Dor Abdominal em Crianças e Adolescentes: Diagnósticos Diferenciais
CID-10: R10 — Dor abdominal
Introdução
A dor abdominal é uma das queixas mais frequentes em pediatria, presente em consultas ambulatoriais e no departamento de emergência. [2] O principal desafio clínico é identificar, dentro de um universo predominantemente benigno e autolimitado, os pacientes com condições potencialmente graves que necessitam de intervenção imediata.
Classificação temporal: [1]
Dor abdominal aguda: duração ≤ 1 semana
Dor abdominal não aguda: duração > 1 semana
Dor abdominal crônica (DAC): duração ≥ 2 meses, contínua ou intermitente [3]
A Dor abdominal crônica (DAC) subdivide-se em: [3]
Orgânica (DAO): associada a causa anatômica, inflamatória ou dano tecidual
Funcional (DAF): na ausência dessas causas; corresponde a 90–95% dos casos de DAC
O mecanismo da Dor Abdominal Funcional (DAF) é multifatorial e envolve: [3]
Disfunção do eixo cérebro-intestino (motilidade, secreção, imunidade)
Hiperalgesia ou alodinia visceral
Fatores psicológicos: ansiedade, depressão, eventos estressores (bullying, abuso, desordens familiares)
Alterações da microbiota intestinal
Predisposição genética e inflamação de baixa intensidade
Associação com gastroenterites bacterianas prévias
A prevalência da dor abdominal crônica varia de 0,5% a 19%, com dois picos etários: 4–6 anos e 7–12 anos. [3] As desordens gastrointestinais funcionais (DGIFs) com dor abdominal, segundo o Roma IV (2016), incluem: dispepsia funcional, SII, enxaqueca abdominal e DAF-SOE. [3]
Avalição Clínica
Anamnese
Características da dor: localização, irradiação, intensidade (escala 0–10), padrão (contínua ou em crises), fatores de melhora e piora, dor noturna (alerta para causa orgânica), dor ao movimento ou tosse [1][2][3]
Sintomas associados: febre, náuseas, vômitos, hábito intestinal (frequência, consistência, incontinência), disúria, anorexia, sintomas respiratórios [1][2]
Antecedentes: cirurgias, traumas, doenças crônicas, medicações em uso (AINEs, antibióticos, corticosteroides) [1][3]
História alimentar: ingestão de laticínios, bebidas gaseificadas, fibras, alimentos irritantes [3]
História familiar: DII, doença celíaca, doença péptica, enxaqueca, tuberculose [1][3]
Adolescentes do sexo feminino: ciclo menstrual, atividade sexual, risco de IST ou gravidez [1][2]
Na DAC, investigar adicionalmente: [1][3]
Impacto sobre frequência escolar e atividades diárias
Eventos estressores em casa ou na escola
Sinais de abuso físico ou sexual
Ansiedade ou depressão na criança e nos pais
Perda de peso, retardo de crescimento, atraso puberal
Exame Físico
Avaliação geral: estado geral, hidratação, sinais vitais, temperatura, oroscopia, otoscopia, ausculta cardiopulmonar, lesões cutâneas (púrpura, eritema nodoso, icterícia), hérnias [1][2]
Abdome: inspeção (cicatrizes, distensão, massa), ausculta (RHA; ausência ou ruídos metálicos são alertas), palpação (defesa, Blumberg, Rovsing, Murphy, Giordano), percussão (timpanismo difuso é alerta), pesquisa de irritação peritoneal [2]
Na dor abdominal crônica (DAC): IMC, crescimento ponderoestatural, estágio puberal, fígado, baço, loja renal, manifestações extraintestinais (uveíte, artrite, doença perianal) [1][3]
Sinais de Alarme
⚠️ Sugestivos de abdome agudo: [1][2]
Dor grave ou progressiva, especialmente se já analgesiada
Posição antálgica; dor ao movimento, tosse ou deambulação
Defesa abdominal, Blumberg positivo, abdome em tábua
Ausência de RHA ou ruídos metálicos; timpanismo difuso
Vômitos biliosos ou fecalóides; perda de eliminação de gases/fezes
Massa abdominal palpável; melena ou hematoquezia
Deterioração do estado geral
🚨 Urgência por grau: [1]
Imediata: dor grave, sonolência, vômito de sangue ou bile
Mesmo dia: sangramento retal, febre, vômito persistente
Cirurgião pediátrico urgente: abdome agudo com irritação peritoneal ou íleo paralítico
Sinais de alerta para Dor Abdominal Crônica (DAC) orgânica (Hyams et al., 2016): [3]
Dor persistente em QSD ou QID; disfagia; vômitos persistentes
