Traqueíte Bacteriana na Criança (Crupe Bacteriano)
Introdução
Características gerais:
Conhecido como traqueíte bacteriana ou crupe bacteriano, acomete crianças de até 6 anos, e é uma infecção grave da via aérea superior, caracterizada por inflamação e formação de exsudato purulento na traqueia, que pode evoluir com obstrução grave da via aérea superior.
Diferentemente do crupe viral, não responde à epinefrina inalatória e aos corticosteroides.
Agentes etiológicos mais comuns:
S. aureus, S pneumoniae, Moraxella catarrhalis e Haemophilus sp
Há evidência de coinfecção viral, sendo isolados vírus influenza A e B, parainfluenza, enterovírus, VRS e sarampo. As culturas mostram flora bacteriana mista e coinfecção viral.
Sinônimos:
Crupe membranoso
Crupe pseudomembranoso
Crupe bacteriano
Traqueíte bacteriana
Laringotraqueobronquite aguda
Laringotraqueobronquite membranosa
Quadro Clínico e Diagnóstico
Quadro clínico:
A manifestação clínica é semelhante ao crupe viral e epiglotite.
Mas evoluem rapidamente para um quadro mais grave, com:
Tosse ladrante, rouquidão, estridor inspiratório e insuficiência respiratória.
Associado a febre alta, odinofagia e disfagia, baba, sonolência e cianose.
O desconforto respiratório pode progredir para obstrução total da via aérea.
Sem resposta a epinefrina inalatória e corticosteroides.
Diagnóstico:
O diagnóstico é clínico, baseado na evolução dos sintomas e ausência de resposta a terapias padrão para crupe viral.
Diagnóstico definitivo é feito pela laringoscopia direta: visualização de exsudato purulento sem sinais de epiglotite, malcheiroso bloqueando a luz da traqueia, de fácil remoção e sem hemorragia.
Os exames complementares incluem:
Radiografia de pescoço: pode revelar espessamento da parede traqueal ('sinal da vela derretida'), estreitamento traqueal subglótico (sinal campanário).
Hemograma e PCR: sinais como leucocitose e PCR elevado podem estar presentes.
Cultura de aspirado traqueal para identificação do agente etiológico.
Raio x pulmão: atelectasia, infiltração pulmonar, hiperinsuflação, edema pulmonar.
Manejo Inicial
Pilares do tratamento:
Na suspeita do quadro de crupe bacteriano, deve-se internar paciente em UTI.
Estabilização hemodinâmica e respiratória, monitoramento constante.
Avaliação contínua das vias aéreas para avaliar a necessidade de IOT.
Antibioticoterapia agressiva.
Oxigênio suplementar e avaliação contínua das vias aéreas:
Oxigênio suplementar para manter SatO2 acima de 92%.
Se insuficiência respiratória iminente: Intubação orotraqueal imediato.
É recomendado realizar intubação em centro cirúrgico com endoscopia, IOT por 3 a 7 dias. A realização frequente de sucção da secreção para evitar obstrução do tubo.
A extubação é realizada após melhoria dos sinais sistêmicos, os requisitos são mínimos e detecção do fluxo de ar ao redor do tubo endotraqueal com o manguito desinflado.
Se alta suspeita clínica sem insuficiência respiratória:
Broncofibroscopia e desbridamento de exsudatos traqueais por broncofibroscopia rígida.
Antibioticoterapia empírica:
Descrito em tópico abaixo.
Deve ser iniciada o mais breve possível.
Teste terapêutico com broncodilatador inalatório (Epinefrina e Salbutamol).
Considerando possíveis comorbidades associadas que poderiam responder ao tratamento (p. ex. asma, crupe viral).
Teste terapêutico com glicocorticoide:
Considerando possíveis comorbidades associadas que poderiam responder ao tratamento (p. ex. asma, crupe viral).
Também é usado na extubação.
Fluidoterapia:
Estabilização hemodinâmica: 20 mL/kg de solução salina isotônica IV.
Soroterapia de manutenção.
Controle da febre:
Dipirona sol. injetável 1g/2mL ou 500mg/1mL
<= 8 kg: 0,1 a 0,2 mL IM, a cada 6h se necessário.
