Esporotricose no Adulto
CID-10: B42 — Esporotricose
Introdução
A esporotricose é uma micose subcutânea causada por fungos do gênero Sporothrix, principalmente Sporothrix brasiliensis e Sporothrix schenckii.
A infecção ocorre principalmente após inoculação traumática do fungo na pele ou mucosas. No Brasil, a principal forma de transmissão é zoonótica, relacionada ao contato com gatos infectados.
A doença possui distribuição predominante em regiões tropicais e subtropicais.
A forma clínica mais frequente é a linfocutânea.
Apresentação clínica e quando suspeitar:
Lesão nodular crônica com trajeto linfático ascendente e história de contato com gato deve levantar forte suspeita diagnóstica, e indicar cultura micológica (principal método) para confirmação.
Um quadro de falha terapêutica após antibioticoterapia para suposto diagnóstico de “piodermite” é uma apresentação frequente.
Esporotricose pulmonar pode simular tuberculose ou histoplasmose.
Em pacientes com HIV e lesões cutâneas múltiplas, deve-se investigar doença disseminada.
Os objetivos do manejo são:
Confirmar o diagnóstico
Identificar formas graves ou disseminadas.
Instituir antifúngico adequado conforme apresentação clínica.
Reduzir complicações e sequelas.
Fisiopatologia
1) Transmissão:
O fungo pode ser encontrado em:
Solo.
Vegetação.
Madeira.
Matéria orgânica em decomposição.
Musgo.
A transmissão zoonótica:
A transmissão felina representa atualmente a principal via de infecção humana no Brasil.
Ocorre principalmente por:
Arranhadura de gatos infectados.
Mordedura.
Contato com secreções de lesões.
2) Infecção:
Ocorre principalmente por inoculação traumática do fungo na pele ou mucosas.
O período de incubação varia de dias até aproximadamente 3 meses.
A forma pulmonar pode ocorrer por inalação de propágulos fúngicos.
3) Disseminação:
Após inoculação, o fungo pode disseminar-se por via:
Linfática.
Hematogênica.
A apresentação clínica depende de:
Estado imunológico do hospedeiro.
Carga fúngica.
Espécie envolvida.
Virulência do fungo.
Sporothrix brasiliensis apresenta maior virulência e maior associação com formas disseminadas e apresentações atípicas.
Etiologia
É uma micose causada por fungos termodimórficos do gênero Sporothrix.
As principais espécies envolvidas no Brasil são:
Sporothrix brasiliensis.
Sporothrix schenckii.
Outras espécies descritas:
Sporothrix globosa.
Sporothrix mexicana.
Sporothrix luriei.
Sporothrix chilensis.
O fungo apresenta:
Forma filamentosa em temperatura ambiente.
Forma leveduriforme nos tecidos do hospedeiro.
Epidemiologia
A OMS classifica a esporotricose como doença tropical negligenciada. O Brasil concentra grande número de casos relacionados à transmissão felina por Sporothrix brasiliensis.
Grupos mais expostos:
Jardineiros.
Trabalhadores rurais.
Veterinários.
Cuidadores de animais.
Pessoas com contato frequente com gatos doentes.
Fatores associados às formas graves:
Imunossupressão.
Infecção pelo HIV.
Alcoolismo.
Diabetes mellitus.
Uso de corticosteroides.
Formas clínicas
Esporotricose cutânea fixa:
Lesão única no local de inoculação.
Pode apresentar placa infiltrada, verrucosa ou ulcerada.
Sintomas sistêmicos costumam estar ausentes nas formas cutâneas localizadas.
Esporotricose linfocutânea:
Forma mais comum.
Nódulo inicial no local de inoculação.
Progressão ao longo do trajeto linfático.
Formação de nódulos subcutâneos e ulcerações.
Esporotricose cutânea disseminada:
Múltiplas lesões cutâneas.
Mais frequente em imunossuprimidos.
Distribuição predominante em membros superiores.
