Hipoglicemia no Adulto
CID-10: E16.2 - Hipoglicemia não especificada
Introdução
Hipoglicemia é a glicemia baixa o bastante para causar sintomas e/ou sinais, inclusive disfunção cerebral [6].
Na pessoa com diabetes, uma glicemia abaixo de 70 mg/dL é clinicamente importante, com ou sem sintomas [4]; na pessoa sem diabetes, o diagnóstico exige a tríade de Whipple [6].
Na pessoa com diabetes, é o efeito adverso mais comum da insulina e da sulfonilureia [5]
Fora do tratamento do diabetes com insulina ou secretagogo, é rara [6]
Fármacos são a causa mais comum de hipoglicemia, inclusive no hospital, em geral em contexto de doença grave, como insuficiência renal [6]
Hipoglicemia grave e prolongada pode causar coma, hemiparesia, convulsões e déficit neurológico permanente [5]
🔑 Pontos-chave:
Em toda pessoa com diabetes com mal-estar agudo, sonolência, inconsciência, agressividade ou convulsão, a hipoglicemia deve ser excluída com glicemia capilar [5]
Se a medida da glicemia for difícil, como durante uma convulsão, o tratamento não deve ser adiado [5]
Hipoglicemia com alteração do nível de consciência ou sem via oral: correção IV; sem acesso venoso, glucagon IM ou SC [1]
Glucagon é menos eficaz na desnutrição, no etilismo, na hepatopatia crônica e na hipoglicemia por sulfonilureia: nesses casos, preferir glicose IV [5]
Hipoglicemia por sulfonilureia ou insulina de ação longa pode persistir por 24 a 36 horas após a última dose, sobretudo com disfunção renal [5]
Após a correção, não omitir a próxima dose de insulina; revisar a dose que estava ativa no momento do episódio [5]
Etilismo, hepatopatia ou desnutrição: tiamina antes da glicose [3][8], sem atrasar a correção da hipoglicemia [9]
Hipoglicemia nível 2 ou 3 exige reavaliação do tratamento do diabetes, com desintensificação ou troca de fármacos quando apropriado [4]
Sulfonilureia com fluoroquinolona, claritromicina, sulfametoxazol-trimetoprima, metronidazol ou fluconazol aumenta o risco de hipoglicemia [4]
Na pessoa sem diabetes, a hipoglicemia só é investigada com a tríade de Whipple documentada, com glicemia medida em laboratório, e não em glicosímetro [6]
🎯 Fluxograma de manejo
![O fluxograma organiza o tratamento da hipoglicemia no adulto. Diante da suspeita de hipoglicemia, avaliar ABCDE e glicemia capilar, sem atrasar o tratamento se a medida for difícil; suspender a insulina IV, se estiver em curso; na pessoa sem diabetes conhecido, se possível, colher sangue antes de corrigir (conferir em Esquema de tratamento). A primeira pergunta é se a glicemia capilar está abaixo de 70 mg/dL. Se não, com sintomas e glicemia igual ou acima de 70 mg/dL, oferecer lanche com carboidrato e investigar outra causa. Se sim, pergunta-se se o paciente está consciente, orientado e capaz de deglutir. Se sim, carboidrato de ação rápida VO (15 a 30 g de glicose; conferir em Paciente consciente e capaz de deglutir). Se não, pergunta-se se há acesso venoso ou IO disponível. Com acesso, pergunta-se se há etilismo, hepatopatia ou desnutrição: se sim, tiamina IM (100 mg) antes da glicose, sem atrasar a glicose, se ainda não aplicada (conferir em Risco de encefalopatia de Wernicke), seguida de glicose 50% IV ou IO (10 a 30 g, igual a 20 a 60 mL, em bolus lento); se não, glicose 50% IV ou IO diretamente (conferir em Paciente sem via oral segura). Sem acesso, pergunta-se se o glucagon já foi aplicado. Se não, glucagon IM ou SC (1 mg, dose única), mantendo a tentativa de acesso venoso ou IO; o glucagon é pouco eficaz no etilismo, na hepatopatia, na desnutrição e com sulfonilureia, situações em que se prioriza o acesso venoso (conferir em Paciente sem via oral segura). Se sim, não repetir o glucagon, manter a tentativa de acesso venoso ou IO e voltar à pergunta sobre o acesso venoso ou IO. Após o carboidrato VO, a glicose IV ou IO ou o glucagon, pergunta-se se a glicemia está acima de 100 mg/dL na reavaliação em 15 minutos. Se não, pergunta-se se o paciente ainda está consciente, orientado e capaz de deglutir, com menos de 3 ciclos de carboidrato VO: se sim, repetir o carboidrato de ação rápida VO; se não, ir para a pergunta sobre o acesso venoso ou IO. Se a glicemia está acima de 100 mg/dL: carboidrato de ação prolongada ou refeição; não omitir a próxima insulina e revisar a dose; glicemia capilar por 24 a 48 horas; com sulfonilureia ou insulina de ação longa, risco por até 24 a 36 horas; em jejum, glicose 10% IV (100 mL/h) (conferir em Após a correção). Na pessoa sem diabetes, investigar a causa (conferir em Hipoglicemia em pessoa sem diabetes). Um ícone de alerta marca, após o nome, o glucagon; um quadro na parte inferior do fluxograma explica o ícone: antes de prescrever, confira cuidados e contraindicações referentes a esse medicamento. Abreviações: ABCDE, via aérea, respiração, circulação, disfunção neurológica e exposição; IM, intramuscular; IO, intraósseo; IV, intravenoso; SC, subcutâneo; VO, via oral. Fonte: referências [1], [3], [5], [9] e [14] do artigo.](https://assets.gpmed.app/treatments/1792517672038_53cf43f8.png)
Classificação
Nível | ADA [4] | SBD, paciente hospitalizado [1] | APS, Ministério da Saúde [2] |
|---|---|---|---|
