Retocolite Ulcerativa no Adulto
CID-10: K51
Definição
A retocolite ulcerativa (RCU) é uma doença inflamatória intestinal crônica, de curso recorrente e caráter autoimune, que acomete predominantemente a mucosa do cólon e do reto.
A inflamação tem padrão contínuo, iniciando-se no reto e podendo estender-se proximamente, sem áreas de mucosa normal intercaladas.
Manifestações clínicas
Sintomas intestinais:
Diarreia crônica com muco e sangue, hematoquezia, dor abdominal em cólica, tenesmo, urgência evacuatória, sensação de evacuação incompleta.
Sintomas sistêmicos (em formas moderadas a graves):
Febre, fadiga, perda ponderal, anorexia, anemia.
Formas graves:
Podem evoluir com megacólon tóxico, perfuração colônica ou hemorragia maciça.
Diagnóstico
Baseia-se na associação entre quadro clínico, exames laboratoriais, endoscopia com biópsia e exclusão de outras causas.
Os exames endoscópicos (colonoscopia ou retossigmoidoscopia) são parte fundamental do diagnóstico e para classificação da doença.
Padrão clássico: inflamação contínua iniciando na margem anal, com hiperemia difusa, friabilidade da mucosa, sangramento ao toque e ausência de áreas salvas.
Pode apresentar erosões, úlceras superficiais, pseudopólipos ou desaparecimento do padrão vascular.
Achado colonoscópico mais típico é o acometimento da mucosa desde a margem anal, estendendo-se proximalmente de uma forma contínua e simétrica, com clara demarcação entre mucosas inflamada e normal.
Histologia:
Distorção arquitetural das criptas colônicas.
Infiltrado inflamatório transmucoso com predominância linfoplasmocitária.
Eventualmente associado a componente de atividade evidenciado por criptites e abscessos crípticos.
Classificação da patologia
Estadiamento
Pode ser estadiada com base na Classificação de Montreal e conforme a maior extensão de acometimento macroscópico à colonoscopia:
E1 – Proctite: inflamação limitada ao reto.
E2 – Colite esquerda: acometimento até a flexura esplênica.
E3 – Pancolite: inflamação estendendo-se além da flexura esplênica.
Gravidade
Pode ser classificada conforme a classificação de Truelove e Witts:
Leve: < 4 evacuações/dia, pouco ou nenhum sangue, ausência de sinais sistêmicos.
Moderada: > 4 evacuações/dia, sintomas leves a moderados.
Grave: ≥ 6 evacuações/dia com sangue, febre, taquicardia, anemia, velocidade de hemossedimentação (VHS) > 30 mm/h.
Fulminante: quadro com risco iminente de megacólon tóxico ou perfuração.
Objetivo terapêutico
O objetivo é alcançar remissão clínica, endoscópica e histológica, com remissão livre de corticoides.
A estratégia de tratamento da RCU é principalmente baseada na gravidade, distribuição (proctite, colite esquerda ou pancolite) e padrão da doença, que inclui frequência de recaída, curso da doença, resposta a medicamentos anteriores, efeitos colaterais de medicamentos e manifestações extra-intestinais.
Consiste de aminossalicilatos orais e por via retal, corticoides, imunossupressores, medicamentos biológicos e inibidores da Janus Kinase (JAK), e é feito de maneira a tratar a fase aguda e, após, manter a remissão clínica.
Tratamento por indução
O tratamento difere conforme a gravidade e classificação da doença, e consiste na administração de aminossalicilatos orais e por via retal, corticoides, imunossupressores, medicamentos biológicos e inibidores da Janus Kinase (JAK), sendo a prescrição inicial normalmente reservada ao médico especialista (proctologista).
Proctite (retite) leve a moderada:
Supositório de mesalazina 1 g por dia durante a fase aguda.
Na doença moderada: pode ser necessário associar-se à terapia por via oral com sulfassalazina ou mesalazina, conforme utilizado para colite esquerda.
