Gravidez Ectópica
CID 10: O.00 - Gravidez ectópica
Introdução
Gravidez ectópica é a implantação e o desenvolvimento do blastocisto fora da cavidade uterina.
A localização mais frequente é a tuba (90% a 95% dos casos) [1]. Nos demais casos, a implantação ocorre na porção intersticial da tuba, no ovário, na cérvix, na cicatriz de cesárea ou na cavidade abdominal (gravidez não tubária) [1].
Pode coexistir com gestação intrauterina (gravidez heterotópica), mais frequente após FIV [2].
Incidência de 1% a 2% das gestações [1][2]
Principal causa de mortalidade materna no primeiro trimestre [1]
Recorrência após um episódio: cerca de 10 a 15%. [1][2][3]
Recorrência após dois ou mais episódios: pelo menos 25% [1][2][3]
Tratamentos conservadores (expectante, metotrexato, cirurgia poupadora de tuba) só são possíveis na fase inicial [1]
🔑 Pontos-chave:
Ruptura tubária com instabilidade hemodinâmica: diagnóstico clínico e laparotomia [1]
Mulher em idade fértil com dor abdominal ou sangramento vaginal: dosar β-hCG e considerar gravidez ectópica [1][2]
β-hCG a partir de 3.500 mUI/mL sem saco gestacional intrauterino na USTV indica gestação anormal (perda precoce ou ectópica); em paciente estável, confirmar localização e viabilidade antes de tratar [1][3]
Útero gravídico ao exame e saco gestacional intrauterino na USTV não excluem gravidez ectópica ou heterotópica, sobretudo após FIV [1][2]
Metotrexato é contraindicado em instabilidade hemodinâmica, ruptura, gravidez intrauterina, disfunção hepática ou renal importante, anemia, leucopenia, trombocitopenia e amamentação; embrião vivo, β-hCG elevado e massa maior que 4 cm reduzem a chance de sucesso [1][2][3]
Antes do metotrexato: hemograma, TGO, TGP, creatinina e tipagem ABO-Rh [1]
Paciente RhD-negativo não sensibilizada: imunoglobulina anti-D em qualquer tratamento [1]
Após metotrexato, suspender ácido fólico, AINEs, aspirina e álcool; o β-hCG pode subir entre os dias 1 e 4 sem indicar falha [1][2]
Cicatriz de cesárea: conduta expectante, curetagem isolada e metotrexato sistêmico isolado não são recomendados; o esquema sistêmico por β-hCG não se aplica isoladamente [2]
🎯 Fluxograma de manejo

Fatores de risco
Antecedente de gravidez ectópica:
Recorrência após um episódio de cerca de 15% (FEBRASGO [1]) ou 10% (StatPearls e ACOG [2][3]);
Pelo menos 25% após dois ou mais [1][2][3]
Lesão tubária:
Doença inflamatória pélvica (infecção por gonococo ou clamídia) [1][2]
Cirurgia tubária, inclusive laqueadura [1][2]
Endometriose [1][2]
Infertilidade e reprodução assistida [1][2]
Contracepção:
DIU: menor risco absoluto de gravidez ectópica que sem contracepção; se ocorrer gestação com DIU, até 53% são ectópicas [2][3]
Contraceptivos apenas com progestágeno: risco discretamente aumentado [2]
Tabagismo [1][2]
Idade acima de 35 anos [2][3]
Sem associação com risco aumentado: contraceptivos orais, falha de anticoncepção de emergência, abortamento provocado prévio e cesariana [2][3]
FEBRASGO lista a anticoncepção de emergência como fator de risco [1]
Quadro clínico
Gravidez tubária íntegra:
História pouco esclarecedora e exame clínico muitas vezes não elucidativo [1]
Tríade clássica, nem sempre presente: dor abdominal, atraso menstrual e sangramento genital [1]
Dor em cólica, em geral unilateral [2]
Gravidez tubária complicada (aborto ou ruptura):
Dor sincopal e lancinante na ruptura; em cólicas no aborto tubário [1]
Hemoperitônio: dor em todo o abdome, náuseas, vômitos, dor escapular, tontura e síncope [1][2]
