Buspirona
Nomes Comerciais:
- Ansitec®, Buspar®
Apresentações:
- Comprimidos de 5 mg nas embalagens de 8, 60 e 90 comprimidos (Ansitec®)
- Comprimidos de 10 mg nas embalagens de 60 e 90 comprimidos (Ansitec®)
Posologia:
-
Adultos: [1][2]
- Dose inicial: 15 mg/dia, podendo ser administrada como 5 mg três vezes ao dia (de preferência nos intervalos das refeições) [2] ou como 7,5 mg duas vezes ao dia [1]
- Incremento: 5 mg a cada 2-3 dias, conforme necessário para resposta terapêutica
- Dose habitual de manutenção: 20-30 mg/dia, divididos em 2 ou 3 tomadas
- Dose máxima: 60 mg/dia
- Recomenda-se que o tratamento seja prescrito por, no mínimo, 3-4 semanas. Em uso prolongado (superior a 6 meses), a necessidade do fármaco deve ser reavaliada periodicamente [2]
-
Pediátrico: [2]
- Contraindicado em pacientes menores de 18 anos de idade [2]
- Nota: o label do FDA relata dois estudos clínicos controlados realizados em 559 pacientes de 6 a 17 anos (doses de 15 a 60 mg/dia), nos quais não foram observadas diferenças significativas em relação ao placebo nos sintomas do TAG. Não há dados de segurança ou eficácia a longo prazo nessa faixa etária [1]
-
Administração: [1][2]
- Administrar sempre no mesmo horário, de forma consistente: sempre com alimentos ou sempre sem alimentos. A ingestão junto a alimentos aumenta a biodisponibilidade da buspirona (por redução do metabolismo de primeira passagem), sem alterar a eficácia ansiolítica; o que importa é manter o padrão constante para evitar variações nos níveis plasmáticos [1][2]
- Evitar o consumo de grandes quantidades de suco de grapefruit (toranja), pois aumenta significativamente as concentrações plasmáticas de buspirona [1][2]
- Este medicamento não deve ser partido, aberto ou mastigado [2]
- Ao utilizar concomitantemente com inibidor potente do CYP3A4, reduzir a dose inicial de buspirona e titular com base na avaliação clínica [1][2]
- Ao iniciar ou suspender um IMAO antidepressivo, respeitar intervalo de pelo menos 14 dias entre as medicações [1]
- Dose esquecida: as fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre esse tópico.
Ajuste para Insuficiência Renal:
-
Adulto: [1][2]
- ClCr 20-49 mL/min/1,72 m²: observa-se leve aumento nos níveis plasmáticos sem alteração significativa da meia-vida. Administrar com cautela e em doses baixas; recomenda-se esquema de 2 vezes ao dia [2]
- ClCr <20 mL/min/1,72 m² (especialmente em pacientes anuréticos): contraindicada, devido ao risco de elevação dos níveis plasmáticos a valores intratáveis [2]
- O FDA label documenta aumento de 4 vezes na AUC em pacientes com insuficiência renal (ClCr de 10-70 mL/min/1,73 m²) e reforça que a administração em IR grave não pode ser recomendada [1]
-
Pediátrico:
- Uso contraindicado abaixo de 18 anos. As fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre ajuste renal em pacientes pediátricos.
Ajuste para Insuficiência Hepática:
-
Adulto: [1][2]
- Insuficiência hepática de qualquer grau: o clearance da buspirona é diminuído. Após dose única em pacientes com cirrose hepática, foram observadas concentrações elevadas de buspirona não metabolizada com aumento do tempo de meia-vida [2]. O FDA label documenta aumento de 13 vezes na AUC em pacientes com insuficiência hepática [1]
- Utilizar com cautela; as doses individuais devem ser calculadas cuidadosamente para minimizar efeitos adversos centrais. Aumentos de dose devem ser considerados cautelosamente após 4-5 dias da dosagem inicial [2]
- Insuficiência hepática grave: contraindicada [2]
-
Pediátrico:
- Uso contraindicado abaixo de 18 anos. As fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre ajuste hepático em pacientes pediátricos.