Nível 1 | Glicemia < 70 mg/dL e ≥ 54 mg/dL | Glicemia de 54 a 70 mg/dL | Glicemia ≤ 70 mg/dL: alerta de hipoglicemia |
Nível 2 | Glicemia < 54 mg/dL | Glicemia < 54 mg/dL | Glicemia < 54 mg/dL: hipoglicemia clinicamente significativa |
Nível 3 | Evento grave com alteração do estado mental e/ou físico que exige assistência de terceiros, independentemente da glicemia | Glicemia < 70 mg/dL com alteração do nível de consciência | Sem limiar de glicemia: comprometimento cognitivo grave que exige assistência externa |
Fonte: [1][2][4]
Limiar de tratamento:
ADA, SBD e APS: glicemia < 70 mg/dL [1][2][4]
JBDS, paciente hospitalizado: glicemia < 72 mg/dL (4,0 mmol/L), com ou sem sintomas [5]
SAMU 192: glicemia capilar < 60 mg/dL com sinais e sintomas de hipoglicemia [3]
Sintomas com glicemia acima do limiar: oferecer lanche com carboidrato para alívio dos sintomas [5]
Hipoglicemia iminente, paciente hospitalizado em uso de insulina e/ou secretagogo [5]:
Glicemia de 72 a 108 mg/dL (4,0 a 6,0 mmol/L), sobretudo se repetida
Considerar intervir com glicemia < 108 mg/dL: carboidrato VO ou IV conforme o caso, e revisão do tratamento do diabetes
Individualizar: usuários de bomba de insulina ou de sensor podem ter glicemias nessa faixa como habituais em jejum
Nível 2 sem sintomas adrenérgicos ou neuroglicopênicos sugere hipoglicemia sem percepção: investigar e revisar o tratamento [4]
Nível 2 recorrente e/ou nível 3: urgência clínica, com ajuste do tratamento, educação em autocuidado e uso de tecnologia para prevenção [4]
Quadro clínico
Autonômicos | Neuroglicopênicos | Mal-estar geral |
|---|---|---|
Sudorese | Confusão | Cefaleia |
Palpitações | Sonolência | Náuseas |
Tremor | Comportamento estranho | |
Fome | Dificuldade de fala | |
Incoordenação |
Fonte: [5]
Outros sinais e sintomas [2][4]:
Irritabilidade, taquicardia
Cansaço, tontura, visão turva, dormência nos lábios e na língua
Mudança de humor e de comportamento
Convulsões e coma
Nível 2 é o limiar em que começam os sintomas neuroglicopênicos [4]
Hipoglicemia sem percepção [4][5]:
Sintomas de alerta diminuídos, alterados ou ausentes, com risco muito maior de nível 3
Mais comum com diabetes de longa duração, hipoglicemia recorrente e no diabetes tipo 1
Confusão pode ser o primeiro sinal
Rastreio: perguntar "Você sempre percebe quando a glicose está baixa?"; resposta "não" pede avaliação detalhada [4]
Armadilhas:
Idoso frágil, sobretudo com comprometimento cognitivo: quadro sutil, confundido com outros problemas [5]
Suspeita de intoxicação alcoólica: confirmar a hipoglicemia com glicemia [5]
Na pessoa com diabetes em uso de insulina ou secretagogo, se não for prático confirmar a glicemia, tratar o episódio como hipoglicemia [6]
Leitura baixa de sensor em pessoa de baixo risco ou sem sintomas: investigar artefato, como compressão do sensor durante o sono [4]
Fatores de risco e causas
Em risco de hipoglicemia: pessoas em uso de insulina, sulfonilureia ou glinida; hipoglicemia clinicamente significativa é rara com as demais classes [4]
Metformina, pioglitazona, inibidores da DPP-4, acarbose, inibidores do SGLT2 e agonistas do GLP-1 sem insulina ou secretagogo: improvável causar hipoglicemia [5]
Risco maior: insulinoterapia intensiva, depois insulina basal, depois sulfonilureia ou glinida; insulina associada a sulfonilureia aumenta ainda mais o risco [4]
Fatores clínicos e biológicos | Fatores sociais, culturais e econômicos | |
|---|---|---|
Fatores maiores | Hipoglicemia nível 2 ou 3 nos últimos 3 a 6 meses; insulinoterapia intensiva; hipoglicemia sem percepção; falência renal; comprometimento cognitivo ou demência; cirurgia metabólica prévia | Insegurança alimentar; baixa renda; insegurança habitacional; jejum por motivo religioso ou cultural; cobertura insuficiente de saúde |
Outros fatores | Vários episódios recentes de nível 1; insulina basal; idade ≥ 75 anos; sexo feminino; alta variabilidade glicêmica; polifarmácia; doença cardiovascular; doença renal crônica (TFGe < 60 mL/min/1,73 m² ou albuminúria); neuropatia; retinopatia; transtorno depressivo maior; doença mental grave; gastroparesia; uso de betabloqueador | Baixo letramento em saúde; transtorno por uso de álcool ou outras substâncias |
Fonte: [4]
Alto risco: um ou mais fatores maiores, ou vários outros fatores, a critério clínico [4]
Causas frequentes [2]:
Alimentação insuficiente, atraso ou omissão de refeição
Atividade física em excesso ou não programada
Erro de medicação antidiabética (sulfonilureia ou insulina)
Causas no paciente hospitalizado [5]:
Erros com insulina:
Doses repetidas de insulina rápida sem intervalo suficiente entre elas
Troca de nome, concentração ou tipo de insulina; abreviação "U" lida como zero (escrever "UNIDADES")
Seringa de 100 unidades/mL para aspirar de caneta com concentração maior
Infusão de insulina para hipercalemia confundida com a de controle glicêmico
Reconciliação incorreta da medicação na admissão
Ingestão de carboidrato:
Refeição omitida ou atrasada, menor quantidade de carboidrato, perda do lanche noturno
Jejum prolongado, vômitos, apetite reduzido
Omissão de glicose durante infusão de insulina IV
Fatores clínicos:
Suspensão abrupta de corticoide de uso prolongado; recuperação de doença aguda; mobilização após a doença
Insulina ou antidiabético oral no horário errado em relação à refeição ou à dieta enteral
Medicação prescrita no hospital que não era usada em casa
Monitorização insuficiente durante insulina IV
Medicamentos que podem precipitar hipoglicemia com antidiabéticos [5]:
Varfarina, quinina, salicilatos, fibratos, sulfonamidas (inclusive sulfametoxazol-trimetoprima), linezolida, IMAO, AINE, probenecida, análogos da somatostatina, ISRS
Não suspender por conta própria: discutir com a equipe ou com o farmacêutico
Interações com sulfonilureia [4]:
Fluoroquinolonas, claritromicina, sulfametoxazol-trimetoprima, metronidazol e fluconazol podem aumentar muito o efeito da sulfonilureia
Considerar reduzir ou suspender temporariamente a sulfonilureia durante o uso desses antimicrobianos
Doenças endócrinas com resposta contrarreguladora diminuída: doença de Addison, deficiência de GH, hipotireoidismo, hipopituitarismo [5]
Doença aguda, trauma e cirurgia aumentam o risco de hipoglicemia e de hiperglicemia [4]; crise hiperglicêmica: conferir o protocolo Cetoacidose Diabética e Estado Hiperosmolar
Esquema de tratamento
Avaliação inicial:
Avaliar ABCDE, com glicemia capilar e escala de coma de Glasgow [2][5]
Confirmar com glicemia sempre que seguro; não atrasar o tratamento se a medida for difícil [5]
Verificar pressão arterial, frequência cardíaca e saturação de oxigênio [2]
Perguntar a glicemia habitual e as situações desencadeantes: alimentação insuficiente, atividade física, erro de medicação [2]
Insulina IV em curso: suspender imediatamente; reiniciar após a correção, com revisão da dose [5]
Sem diabetes conhecido: se possível, colher amostra antes de corrigir, sem atrasar o tratamento. Conferir em Hipoglicemia em pessoa sem diabetes [6]
Tratamento conforme o cenário:
Consciente, orientado e capaz de deglutir: carboidrato VO. Conferir em Paciente consciente e capaz de deglutir
Confuso, não cooperativo, inconsciente, em convulsão, muito agressivo ou em jejum: glicose IV ou glucagon. Conferir em Paciente sem via oral segura
Nutrição enteral ou parenteral: conferir em Paciente em nutrição enteral ou parenteral
Etilismo, hepatopatia ou desnutrição: tiamina. Conferir em Risco de encefalopatia de Wernicke
Depois da correção: conferir em Após a correção
O que não fazer:
Não usar alimento ou bebida rico em gordura e/ou proteína no tratamento inicial [4]
Em uso de acarbose, não usar sacarose (açúcar dissolvido em água): tratar apenas com glicose [4][5]
Nunca administrar insulina a quem está em hipoglicemia [4]
Não omitir a próxima dose de insulina e não iniciar insulina IV para "estabilizar" a glicemia [5]
Não tratar picos isolados de hiperglicemia após o episódio com doses avulsas de insulina rápida [5]
Paciente consciente e capaz de deglutir
Carboidrato de ação rápida VO, enteral ou por gastrostomia:
SBD, paciente hospitalizado, níveis 1 e 2 [1]:
15 a 30 g de glicose (0,3 g/kg)
Reavaliar a glicemia a cada 15 minutos e repetir até glicemia acima de 100 mg/dL
ADA [4]:
15 g de carboidrato; glicose pura é o tratamento preferido, mas qualquer carboidrato com glicose pode ser usado
Reavaliar em 15 minutos e repetir se a hipoglicemia persistir
Sistema automatizado de infusão de insulina: em geral 5 a 10 g, salvo hipoglicemia associada a exercício ou excesso de bolus
JBDS, paciente hospitalizado [5]:
15 a 20 g de carboidrato de ação rápida
Reavaliar em 10 a 15 minutos e repetir até 3 vezes no total
Opções de carboidrato de ação rápida [5]:
150 a 200 mL de suco de fruta puro, como suco de laranja; evitar em dieta pobre em potássio, como na doença renal crônica
3 a 4 colheres de chá cheias de açúcar dissolvidas em água; ineficaz em uso de acarbose
Sem resposta após 30 a 45 minutos ou 3 ciclos: chamar o médico e considerar glicose IV ou glucagon IM. Conferir em Paciente sem via oral segura [5]
Jejum para procedimento ou cirurgia: considerar glicose IV, para não adiar o procedimento [5]
Glicemia corrigida: conferir em Após a correção
Paciente sem via oral segura
Inclui qualquer um: confusão ou falta de cooperação; inconsciência ou convulsão; agressividade intensa; jejum; impossibilidade de via oral, enteral ou gastrostomia [1][5]
Medidas iniciais:
ABCDE e pedido imediato de ajuda médica [5]
Oxigênio:
JBDS: oferecer oxigênio na avaliação da via aérea [5]
SAMU 192: O₂ por máscara não reinalante, 10 a 15 L/min, se saturação de pulso < 94% [3]
Acesso venoso periférico [3]
Insulina IV em curso: suspender imediatamente [5]
Conduta por fonte:
SBD, paciente hospitalizado: glicemia < 70 mg/dL com alteração do nível de consciência (nível 3) e/ou impossibilidade de via oral, enteral ou gastrostomia: correção IV; sem acesso venoso, glucagon IM ou SC [1]
JBDS, paciente hospitalizado confuso ou não cooperativo, capaz de deglutir [5]:
Se capaz e cooperativo: tratar como em Paciente consciente e capaz de deglutir
Se não: 2 tubos de gel de glicose 40% entre os dentes e a gengiva ou, se ineficaz, glucagon 1 mg IM
Reavaliar em 10 a 15 minutos; repetir até 3 vezes no total, com glucagon IM uma única vez
Sem resposta após 30 a 45 minutos ou 3 ciclos: glicose IV