Sangramento gastrointestinal; diarreia noturna; doença perianal; artrite
Perda ponderal; desaceleração do crescimento; atraso puberal; febre sem causa
História familiar de DII, doença celíaca ou doença péptica
Diagnóstico Diferencial
Causas cirúrgicas: [2]
Neonatal: enterocolite necrotizante, obstrução intestinal, má rotação/volvo
1 mês – 2 anos: invaginação intestinal, hérnia encarcerada, má rotação/volvo, doença de Hirschsprung
2 – 11 anos: apendicite, pancreatite, torção testicular, divertículo de Meckel, tumores abdominais
12 – 19 anos: apendicite, pancreatite, gravidez ectópica, torção testicular/ovariana, abscesso do psoas
Causas clínicas: [2]
Neonatal: cólica, alergia à proteína do leite de vaca, aerofagia, drogas (indometacina, esteroide), peritonite bacteriana espontânea
1 mês – 2 anos: RGE, ITU, gastroenterocolite, pneumonia, constipação, intolerância à lactose
2 – 11 anos: gastroenterocolite, adenite mesentérica, constipação, ITU, pneumonia, púrpura de Henoch-Schönlein, úlcera péptica, anemia falciforme, dor funcional
12 – 19 anos: constipação, dor funcional, ITU, doença inflamatória pélvica, dismenorreia, cisto ovariano, hepatite, doença de Crohn, úlcera péptica, anemia falciforme
Em pacientes com choque, considerar: cetoacidose diabética, peritonite, hemorragia intra-abdominal, gravidez ectópica rota, urosepse, volvo, insuficiência adrenal. [2]
Fluxo de Raciocínio
Dor Abdominal Aguda:
Passo 1 — Triagem: identificar urgência ao primeiro contato: imediata (dor grave, sonolência, vômito de sangue/bile) ou no mesmo dia (sangramento retal, febre, vômito persistente). [1]
Passo 2 — Cirúrgico vs. não cirúrgico: presença de sinais de alerta direciona para investigação e avaliação cirúrgica; ausência permite investigar causas alternativas (constipação, ITU, gastroenterite, gravidez, pneumonia). [1][2]
Passo 3 — Suspeita de apendicite: aplicar score AIR (descrito abaixo) e seguir conduta por faixa de risco. Na dúvida diagnóstica, reavaliar abdome no mesmo dia ou na manhã seguinte. [1][2]
Dor Abdominal Crônica:
Passo 1: identificar sinais de alerta para causa orgânica e, se presentes, investigar dirigidamente. [1][3]
Passo 2: solicitar investigação básica (hemograma, sumário de urina, parasitológico). Triagem celíaca se fatores de risco ou sinais de alerta. [3]
Passo 3: aplicar critérios de Roma IV (descrito em tópicos específicos abaixo) conforme o fenótipo predominante.
Passo 4: avaliar impacto funcional (escola, atividades), dinâmica familiar, eventos estressores e sinais de abuso. [1][3]

Investigação Complementar
Princípio norteador: exames de rotina sem respaldo clínico não são indicados. A avaliação clínica tem primazia sobre a complementar. [2][3]
Exames laboratoriais — conforme hipótese: [1][2][3]
Dor Abdominal Crônica (DAC) sem sinais de alerta: hemograma, sumário de urina, parasitológico de fezes
Suspeita de apendicite: urinálise (para excluir ITU)
Suspeita de DII: hemograma, VHS, PCR
Triagem para doença celíaca (fatores de risco: familiar de 1º grau afetado, anemia ferropriva inexplicada, baixa estatura, diarreia crônica; ou sinais de alerta): anti-tTG IgA + IgA sérica total
Suspeita de gravidez: beta-HCG
Investigação ampliada quando indicada: PCR, glicemia, eletrólitos, ureia, creatinina, TGO/TGP, FA, GGT, bilirrubinas, amilase, lipase, gasometria, lactato, urocultura, TSH e T4 livre
Exames de imagem — conforme hipótese: [2]
Rx abdome: abdome agudo obstrutivo ou perfurativo; suspeita de corpo estranho
Rx tórax: pneumonia, derrame pleural, afecções cardíacas
USG abdome total: primeira escolha na suspeita de apendicite; processos inflamatórios, coleções, alterações viscerais e anexiais
TC abdome com contraste: pancreatite, apendicite (complementar à USG), abscesso intra-abdominal
TC abdome sem contraste: ureterolitíase
Score AIR — Suspeita de Apendicite
Cada parâmetro pontua da seguinte forma: [2]
Vômitos: 1 ponto
Dor em FID: 1 ponto
Defesa abdominal: fraca = 1; média = 2; forte = 3
Temperatura ≥ 38,5°C: 1 ponto
Neutrófilos 70–84%: 1 ponto; > 85%: 2 pontos
