Pneumonia Complicada na Criança

CID-10: J18

Informações Gerais

  • O termo pneumonia adquirida na comunidade (PAC) refere-se:

    • Pneumonia que ocorre em crianças não hospitalizadas no último mês, portanto não colonizadas por germes hospitalares.

  • Define-se PAC complicada (PACC):

    • PAC que evolui de forma grave, apesar do uso de antibióticos, com uma ou mais das seguintes complicações:

      • Derrame parapneumônico (DPP), empiema pleural (EP), pneumonia necrosante (PN) e abscesso pulmonar (AP).

  • Pneumonia atípica:

    • Infecção pulmonar provocada por microrganismos menos frequentes, como Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia pneumoniae e Legionella pneumophila, que diferem dos agentes usualmente envolvidos nas pneumonias tradicionais. 

    • Segundo a SBP, esse tipo de pneumonia tende a manifestar sinais e sintomas mais vagos e menos característicos, o que pode dificultar o diagnóstico.

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Complicações

  • Derrame parapneumônico (DPP):

    • Suspeita-se quando: resposta ao ATB é lenta ou haja deterioração clínica;

    • Mal estar inespecífico, letargia, febre, seguidos de tosse e taquipneia, podendo ter associado a dor torácica ou abdominal no lado acometido.

    • Sons respiratórios fracamente diminuídos com estertores e atrito pleural.

  • Empiema pleural (EP):

    • Coleção de líquido purulenta no espaço pleural, devido à progressão do DPP.

  • Pneumonia necrosante (PN):

    • Consolidação com necrose, que progride para cavitação ( pneumatocele) periférica e em único lobo.

    • Febre, tosse, dor torácica, taquipneia, macicez a percussão, diminuição dos sons respiratórios e/ ou respiração brônquica.

    • A criança costuma ficar desproporcionalmente doente.

    • Considerar PN na PAC grave sem melhora em 72 horas com ATB.  

  • Síndrome hemolítica-urêmica (SHU):

    • Anemia hemolítica microangiopática, trombocitopenia e insuficiência renal aguda, poucos dias após o início dos sintomas.

    • Sinais de alerta: presença de hemorragia pulmonar, hemoptise, erupção cutânea eritematosa e contagem diminuída de leucócitos periféricos.

  • Abscesso pulmonar (AP):

    • Persistência da febre, toxemia, hipoxemia persistente, sem resposta ao ATB, tosse seca que pode abruptamente evoluir para vômica.

Agentes Etiológicos

  • Agentes etiológicos mais frequentes:

    • Pneumococos, MRSA e os MRSA, Streptococcus do grupo A, H. influenza, outras bactérias Gram-negativas e anaeróbicas.

    • Crianças< 2 meses: Streptococcus do grupo B, bactérias intestinais gram-negativas, Listeria e S. pneumoniae.

  • Exames laboratoriais e de imagem são indicados: raio X de tórax, hemograma completo, hemocultura, PCR, pesquisa para vírus respiratório através de biologia molecular (técnica de PCR).

Indicação de Internação

  • Critérios de internação hospitalar:

    • Todas as crianças menores de 3 meses de idade;

    • Idade menor de 2 anos com insuficiência respiratória aguda; 

    • Hipoxemia

    • Comprometimento do estado geral

    • Toxemia

    • Desidratação

    • Pneumonia extensa

    • Impossibilidade de ingerir medicações

    • Falha de resposta à terapêutica ambulatorial

    • Imunodeficiência primária ou secundária

    • Presença de complicações: derrame pleural, abscesso pulmonar, pneumatocele, pneumotórax.

  • Critérios para internação em UTI:

    • Insuficiência respiratória aguda com necessidade de suporte ventilatório (cateter nasal de alto fluxo, ventilação não invasiva e ventilação mecânica);

    • Instabilidade hemodinâmica (pressão arterial inadequada ou necessidade de drogas vasoativas)

Tratamento Empírico

  • Os cuidados de suporte incluem a garantia de antipirese adequada, analgesia, suporte respiratório e hidratação.

  • ATB empírico para PAC complicada em situações especiais:

    • Suspeita S. aureus

      • Oxacilina

    • Abscesso Pulmonar:

      • Cefotaxima + ( Clindamicina ou Metronidazol)

    • Pneumonia Aspirativa: 

      • Penicilina cristalina ou Amoxicilina - Clavulanato IV ou Cefalosporina de segunda/terceira geração com Clindamicina. 

    • Pneumonia adquirida no hospital: 

      • Piperacilina-tazobactam ou Meropeném ou Ceftazidima ou Cefepime ou Clindamicina.

Esquema Terapêutico

  • Considerações:

    • Os cuidados de suporte incluem a garantia de antipirese adequada, analgesia, suporte respiratório e hidratação.

    • Se a evolução não é satisfatória, é orientado a troca de ATB.

