanto adultos quanto crianças, sendo estas especialmente vulneráveis pela maior exposição em caixas de areia e parques infantis.
Agentes etiológicos
Principal: Ancylostoma braziliense (parasita de cães e gatos)
Outros: Ancylostoma caninum, Uncinaria stenocephala, Bunostomum phlebotomum (parasitas animais)
Parasitas humanos que podem causar quadros semelhantes: Necator americanus e Ancylostoma duodenale
Fisiopatologia
Ciclo de transmissão
Vermes adultos vivem no intestino de cães e gatos, produzindo ovos eliminados nas fezes.
Os ovos são depositados no solo e, em aproximadamente 7 dias, eclodem originando larvas infectantes em condições de calor e umidade.
As larvas respondem a vibração física e aumento de temperatura, movendo-se de forma serpentiforme.
Mecanismo de penetração e migração
As larvas penetram na pele por meio da secreção de hialuronidase, que dissolve a camada córnea.
Podem entrar pelos folículos pilosos, glândulas sudoríparas, fissuras cutâneas ou pele íntegra.
Uma vez na epiderme, migram ao longo da junção dermoepidérmica a uma velocidade de 1 a 2 cm por dia.
Por incapacidade de produzir colagenase, não conseguem atravessar a membrana basal para atingir o sistema linfático ou o trato gastrointestinal, impossibilitando a conclusão do ciclo de vida.
Os vermes morrem sem se reproduzir, determinando o caráter autolimitado da doença.
Histopatologia
Biópsia das áreas afetadas revela larvas na epiderme, circundadas por infiltrado eosinofílico.
Pode haver dermatite espongiforme com vesículas contendo neutrófilos e eosinófilos.
Quadro Clínico
Apresentação típica
A apresentação inicial é uma pápula eritematosa de 1-2 mm no local de penetração da larva.
Progressão para lesão linear, eritematosa, serpiginosa e elevada, com avanço lento de menos de 1 a 2 cm por dia — característica que distingue a LMC de outras dermatoses migratórias.
O prurido é intenso, frequentemente predominante à noite.
Podem surgir vesículas e bolhas ao longo do trajeto.
Localização das lesões
Mais comuns: pés, pernas, nádegas — áreas de maior contato com solo contaminado.
Menos frequentes: coxas, períneo, braços, couro cabeludo, axilas, pênis.
Raramente: mucosas (há relato de lesão em mucosa oral).
Na região glútea, a lesão pode ser mais papulosa do que serpiginosa, dificultando o diagnóstico.
Quando os espaços interdigitais são acometidos, pode ocorrer maceração, com aspecto semelhante à dermatofitose dos pés.
Variações clínicas
A apresentação inicial varia conforme a espécie: A. braziliense manifesta-se em até 1 hora após o contato; U. stenocephala pode levar dias para produzir lesões papulares.
Raramente pode ocorrer foliculite papulopustulosa.
Achados laboratoriais
Eosinofilia: presente em menos de 40% dos casos, não sendo específica.
Complicações
Infecção bacteriana secundária: complicação mais comum, principalmente por Staphylococcus aureus e espécies de Streptococcus; impetigenização secundária ocorre em até 8% dos casos.
Nas infestações intensas, as larvas podem invadir a corrente sanguínea e desencadear a Síndrome de Loeffler (pneumonia eosinofílica associada à eosinofilia sanguínea) — complicação incomum.
Infecção prolongada por estreptococos pode raramente evoluir com glomerulonefrite pós-estreptocócica.
Diagnóstico
Diagnóstico clínico
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em:
História de viagem recente ou contato com solo/areia de área endêmica
Erupção serpiginosa e migratória com prurido intenso
Taxa de progressão lenta e característica (< 1 a 2 cm/dia)
Exames laboratoriais não são necessários para o diagnóstico na maioria dos casos.
Exames complementares (quando indicados):
Dermatoscopia: pode permitir a identificação da larva no seu trajeto (útil em casos atípicos).
Tomografia de coerência óptica (OCT): método não invasivo que pode estabelecer o diagnóstico; não é de uso rotineiro.
Biópsia cutânea: raramente necessária; pode revelar a larva no interior de um canal circular; achados histopatológicos são frequentemente inespecíficos e a sensibilidade é baixa.
Diagnóstico diferencial
Larva currens (Strongyloides stercoralis): diferencia-se pela velocidade de progressão muito maior (vários cm por hora, com movimentação intermitente) e pela localização preferencial em pele perianal, coxas e tronco.
Escabiose: lesão linear pruriginosa, mas sem migração serpiginosa característica.
Dermatofitose dos pés: considerar quando há maceração interdigital.
Loíase, miíase, esquistossomose: diferenciadas pela ausência de migração serpentiforme.
Dermatite de contato, tinea corporis: não migratórias.
Picada de água-viva, erupções liquenoide, fito-fotodermatite: não migratórias.
Tratamento Tópico
Indicado quando o número de lesões for reduzido e localizado em pele glabra.