Hipovolemia: palidez cutâneo-mucosa sem perda sanguínea visível, taquicardia e hipotensão [1]
Abdome: reação peritoneal, descompressão brusca dolorosa e ruídos hidroaéreos diminuídos [1]
Toque: abaulamento e dor intensa do fundo de saco posterior; útero ligeiramente aumentado e amolecido; massa anexial palpável em apenas metade dos casos [1]
Na ruptura tubária, o diagnóstico é clínico [1]
Útero gravídico palpável não exclui gravidez ectópica ou heterotópica [2]
Cicatriz de cesárea: de assintomática a ruptura uterina [2]
Diagnóstico
Quando investigar [1]:
Atraso menstrual, sangramento genital e/ou dor abdominal: dosar β-hCG e realizar USTV
USTV:
Achados, em sequência [1]:
Cavidade uterina: saco gestacional ou restos ovulares
Saco com vitelino visível entre 5 e 6 semanas de gestação [3]
Polo embrionário por volta de 6 semanas [2]
Ovários: corpo lúteo
Massa anexial extraovariana: embrião vivo, anel tubário ou hematossalpinge
Líquido livre na cavidade peritoneal: achado frequente
Confirmação definitiva:
Saco vitelino ou embrião fora do útero [2]
Cuidados na interpretação:
Gestação tópica à USTV em paciente de FIV: avaliar os anexos [1]
Miomas e IMC elevado reduzem a acurácia da USTV [2]
β-hCG:
Zona discriminatória (acima dela, o saco intrauterino deveria ser visível):
FEBRASGO:
3.500 mUI/mL; acima desse valor sem imagem de gestação tópica, a gestação é anormal [1]
ACOG:
Usar valor conservadoramente alto (até 3.500 mUI/mL) para não interromper gestação intrauterina desejada [3]
β-hCG isolado não diagnostica gravidez ectópica
Em gestação múltipla, o β-hCG pode superar o corte antes de o saco ser visível
StatPearls:
Corte historicamente entre 1.000 e 2.000 mUI/mL; β-hCG acima de 2.000 mUI/mL sem gestação intrauterina é muito sugestivo de gravidez ectópica [2]
Evolução em 48 horas (aumento mínimo esperado na gravidez intrauterina viável):
β-hCG inferior a 1.500 mUI/mL: aumento de 49% [1][2][3]
β-hCG entre 1.500 e 3.000 mUI/mL: aumento de 40% [1][3]
β-hCG superior a 3.000 mUI/mL: aumento de 33% [1][3]
Aumento abaixo do mínimo, ou queda de pelo menos 21%: sugere perda precoce ou gravidez ectópica [2][3]
Padrão compatível com gestação evolutiva ou em resolução não exclui gravidez ectópica [3]
Gravidez de localização desconhecida (β-hCG positivo, sem saco intrauterino nem massa anexial):
β-hCG igual ou superior a 3.500 mUI/mL: gestação anormal (perda precoce ou ectópica) [1]
Paciente estável: confirmar localização e viabilidade (USTV e/ou β-hCG seriado) antes de tratar [3]
β-hCG inferior a 3.500 mUI/mL: repetir em 48 horas [1]
Aumento abaixo do mínimo esperado para a faixa inicial: gestação inviável, tópica ou ectópica; definir pela USTV [1][3]
Aumento adequado: compatível com gestação evolutiva, sem excluir ectópica; manter seguimento com USTV [3]
β-hCG em declínio: seguir com dosagens seriadas até ficar indetectável enquanto a gravidez ectópica não for excluída [2][3]
Paciente estável que deseja manter a gestação [3]:
Repetir USTV e/ou β-hCG seriado
Segunda dosagem 2 dias após a primeira; as seguintes com intervalo de 2 a 7 dias
Procedimentos:
Curetagem ou aspiração a vácuo: uso excepcional, para pesquisar reação de Arias-Stella ou restos ovulares [1][2]
Aspiração uterina, após excluir gestação intrauterina em evolução [3]:
Vilosidades coriônicas presentes: confirma perda intrauterina; sem necessidade de outra avaliação
Vilosidades não confirmadas: dosar β-hCG 12 a 24 horas depois