Etilismo, hepatopatia ou desnutrição: tiamina antes da glicose [3][13]; conferir o protocolo Intoxicação e Abstinência alcoólica
Tiamina [3][13]
Tiamina (Acesyl®) sol. inj. 100 mg/mL (ampola 1 mL)
100 mg IM antes da glicose
Administração: IM, lentamente
Considerações
Não atrasar a glicose no paciente hipoglicêmico [9]
Contraindicada na hipersensibilidade à tiamina; choque anafilático é possível após administração parenteral, sobretudo IV [13]
Esquemas de prevenção e tratamento da encefalopatia de Wernicke: conferir em Risco de encefalopatia de Wernicke
Glicose IV:
Glicose hipertônica [1][3][6][11]
Glicose 50% sol. inj. 500 mg/mL (ampola 20 mL)
SBD, paciente hospitalizado:
10 a 30 g IV em bolus lento, calculados por (100 menos a glicemia capilar) x 0,2
Alternativa: 10 g no nível 1; 20 a 30 g nos níveis 2 e 3
Cada 10 mL de glicose 50% contém 5 g
SAMU 192:
30 a 50 mL IV ou IO; repetir se os sintomas persistirem
Endocrine Society:
25 g IV como dose inicial
Administração: em adultos, pode ser feita pura em veia periférica; não administrar por via IM ou SC
Glicose 25% sol. inj. 250 mg/mL (ampola 10 mL)
SBD, paciente hospitalizado:
10 a 30 g IV em bolus lento, calculados por (100 menos a glicemia capilar) x 0,2
Alternativa: 10 g no nível 1; 20 a 30 g nos níveis 2 e 3
Cada 10 mL de glicose 25% contém 2,5 g
Administração: via IV; não administrar por via IM ou SC
Considerações
SBD: reservar a via IV para hipoglicemia grave e/ou impossibilidade de via oral ou enteral, para evitar supercorreção e tromboflebite [1]
Reavaliar a glicemia a cada 15 minutos e repetir até glicemia acima de 100 mg/dL [1]
Resposta transitória: em geral, é preciso infusão de glicose a seguir e alimentação VO assim que for seguro [6]
Solução hipertônica: risco de extravasamento, flebite e necrose de pele [5]
Glicose 10% [5][12]
Glicose 10% sol. inj. 100 mg/mL (frasco 250 mL e 500 mL)
JBDS, paciente hospitalizado:
200 mL IV em 15 minutos (800 mL/h)
Reavaliar em 10 minutos; se glicemia < 72 mg/dL, repetir
Administração: exclusivamente IV, em veia calibrosa, com bomba de infusão se disponível, sem atrasar a infusão se não houver bomba; com frasco de volume maior que o prescrito, programar o volume para não infundir o frasco inteiro
Considerações
Menor glicemia após o tratamento que a glicose 50%, com menos risco de extravasamento [5]
Insuficiência renal e/ou cardíaca: usar o menor volume possível [5]
Sem acesso venoso: glucagon, mantendo a tentativa de acesso venoso [1][5]
Glucagon [1][5][11][14]
Glucagon ⚠ (GlucaGen HypoKit®) pó liofilizado para solução injetável 1 mg (frasco-ampola com seringa de diluente)
SBD:
1 mg IM ou SC
JBDS:
1 mg IM, dose única
Administração: injetar todo o diluente no frasco-ampola; sem retirar a agulha, agitar suavemente até dissolução completa e solução límpida; aspirar toda a solução; usar imediatamente após a reconstituição; não administrar por infusão IV; deitar de lado o paciente inconsciente
Considerações
Contraindicado com qualquer um: feocromocitoma; hipersensibilidade ao glucagon ou aos excipientes [14]
Insulinoma: usar com cautela [14]
Pouco ou nenhum efeito com glicogênio hepático esgotado: jejum prolongado, desnutrição, hipoglicemia crônica, hipoglicemia por álcool, hepatopatia crônica [5][14]; nesses casos, glicose IV é a opção preferida [5]
Menos eficaz na hipoglicemia por sulfonilureia e na hipoglicemia repetida [5]
Efeito em geral em 10 minutos [14], podendo levar até 15 minutos [5]; sem resposta em 10 minutos, glicose IV [14]
Não repetir: a resposta a uma segunda dose é rara; manter a tentativa de acesso venoso [5]
Interações [14]:
Betabloqueador: aumento transitório da frequência cardíaca e da pressão arterial, que pode exigir tratamento na doença arterial coronariana
Varfarina: aumento do efeito anticoagulante
Indometacina: perda do efeito hiperglicemiante ou até hipoglicemia paradoxal
IM: cautela em uso de anticoagulante, pelo risco de sangramento [5]
Pode causar náuseas [5] e vômitos [6]
Após a resposta: carboidrato VO [14]; 40 g de carboidrato de ação prolongada [5]
Paciente em jejum [5]:
Tratar com glicose IV, como acima
Insulina IV em escala variável: ajustar conforme o esquema prescrito e reiniciar, em geral, com glicemia acima de 72 mg/dL
Após a recuperação: glicose 10% IV a 100 mL/h até sair do jejum ou ser reavaliado pela equipe médica. Conferir em Após a correção
Encaminhamento pré-hospitalar: contato com a Regulação Médica para definição do destino [3]
Paciente em nutrição enteral ou parenteral
Fatores de risco nesse cenário [5]:
Sonda obstruída ou deslocada; mudança, suspensão ou intolerância à dieta; vômitos
Suspensão da nutrição parenteral ou da glicose IV
Antidiabético em horário inadequado em relação à dieta
Redução ou suspensão de corticoide
Piora da função renal; disfunção hepática grave
Tratamento pela sonda [5]:
15 a 20 g de carboidrato de ação rápida, seguidos de lavagem da sonda com 40 a 50 mL de água
Opções: 150 a 200 mL de suco de laranja; reiniciar a dieta de forma a ofertar rapidamente 15 a 20 g de carboidrato
Gel de glicose 40%: não usar em sonda nasogástrica de calibre fino
Reavaliar em 10 a 15 minutos; repetir até 3 vezes no total