Tiabendazol pomada/creme 5% ou solução 10%
Aplicar sobre as lesões 2 a 3 vezes ao dia por 5 a 10 dias.
Principal vantagem: ausência de absorção sistêmica e efeitos colaterais.
Limitação: múltiplas aplicações diárias e menor utilidade em lesões múltiplas.
Estudos demonstram melhora do prurido em até 48 horas e taxas de cura de até 98% em 10 dias.
Tratamento Sistêmico
Indicado em casos com múltiplas lesões, acometimento de áreas hiperceratóticas (palmas e plantas) ou quando o tratamento tópico for impraticável.
Albendazol comp. 200 mg ou 400 mg
Adultos: 400 mg/dia por 3 a 5 dias.
Crianças: 10 a 15 mg/kg/dia em dose única ou por 3 dias consecutivos.
Alguns autores recomendam curso de 5 a 7 dias para reduzir taxas de recidiva.
Taxas de cura próximas a 100%; taxa variável de 77% a 100% nos estudos.
Efeitos adversos mínimos e autolimitados (queixas gastrointestinais, febre, elevação transitória de transaminases, alopecia reversível); ocorrem predominantemente em tratamentos prolongados.
Contraindicado na gestação (risco de teratogenicidade - categoria C).
Ivermectina comp. 3 mg ou 6 mg
Adultos: 200 mcg/kg em dose única.
A mesma dose pode ser repetida após 7 dias dependendo da evolução.
Vantagem: dose única, ótima adesão.
Raros efeitos adversos.
Taxas de cura próximas a 100%.
Condutas a Evitar
Crioterapia (nitrogênio líquido, CO₂ sólido, spray de cloreto de etila): historicamente utilizada, porém demonstrou-se amplamente ineficaz; deve ser evitada.
Corticoides tópicos e orais: ineficazes no tratamento da infestação; corticoides sistêmicos podem reduzir o prurido, mas o perfil de efeitos adversos limita sua utilidade.
Antibióticos: não têm papel no tratamento da infestação em si; reservar para infecção bacteriana secundária confirmada.
Mebendazol: não deve ser usado como primeira linha (baixa biodisponibilidade, absorção inadequada e consequente baixa eficácia).
Prognóstico e Acompanhamento
A doença é autolimitada; resolução espontânea é a regra, porém a migração pode continuar por semanas a meses, com prurido intenso e potencial interferência no sono.
Com tratamento tópico ou sistêmico, as taxas de cura são próximas a 100%.
O prurido tende a regredir em aproximadamente 48 horas após o início do tratamento anti-helmíntico.
Recorrência pode ocorrer, mas é prevenível e responsiva ao tratamento sistêmico.
Complicações graves são raras; a infecção bacteriana secundária (impetigo, celulite) é a mais frequente e deve ser tratada com antibioticoterapia adequada.
Prevenção
Uso de calçados em praias e terrenos que possam ter sido frequentados por cães e gatos.
Evitar contato direto da pele com areia em locais de risco.
Toalhas não protegem consistentemente contra a transmissão.
Restrição do acesso de animais a caixas de areia de praças e praias.
Controle sanitário de cães e gatos: desverminação periódica dos animais domésticos.
Em áreas endêmicas, banimento de cães de praias pode reduzir a deposição larval no solo.
Complicações
Infecção Bacteriana Secundária: É a complicação mais comum, resultante do prurido intenso e do ato de coçar (escoriações). Patógenos como Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes podem causar impetiginização, celulite ou formação de abscessos.
Reações Alérgicas e Eczematização: Podem ocorrer reações de hipersensibilidade local ou sistêmica aos antígenos das larvas, manifestando-se como quadros de urticária ou eczematização das lesões originais.
Formas Clínicas Atípicas:
LMC Bolhosa: Desenvolvimento de bolhas sobre o trajeto serpiginoso (observado em aproximadamente 15% dos casos).
LMC Folicular: Manifesta-se como pápulas e pústulas foliculares pruriginosas, geralmente localizadas na região glútea, devido à invasão do folículo piloso pela larva.
Síndrome de Löffler (Rara): Ocorre em infestações maciças, onde as larvas atingem a circulação e migram para os pulmões, causando infiltrados pulmonares transitórios e eosinofilia periférica.
Impacto Psicossomático: O prurido intenso, com exacerbação noturna, frequentemente leva à insônia, irritabilidade e ansiedade significativa no paciente.
Referências
[1] MAXFIELD, Luke; CRANE, Jonathan S. Cutaneous Larva Migrans. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK507706/. Acesso em: 31 mar. 2026.
[2] CARDOSO, Alberto Eduardo Cox et al. Atualização em dermatoses parasitárias. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 95, n. 1, p. 1-14, 2020.
[3] SANTOS, Guida; JOÃO, Alexandre. Larva migrans cutânea — a propósito de um caso típico. Revista da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, v. 71, n. 1, p. 97-99, 2013.
[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Larva Migrans. Disponível em: https://www.sbd.org.br. Acesso em: 31 mar. 2026.
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