Leucócitos 10–14,9 × 10⁹/L: 1 ponto; ≥ 15 × 10⁹/L: 2 pontos
PCR 10–49 mg/L: 1 ponto; ≥ 50 mg/L: 2 pontos
Interpretação e conduta: [2]
AIR ≤ 4 (baixo risco): imagem não necessária
AIR 5–8 (risco intermediário): USG de abdome total; manter jejum, hidratação e analgesia
AIR ≥ 9 (alto risco): USG de abdome total; considerar TC; avaliação cirúrgica imediata
Classificação APENDIC-RADS
Interpreta o resultado da USG abdominal para apendicite: [2]
Score 0 (apêndice não visualizado): solicitar avaliação cirúrgica
Score 1 (apêndice normal): conduta clínica
Score 2 (possivelmente normal): avaliação cirúrgica; TC se AIR ≥ 5
Score 3 (apendicite não excluída): avaliação cirúrgica; TC se AIR ≥ 5
Score 4 (apendicite aguda): acionar cirurgia pediátrica
Score 5 (apendicite complicada): acionar cirurgia pediátrica
Dispepsia Funcional
Ao menos 2 vezes por semana, por ≥ 2 meses, com um ou mais dos seguintes: [3]
Plenitude pós-prandial
Saciedade precoce
Dor epigástrica não associada à defecação
Sem causa orgânica identificada
Subtipos:
Síndrome de dificuldade pós-prandial (plenitude ou saciedade precoce que impede o término da refeição)
Síndrome de dor epigástrica (dor ou queimação epigástrica não aliviada por evacuação).
Síndrome do Intestino Irritável
Dor abdominal ≥ 4 dias/mês, por ≥ 2 meses, associada a pelo menos um: [3]
Relação com a evacuação
Alteração na frequência ou aparência das fezes
Sem causa orgânica identificada
Se a dor desaparecer com o tratamento da constipação, o diagnóstico é constipação funcional, não SII.
Enxaqueca Abdominal
Ao menos 2 episódios em 6 meses, com todos os critérios abaixo: [3]
Dor abdominal intensa, periumbilical ou difusa, duração ≥ 1 hora
Caráter incapacitante, com interferência nas atividades normais
Padrão estereotipado e individual para cada paciente
Episódios intervalados por semanas ou meses
Dor associada a ≥ 2 dos seguintes: anorexia, náusea, vômito, cefaleia, fotofobia, palidez
Sem causa orgânica identificada
Prevalência de aproximadamente 4% na população infanto-juvenil.
Fatores desencadeantes descritos: estresse, fadiga, obesidade, chocolate, queijo e frutas cítricas.
Dor Abdominal Funcional
≥ 4 episódios/mês, por ≥ 2 meses, com todos os seguintes: [3]
Dor episódica ou contínua, não relacionada exclusivamente a eventos fisiológicos
Critérios insuficientes para SII, dispepsia funcional ou enxaqueca abdominal
Sem causa orgânica identificada
Constipação Funcional
Diagnóstico com ≥ 2 dos seguintes: [1][3]
Defecação ≤ 2 vezes/semana
Adiamento da evacuação
Evacuação dolorosa, fezes duras ou em cíbalos
Grande retenção fecal palpável (abdome ou reto)
Incontinência fecal ≥ 1 episódio/semana (criança já desfraldada)
A dor é do tipo cólica e regride após a evacuação. [3]
Critérios para alta
Alta considerada quando: [2]
Bom estado geral e melhora da dor/vômitos
Causas cirúrgicas ou ameaçadoras afastadas
Orientar retorno imediato mediante sinais de alerta; reavaliar em 24h se não houver seguimento definido com pediatra.
Evitar antibióticos sem diagnóstico estabelecido. [2]
Referências
[1] GIETELING, M.J.; VAN DIJK, P.A.; DE JONGE, A.H.; ALBEDA, F.W.; BERGER, M.Y.; BURGERS, J.S.; GEIJER, R.M.M.; EIZENGA, W.H. Dor abdominal em crianças: resumo de diretriz NHG M100. Tradução de Luiz F.G. Comazzetto. Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 2014. Disponível em: https://www.sbmfc.org.br. Acesso em: 06 jun. 2026.
[2] GIANNASI, R.; ROSSI, N.; MANDUCA, B.; PAZ, C.; BOURROUL, G.M.; SUKYS, G.A. Dor Abdominal Aguda em Crianças e Adolescentes no Departamento de Emergência: Guia do Episódio de Cuidado. Hospital Israelita Albert Einstein, 2024. Aprovado em: 06 jan. 2025. Código CPTW423.1. Disponível em: https://www.einstein.br. Acesso em: 06 jun. 2026.
[3] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Gastroenterologia. Dor abdominal crônica na infância e adolescência. Guia Prático de Atualização, n. 6, jan. 2019. Disponível em: https://www.sbp.com.br. Acesso em: 06 jun. 2026.
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