Doença de Parkinson

CID-10 G20 — Doença de Parkinson idiopática

Introdução

  • Doença neurodegenerativa progressiva caracterizada principalmente por bradicinesia associada a tremor de repouso, rigidez e/ou instabilidade postural.

  • Resulta predominantemente da degeneração de neurônios dopaminérgicos da substância negra pars compacta.

  • É a segunda doença neurodegenerativa mais prevalente no mundo, com aumento importante da incidência relacionado ao envelhecimento populacional.

  • Sintomas não motores frequentemente precedem manifestações motoras em anos:

    • hiposmia;

    • constipação;

    • transtorno comportamental do sono REM;

    • depressão;

    • disautonomia.

  • O diagnóstico permanece predominantemente clínico.

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Epidemiologia

  • Incidência e prevalência aumentam progressivamente com a idade.

  • Pico de início:

    • entre 55–65 anos.

  • Maior prevalência em homens.

  • Cerca de 5–10% dos casos iniciam antes dos 50 anos.

Fisiopatologia

  • Degeneração nigroestriatal com redução de dopamina no corpo estriado.

  • Presença de agregados de alfa-sinucleína (corpúsculos de Lewy) é característica anatomopatológica típica.

  • Há envolvimento multissistêmico progressivo:

    • sistema autonômico;

    • córtex;

    • tronco encefálico;

    • sistema olfatório.

Quadro clínico

Sintomas motores

  • Bradicinesia:

    • lentificação dos movimentos;

    • redução da amplitude;

    • dificuldade para iniciar movimentos.

  • Tremor de repouso:

    • geralmente assimétrico;

    • frequência típica de 4–6 Hz;

    • piora com estresse.

  • Rigidez:

    • plástica (“em roda denteada”).

  • Instabilidade postural:

    • geralmente em fases mais avançadas.

  • Alterações de marcha:

    • festinação;

    • freezing;

    • diminuição do balanço dos braços.

Sintomas não motores

  • Constipação.

  • Hiposmia.

  • Transtorno comportamental do sono REM.

  • Depressão e ansiedade.

  • Disfunção cognitiva e demência em fases avançadas.

  • Hipotensão ortostática.

  • Disfunção urinária e sexual.

Diagnóstico

Critérios clínicos

  • Diagnóstico baseado na presença obrigatória de:

    • Bradicinesia, associada a:

      • tremor de repouso;

      • e/ou rigidez.

  • Achados sugestivos:

    • Assimetria motora inicial.

    • Boa resposta à levodopa.

    • Progressão lenta.

  • ⚠️ Red flags para parkinsonismo atípico:

    • Quedas precoces.

    • Disautonomia grave precoce.

    • Progressão rápida.

    • Paralisia do olhar vertical.

    • Pouca ou nenhuma resposta à levodopa.

    • Sinais cerebelares ou piramidais importantes.

Exames complementares:

  • Não há biomarcador diagnóstico definitivo de rotina.

  • RM de encéfalo:

    • útil principalmente para exclusão de diagnósticos diferenciais.

  • DAT-SPECT:

    • pode auxiliar em casos duvidosos.

Diagnóstico diferencial

Os diagnósticos diferenciais principais incluem:

  • Tremor essencial.

  • Parkinsonismo vascular.

  • Parkinsonismo induzido por drogas:

    • antipsicóticos;

    • metoclopramida;

    • flunarizina.

  • Atrofia de múltiplos sistemas.

  • Paralisia supranuclear progressiva.

  • Degeneração corticobasal.

Tratamento farmacológico

🎯Objetivos terapêuticos

  • Controle sintomático.

  • Manutenção funcional e autonomia.

  • Redução de complicações motoras e não motoras.

  • Prevenção de quedas e incapacidade.

Precursores da dopamina

  • Considerações:

    • Tratamento mais eficaz para sintomas motores.

    • Principal indicação:

      • limitação funcional motora.

    • Associar sempre a inibidor periférico da dopa-descarboxilase:

      • carbidopa;

      • benserazida.

  • Prescrição:

    • Levodopa + Benserazida (Prolopa®) comp. 100mg/25mg ou HBS 100mg/25mg

      • Iniciar geralmente com 1/2 cp 2–3x/dia.

      • Titulação gradual conforme resposta clínica.

      • Dose usual: 300–800 mg/dia de levodopa divididos em 3–6 tomadas.

      • Preferir administração afastada de refeições hiperproteicas.

      • Pode causar:

        • náuseas;

        • hipotensão ortostática;

        • alucinações;

        • discinesias.

    • Levodopa + Carbidopa (Sinemet®) comp. 250mg/25mg

      • Dose individualizada conforme controle motor.

      • Fracionar ao longo do dia.

      • Evitar suspensão abrupta.

Agonistas dopaminérgicos

  • Considerações:

    • Podem ser utilizados:

      • em monoterapia inicial;

      • como adjuvantes da levodopa.

    • Menor risco inicial de discinesia, porém maior risco de:

      • sonolência;

      • edema;

      • transtorno do controle de impulsos;

      • alucinações.