Queda de 50% ou mais: sugere gestação intrauterina falha; seguir com β-hCG seriado
Queda inferior a 50%: individualizar a conduta
Platô (queda inferior a 10% a 15%) ou aumento: evacuação incompleta ou gravidez ectópica não visualizada; tratar
Localizações não tubárias, achados na USTV [2]:
Cicatriz de cesárea: saco gestacional baixo e anterior na cicatriz, miométrio fino ou ausente entre o saco e a bexiga, vascularização proeminente ao Doppler
Intersticial: sinal da linha intersticial, saco excêntrico, manto miometrial inferior a 5 mm
Cervical: saco gestacional no canal endocervical
Ovariana: difícil distinguir de cisto hemorrágico; confirmação histopatológica
Abdominal: em geral achado cirúrgico; pistas: má apresentação fetal, oligodrâmnio, alfafetoproteína elevada
Culdocentese:
Papel limitado; não usar quando houver USTV de qualidade disponível [2]
Diagnóstico diferencial
Torção ovariana [2]
Apendicite [2]
Abscesso tubo-ovariano [2]
Doença inflamatória pélvica [2]
Ruptura de cisto ovariano e corpo lúteo hemorrágico [2]
Litíase ureteral [2]
Abortamento ameaçado ou incompleto [2]
Esquema de tratamento
Primeiro passo:
Estabilidade hemodinâmica e integridade da tuba [1][2]
Gravidez ectópica tubária:
Se houver ruptura tubária: [1][3]
Com instabilidade hemodinâmica: Laparotomia (ver Tratamento cirúrgico)
Com paciente estável: Laparoscopia (ver Tratamento cirúrgico)
Se a tuba estiver íntegra:
Massa tubária acima de 5,0 cm:
Cirurgia, preferindo laparoscopia [1][3]
Massa tubária até 5,0 cm:
β-hCG inicial inferior a 2.000 mUI/mL em declínio:
Conduta expectante (ver Conduta expectante) [1]
β-hCG em platô, paciente assintomática e ciente dos riscos:
Conduta expectante possível [3]
β-hCG em ascensão, massa até 3,5 cm, β-hCG até 5.000 mUI/mL, embrião sem batimento cardíaco:
Metotrexato (ver Tratamento medicamentoso) [1]
β-hCG em ascensão, massa acima de 3,5 cm, β-hCG acima de 5.000 mUI/mL ou embrião vivo:
Laparoscopia [1]
Gravidez ectópica não tubária:
Tratamento individualizado (ver Gravidez não tubária) [1]
Outras condutas:
Paciente RhD-negativo não sensibilizada: imunoglobulina anti-D em qualquer tratamento [1]
β-hCG semanal até negativar [1][3
Conduta expectante
Indicação:
FEBRASGO (grau B) [1]:
Estabilidade hemodinâmica
Declínio do β-hCG em 24 a 48 horas sem tratamento
β-hCG inferior a 2.000 mUI/mL
USTV sem embrião vivo
Massa tubária inferior a 5 cm
Desejo de gravidez futura
ACOG [3]:
Paciente assintomática, com platô ou queda do β-hCG, ciente dos riscos de ruptura, hemorragia e cirurgia de urgência
Seguimento [1]:
Retorno em 24 a 48 horas para repetir o β-hCG
Declínio superior a 15%: bom prognóstico; seguir com β-hCG semanal até negativar
Sem declínio: reavaliar e decidir entre metotrexato e cirurgia
Conversão [2]:
Converter para metotrexato ou cirurgia se surgir dor, β-hCG persistente ou em ascensão, ou sinais de ruptura
Tratamento medicamentoso
Quem pode receber metotrexato
Indicação [1]:
Estabilidade hemodinâmica
Massa anexial até 3,5 cm
β-hCG inicial até 5.000 mUI/mL
Ausência de dor abdominal e de suspeita de ruptura tubária
Ausência de embrião com batimento cardíaco
Ascensão do β-hCG nas 24 a 48 horas antes do tratamento
Desejo de gravidez futura
Termo de consentimento assinado e compromisso com os retornos
Declínio do β-hCG nas 24 a 48 horas antes do tratamento: conduta expectante, sem metotrexato [1]
Contraindicações absolutas [1][2][3]:
Instabilidade hemodinâmica
Ruptura tubária
Gravidez intrauterina
Imunodeficiência