Classe:
- Ansiolítico não benzodiazepínico; azapirona (azaspirodecanodiona) [1][2]
Farmacologia:
-
Mecanismo de ação: [1][2]
- Alta afinidade pelos receptores serotoninérgicos 5-HT1A (agonismo parcial), principal mecanismo atribuído ao efeito ansiolítico
- Afinidade moderada pelos receptores dopaminérgicos D2, com provável ação antagonista pré-sináptica da dopamina [2]
- Intensifica a atividade das vias noradrenérgicas e dopaminérgicas específicas; reduz a atividade da serotonina e da acetilcolina [2]
- Não interage diretamente com receptores benzodiazepínicos nem com o GABA (ácido gama-aminobutírico) — diferentemente dos benzodiazepínicos, não possui efeitos anticonvulsivantes, sedativos, miorrelaxantes ou hipnóticos [1][2]
-
Farmacocinética: [1][2]
- Absorção: rápida por via oral; Tmax de 40-90 minutos [1][2]
- Biodisponibilidade: baixa após administração oral devido a extensa metabolização de primeira passagem; apenas ~1% da buspirona inalterada permanece no plasma [1]. Alimentos aumentam AUC em 84% e Cmax em 116%, provavelmente por redução do efeito de primeira passagem [1]
- Ligação proteica: ~86% [1] / ~95% [2]
- Metabolismo: primariamente por oxidação, mediado pela CYP3A4 (citocromo P450 3A4); metabólito ativo principal: 1-pirimidilpiperazina (1-PP), com aproximadamente 1/4 da atividade ansiolítica da buspirona [1][2]
- Meia-vida de eliminação: 2-3 horas em média (doses únicas de 10-40 mg) [1]; variação de 2-11 horas documentada em diferentes estudos [2]
- Farmacocinética não linear: doses repetidas e aumentos de dose podem resultar em níveis plasmáticos proporcionalmente maiores do que o previsto por estudos de dose única [1]
- Excreção: 29-63% na urina em 24 horas (principalmente como metabólitos); 18-38% por via fecal [1][2]
Tipo de Receita:
- Receituário de Controle Especial (substância pertencente à Lista C1 da Portaria SVS/MS nº 344/1998), em duas vias, com retenção da 1ª via no estabelecimento farmacêutico e devolução da 2ª via ao paciente [3]
- Validade da receita: 30 dias a partir da data de emissão [3]
- Prescrição máxima por receita: quantidade suficiente para até 60 dias de tratamento [3]
Indicações:
- Tratamento de distúrbios de ansiedade, em especial o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) [1][2]
- Alívio a curto prazo dos sintomas de ansiedade, com ou sem depressão associada [1][2]
Contraindicações:
- Hipersensibilidade ao cloridrato de buspirona ou a qualquer componente da formulação [1][2]
- Uso concomitante com IMAOs (inibidores da monoamina oxidase) antidepressivos, ou dentro de 14 dias após a suspensão de qualquer das partes [1]
- Início de buspirona em paciente em uso de IMAOs reversíveis, como linezolida ou azul de metileno intravenoso[1]
- Pacientes menores de 18 anos de idade [2]
- Epilepsia ou história de crises convulsivas [2]
- Intoxicação aguda por álcool, hipnóticos, analgésicos ou drogas antipsicóticas [2]
- Insuficiência renal grave (ClCr <20 mL/min/1,72 m²) [2]
- Insuficiência hepática grave [2]
Efeitos Adversos:
-
Muito comuns (≥10%): [2]
- Tontura (incluindo vertigem), cefaleia, sonolência
-
Comuns (≥1% e <10%): [2]
- Psiquiátricos: nervosismo, insônia, distúrbios de atenção, depressão, estado confusional, desordens do sono, raiva
- Neurológicos: parestesia, visão turva, coordenação anormal, tremor, tinido (zumbido)
- Cardiovasculares: taquicardia, dor torácica
- Respiratórios: congestão nasal, dor faringolaríngea
- Gastrointestinais: náusea, dor abdominal, boca seca, diarreia, constipação, vômito
- Pele: suor frio, erupção cutânea
- Musculoesqueléticos: dor musculoesquelética
- Gerais: fadiga, astenia (fraqueza)
-
Raros (≥0,01% e <0,1%): [2]
- Edema angioneurótico (angioedema), equimose, urticária
-
Muito raros (<0,01%): [2]
