Esporotricose na Criança
CID 10: B42 - Esporotricose
Introdução
Definição:
Micose subcutânea subaguda ou crônica causada por fungos dimórficos do complexo Sporothrix [1].
Etiologia:
O S. brasiliensis é o agente predominante no Brasil, associado a surtos zoonóticos e maior virulência [1][2].
Mecanismos de Transmissão:
Zoonótica: Mordeduras, arranhaduras ou contato direto com secreções de felinos (doentes ou portadores assintomáticos) [1][4].
Geofílica: Inoculação traumática de solo, palha, espinhos ou madeira contaminada (clássica "doença do jardineiro") [1][2].
Notificação:
Doença de notificação compulsória em diversos estados e municípios brasileiros devido ao seu caráter epidêmico [1].
Fatores de Risco
Contato domiciliar ou profissional com gatos [1].
Atividades de jardinagem, agricultura ou lazer em áreas rurais sem proteção [1][2].
Imunossupressão:
Condições como HIV (especialmente CD4 < 200), diabetes mellitus, etilismo e uso de imunossupressores elevam o risco de formas disseminadas e sistêmicas [3][4].
Quadro clínico
O período de incubação varia de 1 a 4 semanas, podendo estender-se por meses [1].
Formas Cutâneas:
Cutaneolinfática (80%): Cancro de inoculação (pápula ou nódulo que ulceriza) seguido de linfangite nodular ascendente ("rosário esporotricótico") [1][3].
Cutânea Localizada (Fixa): Lesão única, pápulo-nodular ou verrucosa, sem progressão linfática [1].
Cutânea Disseminada: Múltiplas lesões em sítios distantes, comum em imunocomprometidos [1][2].
Formas Extracutâneas e Mucosas:
Ocular/Mucosa: Conjuntivite granulomatosa (Síndrome Oculoglandular de Parinaud) ou acometimento de mucosa nasal e oral [1][4].
Sistêmica: Envolvimento osteoarticular (tenossinovite), pulmonar ou meníngeo [1].
Reações de Hipersensibilidade: Mais comuns em crianças e na transmissão por S. brasiliensis; incluem Eritema Nodoso, Eritema Multiforme e Síndrome de Sweet [1][4].
Diagnóstico
Padrão-Ouro:
Isolamento em cultura para fungos (Ágar Sabouraud) a partir de exsudato, aspirado de nódulos ou biópsia de fragmento de tecido [1][4].
Citopatologia/Histopatologia:
Baixa sensibilidade devido à natureza paucibacilar da lesão; a ausência de fungos no exame direto não exclui o diagnóstico [1][3].
Diagnósticos Diferenciais:
Leishmaniose tegumentar, piodermites, tuberculose cutânea, paracoccidioidomicose e pioderma gangrenoso [1].
Tratamento
Considerações:
O tratamento deve ser mantido até a cura clínica completa (reepitelização e resolução do eritema), seguido de um período de consolidação de 4 semanas [1].
Primeira linha: [1][4][6]
Itraconazol cáp. 100mg
Mecanismo: Inibe a síntese do ergosterol fúngico.
Dose pediátrica: 5 a 10 mg/kg/dia, VO, 1x ao dia (máx. 200 mg/dia).
Duração: Mantido até 1 mês após desaparecimento das lesões.
Instrução de uso: Ingerir inteira imediatamente após refeição principal (necessita de pH ácido para absorção).
Alternativas de segunda linha: [1][5][6]
Quando indicar?
Para as formas cutâneas de esporotricose, em pacientes com contraindicação absoluta ao itraconazol
Terbinafina comp. 250mg
Dose:
< 20 kg: 62,5 mg/dia.
20-40 kg: 125 mg/dia.
> 40 kg: 250 mg/dia.
Duração: Mantido até 1 mês após desaparecimento das lesões.
Observações:
Pouca interação com outros fármacos.
Recomenda-se cautela em pacientes com alteração hepática
Alternativas de terceira linha: [1][4]
Iodeto de Potássio (SSKI) (manipular 50g de iodeto de potássio em 35mL de água destilada com uso de conta-gota)
Posologia: Iniciar com 1 gota, 3x ao dia. Progressão de 1 gota/dose/dia conforme tolerância gástrica.
Dose Alvo (Crianças): 1 gota/kg/dia dividida em 3 tomadas (máx. 15 gotas por dose).
Duração: Mantido até 1 mês após desaparecimento das lesões.
Observações:
Administrar diluído em leite ou suco após as refeições.
Recomenda-se investigar história familiar e pessoal de doenças tireoidianas e avaliar a função da tireóide antes do tratamento.
Contraindicado na insuficiência renal, alergia a iodo, doenças autoimunes, gravidez e lactação além de formas disseminadas da esporotricose como monoterapia.
Formas graves, viscerais ou disseminadas: [1][2]
Anfotericina B sol. inj. 50 mg/10mL
Dose: 3-5 mg/kg/dia (Lipossomal) ou 1 mg/kg/dia (Desoxicolato).
Uso restrito ao ambiente hospitalar.
⚠️ Importante:
Iniciar tratamento das formas clínicas localizadas em pacientes imunocompetentes com a menor dose de cada fármaco e aguardar, pelo menos um mês, para avaliar a evolução clínica. Raramente, doses maiores de itraconazol ou de terbinafina são necessárias. Doses iniciais maiores aumentam a toxicidade e não são garantia de rapidez da resposta terapêutica.
Em casos clássicos de esporotricose com baixa resposta terapêutica, deve-se questionar sobre uso de medicações que reduzem a absorção de itraconazol, como inibidores de bomba de prótons e verificar as possíveis interações medicamentosas, além de avaliar adesão ao tratamento.
Condutas Adjuvantes
Termoterapia:
Aplicação de calor local (42-43°C) por 20 min, 3x ao dia. Indicada como tratamento único para gestantes com formas cutâneas leves ou adjuvante em crianças e casos refratários [1][4].
Manejo Ambiental:
Orientar a castração e o confinamento de gatos domésticos. Animais doentes devem ser isolados e tratados por veterinário. Em caso de morte do animal, o corpo deve ser cremado [1].
Referenciação:
Casos em imunossuprimidos, gestantes, acometimento ocular ou falha terapêutica após 8 semanas devem ser acompanhados por especialistas (Dermatologia/Infectologia) [1].
Referências
[1] PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO. SMS. Linha de Cuidados Rio Esporotricose. Rio de Janeiro, 2024. https://subpav.org/atencaoprimaria/arquivos/guia/guia_esporotricose_2024.pdf
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 5. ed. Brasília: MS, 2021. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/vigilancia/guia-de-vigilancia-em-saude_5ed_21nov21_isbn5.pdf
[3] OROFINO-COSTA, R. et al. Sporotrichosis: an update. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 92, n. 5, 2017.
[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Esporotricose na criança e no adolescente. Guia Prático de Atualização. Rio de Janeiro: SBP, 2021.
[5] FRANCESCONI, G. et al. Comparative Study of Terbinafine and Itraconazole. Mycopathologia, 171:349-354, 2011. [6] JANSSEN-CILAG. Bula do Medicamento Sporanox® (Itraconazol). [7] NOVARTIS. Bula do Medicamento Lamisil® (Terbinafina). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21128033/
[6] NOVARTIS. Bula do Medicamento Lamisil® (Terbinafina). https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/
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