  • Prescrição:

    • Pramipexol (Sifrol®) comp. 0,125mg ou 0,25mg ou 1mg

      • Iniciar 0,125 mg 3x/dia.

      • Titulação progressiva semanal.

      • Dose usual: 1,5–4,5 mg/dia.

      • Ajustar na insuficiência renal.

    • Rotigotina (Neupro®) adesivo transdérmico 2mg/24h ou 4mg/24h ou 8mg/24h

      • Iniciar 2 mg/24h.

      • Ajuste gradual conforme resposta clínica.

Inibidores da MAO-B

  • Prescrição:

    • Rasagilina (Azilect®) comp. 1mg

      • Tomar 1 cp/dia.

      • Pode ser utilizada em monoterapia inicial ou associada à levodopa.

    • Selegilina comp. 5mg

      • Tomar 5 mg 2x/dia.

      • Evitar administração noturna devido risco de insônia.

Inibidores da COMT

  • Considerações:

    • Utilizados principalmente para flutuação motora (“wearing-off”).

  • Prescrição:

    • Entacapona comp. 200mg

      • Tomar 1 cp junto a cada dose de levodopa.

      • Dose máxima: 2.000 mg/dia.

      • Pode causar:

        • diarreia;

        • urina alaranjada;

        • discinesias.

Adamantanos

  • Considerações:

    • Pode auxiliar especialmente no controle de discinesias.

  • Prescrição:

    • Amantadina comp. 100mg

      • Iniciar 100 mg/dia.

      • Pode aumentar para 100 mg 2–3x/dia.

      • Ajustar na insuficiência renal.

      • Pode causar:

        • livedo reticular;

        • edema;

        • confusão mental.

Anticolinérgicos

  • Considerações:

    • Uso limitado devido efeitos adversos cognitivos.

    • Considerar principalmente em pacientes jovens com tremor predominante.

  • Prescrição:

    • Biperideno comp. 2mg

      • Iniciar 1 mg 1–2x/dia.

      • Titular gradualmente.

      • Evitar em idosos e pacientes com déficit cognitivo.

Complicações motoras

Wearing-off

  • Reaparecimento de sintomas antes da próxima dose.

  • Condutas

    • Fracionar levodopa.

    • Associar:

      • ICOMT;

      • IMAO-B;

      • agonista dopaminérgico.

Discinesias

  • Movimentos involuntários associados ao pico de levodopa.

  • Condutas

    • Reduzir doses unitárias de levodopa.

    • Fracionar tomadas.

    • Considerar amantadina.

Tratamento não farmacológico

  • Exercício físico regular é fortemente recomendado:

    • treino resistido;

    • aeróbico;

    • fisioterapia motora;

    • treino de equilíbrio.

  • Fonoaudiologia:

    • disfagia;

    • hipofonia.

  • Terapia ocupacional:

    • funcionalidade e prevenção de quedas.

  • Suporte nutricional conforme evolução clínica.

Critérios de encaminhamento para neurologia

  • Dúvida diagnóstica.

  • Suspeita de parkinsonismo atípico.

  • Progressão rápida.

  • Flutuações motoras complexas.

  • Discinesias incapacitantes.

  • Demência precoce.

  • Indicação de terapias avançadas:

    • DBS;

    • infusão contínua.

Sinais de alerta na APS

  • Constituem sinais de alerta na Atenção Primária:

    • Quedas recorrentes precoces.

    • Disfagia progressiva.

    • Perda ponderal importante.

    • Psicose associada ao tratamento.

    • Delirium.

    • Hipotensão ortostática sintomática grave.

Prognóstico

  • Curso progressivo e heterogêneo.

  • Tratamento adequado melhora:

    • funcionalidade;

    • qualidade de vida;

    • independência.

  • Complicações motoras tendem a surgir após anos de tratamento dopaminérgico.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Parkinson. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – PCDT Doença de Parkinson. Acesso em: 18 maio 2026.

[2] DUNCAN, Bruce B.; SCHMIDT, Maria Inês; GIUGLIANI, Elsa R. J. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.

[3] GUSSO, Gustavo; LOPES, José Mauro Ceratti; DIAS, Lêda Chaves. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.

[4] HÖGLINGER, Günter et al. Diagnosis and treatment of Parkinson’s disease. Neurological Research and Practice, v. 6, 2024. Disponível em: Neurological Research and Practice – Diagnosis and treatment of Parkinson disease. Acesso em: 18 maio 2026.

[5] HÖLLERHAGE, Matthias et al. Pharmacotherapy of motor symptoms in early and mid-stage Parkinson’s disease. Journal of Neurology, 2024. Disponível em: Journal of Neurology – Pharmacotherapy of motor symptoms in Parkinson disease. Acesso em: 18 maio 2026.

[6] NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Parkinson’s disease in adults: diagnosis and management. Londres, 2017. Disponível em: NICE Guideline NG71. Acesso em: 18 maio 2026.

[7] PARKINSON’S UK. NICE guideline [NG71]: Parkinson’s disease in adults. 2022. Disponível em: Parkinson’s UK – NICE NG71. Acesso em: 18 maio 2026.

Autoria e Curadoria

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