- Psiquiátricos: desordens psicóticas, alucinações, despersonalização, labilidade emocional
- Neurológicos: síndrome serotoninérgica, convulsão, visão em túnel, desordens extrapiramidais, reações distônicas e rigidez em roda denteada, discinesia, distonia, desmaios, amnésia, ataxia, parkinsonismo, acatisia, síndrome das pernas inquietas, inquietação
- Renais: retenção urinária
- Reprodutivos: galactorreia
Interações Medicamentosas:
-
IMAOs antidepressivos: contraindicados; risco de síndrome serotoninérgica e/ou hipertensão arterial. Respeitar intervalo de pelo menos 14 dias entre a suspensão de um e o início do outro [1][2]
-
IMAOs reversíveis (linezolida, azul de metileno IV): contraindicados concomitantemente. Se houver necessidade urgente de iniciar linezolida ou azul de metileno em paciente em uso de buspirona, a buspirona deve ser suspensa imediatamente. O monitoramento para síndrome serotoninérgica deve ocorrer durante todo o período em que linezolida ou azul de metileno estiverem sendo utilizados — por até 2 semanas ou até 24 horas após a última dose desses agentes, o que ocorrer primeiro. Após esse intervalo, a buspirona pode ser retomada 24 horas após a última dose de linezolida ou azul de metileno, sem necessidade de período adicional de monitoramento [1]
-
Inibidores do CYP3A4 (reduzem o metabolismo da buspirona; reduzir a dose): [1][2]
- Nefazodona: aumento de até 20x na Cmax e 50x na ASC; recomenda-se buspirona 2,5 mg/dia
- Itraconazol: aumento de 13x na Cmax e 19x na ASC; recomenda-se buspirona 2,5 mg/dia
- Eritromicina: aumento de 5x na Cmax e 6x na ASC; recomenda-se buspirona 2,5 mg duas vezes ao dia
- Diltiazem: aumento de ~4-5x na ASC e Cmax; ajustar dose com base na resposta clínica
- Verapamil: aumento de 3,4x na ASC e Cmax; ajustar dose com base na resposta clínica
- Suco de grapefruit: aumento de 4,3x na Cmax e 9,2x na ASC; evitar grandes quantidades
- Outros inibidores potentes (cetoconazol, ritonavir): podem aumentar os níveis de buspirona; usar a menor dose possível e com cautela
-
Indutores do CYP3A4 (aumentam o metabolismo da buspirona; pode ser necessário aumentar a dose): [1][2]
- Rifampicina: redução de 84% na Cmax e 90% na ASC; ajustar dose de buspirona para manter efeito ansiolítico
- Outros indutores: fenitoína, fenobarbital, carbamazepina, dexametasona
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ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina): de modo geral, não foram observados problemas importantes de segurança na associação com buspirona, e convulsões foram raramente relatadas [2]. Entretanto, como a buspirona é agonista parcial 5-HT1A e os ISRS elevam a tonicidade serotonérgica global, a associação pode aumentar o risco de síndrome serotoninérgica. Recomenda-se monitorar sinais e sintomas característicos, como agitação, hipertermia, mioclonias, hiperreflexia e instabilidade autonômica, especialmente no início do tratamento e em ajustes de dose [1]
-
Haloperidol: aumento nas concentrações séricas de haloperidol (significado clínico incerto) [1][2]
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Cimetidina: aumento de 40% na Cmax e aproximadamente 2x no Tmáx da buspirona, com efeito mínimo sobre a ASC [1][2]
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Diazepam: aumento de ~15% nos níveis de nordiazepam; possíveis efeitos adversos leves (tontura, cefaleia, náusea) [1][2]
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Trazodona: relato isolado de elevação de 3-6x nos níveis de TGP (ALT) em alguns pacientes; achado não confirmado em estudo replicativo [1][2]
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Álcool: não potencializa significativamente os efeitos depressores do álcool; ainda assim, o uso concomitante deve ser evitado [1][2]
