Fibromialgia no Adulto
CID-10: M79.7
Introdução
A fibromialgia é uma síndrome caracterizada por dor musculoesquelética crônica e difusa, com duração superior a 3 meses, associada a fadiga, distúrbios do sono e sintomas cognitivos.
Não há lesão estrutural identificável que explique os sintomas, sendo considerada uma condição relacionada a alterações no processamento central da dor (dor nociplástica).
A dor costuma envolver múltiplas regiões do corpo, incluindo segmentos axiais e periféricos, podendo comprometer significativamente a funcionalidade e a qualidade de vida.
A doença acomete principalmente mulheres entre 30 e 60 anos e frequentemente está associada a transtornos de humor, ansiedade e outras síndromes funcionais.
Epidemiologia
Prevalência estimada na população geral: 2–4%.
Predomínio em mulheres (≈ 80–90% dos casos).
Pode ocorrer em qualquer idade, sendo mais frequente entre 30 e 60 anos.
Existe agregação familiar, sugerindo predisposição genética.
É comum a associação com outras condições, como:
doenças reumatológicas
transtornos psiquiátricos
síndromes funcionais gastrointestinais.
Quadro Clínico
Dor musculoesquelética difusa:
É a característica central da doença:
dor crônica e generalizada
acomete esqueleto axial e periférico
frequentemente mal localizada
pode ter caráter:
queimação
peso
pontada
Fatores que agravam os sintomas:
frio
estresse
privação de sono
ansiedade
sedentarismo
Sintomas associados:
São extremamente frequentes:
fadiga persistente
sono não reparador
rigidez matinal
hiperalgesia
alodinia
Sintomas cognitivos:
Conhecidos como “fibro fog”:
dificuldade de concentração
lentificação do raciocínio
déficit de memória recente
Outras manifestações associadas:
Podem ocorrer diversas síndromes funcionais:
depressão
ansiedade
cefaleia tensional
enxaqueca
síndrome do intestino irritável
síndrome da bexiga dolorosa
síndrome das pernas inquietas
parestesias
disfunção temporomandibular
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico, com anamnese e exame físico bem detalhados, somados a exames laboratoriais para exclusão de outras patologias que cursam com sintomas parecidos.
Critérios do American College of Rheumatology (ACR 2016):
Dor generalizada por pelo menos 3 meses:
Escore WPI ≥ 7 e SSS ≥ 5, OU
Escore WPI entre 4-6 e SSS ≥ 9
Escores descritos abaixo.
Fadiga, distúrbios do sono e sintomas cognitivos.
Ausência de outra condição que explique os sintomas.
Exames laboratoriais (para excluir diagnósticos diferenciais):
VHS e PCR (excluir processos inflamatórios).
TSH e T4 livre (excluir hipotireoidismo).
Hemograma e perfil bioquímico (anemia, doenças metabólicas).
Escore WPI (Widespread Pain Index)
O escore é obtido pela soma das regiões corporais dolorosas nos últimos sete dias.
Para cada área dolorosa é atribuído 1 ponto, enquanto regiões sem dor recebem 0 ponto. O escore total varia de 0 a 19.
As 19 áreas são:
Região cervical
Ombros direito e esquerdo
Braços direito e esquerdo
Antebraços direito e esquerdo
Mandíbula direita e esquerda
Tórax
Abdome
Região lombar
Dorso superior
Quadris direito e esquerdo
Coxas direita e esquerda
Pernas direita e esquerda
Escore SSS (Symptom Severity Score)
Avalia 4 componentes:
Fadiga
Sono não restaurador
Sintomas cognitivos
Sintomas somáticos adicionais (ex. cefaleia, cólon irritável, parestesias bem como dor abdominal).
Cada item é pontuado de 0 (ausente) a 3 (severo), totalizando uma pontuação entre 0 e 12.
Tratamento Não Farmacológico
Considerações:
O tratamento da fibromialgia deve ser multidisciplinar, com forte ênfase em intervenções não farmacológicas.
Medidas fundamentais:
educação sobre a doença
estímulo à participação ativa do paciente
orientação quanto à natureza benigna da condição.
Exercícios físicos
São a intervenção terapêutica com maior evidência de benefício.