Anemia, leucopenia (leucócitos inferiores a 2.000/mm³) ou trombocitopenia (plaquetas inferiores a 100.000/mm³)
Sensibilidade prévia ao metotrexato
Doença pulmonar ativa
Doença ulcerosa péptica ativa
Disfunção hepática ou renal importante
Amamentação
Impossibilidade de seguimento
Asma não contraindica o metotrexato [3]
Contraindicações relativas (menor chance de sucesso) [2][3]:
Atividade cardíaca embrionária (contraindicação para a FEBRASGO [1])
β-hCG inicial elevado
Massa maior que 4 cm
Recusa de transfusão sanguínea
Preditores de falha [1]:
Atividade cardíaca embrionária
Massa maior que 4 cm
β-hCG inicial acima de 5.000 mUI/mL
Sangue na cavidade peritoneal
Aumento do β-hCG acima de 50% nas 48 horas antes do metotrexato
Aumento rápido e contínuo do β-hCG durante o metotrexato
Antes de iniciar
Exames: hemograma, TGO, TGP, creatinina e tipagem ABO-Rh [1]
Iniciar o metotrexato somente se hemograma, TGO, TGP e creatinina forem normais (grau A) [1]
Escolha do esquema
Dose única: mais simples e com menos efeitos adversos [1][2]; adequada com β-hCG relativamente baixo ou em platô [3]
Duas doses:
FEBRASGO: eficácia e segurança semelhantes às da dose única, com melhores resultados com β-hCG entre 3.600 e 5.000 mUI/mL [1]
StatPearls: preferível em alto risco de falha (β-hCG elevado, massa grande) [2]
ACOG: alternativa à dose única, sobretudo com β-hCG inicial alto [3]
Múltiplas doses:
FEBRASGO: esquema mais usado nas localizações atípicas com β-hCG acima de 5.000 mUI/mL [1]
StatPearls: menos favorecido pela complexidade e pelos efeitos adversos; considerar em gestação avançada ou extratubal [2]
Esquemas de metotrexato
Dose única [1][3][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
50 mg/m² IM, dose única no dia 1
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
β-hCG nos dias 4 e 7: queda superior a 15% indica bom prognóstico, seguir com β-hCG semanal até negativar; queda inferior a 15% no dia 7: repetir o metotrexato (máximo de 2 doses); sem queda após a segunda dose: cirurgia
Elevação transitória do β-hCG nos dias 1 a 4 é esperada e não indica falha
Duas doses [1][2][3][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
50 mg/m² IM no dia 1 e 50 mg/m² IM no dia 4
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
Dosar β-hCG nos dias 4 e 7:
Queda superior a 15%: seguir com β-hCG semanal até negativar
Queda inferior a 15%: repetir 50 mg/m² IM no dia 7 e dosar β-hCG no dia 11
Nova queda inferior a 15% entre os dias 7 e 11: repetir 50 mg/m² IM no dia 11 e dosar β-hCG no dia 14
Sem queda após 4 doses: cirurgia
Múltiplas doses [1][3][4][5]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
1 mg/kg IM nos dias 1, 3, 5 e 7; máximo de 4 doses
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Folinato de cálcio (leucovorina; Fauldleuco®) sol. inj. 10 mg/mL (ampola 5 e 30 mL)
0,1 mg/kg IM nos dias 2, 4, 6 e 8
Administração: via IM; solução pronta para uso; não administrar por via intratecal
Folinato de cálcio comp. 15 mg
15 mg VO nos dias 2, 4, 6 e 8
Administração: via oral, sem orientações específicas
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
Usar folinato de cálcio injetável ou em comprimido, não ambos
Folinato de cálcio oral 15 mg: esquema da FEBRASGO [1]; o ACOG traz apenas a via IM [3]
Não confundir folinato de cálcio (ácido folínico) com ácido fólico, que deve ser evitado durante o tratamento
Dosar β-hCG no dia 1 e antes de cada dose de metotrexato: queda superior a 15% dispensa nova dose; sem declínio após 4 doses: cirurgia