Esporotricose extracutânea/disseminada:
Associada principalmente à imunossupressão.
Pode acometer:
Pulmões.
Ossos.
Articulações.
Sistema nervoso central.
Mucosas.
Quadro clínico:
Lesão inicial geralmente papulonodular no local de inoculação.
Pode ocorrer linfangite nodular ascendente.
Evolução progressiva para:
Nódulos.
Gomas.
Placas infiltradas.
Úlceras.
Drenagem seropurulenta.
Formas disseminadas podem cursar com:
Febre.
Perda ponderal.
Tosse.
Dispneia.
Artrite.
Meningite.
Diagnóstico
O diagnóstico deve integrar dados clínicos, epidemiológicos e laboratoriais.
Diagnóstico laboratorial
Cultura micológica:
Método confirmatório padrão.
Material pode ser obtido por:
Biópsia.
Aspirado.
Secreção de lesão.
Exame histopatológico:
Pode demonstrar processo granulomatoso.
Leveduras costumam ser escassas.
Exame micológico direto:
Sensibilidade variável.
Métodos sorológicos:
Podem auxiliar em formas disseminadas ou atípicas.
Resultado negativo não exclui doença.
Diagnósticos diferenciais
Leishmaniose tegumentar.
Micobacterioses cutâneas.
Cromoblastomicose.
Paracoccidioidomicose cutânea.
Nocardiose cutânea.
Piodermites.
Avaliação inicial
Quando suspeitar:
Nódulo ou úlcera cutânea crônica.
Linfangite nodular ascendente.
Lesões verrucosas ou gomosas.
História de contato com gato doente.
Trauma com vegetação, madeira ou solo.
Falha prévia com antibioticoterapia.
Investigar:
Tempo de evolução.
Contato com gatos.
Trauma inoculador.
Imunossupressão.
HIV.
Sintomas respiratórios.
Sintomas neurológicos.
Dor osteoarticular.
Examinar:
Distribuição das lesões.
Presença de trajeto linfático.
Mucosas.
Linfonodos.
Sinais de disseminação.
Quando investigar doença sistêmica
Deve-se ampliar investigação em pacientes com:
HIV.
Transplante.
Uso de imunossupressores.
Múltiplas lesões cutâneas.
Lesões em áreas protegidas de trauma.
Febre.
Tosse persistente.
Dispneia.
Sintomas neurológicos.
Dor óssea ou articular.
Tratamento
Considerações:
O tratamento deve considerar:
Forma clínica; Extensão da doença; Estado imunológico; Presença de acometimento extracutâneo.
Duração: geralmente varia de 3 a 12 meses.
Recomenda-se manter o antifúngico por 2 a 4 semanas após resolução clínica completa.
Formas cutâneas e linfocutâneas
Primeira linha:
Itraconazol (Sporanox®) caps. 100 mg
Tomar 100 a 200 mg VO 1x/dia. Administrar após refeições.
Em casos extensos, pode-se utilizar 200 mg VO 12/12h.
Manter por 3 a 6 meses ou até 2–4 semanas após resolução clínica.
Dose máxima habitual: 400 mg/dia.
Monitorar hepatotoxicidade e interações medicamentosas.
Alternativa terapêutica (nas formas cutâneas):
Terbinafina (Lamisil®) comp. 250 mg
Tomar 250 mg VO 1x/dia.
Em casos selecionados, pode-se utilizar 500 mg/dia.
Indicada principalmente quando itraconazol não puder ser utilizado.
Duração habitual: 3 a 6 meses.
Monitorar função hepática.
Alternativa quando antifúngicos azólicos não estiverem disponíveis ou forem contraindicados:
Iodeto de potássio sol. oral saturada (SSKI) (manipular 50g de iodeto de potássio em 35mL de água destilada com uso de conta-gota)
Iniciar com 5 gotas VO 3x/dia.
Aumentar progressivamente conforme tolerância clínica.
