Ciclobenzaprina

Nomes comerciais:

  • Miosan®, Miosan® ODT, Musculare®, Mirtax®, Muscuprina®, Miofibrax®, Cizax®, Benziflex®, Mitrul®

Apresentações:

  • Comprimido revestido 5 mg: Miosan® (caixas com 4, 10 ou 30 comprimidos) [2], Musculare® (caixas com 4, 15 ou 30 comprimidos)
  • Comprimido revestido 10 mg: Miosan® (caixas com 10 ou 30 comprimidos) [2], Musculare® (caixas com 4, 15 ou 30 comprimidos)
  • Comprimido orodispersível (ODT) 5 mg: Miosan® ODT (caixas com 4 ou 10 comprimidos)
  • Comprimido orodispersível (ODT) 10 mg: Miosan® ODT (caixas com 4 ou 10 comprimidos)
  • Cápsula de liberação prolongada 15 mg e 30 mg: Mitrul®

Posologia:

  • Adultos:
    • Bulas brasileiras (Miosan®, Miosan® ODT, Musculare®): [2,3,4]
      • Dose usual: 20 a 40 mg/dia, em 2 a 4 administrações diárias (a cada 12 horas ou a cada 6 horas)
      • Dose máxima diária: 60 mg
      • O uso por períodos superiores a 2 a 3 semanas deve ser realizado com acompanhamento médico
    • FDA label (comprimidos de liberação imediata): [1]
      • Dose inicial recomendada: 5 mg três vezes ao dia
      • Ajuste conforme resposta: pode-se aumentar para 10 mg três vezes ao dia
      • Dose máxima diária: 30 mg
      • Uso restrito a períodos de até 2 a 3 semanas
    • Nota: há divergência expressiva entre as posologias aprovadas no Brasil e nos EUA, especialmente no limite máximo diário (60 mg vs. 30 mg).
  • Idosos (≥65 anos): [1,2,3,4]
    • Iniciar com 5 mg e titular lentamente para doses maiores
    • O uso deve ser criterioso, pois os idosos apresentam exposição sistêmica aumentada (AUC ~1,7x maior que adultos jovens; idosos do sexo masculino: ~2,4x; do sexo feminino: ~1,2x) e maior risco de eventos adversos do SNC (confusão, alucinações), eventos cardíacos e interações medicamentosas
  • Pediátrico:
    • Segurança e eficácia não estabelecidas em menores de 15 anos para os comprimidos revestidos [1,2,4]
    • Para o Miosan® ODT: segurança e eficácia não estabelecidas em menores de 18 anos [3]
    • O uso nessas faixas etárias não é recomendado
  • Administração:
    • Via oral [1,2,3,4]
    • Comprimidos revestidos (Miosan® e Musculare®): engolir inteiros, sem partir ou mastigar [2,4]
    • Miosan® ODT: colocar o comprimido sobre a língua imediatamente após retirar do blíster e aguardar a desintegração completa na cavidade oral; não partir, mastigar ou ingerir antes da desintegração total; evitar alimento ou água na boca durante a tomada; após desintegração completa, pode-se ingerir água se necessário [3]
    • Dose esquecida: as fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre esse tópico

Ajuste para Insuficiência Renal:

  • Adulto:
    • As bulas brasileiras e o FDA label não fornecem orientações específicas sobre ajuste de dose em insuficiência renal [1,2,3,4]
    • Com base nos critérios Beers da American Geriatric Society, o uso da ciclobenzaprina deve ser evitado em pacientes com doença renal crônica (DRC), especialmente idosos, em razão dos efeitos anticolinérgicos potentes (retenção urinária, confusão), da sedação e do aumento do risco de fraturas [5]
  • Pediátrico:
    • As fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre esse tópico

Ajuste para Insuficiência Hepática:

  • Adulto: [1,2,3,4]
    • Em estudo farmacocinético, a exposição à ciclobenzaprina (AUC e Cmax) foi aproximadamente 2 vezes maior em pacientes com insuficiência hepática em comparação a indivíduos saudáveis
    • Leve: iniciar com 5 mg e titular lentamente para doses maiores; usar com cautela
    • Moderada a grave: uso não recomendado pela ausência de dados de segurança nessa população
  • Pediátrico:
    • As fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre esse tópico