Tratamento local guiado por USTV (embrião vivo em localização não tubária; na cicatriz de cesárea, independentemente de embrião vivo) [1][2][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
1 mg/kg por injeção intragestacional (no interior do saco gestacional)
Administração: sedar a paciente; agulha calibre 20 ou 22 acoplada à sonda vaginal, guiada por USTV
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação, estas doses nem a via intragestacional; dose e técnica conforme a FEBRASGO [1]
β-hCG acima de 5.000 mUI/mL: complementar com esquema de múltiplas doses sistêmicas, iniciado no dia seguinte à punção
Durante e após o metotrexato
Efeitos adversos [1]:
Mais observados: distensão abdominal, sangramento genital e dor abdominal
Mais relatados: mucosite, irritação gástrica, náuseas, vômitos, tontura, neutropenia, alopecia reversível e pneumonite
Orientações à paciente:
Evitar relações sexuais até o β-hCG negativar [1]
Evitar exposição solar (dermatite por metotrexato), álcool, aspirina, AINEs, alimentos e vitaminas com ácido fólico [1][2]
Evitar exercício vigoroso, analgésicos narcóticos e alimentos formadores de gases, que podem mascarar sintomas de ruptura; limitar exames pélvicos e ultrassonográficos [3]
Evitar nova concepção até a resolução confirmada (β-hCG negativo) [3]
Contracepção eficaz após o metotrexato:
FEBRASGO: três meses [1]
ACOG: pelo menos um ciclo ovulatório; alguns especialistas recomendam três meses [3]
Bula do Fauldmetro®: pelo menos seis meses após a suspensão (categoria X de risco na gravidez)
O prazo da bula aprovada pela Anvisa é o mais conservador
Procurar emergência se a dor piorar ou houver sinais de ruptura [2]
Seguimento:
USTV seriada é desnecessária, exceto se houver suspeita de ruptura tubária [1]
Falha do metotrexato em paciente sem aspiração uterina prévia: considerar aspiração uterina antes de repetir o metotrexato ou operar [3]
Imunoglobulina anti-D
Paciente RhD-negativo não sensibilizada, independentemente do tratamento da gravidez ectópica [1][6]
Imunoglobulina humana anti-D (Rhophylac®) sol. inj. 150 mcg/mL (seringa preenchida 2 mL)
IM: 300 mcg (1.500 UI), dose única, o mais breve possível, até 72 horas após o evento de risco
IV: 300 mcg (1.500 UI), dose única, o mais breve possível, até 72 horas após o evento de risco
Administração:
IM: deixar atingir temperatura ambiente (25 °C) ou corporal; usar apenas solução límpida ou ligeiramente opalescente; uso único; observar a paciente por pelo menos 20 minutos
IV: injeção lenta; deixar atingir temperatura ambiente (25 °C) ou corporal; usar apenas solução límpida ou ligeiramente opalescente; uso único; observar a paciente por pelo menos 20 minutos
Considerações
Após 72 horas do evento, a dose não deve ser negada: administrar o quanto antes
IMC igual ou superior a 30: preferir a via IV (risco de falta de eficácia por via IM)
Distúrbio hemorrágico em que injeção IM é contraindicada: usar a via IV
💊 Como prescrever?
Dose única [1][3][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
50 mg/m² IM, dose única no dia 1
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
β-hCG nos dias 4 e 7: queda superior a 15% indica bom prognóstico, seguir com β-hCG semanal até negativar; queda inferior a 15% no dia 7: repetir o metotrexato (máximo de 2 doses); sem queda após a segunda dose: cirurgia
Elevação transitória do β-hCG nos dias 1 a 4 é esperada e não indica falha
Deve ser prescrito por médico especialista com experiência no manejo do metotrexato.