Sem resposta após 30 a 45 minutos ou 3 ciclos: glicose IV. Conferir em Paciente sem via oral segura
Nutrição parenteral [5]:
Nunca administrar o tratamento pela linha da nutrição parenteral: usar via oral ou IV, conforme o caso
Após a correção, encaminhar à equipe de nutrição e/ou de diabetes
Glicemia corrigida [5]:
Reiniciar a dieta; se em dieta em bolus, oferecer bolus adicional com 20 g de carboidrato
Glicose 10% IV a 100 mL/h, com volume conforme a situação clínica. Conferir em Após a correção
Após a correção
Carboidrato de ação prolongada, assim que recuperado e com glicemia acima de 72 mg/dL [5]:
20 g; 40 g se recebeu glucagon
Opções: 2 biscoitos, 1 fatia de pão, 200 a 300 mL de leite (não vegetal) ou a refeição, se for o horário
Usuário de bomba de insulina que faz autogestão pode não precisar, ajustando a bomba
A resposta à glicose VO é transitória, em geral menor que 2 horas na hipoglicemia por insulina: oferecer lanche ou refeição logo após a correção [6]
Insulina [5]:
Não omitir a próxima dose: ela raramente é a dose que estava ativa no momento do episódio
Revisar e considerar reduzir a dose de insulina ou de sulfonilureia que estava ativa no momento do episódio
Insulina IV prévia: glicemia a cada 15 minutos até acima de 72 mg/dL; reiniciar após revisão da dose; considerar glicose 10% IV a 100 mL/h concomitante
Em caso de dúvida, discutir com a equipe de diabetes; pode ser seguro omitir o bolus prandial se o paciente recusou a refeição e recebeu a insulina basal
Hipoglicemia prolongada [5][6]:
Sulfonilureia ou insulina de ação longa: risco de nova hipoglicemia por até 24 a 36 horas após a última dose, sobretudo com disfunção renal [5]
Pode ser necessária infusão contínua de glicose [5]
Superdosagem de sulfonilureia: pode exigir internação para tratamento e observação prolongados [6]
Glicose de manutenção, paciente em jejum ou em nutrição enteral [5][12]
Glicose 10% sol. inj. 100 mg/mL (frasco 250 mL e 500 mL)
100 mL/h IV até sair do jejum ou ser reavaliado pela equipe médica
Administração: exclusivamente IV, em veia calibrosa ou acesso central; com infusão periférica por mais de 24 horas, trocar o local de punção; usar bomba de infusão
Considerações
Insuficiência renal e/ou cardíaca: usar o menor volume possível [5]
Monitorização [5]:
Glicemia capilar regular por no mínimo 24 a 48 horas; orientar a continuar em casa, se houver alta
Reavaliação do tratamento:
Um ou mais episódios de nível 2 ou 3: reavaliar o tratamento, com desintensificação ou troca de fármacos quando apropriado [4]; no DM2, conferir o protocolo Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2)
Hipoglicemia grave, salvo causa facilmente corrigível: revisão completa do esquema e das metas glicêmicas [6]
Identificar os fatores de risco e a causa do episódio [5]
Registro e comunicação [5]:
Registrar o episódio no prontuário
Educação sobre hipoglicemia ou encaminhamento à equipe de diabetes
Mudança relevante do tratamento na alta: comunicar à atenção primária
Risco de encefalopatia de Wernicke
Abstinência e intoxicação alcoólica: conferir o protocolo Intoxicação e Abstinência alcoólica
Quem tem risco:
SAMU 192: etilista, hepatopata ou desnutrido [3]
EFNS: qualquer condição que possa levar à deficiência de tiamina, como câncer, cirurgia gastrointestinal, hiperêmese gravídica, jejum ou inanição, doença gastrointestinal, AIDS, desnutrição, diálise, nutrição parenteral e vômitos [8]
Diagnóstico clínico, no etilista: dois de quatro [8]:
Deficiência dietética
Sinais oculares: oftalmoplegia, nistagmo, paralisia do olhar
Disfunção cerebelar: ataxia, instabilidade
Alteração do estado mental ou comprometimento leve da memória
Os mesmos critérios são razoáveis no não etilista [8]
A tríade clássica (sinais oculares, disfunção cerebelar e confusão) está presente em poucos casos [8]
Tiamina e glicose:
SAMU 192: tiamina 100 mg IM antes da glicose [3]; a bula também orienta tiamina antes da glicose [13]
EFNS: tiamina antes de qualquer carboidrato [8]
Revisão de Schabelman e Kuo: não atrasar a glicose no paciente hipoglicêmico; tiamina logo após ou junto com a normalização da glicemia [9]
Suspeita de encefalopatia de Wernicke: colher sangue para dosagem de tiamina imediatamente antes da administração [8]
Esquemas:
Tiamina [3][8][13]
Tiamina (Acesyl®) sol. inj. 100 mg/mL (ampola 1 mL)
Prevenção, paciente de risco com hipoglicemia:
SAMU 192:
100 mg IM antes da glicose
EFNS:
200 mg por via parenteral antes de iniciar carboidrato
Tratamento da encefalopatia de Wernicke suspeita ou manifesta, EFNS:
200 mg IV 3 vezes ao dia, até não haver mais melhora dos sinais e sintomas
Administração:
IM: lentamente
IV: diluir em 100 mL de SF 0,9% ou SG 5% e infundir em 30 minutos, nunca em menos de 10 minutos
Considerações
Via IV preferível à IM no tratamento [8]
Segurança muito boa por qualquer via; não atrasar a tiamina por falta de estrutura de ressuscitação [8]
Contraindicada na hipersensibilidade à tiamina; choque anafilático é possível após administração parenteral, sobretudo IV [13]
Tiamina VO é ineficaz para tratar a encefalopatia de Wernicke [8]
Iniciar dieta normal logo após a tiamina [8]
Dose, via e duração com nível de recomendação C na EFNS [8]
💊 Como prescrever?
