Tontura e Vertigem no Adulto
CID-10: R42 — Tontura e instabilidade
Introdução
Tonteira ou tontura é queixa inespecífica e pode corresponder a vertigem, pré-síncope, desequilíbrio ou tontura não vestibular.
A avaliação mais atual prioriza curso temporal, desencadeantes e exame direcionado, em vez de depender apenas da descrição subjetiva do sintoma.
Para tomada de decisão, os pacientes com tontura aguda costumam ser enquadrados em três padrões clínicos:
AVS: Síndrome vestibular aguda (SVA) = acute vestibular syndrome (AVS) - início agudo de tonturas persistentes e contínuas com duração superior a 24 horas.
s-EVS: Síndrome vestibular episódica espontânea = spontaneous episodic vestibular syndrome (s-EVS) - episódios de tontura não provocada por qualquer gatilho claro.
t-EVS: Síndrome vestibular episódica desencadeada = triggered episodic vestibular syndrome (t-EVS) - breves episódios de tontura claramente desencadeada por algo, por exemplo, mover a cabeça.
Classificação clínica inicial
Vertigem
Sensação ilusória de movimento, espontâneo ou induzido, incluindo falsa sensação de rotação do corpo ou do ambiente.
Pré-síncope
Sensação iminente de desmaio; exige investigação cardiovascular/hemorrágica/metabólica conforme contexto clínico.
Desequilíbrio
Sensação de instabilidade estática ou à marcha, frequentemente multissistêmica.
Tontura não vestibular / não especificada
Categoria residual, após exclusão sindrômica inicial.
Diferenciar causas
Causas clínicas de tontura (pré-síncope ou síncope)
Arritmia, hipot. ortostática, refl. vaso-vagal, anemia, infecção.
Causas clínicas de vertigem
Fóbica (ansiedade), neurop. periféricas, lesão cerebral difusa.
Comprometimento vestibular agudo periférico (vertigem)
Neurite vestibular: prolongada, incapacitante.
Doença de Meniere: dura minutos.
Comprometimento vestibular agudo central (vertigem)
AVE lacunar (a. vertebral, cerebelar).
Observar características do nistagmo, se houver.
Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB)
Desencadeado por movimentos da cabeça (otólitos): dura segundos.
Manobras diagnósticas desencadeiam nistagmo
Manobra Dix-Hallpike
Manobra posicionamento lateral
Nistagmo aparece em poucos seg. e desaparece em 40s.
Abordagem inicial
Definir se o quadro é:
Agudo contínuo (>24 h) → pensar em AVS;
Episódico espontâneo → pensar em migrânea vestibular, doença de Ménière, AIT vertebrobasilar, entre outros;
Episódico desencadeado por posição/movimento cefálico → pensar principalmente em VPPB.
Perguntas-chave:
início e duração;
gatilhos claros;
perda auditiva, zumbido, plenitude auricular;
cefaleia migranosa, fotofobia, fonofobia, aura;
diplopia, disartria, disfagia, hemiataxia, fraqueza, alteração sensitiva;
fatores de risco vasculares.
Exame físico direcionado
Em AVS com nistagmo, clínico treinado deve usar HINTS para diferenciar causa central de periférica.
Em AVS com nistagmo, avaliar também audição; em pacientes sem nistagmo, avaliar gravidade da instabilidade da marcha.
Em suspeita de VPPB de canal posterior, fazer Dix-Hallpike.
⚠️ Sinais de alarme / suspeita de origem central
HINTS central ou equívoco;
nistagmo central;
déficits neurológicos focais;
instabilidade de marcha desproporcional;
forte contexto vascular/AIT/AVE posterior.
Periférico vs Central
História clínica
A natureza e evolução temporal dos sintomas, podem ajudar a identificar uma provável etiologia.
A vertigem recorrente com duração inferior a um minuto geralmente é uma vertigem posicional paroxística benigna (VPPB).
Um único episódio de vertigem com duração de vários minutos a horas pode ser decorrente de enxaqueca ou isquemia transitória do labirinto ou do tronco encefálico.
Os episódios recorrentes de vertigem associados à doença de Ménière ou vestibulopatia recorrente também costumam durar horas, mas podem ser mais breves.
Início agudo de vertigem que é sustentado pode ocorrer com neurite vestibular, doença desmielinizante (esclerose múltipla) ou um acidente vascular cerebral ou cerebelar.
Nistagmo
A presença de nistagmo ajuda a confirmar que a queixa do paciente é vertigem, e não tontura.