9-15 kg: 0,2 a 0,5 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
16-23 kg: 0,3 a 0,8 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
24-30 kg: 0,4 a 1,0 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
31-45 kg: 0,5 a 1,5 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
46-53 kg: 0,8 a 1,5 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
>= 54 kg: 2 mL IV ou IM, a cada 6h se necessário.
Observação:
Para menores de 3 meses utilizar paracetamol 1 gota/kg VO.
Garantir o conforto do paciente:
Evitar agitação ou ansiedade devido piorarem o grau de desconforto respiratório e obstrução.
Antibioticoterapia
Ir para Dose antibióticos pediatria.
Opção 1:
Esquema:
Vancomicina + (Ceftriaxona OU Cefotaxima OU Ampicilina-sulbactam), por 7 a 10 dias
Vancomicina pó inj. 500mg ou 1g
Dose: 30 mg/kg/dia, dividido a cada 8-12h (máx 2g/dose)
Reconst. 1 amp p/ cada 10mL AD
Diluir para concentração de 5mg/mL com SF 0,9% e infundir EV em 1-2 horas
Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
Dose: 150 a 200 mg/kg por dia em 4 doses divididas (dose máxima de 2 g)
Reconstituição EV: 4mL de AD
Reconstituição IM: 4mL de AD ou Lidocaína 0,5-1%
Diluir para concentração de 20mg/mL com AD, SG 5%, SF 0,9% ou RL e infundir EV em 30 min
Ceftriaxona pó inj. 1g
Intravenoso:
Reconst. 1 amp p/ cada 10mL AD
Dose: 50 mg/kg por dose a cada 12 a 24 horas (dose máxima diária: 2 g)
Reconstituição EV: 10mL de AD
Diluir para concentração de 20mg/mL com SG 5%, SG 10% ou SF 0,9% e infundir EV em 30 min
Intramuscular:
Diluir 1 amp para cada 3,5 mL lidocaína 1% (volume: 4,22 mL)
Dose: 50 mg/kg por dose a cada 12 a 24 horas (dose máxima diária: 2 g)
Administrar em áreas de grande massa muscular
Máx: 4,22 mL (1 g) a cada 12 h
Ampicilina- Sulbactam pó inj. 1,5g (1g Ampicilina + 0,5 Sulbactam)
Dose: 150 a 200 mg/kg (de componente ampicilina) por dia em 4 doses divididas (dose máxima diária: 8 g)
Reconstituição EV: 3mL de AD para 1,5g e 6mL de AD para 3g em 10mL AD
Reconstituição IM: Pode ser utilizada lidocaína 2%
Diluir para concentração de 20 mg/ml, com SF 0,9% ou SG 5% e infundir IV em 30 min
Opção 2:
Esquema:
Monoterapia com Ceftarolina por 7 a 10 dias
Ceftarolina pó inj. 600mg
Dose de 10 mg/kg por infusão EV durante 120 minutos de 8/8 horas;
Reconstituir 600 mg em 20 mL de água para injeção estéril;
Diluição: Diluir a dose desejada em SF 0,9%, SG 5% ou Ringer lactato obtendo uma solução com concentração final de no máximo 12 mg/mL.
Opção 3:
Esquema:
Linezolida + (Ceftriaxona OU Cefotaxima OU ampicilina - sulbactam) por 7 a 10 dias.
Linezolida inj. 600mg/300mL
<12 anos: 10mg/kg por dose a cada 8 horas. Dose máxima 600mg.
> 12 anos: 600mg por dose a cada 12 horas. Aplicar 1 bolsa, IV em 30 a 120 min, a cada 12h
Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
Dose: 150 a 200 mg/kg por dia em 4 doses divididas (dose máxima de 2 g)
Reconstituição EV: 4mL de AD
Reconstituição IM: 4mL de AD ou Lidocaína 0,5-1%
Diluir para concentração de 20mg/mL com AD, SG 5%, SF 0,9% ou RL e infundir EV em 30 min
Ceftriaxona pó inj. 1g
Intravenoso:
Reconst. 1 amp p/ cada 10mL AD
Dose: 50 mg/kg por dose a cada 12 a 24 horas (dose máxima diária: 2 g)
Reconstituição EV: 10mL de AD
Diluir para concentração de 20mg/mL com SG 5%, SG 10% ou SF 0,9% e infundir EV em 30 min
Intramuscular:
Diluir 1 amp para cada 3,5 mL lidocaína 1% (volume: 4,22 mL)
Dose: 50-100 mg/kg/dia
Administrar em áreas de grande massa muscular
Máx: 4,22 mL (1 g) a cada 12 h
Ampicilina- Sulbactam pó inj. 1,5g (1g Ampicilina + 0,5 Sulbactam)
Dose: 150 a 200 mg/kg (de componente ampicilina) por dia em 4 doses divididas (dose máxima diária: 8 g)
Reconstituição EV: 3mL de AD para 1,5g e 6mL de AD para 3g em 10mL AD
Reconstituição IM: Pode ser utilizada lidocaína 2%
Diluir para concentração de 20 mg/ml, com SF 0,9% ou SG 5% e infundir IV em 30 min
Opção 4:
Esquema:
Clindamicina + (Ceftriaxona OU Cefotaxima OU Ampicilina - sulbactam) por 7 a 10 dias.
