Sarcopenia no Idoso
CID-10: M62.5 – Perda e atrofia muscular não classificadas em outra parte
Introdução
A sarcopenia é uma doença muscular esquelética progressiva e generalizada, caracterizada pela redução da força muscular associada à diminuição da massa muscular e, nos casos mais avançados, do desempenho físico.
É uma das principais síndromes geriátricas e está relacionada ao envelhecimento, embora possa ser acelerada por doenças crônicas, desnutrição, sedentarismo e hospitalizações.
Está associada a aumento do risco de:
quedas;
fraturas;
incapacidade funcional;
perda da independência;
internações;
institucionalização;
mortalidade.
Epidemiologia
A prevalência aumenta progressivamente com a idade.
Estima-se que acometa:
cerca de 10–15% dos idosos da comunidade;
mais de 30% dos idosos hospitalizados;
mais de 50% dos idosos institucionalizados.
É mais frequente em indivíduos:
com desnutrição;
sedentários;
portadores de doenças crônicas;
após períodos prolongados de imobilização.
Fatores de risco
Os fatores de risco incluem:
Idade ≥ 60 anos;
Sedentarismo;
Baixa ingestão proteica;
Desnutrição;
Fragilidade;
Hospitalizações prolongadas;
Imobilização;
Obesidade sarcopênica;
Diabetes mellitus;
Doença renal crônica;
Insuficiência cardíaca;
DPOC;
Neoplasias;
Doenças reumatológicas;
Hipogonadismo;
Deficiência de vitamina D;
Uso prolongado de corticosteroides.
Quadro clínico
Sinais e sintomas
Fraqueza muscular;
Cansaço aos esforços;
Lentidão para caminhar;
Redução da resistência física;
Dificuldade para levantar-se da cadeira;
Dificuldade para subir escadas;
Dificuldade para carregar objetos;
Quedas recorrentes.
Achados ao exame físico
Redução da massa muscular;
Atrofia de membros;
Marcha lenta;
Baixa força de preensão manual;
Baixo desempenho funcional;
Equilíbrio prejudicado.
Diagnóstico
Considerações:
O diagnóstico deve seguir um processo em etapas.
O rastreamento deve ser realizado em idosos com fatores de risco ou perda funcional.
Questionário SARC-F
Considerar suspeita quando SARC-F ≥4 pontos.
Avalia:
força;
auxílio para caminhar;
levantar da cadeira;
subir escadas;
quedas.
1. Suspeita
Presente quando houver:
SARC-F ≥4;
perda funcional;
perda muscular evidente;
quedas recorrentes;
dificuldade para atividades habituais.
2. Provável sarcopenia
Caracterizada por redução da força muscular.
Dinamometria (força de preensão)
Valores de referência utilizados no Brasil:
Homens: <28 kg
Mulheres: <18 kg
Quando dinamômetro não estiver disponível:
Teste de levantar da cadeira (5 vezes)
Resultado alterado quando:
≥15 segundos
3. Sarcopenia confirmada
Presença de:
redução da força muscular
associada à
redução da massa muscular.
Métodos preferenciais
DXA
Bioimpedância elétrica validada
Quando indisponíveis:
considerar avaliação clínica associada à perda funcional e encaminhamento para confirmação diagnóstica.
4. Sarcopenia grave
Caracterizada por:
baixa força muscular;
baixa massa muscular;
redução do desempenho físico.
Avaliar através de:
Velocidade de marcha
Alterada quando:
<0,8 m/s, OU
Short Physical Performance Battery (SPPB)
escore ≤8 pontos.
Exames complementares
Consideração:
Não existem exames laboratoriais específicos para diagnóstico.
Solicitar investigação de causas secundárias quando indicado.
Exames recomendados
Hemograma;
Creatinina;
Ureia;
Eletrólitos;
Glicemia;
HbA1c;
TSH;
T4 livre;
Vitamina D;
Vitamina B12;
Albumina;
PCR, quando houver suspeita inflamatória.
Tratamento não medicamentoso
O tratamento deve combinar exercício físico, terapia nutricional e tratamento das causas associadas.
Exercício físico
É a intervenção mais eficaz.
Recomenda-se:
Exercício resistido
2–3 sessões semanais.
Progressão gradual.
Grandes grupos musculares.
Supervisão profissional sempre que possível.
Associar:
treino de equilíbrio;
treino funcional;
exercícios aeróbicos.
Terapia nutricional
Objetivos:
aumentar síntese proteica;
preservar massa muscular;
recuperar funcionalidade.
Proteína
Recomenda-se:
1,0–1,2 g/kg/dia para idosos saudáveis.
Na presença de sarcopenia:
1,2–1,5 g/kg/dia.
Distribuir proteína entre todas as refeições.
Energia
A ingestão energética deve ser suficiente para evitar catabolismo.
Ajustar conforme:
IMC;
nível de atividade;
doenças associadas.
Vitamina D
Suplementar apenas quando houver deficiência documentada ou alto risco.
Tratamento medicamentoso
Até o momento não há medicamentos aprovados no Brasil especificamente para tratamento da sarcopenia.
Não é recomendado o uso rotineiro de:
testosterona;
hormônio do crescimento;
esteroides anabolizantes;
moduladores seletivos do receptor androgênico;
suplementos isolados sem indicação clínica.
Investigar causas secundárias
Sempre investigar e tratar:
desnutrição;
sedentarismo;
doenças inflamatórias;
endocrinopatias;
insuficiência cardíaca;
doença renal;
DPOC;
neoplasias;
hipogonadismo;
deficiência de vitamina D;
medicamentos associados à perda muscular.
Acompanhamento
Reavaliar periodicamente:
força muscular;
desempenho funcional;
risco de quedas;
peso;
estado nutricional;
adesão ao exercício físico.
Repetir conforme disponibilidade:
dinamometria;
teste da cadeira;
velocidade de marcha;
SPPB
Critérios de encaminhamento
Encaminhar ao geriatra ou endocrinologista quando houver:
perda muscular rapidamente progressiva;
suspeita de doença neuromuscular;
perda ponderal inexplicada;
suspeita de endocrinopatias;
dificuldade diagnóstica;
necessidade de investigação complementar.
Encaminhar ao nutricionista quando:
desnutrição;
baixa ingestão proteica;
necessidade de terapia nutricional individualizada.
Encaminhar para fisioterapia quando houver:
limitação funcional;
quedas recorrentes;
necessidade de reabilitação.
Prognóstico
O tratamento precoce reduz:
risco de quedas;
incapacidade funcional;
perda de independência;
hospitalizações.
O prognóstico depende principalmente da adesão ao treinamento resistido e da correção das causas associadas.
Referências
[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NUTROLOGIA (ABRAN). Manual de Terapia Nutricional na Pessoa Idosa. São Paulo: ABRAN, 2021. Disponível em: https://abran.org.br. Acesso em: 30 jun. 2026.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 30 jun. 2026.
[3] BRASIL. Ministério da Saúde. Caderno de Atenção Básica nº 19 – Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br. Acesso em: 30 jun. 2026.
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