    • Crianças < 2 meses: Ampicilina + (Gentamicina ou Amicacina) 

  • Antibióticos de primeira escolha para Derrame Parapneumônico e Empiema pleural:

    • Penicilina cristalina  ou Ampicilina endovenosa associada a conduta cirúrgica adequada.

  • PAC grave evoluindo desfavorável à penicilina/ ampicilina:

    • Sem Derrame Pleural (DP):

      • Pneumonia atípica: Macrolídeos.

        • Sem melhora: Cefuroxima ou Amoxacilina-clavulanato; Considerar TB e outras etiologias.

      • Cefuroxima ou Amoxacilina-clavulanato;

    • Com Derrame parapneumônico:

      • Toracocentese/ drenagem: Manter Penicilina ou Ampicilina.

        • Sem melhora: Vancomicina + (Cefotaxima ou Ceftriaxona ou Cefepima). Considerar Empiema.

    • Empiema:

      • Drenagem: < 2 anos ou porta de entrada?

        • Sim: Oxacilina.

        • Não: Vancomicina + (Cefotaxima ou Ceftriaxona ou Cefepima).

          • Sem melhora: Considerar Pneumonia Necrosante, fazer abordagem cirúrgica ampliada. 

    • Abscesso pulmonar: 

      • Cefotaxima + (Clindamicina ou Metronidazol) por pelo menos 3 a 4 semanas, se periférico sugere-se aspiração percutânea guiada por ultrassom.

    • Pneumonia Necrosante:

      • Sem Empiema e área de necrose pouco extensa:

        • Tratar clínico somente com ATB, se piora drenagem e toracoscopia.

      • Associado a Empiema:

        • Drenagem tórax simples com tratamento de ATB.

        • Se piora: reavaliar drenagem torácica + áreas de necrose (possível toracoscopia ou videotoracoscopia).

      • Associado a área extensa de necrose:

        • Toracoscopia ou videotoracoscopia; 

        • Segmentectomia ou lobectomia ou pneumectomia. 

Antibióticos

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Considerações:

  • O tratamento de complicações, como necrosante e abscesso pulmonar, requer um curso prolongado de antibioticoterapia, geralmente iniciado por via parenteral. 

  • A duração é determinada pela resposta clínica, mas geralmente totaliza três a quatro semanas, ou duas semanas após o paciente estar afebril e ter melhorado clinicamente. 

Penicilinas

  • Amoxicilina + Clavulanato pó inj.  500 mg + 100 mg e 1 g + 200 mg. 

    • 50 - 90 mg/kd/dia,IV, dividida em doses de 8 em 8 horas 

  • Ampicilina pó inj. 250mg ou 500mg ou 1g

    • Dose 150-200 mg/kg/dose de 6 em 6 horas, ou, 200 mg/Kg/dia, IV.  Máxima de 12 g/dia

    • Aplicar a dose indicada em 100ml SF0,9%, IV a cada 6h

  • Penicilina cristalina pó inj. 1 milhão UI ou 5 milhões UI

    • Dose: 150.000 - 200.000 UI/kg/dia IV dividida em doses de 6 em 6 horas ou de 4 em 4 horas;

  • Oxacilina pó inj. 500mg

    • Dose: 100mg/kg/dia.

    • Reconst. 500mg + 5 mL SF0,9%.

    • Diluir 25 mg/kg (0,25mL/kg da sol. reconstituída) + 250-500mL SF0,9% a cada 6h.

  • Piperacilina+tazobactam pó inj. 2+0,25g ou 4+0,5g

    • Dose 300 mg/kg por dia IV em quatro doses fracionadas até um máximo de 12 g/dia

    • Diluir a dose indicada em 50-150 mL SF0,9%, IV a cada 6-8h

Cefalosporinas

  • Ceftriaxona pó inj. 500mg

    • Reconst. 1 amp p/ cada 5 mL AD

    • Dose: 100 mg/kg/dia

    • Aplicar 0,5 mL/kg (max 10 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 12 h, OU

    • Aplicar 1 mL/kg (max 10-20 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 24 h

  • Ceftriaxona pó inj. 1g

    • Reconst. 1 amp p/ cada 10mL AD

    • Dose: 100 mg/kg/dia

    • Aplicar 0,5 mL/kg (max 10 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 12 h, OU

    • Aplicar 1 mL/kg (max 10-20 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 24 h

  • Ceftriaxona pó inj. 500mg

    • Diluir 1 amp para cada 2 mL lidocaína 1% (volume: 2,36 mL)

    • Dose: 100 mg/kg/dia

    • Aplicar 0,24 mL/kg IM, a cada 12 h, OU

    • Aplicar 0,47 mL/kg IM, a cada 24 h

    • Máx: 4,72 mL (1 g) a cada 12 h

  • Ceftriaxona pó inj. 1g

    • Diluir 1 amp para cada 3,5 mL lidocaína 1% (volume: 4,22 mL)

    • Dose: 100 mg/kg/dia

    • Aplicar 0,21 mL/kg IM, a cada 12 h, OU

    • Aplicar 0,42 mL/kg IM, a cada 24 h

    • Máx: 4,22 mL (1 g) a cada 12 h

  • Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g

    • Dose 150 mg/kg por dia IV, em quatro doses divididas de 6 em 6 horas (máximo 8 g/dia).