Duas doses [1][2][3][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
50 mg/m² IM no dia 1 e 50 mg/m² IM no dia 4
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
Dosar β-hCG nos dias 4 e 7: queda superior a 15% indica seguir com β-hCG semanal até negativar
Queda inferior a 15%: repetir 50 mg/m² IM no dia 7 e dosar β-hCG no dia 11; nova queda inferior a 15% entre os dias 7 e 11: repetir 50 mg/m² IM no dia 11 e dosar β-hCG no dia 14
Sem queda após 4 doses: cirurgia
Deve ser prescrito por médico especialista com experiência no manejo do metotrexato.
Múltiplas doses [1][3][4][5]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
1 mg/kg IM nos dias 1, 3, 5 e 7; máximo de 4 doses
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Folinato de cálcio (leucovorina; Fauldleuco®) sol. inj. 10 mg/mL (ampola 5 e 30 mL)
0,1 mg/kg IM nos dias 2, 4, 6 e 8
Administração: via IM; solução pronta para uso; não administrar por via intratecal
Folinato de cálcio comp. 15 mg
15 mg VO nos dias 2, 4, 6 e 8
Administração: via oral, sem orientações específicas
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
Usar folinato de cálcio injetável ou em comprimido, não ambos
Folinato de cálcio oral 15 mg: esquema da FEBRASGO [1]; o ACOG traz apenas a via IM [3]
Não confundir folinato de cálcio (ácido folínico) com ácido fólico, que deve ser evitado durante o tratamento
Dosar β-hCG no dia 1 e antes de cada dose de metotrexato: queda superior a 15% dispensa nova dose; sem declínio após 4 doses: cirurgia
Deve ser prescrito por médico especialista com experiência no manejo do metotrexato.
Tratamento local guiado por USTV (embrião vivo em localização não tubária; na cicatriz de cesárea, independentemente de embrião vivo) [1][2][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
1 mg/kg por injeção intragestacional (no interior do saco gestacional)
Administração: sedar a paciente; agulha calibre 20 ou 22 acoplada à sonda vaginal, guiada por USTV
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação, estas doses nem a via intragestacional; dose e técnica conforme a FEBRASGO [1]
β-hCG acima de 5.000 mUI/mL: complementar com esquema de múltiplas doses sistêmicas, iniciado no dia seguinte à punção
Deve ser prescrito por médico especialista com experiência no manejo do metotrexato.
Persistência trofoblástica após salpingostomia (β-hCG em ascensão) [1][3][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
50 mg/m² IM, dose única no dia 1
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
β-hCG nos dias 4 e 7: queda superior a 15% indica bom prognóstico, seguir com β-hCG semanal até negativar; queda inferior a 15% no dia 7: repetir o metotrexato (máximo de 2 doses); sem queda após a segunda dose: cirurgia
Elevação transitória do β-hCG nos dias 1 a 4 é esperada e não indica falha
Deve ser prescrito por médico especialista com experiência no manejo do metotrexato.