Dose habitual: 20 a 40 gotas VO 3x/dia.
Administrar após refeições.
Evitar em gestantes e pacientes com doença tireoidiana.
Formas graves, disseminadas ou extracutâneas
Primeira linha:
Indicada em: Formas disseminadas; Comprometimento pulmonar; Osteoarticular; Neuroesporotricose; Pacientes imunossuprimidos graves.
Anfotericina B lipossomal pó inj. 50 mg
Aplicar 3 a 5 mg/kg/dia IV.
Diluir conforme protocolo institucional.
Monitorar:
Função renal; Potássio; Magnésio; Reações infusionais.
Após estabilização clínica, recomenda-se transição para itraconazol VO.
Alternativa:
Anfotericina B desoxicolato pó inj. 50 mg
Aplicar 0,7 a 1 mg/kg/dia IV.
Maior risco de nefrotoxicidade.
Utilizar preferencialmente quando formulações lipídicas não estiverem disponíveis.
Alternativa em casos graves, refratários ou se itraconazol não for tolerado:
Posaconazol (Noxafil®) comp. 100 mg
Dose habitual: 300 mg VO 12/12h no primeiro dia, seguido de 300 mg VO 1x/dia.
Utilizado principalmente em formas sistêmicas ou imunossupressão.
Administrar com alimento.
Medidas adjuvantes
Termoterapia
Pode ser considerada em formas cutâneas localizadas.
Aplicar calor local por 20–30 minutos, 3x/dia.
Crioterapia
Pode ser utilizada em lesões verrucosas ou refratárias.
Cuidados locais
Higienizar lesões com água e sabão.
Evitar corticosteroide tópico.
Cobrir lesões ulceradas para prevenção de miíase.
Situações especiais
Pacientes vivendo com HIV
Maior risco de:
Formas disseminadas.
Recidiva.
Acometimento sistêmico.
Deve-se investigar acometimento extracutâneo.
Casos graves geralmente necessitam anfotericina B inicial.
Pode ser necessário tratamento supressivo prolongado com itraconazol.
Gestação
Azólicos sistêmicos devem ser evitados durante a gestação.
Anfotericina B é a opção preferencial em casos moderados a graves.
Critérios de encaminhamento
Encaminhar para infectologia ou dermatologia quando houver:
Dúvida diagnóstica.
Falha terapêutica.
Formas disseminadas.
Imunossupressão.
Gestação.
Acometimento osteoarticular.
Suspeita de acometimento neurológico.
Prevenção e orientações
Utilizar luvas e roupas protetoras ao manipular solo, madeira ou vegetação.
Evitar contato direto com lesões de gatos suspeitos.
Orientar higiene adequada após manipulação de animais doentes.
Casos suspeitos em animais devem ser encaminhados para avaliação veterinária.
Acompanhamento
O seguimento deve avaliar:
Resposta clínica.
Adesão ao tratamento.
Eventos adversos dos antifúngicos.
Sinais de disseminação.
Necessidade de ajuste terapêutico.
Critérios de resposta clínica
Espera-se melhora progressiva de:
Dor.
Exsudato.
Eritema.
Infiltração.
Número e tamanho das lesões.
A regressão completa pode levar meses, mesmo com tratamento adequado.
✅ Critérios de cura clínica:
Considera-se cura clínica:
Reepitelização completa.
Ausência de drenagem purulenta.
Ausência de infiltração ativa.
Ausência de crostas ou descamação significativas.
Não indicam atividade de doença:
Fibrose residual.
Eritema discreto.
Hiperpigmentação.
Cicatriz hipertrófica.
Prurido residual leve.
Monitorização laboratorial
Se uso de Itraconazol
Considerar acompanhamento de:
AST/TGO.
ALT/TGP.
Bilirrubinas.
Maior atenção em:
Hepatopatia prévia.
Uso concomitante de múltiplos medicamentos.
Tratamentos prolongados.
Se uso de Terbinafina
Monitorar função hepática em tratamentos prolongados.