Recomenda-se:
exercício aeróbico regular (3–5 vezes por semana)
atividades de baixo impacto:
caminhada
ciclismo
hidroginástica
natação
Podem ser associados:
treinamento de força
exercícios de flexibilidade
Outras intervenções úteis
higiene do sono
terapia cognitivo-comportamental
perda ponderal em pacientes com obesidade
mindfulness e técnicas de relaxamento
fisioterapia
acupuntura
Tratamento Farmacológico
Quando indicar?
Sintomas persistem apesar das medidas não farmacológicas
Dor ou fadiga causam limitação funcional significativa.
Qual indicar?
Geralmente inicia-se com monoterapia, escolhida conforme os sintomas predominantes.
Antidepressivos tricíclicos
Considerações:
Melhoram dor, sono e humor.
Efeitos adversos possíveis: xerostomia, constipação, retenção urinária e arritmias em doses elevadas.
Evitar em: glaucoma de ângulo fechado não tratado.
Amitriptilina comp. 10 mg ou 25 mg
Iniciar 10–25 mg VO à noite.
Ajustar progressivamente conforme resposta (máx. 75 mg/dia).
Relaxantes musculares
Podem melhorar dor e qualidade do sono.
Ciclobenzaprina comp. 5 mg ou 10 mg
Tomar 1 cp VO à noite.
Dose usual: 5–30 mg/dia (máx. 30 mg/dia).
Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN)
Indicados especialmente quando há depressão ou fadiga associada.
Duloxetina comp. 30 mg ou 60 mg
Iniciar 30 mg VO pela manhã.
Pode aumentar para 60 mg/dia (máx. 120 mg/dia).
Venlafaxina comp. 37,5 mg ou 75 mg
Iniciar 37,5–75 mg VO pela manhã.
Ajustar conforme resposta clínica.
Desvenlafaxina comp. 50 mg ou 100 mg
Tomar 50 mg VO pela manhã.
Pode aumentar gradualmente (máx. 200 mg/dia).
Anticonvulsivantes
Atuam na modulação da dor e podem melhorar o sono.
Pregabalina comp. 75mg
Iniciar 75 mg VO à noite.
Pode aumentar progressivamente (máx. 600 mg/dia).
Gabapentina comp. 300mg
Iniciar 300 mg VO à noite.
Aumentar progressivamente conforme tolerância (máx. 2.400–3.600 mg/dia).
Analgésicos simples
Podem ser utilizados como terapia adjuvante, apesar da eficácia limitada na fibromialgia.
Dipirona comp. 500mg
Tomar 01 cp VO de 6/6h se dor (máx. 4 g/dia).
Paracetamol comp. 500mg ou 750mg
Tomar 01 cp VO de 6/6h se dor (máx. 4 g/dia).
Opioides
Considerações:
Devem ser evitados rotineiramente, devido à baixa eficácia e maior risco de efeitos adversos.
O único opioide eventualmente considerado é o tramadol. Opioides fortes não devem ser prescritos para fibromialgia.
Tramadol comp. 50mg
Tomar 01 cp VO de 6/6h, se dor (máx. 400 mg/dia).
Utilizar preferencialmente por períodos curtos, devido ao risco de dependência.
Casos Refratários
Em pacientes com resposta insuficiente ao tratamento inicial, deve-se primeiramente:
reavaliar adesão ao exercício físico
otimizar tratamento das comorbidades psiquiátricas
ajustar ou trocar o modulador central da dor.
Terapia combinada
Pode-se considerar terapia combinada entre classes diferentes.
Exemplos:
Duloxetina pela manhã + Amitriptilina à noite
Duloxetina pela manhã + Pregabalina à noite
Encaminhamento
Encaminhar ao reumatologista quando:
houver dúvida diagnóstica
suspeita de doença reumatológica associada
ausência de resposta terapêutica após manejo inicial adequado.
A maioria dos casos pode ser acompanhada na Atenção Primária à Saúde.
Outras abordagens
Podem ser consideradas em casos selecionados:
acupuntura
TENS
neuromodulação não invasiva
Referências
[1] BVS APS Atenção Primária à Saúde. Quais são as opções farmacológicas para tratamento de fibromialgia?. 8 agosto 2018.
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