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Warfarina: relato isolado de prolongamento do tempo de protrombina em paciente polifarmacoterapêutico; relevância clínica desconhecida [1]
Gestação:
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ANVISA: [2]
- Categoria de risco B
- Não foram realizados estudos adequados e bem controlados em gestantes. O uso durante a gravidez somente deve ser iniciado ou continuado se, na opinião do médico, o benefício para a mãe exceder o risco potencial ao feto. Não deve ser utilizado por mulheres grávidas sem orientação médica. Os efeitos sobre o trabalho de parto são desconhecidos; não foram observadas reações adversas em estudos de reprodução em ratos
-
FDA: [1]
- Também classificado como Categoria B (nomenclatura vigente à época do label; o FDA adotou sistema narrativo para drogas aprovadas após 30/06/2015, mas este label não provê a narrativa detalhada recomendada pelo PLLR — Pregnancy and Lactation Labeling Rule)
- Estudos de reprodução em ratos e coelhos com doses de buspirona de aproximadamente 30 vezes a dose máxima recomendada para humanos não demonstraram comprometimento da fertilidade nem danos ao feto
- Em humanos, estudos adequados e bem controlados durante a gestação não foram realizados. Deve ser utilizada durante a gravidez somente se claramente necessário
Lactação:
-
ANVISA: [2]
- A extensão da excreção de buspirona ou de seus metabólitos no leite materno é desconhecida
- Administrar a lactantes somente se o benefício para a mãe superar o risco potencial ao lactente, sob avaliação e acompanhamento médico
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FDA: [1]
- Em ratas, a buspirona e seus metabólitos são excretados no leite materno. A extensão da excreção no leite humano é desconhecida
- A administração a mulheres em amamentação deve ser evitada quando clinicamente possível
Uso por Sonda Nasogástrica/Nasoenteral:
- A bula brasileira do Ansitec® adverte explicitamente que o medicamento não deve ser partido, aberto ou mastigado, o que representa uma contraindicação do fabricante ao uso via sonda [2]
- As Diretrizes NEEMMC (North East Essex Medicines Management Committee, Colchester Hospital, UK) para administração de medicamentos por sonda enteral classificam a buspirona na categoria "B", indicando que o comprimido se dispersa em água (embora em mais de 2 minutos), o que tecnicamente possibilitaria a administração via sonda após dispersão adequada [4]
- Há, portanto, divergência entre a orientação do fabricante (que desaconselha o particionamento/trituração) e a referência técnica internacional consultada. Diante dessa discrepância, recomenda-se a consulta a um farmacêutico clínico e a avaliação de alternativas terapêuticas antes de optar pela administração via sonda
Fontes:
[1] U.S. Food & Drug Administration (FDA). FDA Label. Buspirone Hydrochloride Tablets, USP. Revised: 10/2023. Available at: https://nctr-crs.fda.gov/fdalabel/ui/search
[2] Bula do Profissional de Saúde. Ansitec® (cloridrato de buspirona). Libbs Farmacêutica Ltda. Aprovada em 12/01/2026. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/
[3] Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998. Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância Sanitária. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/svs/1998/prt0344_12_05_1998_rep.html
[4] North East Essex Medicines Management Committee (NEEMMC). Guidelines for Tablet Crushing and Administration via Enteral Feeding Tubes. Colchester Hospital. 2012. Disponível em: https://docslib.org/doc/6856636/neemmc-guidelines-for-tablet-crushing-and-administration-via-enteral-feeding-tubes
[5] Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. KDIGO 2012 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International Supplements. 2013;3(1):1–150.