Glicose hipertônica [1][3]:
Glicose 50% sol. inj. 500 mg/mL (ampola 20 mL)
SBD, paciente hospitalizado:
10 a 30 g IV em bolus lento, calculados por (100 menos a glicemia capilar) x 0,2
Alternativa: 10 g no nível 1; 20 a 30 g nos níveis 2 e 3
Cada 10 mL de glicose 50% contém 5 g
SAMU 192:
30 a 50 mL IV ou IO; repetir se os sintomas persistirem
Endocrine Society:
25 g IV como dose inicial
Administração: em adultos, pode ser feita pura em veia periférica; não administrar por via IM ou SC
Glicose 25% sol. inj. 250 mg/mL (ampola 10 mL)
SBD, paciente hospitalizado:
10 a 30 g IV em bolus lento, calculados por (100 menos a glicemia capilar) x 0,2
Alternativa: 10 g no nível 1; 20 a 30 g nos níveis 2 e 3
Cada 10 mL de glicose 25% contém 2,5 g
Administração: via IV; não administrar por via IM ou SC
Glicose 10% [5][12]:
Glicose 10% sol. inj. 100 mg/mL (frasco 250 mL e 500 mL)
JBDS, paciente hospitalizado:
200 mL IV em 15 minutos (800 mL/h)
Reavaliar em 10 minutos; se glicemia < 72 mg/dL, repetir
Administração: exclusivamente IV, em veia calibrosa, com bomba de infusão se disponível, sem atrasar a infusão se não houver bomba; com frasco de volume maior que o prescrito, programar o volume para não infundir o frasco inteiro
Glicose de manutenção, paciente em jejum ou em nutrição enteral [5][12]:
Glicose 10% sol. inj. 100 mg/mL (frasco 250 mL e 500 mL)
100 mL/h IV até sair do jejum ou ser reavaliado pela equipe médica
Administração: exclusivamente IV, em veia calibrosa ou acesso central; com infusão periférica por mais de 24 horas, trocar o local de punção; usar bomba de infusão
Glucagon [1][5]:
Glucagon ⚠ (GlucaGen HypoKit®) pó liofilizado para solução injetável 1 mg (frasco-ampola com seringa de diluente)
SBD:
1 mg IM ou SC
JBDS:
1 mg IM, dose única
Administração: injetar todo o diluente no frasco-ampola; sem retirar a agulha, agitar suavemente até dissolução completa e solução límpida; aspirar toda a solução; usar imediatamente após a reconstituição; não administrar por infusão IV; deitar de lado o paciente inconsciente
Tiamina, antes da glicose no paciente de risco [3][13]:
Tiamina (Acesyl®) sol. inj. 100 mg/mL (ampola 1 mL)
100 mg IM antes da glicose
Administração: IM, lentamente
Tiamina, esquemas da encefalopatia de Wernicke [3][8]:
Tiamina (Acesyl®) sol. inj. 100 mg/mL (ampola 1 mL)
Prevenção, paciente de risco com hipoglicemia:
SAMU 192:
100 mg IM antes da glicose
EFNS:
200 mg por via parenteral antes de iniciar carboidrato
Tratamento da encefalopatia de Wernicke suspeita ou manifesta, EFNS:
200 mg IV 3 vezes ao dia, até não haver mais melhora dos sinais e sintomas
Administração:
IM: lentamente
IV: diluir em 100 mL de SF 0,9% ou SG 5% e infundir em 30 minutos, nunca em menos de 10 minutos
Glucagon na investigação da hipoglicemia sem diabetes [6][14]:
Glucagon ⚠ (GlucaGen HypoKit®) pó liofilizado para solução injetável 1 mg (frasco-ampola com seringa de diluente)
1 mg IV ao fim do episódio ou do teste; medir a glicemia em 10, 20 e 30 minutos
Administração: injetar todo o diluente no frasco-ampola; sem retirar a agulha, agitar suavemente até dissolução completa e solução límpida; aspirar toda a solução; usar imediatamente após a reconstituição; injeção IV, não infusão
Hipoglicemia em pessoa sem diabetes
Tríade de Whipple, necessária para avaliar e tratar como distúrbio hipoglicêmico [6]: todos:
Sintomas e/ou sinais compatíveis com hipoglicemia
Glicemia plasmática baixa
Resolução dos sintomas ou sinais com a elevação da glicemia
Medida da glicemia [6][7]:
Glicemia plasmática por método laboratorial; não usar glicosímetro nem sensor para o diagnóstico
Glicemia claramente normal (acima de 70 mg/dL) durante um episódio sintomático indica que os sintomas não se devem a hipoglicemia [6]
Glicemia baixa sem sintomas: considerar pseudo-hipoglicemia por glicólise na amostra (tubo sem inibidor de glicólise, separação tardia, eritrocitose, leucocitose ou trombocitose) [6]
Sintomas costumam surgir com glicemia em torno de 55 mg/dL [6]
Primeiro passo: história, exame físico e exames disponíveis, buscando fármacos, doença grave, deficiência hormonal e tumor não ilhota [6]
Paciente | Causas |
|---|---|
Doente ou em uso de medicação | Fármacos: insulina ou secretagogo, álcool, outros (ver abaixo) |
Doenças graves: insuficiência hepática, renal ou cardíaca; sepse (inclusive malária); inanição | |
Deficiência hormonal: cortisol; glucagon e epinefrina (no diabetes com deficiência de insulina) | |
Tumor não ilhota | |
Aparentemente saudável | Hiperinsulinismo endógeno: insulinoma; distúrbios funcionais de célula β (nesidioblastose); hipoglicemia pancreatogênica não insulinoma; hipoglicemia após bypass gástrico; hipoglicemia autoimune por insulina (anticorpo anti-insulina ou anti-receptor de insulina); secretagogo de insulina |
Hipoglicemia acidental, sub-reptícia ou maliciosa |
Fonte: [6]
Fármacos além de antidiabéticos e álcool associados a hipoglicemia [6]:
Evidência moderada: cibenzolina, gatifloxacino, pentamidina, quinina, indometacina, glucagon (durante endoscopia)
Evidência baixa: cloroquinoxalina sulfonamida, artesunato, artemisinina, arteméter, IGF-I, lítio, propoxifeno
Evidência muito baixa, com mais de 25 casos: IECA, bloqueadores do receptor de angiotensina, betabloqueadores, levofloxacino, mifepristona, disopiramida, sulfametoxazol-trimetoprima, heparina, 6-mercaptopurina
Conduta: suspender o fármaco e tratamento de suporte [7]