Classe:

  • Relaxante muscular de ação central; amina tricíclica estruturalmente relacionada aos antidepressivos tricíclicos (ADT)

Farmacologia:

  • Mecanismo de ação: [1,2,3,4,5]
    • Age predominantemente no tronco cerebral (SNC), e não diretamente na junção neuromuscular nem no músculo esquelético; a ação sobre a medula espinhal pode contribuir para o efeito relaxante muscular global
    • Reduz a atividade motora tônica somática, influenciando os neurônios motores alfa (α) e gama (γ)
    • Pesquisas recentes sugerem adicionalmente antagonismo de receptores 5-HT2 (serotonina), responsável em parte pelo efeito antiespasmódico [5]
    • Possui ação anticolinérgica central e periférica semelhante aos ADT, podendo causar efeitos como xerostomia, retenção urinária, taquicardia e confusão [5]
    • É ineficaz em espasticidade decorrente de doenças do SNC (p. ex., lesão medular, acidente vascular cerebral, paralisia cerebral) [1,2,3,4]
  • Farmacocinética: [1,2,3,4,5]
    • Biodisponibilidade oral: 33-55%
    • Ligação às proteínas plasmáticas: ~93% (principalmente à alfa-1 glicoproteína, uma proteína de fase aguda)
    • Tmax: ~4h para comprimidos de liberação imediata [5]; 3-8h conforme as bulas brasileiras [2,3,4]
    • Cmax: 15-25 ng/mL (dose oral única de 10 mg) [2,3,4]
    • Início de ação: aproximadamente 1 hora após administração oral [2,3,4]
    • Duração de ação: 12-24h [2,3,4]
    • Metabolismo: hepático, via CYP3A4, CYP1A2 e CYP2D6; sofre recirculação enterohepática [1,2,3,4]
    • Excreção: primariamente como glicuronídeos, por via renal [1,2,3,4]
    • Meia-vida de eliminação: 18h (variação de 8 a 37h) [1,2,3,4]
    • Estado de equilíbrio (steady-state): atingido em 3-4 dias; com doses três vezes ao dia, as concentrações plasmáticas no steady-state são aproximadamente 4x maiores do que após dose única [1,5]
    • Alimentos: aumentam a extensão (AUC) e a velocidade de absorção [5]
    • Idosos: AUC ~1,7x maior (homens: ~2,4x; mulheres: ~1,2x) em relação a adultos jovens [1,2,3,4]
    • Insuficiência hepática: AUC e Cmax aproximadamente 2x maiores [1,2,3,4]

Tipo de Receita:

  • Venda sob prescrição médica — receituário simples [2,3,4]
  • Não está enquadrado na Portaria SVS/MS nº 344/98 (não é medicamento sujeito a controle especial)

Indicações:

  • Aprovadas pela ANVISA (bulas brasileiras): [2,3,4]
    • Espasmos musculares associados a condições musculoesqueléticas agudas e dolorosas: lombalgias, torcicolos, periartrite escapuloumeral, cervicobraquialgias
    • Fibromialgia
    • Coadjuvante de fisioterapia e repouso
  • Aprovada pelo FDA (indicação oficial): [1]
    • Espasmos musculares associados a condições musculoesqueléticas agudas e dolorosas, como adjuvante ao repouso e à fisioterapia, para uso de curto prazo (até 2-3 semanas)
    • Nota: A fibromialgia não consta como indicação aprovada pelo FDA. Segundo o StatPearls, as diretrizes do ACR (American College of Rheumatology) indicam duloxetina, milnacipran e pregabalina como primeira linha para fibromialgia; a ciclobenzaprina pode ser útil como adjuvante para a insônia associada [5]
  • Usos off-label descritos na literatura: [5]
    • Dor miofascial por disfunção temporomandibular
    • Estudos preliminares com formulação sublingual para TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) associado a insônia (evidências ainda inconclusivas)

Contraindicações:

  • Hipersensibilidade à ciclobenzaprina ou a qualquer componente da fórmula [1,2,3,4]
  • Uso concomitante de IMAO (inibidores da monoaminoxidase) ou suspensão há menos de 14 dias (risco de convulsões e morte) [1,2,3,4]
  • Fase aguda pós-infarto do miocárdio [1,2,3,4]
  • Arritmias cardíacas, bloqueios ou distúrbios de condução cardíaca [1,2,3,4]
  • Insuficiência cardíaca congestiva [1,2,3,4]
  • Hipertireoidismo [1,2,3,4]
  • Glaucoma ou retenção urinária [2,3,4] — Nota: as bulas brasileiras listam estas condições como contraindicações absolutas; o FDA label as aborda apenas como precauções, recomendando uso cauteloso e não a contraindicação formal [1]
  • Síndrome de má-absorção de glicose-galactose (pelo conteúdo de lactose na formulação) [2,4]

Efeitos Adversos:

  • Muito comuns (>10%): [2,3,4]
    • Sonolência, tontura, xerostomia (boca seca)
  • Comuns (>1% e <10%): [2,3,4]
    • SNC: fadiga, cefaleia, confusão mental, diminuição da acuidade mental, irritabilidade, nervosismo
    • Gastrointestinais: dispepsia, dor abdominal, refluxo gastroesofágico, constipação, diarreia, náuseas, sabor desagradável na boca
    • Neuromusculares: astenia
    • Oftalmológicos: visão embaçada
    • Respiratórios: faringite, infecções das vias aéreas superiores
  • Incomuns (>0,1% e <1%) ou com incidência <1% nos ensaios clínicos: [1,2,3,4]
    • Cardiovascular: taquicardia, arritmias, vasodilatação, palpitações, hipotensão
    • Gastrointestinais: vômitos, anorexia, gastrite, flatulência, edema de língua, alteração das funções hepáticas, hepatite, icterícia, colestase
    • Hipersensibilidade: anafilaxia, angioedema, urticária, prurido, edema facial, rash cutâneo
    • SNC/Psiquiátrico: convulsões, ataxia, vertigem, disartria, tremores, hipertonia, desorientação, insônia, humor depressivo, ansiedade, agitação, psicose, alucinações, parestesias, diplopia, síndrome serotoninérgica
    • Pele: sudorese
    • Urogenital: frequência urinária aumentada e/ou retenção urinária
    • Outros: síncope, mal-estar, ageusia (perda do paladar), tinnitus (zumbido)
    • Nota sobre síndrome de descontinuação: a interrupção abrupta após uso prolongado pode raramente causar náuseas, cefaleia e mal-estar, sem indícios de adição [1,2,3,4]

Interações Medicamentosas:

  • Contraindicada: [1,2,3,4]
    • IMAO: risco de crise hiperpirética, convulsões e morte; intervalo mínimo obrigatório de 14 dias entre o uso de IMAO e ciclobenzaprina
  • Requerem cautela (risco de síndrome serotoninérgica): [1,2,3,4]
    • ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina), IRSN (inibidores da recaptação de serotonina e norepinefrina), ADT (antidepressivos tricíclicos), tramadol, buspirona, meperidina e bupropiona; monitorizar atentamente o início do tratamento e os incrementos de dose
    • Verapamil: listado no FDA label como fármaco que requer cautela pelo risco de síndrome serotoninérgica [1]; cabe ressaltar que, do ponto de vista mecanístico, a interação mais bem caracterizada na literatura é de natureza farmacocinética — o verapamil é inibidor moderado do CYP3A4, podendo elevar as concentrações plasmáticas de ciclobenzaprina, o que poderia potencializar indiretamente o risco serotoninérgico. Ambos os mecanismos devem ser considerados clinicamente
  • Depressores do SNC: [1,2,3,4]
    • Álcool, barbitúricos e outros depressores do SNC: potencialização dos efeitos sedativos
  • Anticolinérgicos e antidiscinéticos: [2,3,4]
    • A ciclobenzaprina pode potencializar os efeitos desses fármacos, com risco de problemas gastrointestinais e íleo paralítico
  • Anti-hipertensivos de ação adrenérgica (p. ex., guanetidina): [1]
    • ADT (e, por extensão, ciclobenzaprina) podem bloquear o efeito anti-hipertensivo
  • Tramadol: [1]
    • ADT podem aumentar o risco de convulsões em pacientes em uso de tramadol

Gestação:

  • ANVISA: [2,3,4]
    • Categoria B de risco. Estudos de reprodução em ratos, camundongos e coelhos com doses até 20x a dose humana não evidenciaram prejuízo à fertilidade ou dano fetal. Contudo, não há estudos adequados e bem controlados em mulheres grávidas. Como os resultados em animais nem sempre reproduzem a resposta humana, a administração durante a gravidez não é recomendada, exceto se claramente necessário e sob orientação médica.
  • FDA: [1]
    • Categoria B. Os estudos animais realizados com doses de até 20x a dose humana não revelaram evidências de dano fetal ou comprometimento da fertilidade. Ausência de estudos adequados em gestantes humanas. O uso na gravidez deve ser considerado somente se o benefício potencial justificar o risco.

Lactação:

  • ANVISA: [2,3,4]
    • Não se sabe se a ciclobenzaprina é excretada no leite materno. Por ser estruturalmente relacionada aos ADT — alguns dos quais são excretados no leite —, cautela especial é necessária quando prescrita a mulheres que estejam amamentando. O uso no período de lactação deve ser avaliado individualmente com o médico assistente.
  • FDA: [1]
    • Igualmente desconhecido se excretada no leite materno. Pelo mesmo motivo (relação estrutural com ADT que se excretam no leite), o uso em lactantes exige cautela.
    • Dados do banco de dados LactMed (NIH) indicam que as quantidades de ciclobenzaprina encontradas no leite humano parecem ser extremamente baixas; caso o medicamento seja indicado para a mãe, a amamentação pode ser mantida com cautela, monitorando o lactente quanto a sedação e marcos do desenvolvimento, especialmente em neonatos, prematuros e quando há uso concomitante de outros medicamentos sedantes [5]

Uso por Sonda Nasogástrica/Nasoenteral:

  • As bulas brasileiras consultadas (Miosan®, Miosan® ODT e Musculare®) e o FDA label não fornecem orientações específicas sobre administração por sonda nasogástrica ou nasoenteral [1,2,3,4]
  • Comprimidos revestidos (Miosan® e Musculare®): possuem revestimento em película (film coating) sem finalidade entérica ou de liberação modificada. As bulas contraindicam partir ou mastigar os comprimidos para administração oral convencional [2,4]. Na ausência de orientação específica do fabricante sobre trituração para uso via sonda, recomenda-se consultar o farmacêutico clínico institucional antes de administrar por essa via
  • Miosan® ODT (comprimido orodispersível): formulado para desintegração na cavidade oral; não é adequado para administração via sonda nasoenteral, pois a via de administração depende da dissolução na mucosa oral [3]
  • Mitrul® (cápsulas de liberação prolongada): a trituração dos grânulos é contraindicada, pois compromete o mecanismo de liberação modificada; o conteúdo da cápsula pode ser disperso em superfície como maçã amassada (sem mastigar os grânulos) conforme dados do StatPearls para a formulação norte-americana — entretanto, a viabilidade para administração via sonda não foi avaliada e não deve ser assumida sem validação farmacêutica [5]
  • As fontes consultadas não dispõem de dados específicos validando a administração de ciclobenzaprina por sonda nasogástrica ou nasoenteral. Recomenda-se avaliação caso a caso pela equipe multidisciplinar

Fontes:

[1] U.S. Food & Drug Administration (FDA). FDA Label. Cyclobenzaprine Hydrochloride Tablets USP. Revised: 05/2026. Available at: https://nctr-crs.fda.gov/fdalabel/ui/search 

[2] Bula do Profissional de Saúde. Miosan® (cloridrato de ciclobenzaprina). Apsen Farmacêutica S.A. Aprovada em 10/12/2025. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/ 

[3] Bula do Profissional de Saúde. Miosan® ODT (cloridrato de ciclobenzaprina). Apsen Farmacêutica S.A. Aprovada em 10/12/2025. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/ 

[4] Bula do Profissional de Saúde. Musculare® (cloridrato de ciclobenzaprina). Eurofarma Laboratórios S.A. Aprovada em 10/12/2025. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/ 

[5] Khan I, Kahwaji CI. Cyclobenzaprine. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Last Update: August 28, 2023. Available at: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK513362/