    • Diluir a dose indicada em 40 a 100ml SF0,9%, IV em 20-50 min, a cada 6h

  • Cefuroxima pó inj. 750mg

    • Dose 100 -150 mg/kd/dia IV OU IM, dividida em doses de 8 em 8 horas ou 12 em 12 horas 

    • Diluir a dose indicada em 3 mL diluente, IM a cada 8h (max 750 mg/sítio), OU

    • Diluir a dose indicada em 100 mL SF0,9%, IV a cada 8h

  • Cefepima pó inj. 1g e 2g

    • 150 mg/kd/dia,IV, dívida em doses de 8 em 8 horas 

    • Máximo de 4 g/dia

    • Reconstituição: IV: reconstituir 1 a 2g em 10 mL de água estéril para injeção, SF 0,9% ou SG 5%.

    • Diluir o volume correspondente a dose recomendada da solução reconstituída em 100 mL de SF0,9% ou SG 5%, e aplicar IV em 30 min.

  • Ceftazidima pó inj. 1g

    • Dose 125 a 150 mg / kg por dia em três doses divididas; máximo de 6 g/dia

    • Diluir a dose indicada em 50ml SF0,9%, IV em 30 min, a cada 8h

Macrolídeos

  • Azitromicina  pó inj. 500mg

    • Dose 10 mg/kd/dia,IV, uma vez ao dia 

    • Diluição mínima: 1 mg/mL. Reconstituir 01 ampola em 5 mL de água destilada (concentração de 100 mg/mL) e após, diluir com soro fisiológico para concentração mínima de 1 mg/mL.

    • Tempo de infusão: Tempo mínimo de 1 hora (preferencialmente em 3 horas).

Carbapenêmicos

  • Meropenem pó inj 500mg ou 1g

    • Dose 60 mg/kg por dia IV em três doses fracionadas, até um máximo de 6 g/dia, se forem possíveis etiologias de bastonetes gram-negativos de espectro alargado ou produtores de beta-lactamase Amp C

    • Diluir a dose indicada em 100ml SF0,9% IV 30min, a cada 8h

Aminoglicosídeos

  • Amicacina sol inj. 500 mg/2 mL, 100 mg/2mL ou 250 mg/2 mL.

    • Dose 15 mg/kd/dia,IV,lenta por 30 a 60 minutos, dividida em doses de 12 em 12 horas 

  • Gentamicina inj. 40mg/1mL ou 80mg/2mL

    • Dose 7,5 mg/kd/dia,  IV, dose dividida de 12 em 12 horas 

    • Diluir a dose indicada em 50 a 200 mL SF0,9%, IV de 12 em 12 horas.

Glicopeptídeos

  • Vancomicina  pó inj. 500mg ou 1g

    • Dose 40 - 60 mg/kd/dia,IV, dividida em doses a cada 8-12h (max 60mg/kg/dia e max 2g/dose)

    • Diluir a dose indicada em 250mL SF0,9%, IV a cada 12h.

Lincosamidas

  • Clindamicina inj. 300mg/2mL ou 600mg/4mL ou 900mg/6mL

    • Dose 30 a 40 mg/kg por dia em 3 ou 4 doses divididas (máx 2,7 g/dia)

    • Diluir a dose indicada em 100mL SF0,9%, IV a cada 6h, OU

    • Diluir a dose indicada em 100mL SF0,9%, IV a cada 8h

Imidazólico

  • Metronidazol bolsa inj. 500mg/100 mL

    • Dose 7,5 mg/kd/dose ou 500mg/dose (em maiores de 12 anos), IV, de 8 em 8 horas.

Seguimento

  • A tosse pode durar por várias semanas a quatro meses, dependendo da etiologia. 

  • Aqueles que se recuperam de uma inflamação bacteriana típica ou atípica podem apresentar dispneia moderada aos esforços por dois a três meses. 

  • Radiografias de acompanhamento não são necessárias em pacientes assintomáticos. No entanto, em pacientes com PAC complicado que requerem intervenção, as radiografias de acompanhamento ajudam a garantir a resolução. 

    • Radiografias de acompanhamento duas a três semanas após a conclusão da terapia podem ser úteis em pacientes com sintomas recorrentes, sintomas persistentes, atelectasia grave ou infiltrados incomumente localizados.

Referências

  • Academia Americana de Pediatria. Tabelas de dosagens de medicamentos antibacterianos. In: Livro Vermelho: Relatório 2024-2027 do Comitê de Doenças Infecciosas, 33ª ed, Kimberlin DW, Banerjee R, Barnett ED, Lynfield R, Sawyer MH (Eds), Academia Americana de Pediatria, 2024. pág. 987.

Autoria e Curadoria

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