As características do nistagmo por acometimento central:
Inverte a direção quando o paciente olha na direção do componente lento
O nistagmo puramente vertical ou rotacional é um sinal central
Não é suprimido com a fixação visual (não é fatigável)
As características do nistagmo por acometimento periférico:
Não inverte a direção quando o paciente olha na direção do componente lento
Horizontal com componente rotacional, mas nunca puramente rotacional ou vertical
É suprimido com a fixação visual (é fatigável)
Outros sinais e sintomas neurológicos
Dormência, fraqueza, comprometimento importante da marcha, diplopia e disartria apontam para uma etiologia central da vertigem (sua ausência não exclui uma etiologia central)
Sinais e sintomas audiológicos
A presença de audição anormal, zumbido ou dor de ouvido aponta para uma etiologia periférica da vertigem.
Exame HINTS
Head Impulse Test
Como fazer?
O paciente deve fixar o olhar em um alvo (nariz do examinador), então o examinador rotaciona a cabeça do paciente 30° para um lado, e então retorna a cabeça rapidamente a posição normal, observando o movimento dos olhos do paciente. Realizar bilateralmente.
Periférico:
o rápido movimento da cabeça faz com que os olhos percam a fixação do alvo, seguindo o movimento da cabeça, seguido de um rápido retorno ao alvo (nariz do examinador) (reflexo vestíbulo-ocular não preservado).
Central:
o olhar permanece fixo no alvo, mesmo com a rápida movimentação da cabeça.
Nystagmus
Como fazer?
Paciente deve olhar para esquerda, e após para direita, enquanto o examinador observa a direção da fase rápida do nistagmo.
Periférico:
Não há mudança da direção da fase rápida do nistagmo.
Central:
Há mudança da direção da fase rápida do nistagmo.
Test of Skew
Como fazer?
Paciente deve fixar o olhar no nariz do examinador. Então cobre-se o olho esquerdo do paciente com algum objeto (ou a mão), e em seguida troca-se rapidamente para o olho direito, observando se haverá algum desvio (vertical ou diagonal) do olho esquerdo. Realizar e observar bilateralmente.
Periférico:
não há desvio do olho.
Central:
há desvio vertical ou diagonal do olho.
Tratamento vertigem periférica
Uso oral
Dimenidrinato 100+50mg
Tomar 1 cp 8/8h até cessar a crise.
Cinarizina 25mg, 75mg
Tomar 1 cp (de 25mg) de 8/8h ou 1 cp (de 75mg) 1x/dia, se crise (max 7 dias)
Observações
Evitar em idoso devido a parkinsonismo e depressão.
Fazer desmame se uso prolongado.
Betaistina 16mg, 24mg
Tomar 1 cp (de 16mg) de 8/8h ou 1 cp (de 24mg) de 12/12h, se crise.
Observação
Mais usado para manutenção do tratamento.
Meclizina 25mg
Tomar 1 cp de 8/8h, se crise.
Observação
Mais usado para tirar da crise.
Diazepam 5 mg ou 10mg
Tomar 1 cp (de 5mg) na crise
Uso Intravenoso
Dimenidrinato 30mg+50mg/10ml
Aplicar 1 amp + 10 ml AD, 4/4h, IV em 3 min.
Tratamento VPPB
Manobras de reposicionamento — VPPB (canal posterior)
Quando indicar
Cenário clássico de VPPB de canal posterior:
Episódios breves (segundos) de vertigem
Desencadeados por mudança de posição da cabeça
Dix-Hallpike positivo
Ausência de sinais neurológicos centrais
Manobra de Epley
Indicação
Primeira linha para VPPB de canal posterior.
Objetivo
Reposicionar os otólitos do canal semicircular posterior para o utrículo.
Como fazer (passo a passo):
Paciente sentado;
Rodar a cabeça 45° para o lado afetado;
Deitar rapidamente (posição de Dix-Hallpike)
Manter por 30–60 segundos ou até cessar vertigem/nistagmo;
Girar a cabeça 90° para o lado oposto
Manter 30–60 segundos;
Girar o corpo lateralmente (decúbito lateral), mantendo a cabeça rodada
Manter 30–60 segundos;
Retornar lentamente à posição sentada.
Pontos críticos
Pode repetir na mesma consulta
Alta taxa de resolução com 1 a 3 sessões
Pode causar náusea/vômito durante execução
Manobra de Semont (liberatória)
Indicação
Alternativa à Epley para VPPB de canal posterior
Útil quando:
Epley não funciona
Limitação cervical impede execução lenta
Necessidade de manobra mais rápida
Objetivo
Deslocamento abrupto dos otólitos por aceleração angular.
Como fazer
Paciente sentado;
Cabeça rodada 45° para o lado oposto ao afetado;
Levar rapidamente para decúbito lateral do lado afetado
Manter ~1 minuto;
Transferir rapidamente para o decúbito lateral oposto, sem mudar posição da cabeça
Manter ~1–2 minutos;
Retornar à posição sentada.
💊 Tratamento secundário, se necessário
Uso oral
Dimenidrinato 100+50mg
Tomar 1 cp 8/8h até cessar a crise.