Se uso de Anfotericina B
Monitorização obrigatória de:
Creatinina.
Potássio.
Magnésio.
Hemograma.
Avaliar sinais de reação infusional e nefrotoxicidade.
Em caso de Neuroesporotricose
Recomenda-se monitorização clínica e liquórica periódica.
Pode ser necessária reavaliação do líquor a cada 3–6 meses até normalização dos parâmetros inflamatórios.
Quando considerar falha terapêutica
Persistência ou progressão das lesões após adesão adequada ao tratamento.
Deve-se reavaliar:
Diagnóstico diferencial.
Adesão terapêutica.
Imunossupressão associada.
Resistência antifúngica.
Disseminação sistêmica.
Indicações de internação
Considerar internação hospitalar em casos de:
Esporotricose pulmonar.
Neuroesporotricose.
Doença disseminada.
Acometimento osteoarticular importante.
Imunossupressão grave.
Necessidade de anfotericina B venosa.
Complicações
As principais complicações incluem:
Cicatrizes hipertróficas.
Queloides.
Alterações pigmentares.
Fibrose residual.
Tenossinovite.
Osteomielite.
Anquilose.
Observações:
Formas osteoarticulares avançadas podem evoluir com perda funcional ou amputação.
Pacientes vivendo com HIV apresentam maior risco de recidiva e pior prognóstico.
Formas disseminadas podem acometer:
SNC.
Pulmões.
Fígado.
Baço.
Linfonodos.
Orientações ao paciente
Orientações:
Orientar manutenção rigorosa da adesão ao antifúngico até alta médica.
Não interromper tratamento após melhora parcial das lesões.
Evitar manipulação traumática das lesões.
Higienizar lesões com água e sabão.
Cobrir lesões ulceradas com gaze limpa quando houver drenagem.
Evitar uso de corticosteroides tópicos sem orientação especializada.
Medidas ambientais e zoonóticas
Gatos suspeitos devem ser encaminhados para avaliação veterinária.
Recomenda-se:
Isolamento temporário de animais infectados.
Uso de luvas ao manipular animais doentes.
Higienização das mãos após contato.
Limpeza ambiental periódica.
Desinfecção com hipoclorito de sódio 1% ou álcool 70%.
Não se recomenda abandono ou eutanásia indiscriminada de animais.
Animais mortos não devem ser enterrados devido ao risco de contaminação ambiental.
Medidas preventivas incluem:
Uso de luvas e roupas protetoras em contato com solo e vegetação.
Limpeza de quintais e remoção de matéria orgânica em decomposição.
Castração de gatos para redução de comportamento errante.
Referências
[1] OROFINO-COSTA, R.; FREITAS, D. F.; BERNARDES-ENGEMANN, A. R. et al. Human sporotrichosis: Recommendations from the Brazilian Society of Dermatology for the clinical, diagnostic and therapeutic management. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2022;97(6):757-777. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abd/a/7fpkW3tX5Sh9XQh4nTtB5cg/. Acesso em: 17 maio 2026.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/publicacoes-svs/vigilancia/guia-de-vigilancia-em-saude_5ed_21nov21_isbn5.pdf. Acesso em: 17 maio 2026.
[3] RODRIGUES, A. M.; GONÇALVES, S. S.; CARVALHO, J. A. et al. Current Progress on Epidemiology, Diagnosis, and Treatment of Sporotrichosis and Their Future Trends. Journal of Fungi. 2022;8(8):776. Disponível em: https://www.mdpi.com/2309-608X/8/8/776. Acesso em: 17 maio 2026.
[4] ALVAREZ, C. M.; OLIVEIRA, M. M. E.; PIRES, R. H. Sporotrichosis: A Review of a Neglected Disease in the Last 50 Years in Brazil. Microorganisms. 2022;10(11):2152. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-2607/10/11/2152. Acesso em: 17 maio 2026.
Autoria e Curadoria
As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.