Álcool: inibe a gliconeogênese; manejo de suporte, conforme a gravidade e a duração [7]; conferir o protocolo Intoxicação e Abstinência alcoólica
Investigação: conferir em Investigação laboratorial na pessoa sem diabetes
Tratamento dirigido à causa [6]:
Fármaco: suspender ou reduzir a dose
Doença grave: tratar a doença de base
Insuficiência adrenal: repor cortisol
Tumor não ilhota: redução cirúrgica, radioterápica ou quimioterápica da massa; glicocorticoide, GH ou octreotida podem aliviar a hipoglicemia
Insulinoma benigno: ressecção cirúrgica, curativa
Insulinoma irressecável ou distúrbio de célula β sem tumor: diazóxido e/ou octreotida; pancreatectomia parcial pode ser necessária
Hipoglicemia pancreatogênica não insulinoma ou após bypass gástrico: refeições frequentes, inibidor da α-glicosidase, diazóxido ou octreotida; pancreatectomia parcial com frequência melhora
Medicamentos do tratamento etiológico: conduzidos pelo especialista; dose não declarada na fonte [6]
Investigação laboratorial na pessoa sem diabetes
Paciente aparentemente saudável [6]:
Durante episódio espontâneo, antes de corrigir: glicemia plasmática, insulina, peptídeo C, pró-insulina, β-hidroxibutirato e pesquisa de hipoglicemiantes orais
Em seguida, corrigir com glucagon 1 mg IV e medir a resposta da glicemia
Anticorpo anti-insulina: não precisa ser colhido durante a hipoglicemia
Sem episódio espontâneo: reproduzir as circunstâncias do sintoma
Suspeita de hipoglicemia de jejum: jejum supervisionado de até 72 horas
Suspeita de hipoglicemia pós-prandial: teste de refeição mista, ao longo de 5 horas
Nunca usar teste oral de tolerância à glicose para investigar hipoglicemia pós-prandial
Hiperinsulinismo endógeno documentado, pesquisa de hipoglicemiante oral negativa e sem anticorpo anti-insulina: localizar insulinoma (TC, RM, ultrassonografia transabdominal e endoscópica; se necessário, estímulo arterial seletivo com cálcio)
Glucagon na investigação [6][14]
Glucagon ⚠ (GlucaGen HypoKit®) pó liofilizado para solução injetável 1 mg (frasco-ampola com seringa de diluente)
1 mg IV ao fim do episódio ou do teste; medir a glicemia em 10, 20 e 30 minutos
Administração: injetar todo o diluente no frasco-ampola; sem retirar a agulha, agitar suavemente até dissolução completa e solução límpida; aspirar toda a solução; usar imediatamente após a reconstituição; injeção IV, não infusão
Considerações
Uso IV fora da bula: a bula traz as vias SC e IM [14]
Contraindicado no feocromocitoma; cautela no insulinoma [14]
Glicemia (mg/dL) | Insulina (µU/mL) | Peptídeo C (nmol/L) | Pró-insulina (pmol/L) | β-hidroxibutirato (mmol/L) | Aumento da glicemia após glucagon (mg/dL) | Hipoglicemiante oral circulante | Anticorpo anti-insulina | Interpretação |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
< 55, sem sintomas | < 3 | < 0,2 | < 5 | > 2,7 | < 25 | Não | Negativo | Normal |
< 55 | ≫ 3 | < 0,2 | < 5 | ≤ 2,7 | > 25 | Não | Negativo (positivo) | Insulina exógena |
< 55 | ≥ 3 | ≥ 0,2 | ≥ 5 | ≤ 2,7 | > 25 | Não | Negativo | Insulinoma, hipoglicemia pancreatogênica não insulinoma, hipoglicemia após bypass gástrico |
< 55 | ≥ 3 | ≥ 0,2 | ≥ 5 | ≤ 2,7 | > 25 | Sim | Negativo | Hipoglicemiante oral |
< 55 | ≫ 3 | ≫ 0,2 | ≫ 5 | ≤ 2,7 | > 25 | Não | Positivo | Hipoglicemia autoimune por insulina |
< 55 | < 3 | < 0,2 | < 5 | ≤ 2,7 | > 25 | Não | Negativo | Mediada por IGF |
< 55 | < 3 | < 0,2 | < 5 | > 2,7 | < 25 | Não | Negativo | Não mediada por insulina nem por IGF |
Fonte: [6]
Leitura da tabela [6]:
Hiperinsulinismo endógeno: glicemia < 55 mg/dL com insulina ≥ 3 µU/mL, peptídeo C ≥ 0,6 ng/mL (0,2 nmol/L) e pró-insulina ≥ 5 pmol/L
β-hidroxibutirato ≤ 2,7 mmol/L e aumento da glicemia ≥ 25 mg/dL após glucagon IV: hipoglicemia mediada por insulina ou por IGF
Os critérios pressupõem ausência de doença intercorrente, inclusive insuficiência renal
Jejum supervisionado [6][7]:
Data do início: último alimento; suspender medicações não essenciais; permitir bebidas sem calorias; manter o paciente ativo quando acordado [6]
Colher glicemia, insulina, peptídeo C, pró-insulina e β-hidroxibutirato a cada 6 horas até glicemia < 60 mg/dL; a partir daí, a cada 1 a 2 horas [6]
Encerrar com glicemia < 45 mg/dL e sintomas e/ou sinais de hipoglicemia, ou após 72 horas sem sintomas [6]
Tríade de Whipple já documentada em ocasião anterior, encerrar sem sintomas:
Endocrine Society: glicemia < 55 mg/dL [6]
Endotext: glicemia < 55 mg/dL em homens e < 35 mg/dL em mulheres [7]
Decidir pelo valor de laboratório, e não do glicosímetro [6]
Se for preciso tratar antes por sintomas graves, colher todas as amostras antes do carboidrato [6]
Ao final: colher as amostras e a pesquisa de hipoglicemiantes orais; aplicar glucagon 1 mg IV e medir a glicemia em 10, 20 e 30 minutos [6]
Teste de refeição mista [6]:
Após jejum noturno, com refeição semelhante à que desencadeia os sintomas (ou fórmula comercial)
Colher glicemia, insulina, peptídeo C e pró-insulina antes e a cada 30 minutos até 300 minutos
Analisar insulina, peptídeo C e pró-insulina só nas amostras com glicemia < 60 mg/dL
Tríade de Whipple demonstrada: colher pesquisa de hipoglicemiante oral e anticorpo anti-insulina
Prevenção e seguimento
Glucagon para casa [4]:
Prescrever a todos em uso de insulina ou com alto risco de hipoglicemia
Preparações que não exigem reconstituição são preferidas
Familiares, cuidadores e colegas devem saber onde fica e como aplicar, e nunca aplicar insulina em quem está em hipoglicemia