Paciente RhD-negativo não sensibilizada, independentemente do tratamento da gravidez ectópica [1][6]
Imunoglobulina humana anti-D (Rhophylac®) sol. inj. 150 mcg/mL (seringa preenchida 2 mL)
IM: 300 mcg (1.500 UI), dose única, o mais breve possível, até 72 horas após o evento de risco
IV: 300 mcg (1.500 UI), dose única, o mais breve possível, até 72 horas após o evento de risco
Administração:
IM: deixar atingir temperatura ambiente (25 °C) ou corporal; usar apenas solução límpida ou ligeiramente opalescente; uso único; observar a paciente por pelo menos 20 minutos
IV: injeção lenta; deixar atingir temperatura ambiente (25 °C) ou corporal; usar apenas solução límpida ou ligeiramente opalescente; uso único; observar a paciente por pelo menos 20 minutos
Considerações
Após 72 horas do evento, a dose não deve ser negada: administrar o quanto antes
IMC igual ou superior a 30: preferir a via IV (risco de falta de eficácia por via IM)
Distúrbio hemorrágico em que injeção IM é contraindicada: usar a via IV
Tratamento cirúrgico
A cirurgia é a conduta padrão; a operação clássica é a salpingectomia [1]
Cirurgia obrigatória [3]:
Instabilidade hemodinâmica
Dor por massa rota em curso ou sinais de sangramento intraperitoneal
Contraindicação absoluta ao metotrexato
Falha do tratamento clínico
Via:
Laparoscopia: via preferencial [1]
Laparotomia: instabilidade hemodinâmica, hemoperitônio volumoso ou visualização comprometida na laparoscopia [1][3]
Salpingectomia [1][2]:
Prole constituída
Lesão tubária irreparável ou ruptura
Sangramento persistente na tentativa de salpingostomia
Recidiva na mesma tuba
β-hCG elevado
Laqueadura prévia
Dano tubário grave ou sangramento importante do sítio cirúrgico [3]
Salpingostomia: desejo de preservar a fertilidade [1]
Risco de persistência de tecido trofoblástico: acompanhar o β-hCG no pós-operatório
β-hCG em declínio: apenas acompanhamento
β-hCG em ascensão: metotrexato em dose única
Suspeita de ressecção incompleta: considerar dose única profilática de metotrexato [3]
Desejo de fertilidade com lesão da tuba contralateral: preferir salpingostomia [3]
Persistência trofoblástica após salpingostomia (β-hCG em ascensão) [1][3][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
50 mg/m² IM, dose única no dia 1
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
β-hCG nos dias 4 e 7: queda superior a 15% indica bom prognóstico, seguir com β-hCG semanal até negativar; queda inferior a 15% no dia 7: repetir o metotrexato (máximo de 2 doses); sem queda após a segunda dose: cirurgia
Elevação transitória do β-hCG nos dias 1 a 4 é esperada e não indica falha
Gravidez intersticial com hemorragia grave ou sem desejo de preservar a fertilidade:
Considerar histerectomia [2]
Gravidez não tubária
Conduta sempre individualizada nas três localizações [1]
Intersticial e cervical
Embrião sem batimento cardíaco [1]:
β-hCG inferior a 5.000 mUI/mL:
Metotrexato em dose única
β-hCG superior a 5.000 mUI/mL:
Metotrexato em múltiplas doses
Embrião vivo:
Metotrexato local guiado por USTV; se β-hCG superior a 5.000 mUI/mL, complementar com múltiplas doses sistêmicas no dia seguinte à punção [1]
Cervical:
Tratamento conservador com preservação da fertilidade; sem esquema padronizado [2]
Cicatriz de cesárea
Os esquemas sistêmicos por β-hCG acima não se aplicam isoladamente [2]
FEBRASGO: inclui a cicatriz de cesárea nos esquemas por β-hCG [1]
Não recomendados [2]:
Conduta expectante, salvo óbito fetal confirmado
Curetagem isolada
Metotrexato sistêmico isolado
Tratamento medicamentoso:
Injeção local ou intragestacional de metotrexato, independentemente de embrião vivo, em geral associada ao metotrexato sistêmico [2]
Cirurgia:
Ressecção transvaginal ou laparoscópica [2]
Aspiração guiada por ultrassonografia pode complementar o tratamento medicamentoso [2]
Sem desejo de preservar a fertilidade: considerar histerectomia [2]
Seguimento: acompanhar β-hCG e tamanho da massa, que levam semanas para resolver [2]
Esquemas de metotrexato (usar conforme os grupos acima)
Dose única [1][3][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