Clindamicina inj. 300mg/2mL ou 600mg/4mL ou 900mg/6mL
Pode ser substituída pela vancomicina para infecções não graves/não ameaçadoras à vida em ambientes onde a prevalência de resistência à clindamicina entre os isolados de Staphylococcus aureus é baixa
Dose 40 mg/kg por dia em 3 doses divididas. Dose máxima diária 2,7 g.
Reconstituição: Medicamento pronto para uso
Diluir para concentração de 18 mg/ml, com SF 0,9% , SG 5%, SG 10% ou RL e infundir IV em 1 hora
Aplicação IM: Administrar em áreas de grande massa muscular, sem diluição. Não exceder 600mg por aplicação
Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
Dose: 150 a 200 mg/kg por dia em 4 doses divididas (dose máxima de 2 g)
Reconstituição EV: 4mL de AD
Reconstituição IM: 4mL de AD ou Lidocaína 0,5-1%
Diluir para concentração de 20mg/mL com AD, SG 5%, SF 0,9% ou RL e infundir EV em 30 min
Ceftriaxona pó inj. 1g
Intravenoso:
Reconst. 1 amp p/ cada 10mL AD
Dose: 50 mg/kg por dose a cada 12 a 24 horas (dose máxima diária: 2 g)
Reconstituição EV: 10mL de AD
Diluir para concentração de 20mg/mL com SG 5%, SG 10% ou SF 0,9% e infundir EV em 30 min
Intramuscular:
Diluir 1 amp para cada 3,5 mL lidocaína 1% (volume: 4,22 mL)
Dose: 50-100 mg/kg/dia
Administrar em áreas de grande massa muscular
Máx: 4,22 mL (1 g) a cada 12 h
Ampicilina- Sulbactam pó inj. 1,5g (1g Ampicilina + 0,5 Sulbactam)
Dose: 150 a 200 mg/kg (de componente ampicilina) por dia em 4 doses divididas (dose máxima diária: 8 g)
Reconstituição EV: 3mL de AD para 1,5g e 6mL de AD para 3g em 10mL AD
Reconstituição IM: Pode ser utilizada lidocaína 2%
Diluir para concentração de 20 mg/ml, com SF 0,9% ou SG 5% e infundir IV em 30 min
Pacientes com alergia a beta-lactâmicos (penicilina ou cefalosporina):
Esquema:
Levofloxacino ou Ciprofloxacina podem substituir Cefalosporina e Ampicilina do regime.
Levofloxacino inj. 500mg/100mL ou 750mg/150mL
6 meses a 5 anos: 10mg/kg por dose a cada 12 horas. Dose máxima diária 500mg.
> 5 anos: 10mg/kg por dose uma vez ao dia. Dose diária máxima 500mg.
Reconstituição: Medicamento pronto para uso
Diluir para concentração de 20 mg/ml, com SF 0,9%, SG 5%, SG 10% ou RL e infundir IV em 60-90 min
Ciprofloxacino inj. 200mg/100ml ou 400mg/200ml
Dose: 20 a 30mg/kg por dia em 2 doses divididas. Dose diária máxima 800mg.
Reconstituição: Medicamento pronto para uso
Diluir para concentração de 20 mg/ml, com SF 0,9%, SG 5%, SG 10% ou RL e infundir IV em 60 min
Terapia Adjuvantes
Tentativa de terapia broncodilatadora inalatória com Epinefrina:
Epinefrina nebulizada se estridor (realizar um teste):
L-epinefrina:
Dose de 0,5 mL/kg/dose (máximo 5 mL) na concentração de 1 mg/mL, administrada em via nebulizador ao longo de 15 minutos.