Se refratária: associar mesalazina oral (2,4–4,8 g/dia) ou sulfassalazina (2–4 g/dia).
Os pacientes intolerantes, que não aderem à terapia por via retal ou refratários ao tratamento com aminossalicilatos, podem, alternativamente, ser tratados como preconizados para a pancolite.
Colite esquerda leve a moderada:
Enemas de mesalazina de 1 ou 3 g/dia associados à mesalazina por via oral na dose de 2,4 a 4,8 g ao dia ou sulfassalazina na dose 2 a 4 g ao dia.
Pacientes intolerantes, que não aderem à terapia por via retal ou refratários ao tratamento com aminossalicilatos, podem, alternativamente, ser tratados como preconizados para a pancolite.
Nos casos moderados, conforme a classificação de Truelove e Witts, deve-se utilizar curso de prednisona, com redução gradual da dose até sua suspensão.
Se necessário, associar prednisona oral (40–60 mg/dia) com redução gradual.
Pancolite leve a moderada
Sulfassalazina ou mesalazina por via oral.
Mesalazina oral (até 4,8 g/dia) ou sulfassalazina (até 4 g/dia).
Após melhora, as doses devem ser reduzidas: sulfassalazina, reduzir para 1 g de 12 em 12 h; mesalazina, reduzir para 2 g ou 2,4 g ao dia.
Em caso de falha de indução com sulfassalazina ou mesalazina, não há benefício da troca entre elas. Neste caso, preconiza-se o uso de corticoide.
Nos casos moderados, alternativamente, pode ser usada prednisona na dose de 40 a 60 mg (0,75 a 1 mg/kg/dia não excedendo a dose máxima diária de 60 mg), por via oral, com redução gradual da dose.
Em casos que respondem apenas parcialmente à prednisona ou em que não se consiga reduzir a dose do corticoide sem recaídas da doença, deve-se iniciar o uso de azatioprina 2 a 2,5 mg/kg/dia.
Casos refratários a este medicamento devem ser tratados como doença grave.
Retocolite moderada a grave
Corticóide por via oral e aminossalicilato.
Deve-se iniciar imunossupressor naqueles com dependência de corticoide.
Naqueles casos de falha do imunossupressor, caracterizada por dependência de corticoide apesar de dose adequada de azatioprina por um tempo mínimo de 12 semanas, deve ser considerado o uso de terapia imunobiológica com anti-TNF alfa (infliximabe) ou antiintegrina (vedolizumabe) ou inibidores da JAK (tofacitinibe).
Colite aguda grave
Os pacientes com doença moderada a grave que não responderem às medidas preconizadas anteriormente descritas, da mesma forma que os pacientes com doença grave com comprometimento sistêmico, devem ser tratados em ambiente hospitalar com:
Hidrocortisona 100 mg por via intravenosa (IV) de 6 em 6 h por 7 a 10 dias;
Devem receber hidratação intravenosa, ter pesquisa fecal de toxina para Clostridium difficile, investigar CMV e fazer profilaxia para tromboembolismo venoso;
Evitar o uso de narcótico ou de medicamento com efeito anticolinérgico.
Retossigmoidoscopia, sem preparo de cólon, pode ser considerada em casos selecionados para confirmar o diagnóstico e descartar, pela análise histopatológica, colite por citomegalovírus.
Preconiza-se a avaliação precoce e acompanhamento por equipe cirúrgica pelo risco de necessidade de colectomia em qualquer momento da evolução.
Havendo melhora, a hidrocortisona deve ser substituída pela prednisona, sendo então seguido o tratamento preconizado para pancolite moderada a grave.
Na ausência de resposta ao corticoide, preconiza-se o uso de Ciclosporina IV ou Infliximabe,
Na dose preconizada de Ciclosporina de 2 mg/kg/dia em infusão contínua durante 7 dias.
Após resposta clínica, inicia-se Ciclosporina VO, 5 mg/kg divididos em duas administrações ao dia e mantidos por 12 semanas.