50 mg/m² IM, dose única no dia 1
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
β-hCG nos dias 4 e 7: queda superior a 15% indica bom prognóstico, seguir com β-hCG semanal até negativar; queda inferior a 15% no dia 7: repetir o metotrexato (máximo de 2 doses); sem queda após a segunda dose: cirurgia
Elevação transitória do β-hCG nos dias 1 a 4 é esperada e não indica falha
Múltiplas doses [1][3][4][5]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
1 mg/kg IM nos dias 1, 3, 5 e 7; máximo de 4 doses
Administração: via IM; uso restrito a estabelecimentos de saúde; agente citotóxico, seguir os procedimentos para fármacos perigosos; solução deve estar límpida, amarela e sem partículas; no máximo 3 perfurações da tampa por frasco-ampola
Folinato de cálcio (leucovorina; Fauldleuco®) sol. inj. 10 mg/mL (ampola 5 e 30 mL)
0,1 mg/kg IM nos dias 2, 4, 6 e 8
Administração: via IM; solução pronta para uso; não administrar por via intratecal
Folinato de cálcio comp. 15 mg
15 mg VO nos dias 2, 4, 6 e 8
Administração: via oral, sem orientações específicas
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação nem estas doses; dose e técnica conforme as diretrizes [1][3]
Usar folinato de cálcio injetável ou em comprimido, não ambos
Folinato de cálcio oral 15 mg: esquema da FEBRASGO [1]; o ACOG traz apenas a via IM [3]
Não confundir folinato de cálcio (ácido folínico) com ácido fólico, que deve ser evitado durante o tratamento
Dosar β-hCG no dia 1 e antes de cada dose de metotrexato: queda superior a 15% dispensa nova dose; sem declínio após 4 doses: cirurgia
Tratamento local guiado por USTV (embrião vivo em localização não tubária; na cicatriz de cesárea, independentemente de embrião vivo) [1][2][4]
Metotrexato (Fauldmetro®) sol. inj. 25 mg/mL (frasco-ampola 2 mL)
1 mg/kg por injeção intragestacional (no interior do saco gestacional)
Administração: sedar a paciente; agulha calibre 20 ou 22 acoplada à sonda vaginal, guiada por USTV
Considerações
Uso off-label na gravidez ectópica: a bula do Fauldmetro® não traz essa indicação, estas doses nem a via intragestacional; dose e técnica conforme a FEBRASGO [1]
β-hCG acima de 5.000 mUI/mL: complementar com esquema de múltiplas doses sistêmicas, iniciado no dia seguinte à punção
Seguimento
β-hCG semanal até negativar após metotrexato, conduta expectante ou salpingostomia; sem queda, reavaliar (grau B) [1][3]
Com metotrexato, a negativação pode levar até 8 semanas [2]
Orientar retorno imediato se houver dor intensa, tontura, síncope ou sangramento [2]
Aconselhar sobre fatores de risco modificáveis (tabagismo, prevenção de ISTs) e sobre monitorização precoce em futuras gestações de alto risco, com β-hCG seriado e USTV [2]
Oferecer apoio emocional [2]
Referências
[1] FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Gravidez ectópica. São Paulo: FEBRASGO; 2021. (Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia, n. 15/Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/.
[2] VADAKEKUT, Elsa S.; GNUGNOLI, David M. Ectopic Pregnancy. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK539860/. Acesso em: 30 set. 2026.
[3] AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS. Tubal Ectopic Pregnancy. ACOG Practice Bulletin n. 193. Obstetrics & Gynecology, v. 131, n. 3, p. e91-e103, 2018. Disponível em: https://www.acog.org/.
[4] LIBBS FARMACÊUTICA. Fauldmetro® (metotrexato) solução injetável 25 mg/mL e 100 mg/mL: bula para profissionais de saúde. Bula aprovada pela Anvisa em 02/09/2026 (versão FMET_V.22-26). Disponível em: https://www.libbs.com.br/. Acesso em: 1 out. 2026.
[5] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico: Folinato de cálcio (leucovorina). Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/folinato-de-calcio-leucovorina. Acesso em: 30 set. 2026.
[6] CSL BEHRING. Rhophylac® (imunoglobulina humana anti-D): bula para profissionais de saúde, última alteração de texto de bula em 23/08/2024. Disponível em: https://labeling.cslbehring.com/pi/br/rhophylac/pt/rhophylac-bula-prof-saude.pdf. Acesso em: 30 set. 2026.
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