Tentativa de terapia broncodilatadora inalatória com Salbutamol:
Salbutamol se estridor:
Salbutamol 100mcg/puff
1 puff para cada 2-3 kg (máx 10 puffs), a cada 20 minutos na 1ª hora. Manutenção a cada 4 a 6 horas.
Dose: 1,25 a 5 mg, a cada 20 min na 1ª hora.
Salbutamol 1mg/1mL
Nebulização com 0,15 mL/kg (max 10 mL) + 3 a 4 ml SF0,9%, a cada 20 min na 1ª hora.
Dose: 0,15 mg/kg/dose.
Salbutamol 2mg/1mL
Nebulização com 0,07 mL/kg (max 5 mL) + 3 a 4 ml SF0,9%, a cada 20 min na 1ª hora.
Dose: 0,15 mg/kg/dose.
Salbutamol 5mg/1mL
Nebulização 0,03 mL/kg (max 2 mL) + 3 a 4 ml SF0,9%, a cada 20 min na 1ª hora.
Dose: 0,15 mg/kg/dose.
Solução salina hipertônica nebulizada:
A solução salina hipertônica nebulizada (3%) não é uma parte rotineira dos cuidados respiratórios para crianças com traqueíte bacteriana, considerando a ausência de evidência científica que suporte o seu uso.
No entanto, o uso pode ser considerado quando a drenagem inadequada de secreções prejudica a troca gasosa e/ou a expansão pulmonar em certos pacientes que se encontram intubados. Nesses casos, a aplicação de solução salina hipertônica pode exercer um papel auxiliar na remoção dessas secreções das vias aéreas.
Solução de salina hipertônica a 3% para nebuliazção
Preparação: 0,5 ml de NaCl 20% + 2,8 ml de AD, e nebulizar com fluxo de oxigênio a 6 L/min.
Se houver resposta à terapia com salina hipertônica nebulizada, considerar manter a nebulização com NaCl 3% de 4/4 horas.
Corticoides
Considerar teste terapêutico com glicocorticoide, considerando possíveis comorbidades associadas que poderiam responder ao tratamento (p. ex. asma, crupe viral). Também é usado na extubação.
Primeira linha:
Dexametasona sol. injetável 2 mg/mL e 4 mg/mL
0,5 mg/kg/dose, dose única IV ou IM.
Dose máxima: 10 mg.
Dexametasona sol. oral 0,1 mg/mL
Dar 6 mL/kg/dose (0,6 mg/kg) VO, dose única.
Dose máxima: 12 mg.
Alternativa:
Hidrocortisona pó inj. 100mg e 500mg
13 mg/kg/dose, dose única IV ou IM (dose equivalente à dexametasona).
Dose máxima: 266 mg (dose equivalente à dexametasona).
Observação:
0,5 mg/kg de dexametasona é equivalente a 13 mg/kg de hidrocortisona.
10 mg/kg de dexametasona é equivalente a 266 mg/kg de hidrocortisona.
Referências
[1] Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Emergências. Crupe viral e bacteriana. 2017.
[2] Casazza G,Graham ME, Nelson D, et al. Traqueíte bacteriana pediátrica- A entidade variável: série de casos com revisão da literatura. Otolarynol Head Neck Surg 2019; 160:546.
[3] Ferrari, M. E. M., Nogueira, R. A., Pacheco, N. M., de Oliveira, J. M. M., Leal, V. V. S. B., Jaegge, N. A. R., Guerra, D. R. da S. B., Barcelos, M. G. R., Boniolo, R. F., Boniolo, V. F., de Albuquerque, E. L. da S., da Silva , T. C., Silveira , M., Ferreira , A. C. M., & Mosquini, J. da C. E. (2024). Atualizações sobre laringotraqueobronquite na infância: uma revisão bibliográfica. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, 6(9), 3400–3415.
[4] Salamone FN, Bobbitt DB, Myer CM, entre outros. Traqueíte bacteriana reexaminada: existe uma manifestação menos grave? Otolaryngol Head Neck Surg 2004; 131:871.
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