Deve-se fazer transição para o uso da Azatioprina 2 a 2,5 mg/kg, com redução gradual do corticoide conforme descrito previamente.
Caso o paciente fique com tripla imunossupressão (corticoide + ciclosporina + azatioprina), deve ser feita a profilaxia para Pneumocitis jiroveci com sulfametoxazol + trimetoprina 800mg + 160mg, 3 vezes por semana.
Deve-se considerar ainda a profilaxia para estrongiloidíase disseminada: ir para Profilaxia para Estrongiloidíase devido corticoterapia.
Tratamento de manutenção
Pacientes que tiveram um episódio único de proctite:
Não necessitam de terapia de manutenção.
Os demais casos devem manter a terapia por via oral, com o medicamento utilizado na indução, Sulfassalazina ou Mesalazina.
Para pacientes que tiverem mais de 2 agudizações em um ano ou que não consigam reduzir a dose de Corticoide sem nova recidiva:
Considerar início de Azatioprina 2,0 a 2,5 mg/kg/dia.
Em pacientes com proctite, alternativamente aos Aminossalicilatos VO, pode ser feita terapia de manutenção com um supositório de Mesalazina 250 mg a 1 g, 3 vezes por semana.
Pacientes que tiverem agudização em uso de supositórios 3 vezes por semana devem passar a usá-los diariamente.
Pacientes que receberam indução com Ciclosporina intravenosa devem fazer uso de período de transição de 12 semanas de Ciclosporina VO e manutenção em longo prazo com Azatioprina.
Nos casos em que a remissão clínica foi alcançada com a Azatioprina (com ou sem uso de corticoide na fase de indução), seu uso deve ser mantido por tempo indeterminado.
Pacientes que receberam indução com Infliximabe ou Vedolizumabe devem manter-se sob as doses de 5 mg/kg a cada 8 semanas e 300 mg a cada 8 semanas, respectivamente.
Esses medicamentos devem ser suspensos em 3 meses, se não houver resposta clínica, caracterizando-se como falha primária.
O tratamento deve ser reavaliado a cada 12 meses com vistas a se decidir sobre a necessidade de sua manutenção.
Pacientes que receberam indução com Tofacitinibe (10 mg, duas vezes por dia por, pelo menos, 8 semanas) devem manter-se sob as doses de 5 mg administradas oralmente duas vezes ao dia para manutenção do tratamento.
Esse medicamento deve ser suspenso na semana 16, se não houver resposta clínica, caracterizando-se como falha primária.
O tratamento deve ser reavaliado a cada 12 meses com vistas a se decidir sobre a necessidade de sua manutenção.
Medicamentos
O tratamento medicamentoso deve ser prescrito e acompanhado por médico especialista.
Mesalazina supositório 250, 500 ou 1.000 mg
Aplicar 1 supositório à noite, ao deitar-se. Pode-se utilizar 2 vezes ao dia em casos selecionados.
Mesalazina comp. 400, 500 e 800 mg
Pode usar na dose de 2 g a 4,8 g ao dia, divididas em 2 ou 3 vezes ao dia (de 12/12h ou de 8/8h).
Sulfassalazina comp. 500 mg
Pode ser usado na dose de 2 g a 4 g ao dia, divididas em 2 administrações ao dia (de 12/12h). Para reduzir os efeitos adversos, pode-se iniciar com dose de 1 g ao dia, com aumento progressivo até a dose alvo.
Se aparecerem sintomas gastrointestinais, reduzir em 50% a dose e, então, aumentar progressivamente até a dose alvo.
Pacientes em uso de sulfassalazina devem repor ácido fólico 5 mg, tomar 1cp, 3 vezes por semana.
Hidrocortisona pó inj. 100mg
Administrar 1 ampola, intravenoso de 6/6h ou de 8/8h.