Cinarizina 25mg, 75mg
Tomar 1 cp (de 25mg) de 8/8h ou 1 cp (de 75mg) 1x/dia, se crise (max 7 dias)
Observações
Evitar em idoso devido a parkinsonismo e depressão.
Fazer desmame se uso prolongado.
Betaistina 16mg, 24mg
Tomar 1 cp (de 16mg) de 8/8h ou 1 cp (de 24mg) de 12/12h, se crise.
Observação
Mais usado para manutenção do tratamento.
Meclizina 25mg
Tomar 1 cp de 8/8h, se crise.
Observação
Mais usado para tirar da crise.
Diazepam 5 mg ou 10mg
Tomar 1 cp (de 5mg) na crise
Uso Intravenoso
Dimenidrinato 30mg+50mg/10ml
Aplicar 1 amp + 10 ml AD, 4/4h, IV em 3 min.
Comprometimento vestibular central
Conduta imediata
Encaminhamento
Encaminhar imediatamente para serviço de emergência
Não conduzir ambulatorialmente
Monitorização inicial
Sinais vitais
Glicemia capilar
Avaliação neurológica seriada
Neuroimagem
RM de crânio com difusão → exame de escolha
⚠️ Ponto crítico: RM precoce pode ser falsamente negativa → não descarta AVE
TC de crânio:
Baixa sensibilidade para fossa posterior
Usar apenas se RM indisponível
Não confiar apenas na imagem
Se HINTS for central → tratar como AVE, mesmo com imagem inicial normal
Manejo como AVE até exclusão
Avaliar janela terapêutica
Considerar:
trombólise
trombectomia (se elegível)
Controle de:
PA
glicemia
oxigenação
Evitar erros comuns
Não rotular como “labirintite” sem exame adequado
Não prescrever apenas antivertiginoso e liberar
Não confiar em ausência de déficit focal
Não usar TC normal para excluir AVE
Papel da APS
Reconhecer padrão de risco
Não atrasar encaminhamento
Não iniciar investigação ambulatorial nesses casos, em vista da necessidade de investigação imediata
Resumo decisório
Vertigem aguda contínua + HINTS central → AVC até prova em contrário
Sem acesso a HINTS confiável → baixo limiar para encaminhar
Dúvida diagnóstica → encaminhar
Exames complementares
Em suspeita de doença de Ménière, audiometria é parte importante do diagnóstico. A perda auditiva diferencia casos definitivos de prováveis.
Tomografia:
Não solicitar TC sem contraste rotineiramente para diferenciar periférico vs central em AVS ou EVS.
Ressonância magnética:
Não solicitar ressonância nucler magnética (RNM) como primeira linha em AVS se houver examinador treinado em HINTS.
Solicitar RNM quando HINTS for central ou equívoco.
Referências
[1] AMERICAN ACADEMY OF OTOLARYNGOLOGY—HEAD AND NECK SURGERY. Clinical Practice Guideline: Benign Paroxysmal Positional Vertigo (Update). 2017. Disponível em: AAO-HNS. Acesso em: 21 abr. 2026.
[2] AMERICAN ACADEMY OF OTOLARYNGOLOGY—HEAD AND NECK SURGERY. Clinical Practice Guideline: Ménière’s Disease. 2020. Disponível em: AAO-HNS. Acesso em: 21 abr. 2026.
[3] BÁRÁNY SOCIETY. ICVD Consensus Documents. 2026. Disponível em: Bárány Society. Acesso em: 21 abr. 2026.
[4] DUNCAN, B. B.; SCHMIDT, M. I.; GIUGLIANI, E. R. J. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
[5] GUSSO, G.; LOPES, J. M. C.; DIAS, L. C. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
[6] LEMPERT, Thomas et al. Vestibular Migraine: Diagnostic Criteria (Update). Journal of Vestibular Research, 2022; e INTERNATIONAL HEADACHE SOCIETY. ICHD-3 Appendix: Vestibular migraine. Disponível em: Bárány Society / ICHD-3. Acesso em: 21 abr. 2026.
[7] LÓPEZ-ESCÁMEZ, Jose A. et al. Diagnostic Criteria for Ménière’s Disease. Journal of Vestibular Research, 2015. Disponível em: Bárány Society. Acesso em: 21 abr. 2026.
[8] SOCIETY FOR ACADEMIC EMERGENCY MEDICINE. GRACE-3: Acute Dizziness and Vertigo in the Emergency Department. 2023. Disponível em: SAEM. Acesso em: 21 abr. 2026.
[9] STRUPP, Michael et al. Acute Unilateral Vestibulopathy/Vestibular Neuritis: Diagnostic Criteria. Journal of Vestibular Research, 2022. Disponível em: Bárány Society / PubMed. Acesso em: 21 abr. 2026.
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