Educação estruturada para prevenção e tratamento da hipoglicemia a todos em uso de insulina ou com risco [4]:
Situações desencadeantes: jejum, refeição atrasada, atividade física, doença
Automonitorização, não dirigir em hipoglicemia, passo a passo do tratamento e uso do glucagon
Em cada consulta, pessoa em risco [4]:
Revisar a história de hipoglicemia: frequência, gravidade, desencadeantes, sintomas e tratamento
Considerar o risco de hipoglicemia na escolha dos fármacos e das metas glicêmicas
Rastrear hipoglicemia sem percepção ao menos uma vez por ano [4]
Hipoglicemia sem percepção e episódios recorrentes: evitar rigorosamente a hipoglicemia por 2 a 3 semanas [6], com relaxamento temporário das metas glicêmicas [4]
Monitorização contínua de glicose: recomendada para quem tem alto risco de hipoglicemia [4]
Avaliar a função cognitiva regularmente; com declínio, aumentar a vigilância para hipoglicemia [4]
Kits de primeiros socorros devem conter glicose oral [4]
No hospital:
Prescrição de resgate "se necessário" (glicose IV e/ou glucagon IM) para todo paciente em uso de insulina ou sulfonilureia [5]
Glicemia capilar antes das refeições e ao deitar na dieta oral, a cada 4 a 6 horas na dieta contínua e às 3 horas da manhã se houver risco de hipoglicemia na madrugada [1]
Secretagogos de insulina (sulfonilureias e glinidas) não são recomendados durante a internação [1]
Monitorização contínua de glicose pode ser considerada no paciente não crítico; confirmar com glicemia capilar leituras < 85 mg/dL ou sintomas de hipoglicemia [1]
Carboidrato de ação rápida e prolongada acessível na unidade, de preferência em caixa de hipoglicemia de localização conhecida pela equipe [5]
Referências
[1] MARINO, Emerson Cestari; MOMESSO, Denise; TOYOSHIMA, Marcos Tadashi Kakitani; et al. Manejo da hiperglicemia hospitalar em pacientes não-críticos. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2026. Última revisão em 26/08/2026. DOI: 10.29327/5660187.2025-9. Disponível em: https://diretriz.diabetes.org.br/manejo-da-hiperglicemia-hospitalar-em-pacientes-nao-criticos/. Acesso em: 17 out. 2026.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linhas de Cuidado: Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) no adulto. Unidade de Atenção Primária: DM2 aguda, hipoglicemia. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/diabetes-mellitus-tipo-2-(DM2)-no-adulto/unidade-de-atencao-primaria/dm2-aguda/hipoglicemia/. Acesso em: 17 out. 2026.
[3] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Suporte Avançado de Vida. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/samu-192/publicacoes. Acesso em: 17 out. 2026.
[4] AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE FOR DIABETES. 6. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care, v. 49, supl. 1, p. S132-S149, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.2337/dc26-S006.
[5] GRAVELING, Alex; WALDEN, Esther; FLANAGAN, Daniel. The Hospital Management of Hypoglycaemia in Adults with Diabetes Mellitus (JBDS 01). Joint British Diabetes Societies for Inpatient Care, revisão de janeiro de 2023. Disponível em: https://abcd.care/joint-british-diabetes-societies-jbds-inpatient-care-group. Acesso em: 17 out. 2026.
[6] CRYER, Philip E.; AXELROD, Lloyd; GROSSMAN, Ashley B.; et al. Evaluation and Management of Adult Hypoglycemic Disorders: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 94, n. 3, p. 709-728, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1210/jc.2008-1410.
[7] RAYAS, Maria S.; SALEHI, Marzieh. Non-Diabetic Hypoglycemia. In: Endotext [Internet]. South Dartmouth (MA): MDText.com, atualizado em 26 jan. 2024. Disponível em: https://www.endotext.org/wp-content/uploads/pdfs/non-diabetic-hypoglycemia.pdf. Acesso em: 17 out. 2026.
[8] GALVIN, R.; BRÅTHEN, G.; IVASHYNKA, A.; et al. EFNS guidelines for diagnosis, therapy and prevention of Wernicke encephalopathy. European Journal of Neurology, v. 17, p. 1408-1418, 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1468-1331.2010.03153.x.
[9] SCHABELMAN, Esteban; KUO, Dick. Glucose before thiamine for Wernicke encephalopathy: a literature review. The Journal of Emergency Medicine, v. 42, n. 4, p. 488-494, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jemermed.2011.05.076.
[10] WORLD HEALTH ORGANIZATION. International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems 10th Revision (ICD-10), versão 2019: E16.2 Hypoglycaemia, unspecified. Disponível em: https://icd.who.int/browse10/2019/en. Acesso em: 17 out. 2026.
[11] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/. Acesso em: 17 out. 2026.
[12] FRESENIUS KABI. Glicose 5% e 10% solução injetável: bula para o profissional de saúde. Atualizada conforme Bula Padrão aprovada pela Anvisa em 30/06/2025. Disponível em: https://www.fresenius-kabi.com/br. Acesso em: 17 out. 2026.
[13] VASCONCELOS INDÚSTRIA FARMACÊUTICA (VMG FARMACÊUTICA). Acesyl (cloridrato de tiamina) 100 mg/mL solução injetável: bula para o profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 27/12/2024. Fornecida pelo usuário. Disponível em: https://www.vmgfarmaceutica.com.br/produtos/acesyl/. Acesso em: 18 out. 2026.
[14] NOVO NORDISK. GlucaGen HypoKit (glucagon): bula para o profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 15/04/2026. Fornecida pelo usuário. Acesso em: 18 out. 2026.
Autoria e Curadoria
As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.