Prednisona comp. 5 ou 20 mg
Dose inicial de 40 a 60 mg (0,75 a 1 mg/kg/dia não excedendo 60 mg/dia), por via oral, sendo que, após a melhora, esta dose deve ser reduzida 5 a 10 mg por semana até 20 mg por dia, reduzindo-se então 5 mg por semana até 5 mg por dia e, após, reduzindo-se 2,5 mg por semana até a retirada completa.
Evitar o uso crônico, independentemente da dose.
Azatioprina comp. 50 mg
Na dose de 2,0 a 2,5 mg/kg/dia.
Iniciar com dose de 50 mg até reavaliação com exames.
Em caso de ausência de efeitos adversos, aumentar para a dose alvo.
A dose total pode ser administrada uma vez ao dia ou em doses divididas.
Ciclosporina amp. 50 e 250 mg
Utilizado na fase de indução em casos graves.
Dose de 2 mg/kg/dia em infusão contínua durante 7 dias.
Ciclosporina capsula de 10, 25, 50 e 100mg ou sol. oral 100 mg/mL
Indicado na fase de manutenção.
Após resposta clínica, inicia-se a ciclosporina 5 mg/kg/dia por via oral dividida em duas administrações ao dia e mantida por 12 semanas.
Infliximabe amp. 100mg
Infusão intravenosa de 5 mg/kg, administrada por um período mínimo de 2 horas, seguida por doses de infusões adicionais de 5 mg/kg nas semanas 2 e 6 após a primeira infusão e, depois, a cada 8 semanas.
Para pacientes adultos que apresentarem resposta incompleta ou perda de resposta, deve-se considerar o ajuste da dose para até 10 mg/kg.
Vedolizumabe amp. 300 mg
Administrar por infusão intravenosa nas semanas 0, 2 e 6 e, depois, a cada 8 semanas.
Em pacientes adultos que apresentarem redução na resposta, pode-se considerar aumento na frequência do tratamento para 300 mg de vedolizumabe a cada 4 semanas.
Tofacitinibe comp. 5 mg
A dose preconizada para pacientes adultos é de 10 mg via oral duas vezes por dia para indução por, pelo menos, 8 semanas e 5 mg administradas duas vezes ao dia para manutenção.
Para pacientes que não alcançam benefício terapêutico adequado até a semana 8, a dose de indução de 10 mg duas vezes ao dia pode ser prolongada por mais 8 semanas (16 semanas no total), seguidas por 5 mg duas vezes ao dia para manutenção.
Suspender a terapia de indução para tofacitinibe em pacientes que não apresentarem evidência de benefício terapêutico na semana 16.
Os pacientes que falharam em manter o benefício terapêutico com tofacitinibe 5 mg duas vezes ao dia podem se beneficiar de um aumento para 10 mg de tofacitinibe administrado duas vezes ao dia.
O uso de 10 mg duas vezes ao dia além da indução, deve ser limitado àqueles com perda de resposta e usado pelo menor tempo, com uma consideração cuidadosa dos benefícios e riscos para o paciente.
Em geral, usar a menor dose efetiva para manter o benefício terapêutico.
Referências
GEDIIB – Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil. Diretrizes sobre Retocolite Ulcerativa. International Journal of Inflammatory Bowel Disease, São Paulo, v. 5, n. 1, 2019. ISSN 2359-3083. Disponível em: https://gediib.org.br.
CONITEC – Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Relatório de Recomendação nº 684: Retocolite Ulcerativa. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/conitec.
BAIMA, J. P. et al. Second Brazilian Consensus on the Management of Ulcerative Colitis in Adults: A Consensus of the Brazilian Organization for Crohn’s Disease and Colitis (GEDIIB). Arquivos de Gastroenterologia, São Paulo, v. 59, p. 51–84, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0004-2803.2022005S1-03
Internaional journal of inflammatory Bowel Disease. V5 n1. 2019. ISSN 2359-3083. Disponível em: https://gediib.org.br/wp-content/uploads/2019/09/DIRETRIZ-SOBRE-RETOCOLITE-ULCERATIVA_vol5_n01_Janeiro-Abril-2019.pdf
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