Morfina

Nomes comerciais:

  • Dimorf®
  • Dimorf® LC
  • Dolo Moff®
  • Oppy®

Apresentações:

  • Comprimido de liberação imediata:
    • 10 mg — embalagem com 50 comprimidos: Dimorf®
    • 30 mg — embalagem com 50 comprimidos: Dimorf®
  • Cápsula dura de liberação prolongada:
    • 30 mg — embalagem com 60 cápsulas: Dimorf® LC
    • 60 mg — embalagem com 60 cápsulas: Dimorf® LC
    • 100 mg — embalagem com 60 cápsulas: Dimorf® LC
  • Solução oral:
    • Gotas 10 mg/mL — frasco de 60 mL com conta-gotas graduado (1 mL = 32 gotas = 10 mg): Dimorf®
  • Solução injetável:
    • 0,1 mg/mL — embalagem com 5, 10 ou 50 estojos esterilizados com ampola de 1 mL: Dimorf®
    • 0,2 mg/mL — embalagem com 50 ampolas de 1 mL ou 50 estojos esterilizados com ampola de 1 mL: Dimorf®
    • 1,0 mg/mL — embalagem com 50 estojos esterilizados com ampola de 2 mL: Dimorf®
    • 10,0 mg/mL — embalagem com 50 ampolas de 1 mL: Dimorf®

Posologia:

  • Adultos:

    • Comprimidos de liberação imediata (Dimorf® 10 mg e 30 mg): [2]
      • Dose inicial em pacientes sem uso prévio de opioides: 5 a 30 mg a cada 4 horas, ou conforme orientação médica
      • Dose máxima diária habitual: ~180 mg/dia (ajustes acima desse limite requerem avaliação médica criteriosa)
      • Em pacientes com dor terminal: esquema a cada 4 horas, na menor dose que possibilite analgesia adequada; se em uso concomitante de outros opioides, equilibrar as doses
    • Cápsulas de liberação prolongada (Dimorf® LC 30, 60 e 100 mg): [1]
      • 30 mg, 60 mg ou 100 mg a cada 12 horas, ou conforme orientação médica
      • Dose máxima diária habitual: ~200 mg/dia
      • Pacientes em uso de morfina de liberação imediata podem ser convertidos para a forma LP conservando a mesma dose total diária (24 horas), com dose individualizada
      • Nota: o Dimorf® LC não está indicado para uso conforme necessidade (prn); destina-se exclusivamente ao manejo de dor intensa e crônica que requer tratamento prolongado com opioide diário
    • Solução gotas 10 mg/mL (Dimorf®): [3]
      • 5 a 20 mg (0,5 a 2 mL = 16 a 64 gotas) a cada 4 horas, ou conforme prescrição médica
      • Dose máxima diária habitual: ~120 mg/dia
      • Em pacientes terminais: administrar regularmente a cada 4 horas, na menor dose eficaz
    • Solução injetável — Intramuscular (Dimorf® 1,0 e 10,0 mg/mL): [4]
      • Dose inicial: 5 a 20 mg/70 kg de peso; dose máxima diária habitual: ~120 mg/dia
    • Solução injetável — Intravenosa (Dimorf® 1,0 e 10,0 mg/mL, e 0,1 e 0,2 mg/mL): [4] [5]
      • Dose inicial: 2 a 10 mg/70 kg de peso; dose máxima diária habitual: 60 a 90 mg/dia
    • Solução injetável — Epidural (Dimorf® 1,0/10,0 mg/mL e 0,1/0,2 mg/mL): [4] [5]
      • Dose inicial: 2 a 5 mg na região lombar, podendo proporcionar alívio por até 24 horas
      • Se alívio inadequado após 1 hora: doses incrementais de 1 a 2 mg; dose máxima diária: 10 mg
      • Infusão contínua epidural: dose inicial de 2 a 4 mg/24 horas; doses complementares de 1 a 2 mg se necessário
    • Solução injetável — Intratecal (Dimorf® 1,0/10,0 mg/mL e 0,1/0,2 mg/mL): [4] [5]
      • Dose única de 0,05 a 0,2 mg; não exceder 1 mg; pode proporcionar alívio por até 24 horas
      • A dose intratecal é normalmente 1/10 da dose epidural
      • Procedimentos obstétricos e ginecológicos: 0,03 a 0,1 mg
      • Repetidas injeções intratecais não são recomendadas; se necessário controle de efeitos adversos, pode-se utilizar infusão contínua de naloxona 0,4 mg/h por 24 horas após a injeção
    • Idosos: iniciar sempre pela menor dose possível, com titulação lenta e cuidadosa, independentemente da forma farmacêutica [1] [2] [3] [4] [5]
    • Redução e descontinuação: a dose deve ser mantida por no mínimo 3 dias antes de qualquer redução; reduzir gradualmente para evitar síndrome de abstinência em pacientes fisicamente dependentes; o label da FDA recomenda reduções de 25% a 50% a cada 2 a 4 dias para a formulação injetável IV, com monitoramento para sinais de abstinência [4] [5] [10]
  • Pediátrico:

    • Comprimidos de liberação imediata, cápsulas de liberação prolongada e soluções injetáveis: contraindicados para menores de 18 anos conforme as bulas brasileiras (ANVISA) [1] [2] [4] [5]
    • Solução gotas 10 mg/mL (acima de 2 anos): [3]
      • Dose média recomendada por via oral: 0,1 a 0,5 mg/kg
      • Não recomendado para menores de 2 anos (maior susceptibilidade a efeitos depressores respiratórios)
      • Crianças até 6 anos: utilizar medidas calibradas para evitar superdose
      • A dose máxima diária deve ser individualizada conforme intensidade da dor, idade, peso e tolerabilidade
      • Pacientes pediátricos em uso de opioides podem apresentar excitação paradoxal; avaliar cuidadosamente o balanço benefício-risco
    • Nota: Dados da bula do FDA (formulação injetável IV concentrada - 50 mg/mL): em contraste com as bulas brasileiras, o label americano desta formulação específica estabelece eficácia e segurança da infusão IV contínua de morfina para todas as faixas etárias pediátricas, incluindo neonatos. As doses preconizadas pelo FDA são: [10]
      • Menores de 1 ano (inclusive neonatos): infusão inicial de 0,005 a 0,01 mg/kg/hora; monitorar função cardiorrespiratória em menores de 3 meses; em prematuros e ex-prematuros com doença pulmonar crônica até 5 a 6 meses de vida, atenção redobrada ao risco de depressão do drive hipóxico
      • 1 a menos de 17 anos (peso < 50 kg): infusão inicial de 0,02 a 0,1 mg/kg/hora; manutenção: 0,02 a 0,03 mg/kg/hora
      • 1 a menos de 17 anos (peso ≥ 50 kg): manutenção de 1,5 mg/hora
      • Pacientes tolerantes a opioides (peso < 60 kg): 0,01 a 0,06 mg/kg/hora; (peso ≥ 60 kg): 0,8 a 3 mg/hora
      • Essa diferença regulatória deve ser considerada na prática clínica hospitalar, observando-se as regulamentações nacionais vigentes
  • Administração: [1] [2] [3] [4] [5] [10]

    • Comprimidos: podem ser administrados com ou sem alimentos; as cápsulas LC não devem ser partidas, abertas ou mastigadas — o risco de liberação imediata de toda a dose pode ser fatal
    • Solução gotas: cada 1 mL corresponde a 32 gotas e contém 10 mg de morfina; utilizar exclusivamente o conta-gotas graduado fornecido; pode-se diluir as gotas em pequena quantidade de líquido antes da administração
    • Solução injetável — administração epidural e intratecal: restrita a profissionais treinados no controle da depressão respiratória e habituados à técnica neuroaxial; o local de administração deve ser preferencialmente a região lombar; verificar o correto posicionamento da agulha ou cateter antes da injeção (ausência de sangue ou LCR na aspiração; dose-teste com 5 mL de lidocaína a 2% com epinefrina 1:200.000); o paciente deve permanecer em observação por pessoal especializado com acesso a equipamento de ressuscitação por no mínimo 24 horas (depressão respiratória tardia pode ocorrer em até 24 horas); a solução deve ser isenta de conservantes
    • Solução injetável — via intravenosa: administrar lentamente; a administração rápida pode causar rigidez da parede torácica; o paciente deve estar em decúbito; ter disponível antagonista opioide (naloxona ou nalmefen) e equipamento para ventilação assistida; o label da FDA para a formulação concentrada (50 mg/mL) especifica que não deve ser injetada diretamente — destina-se exclusivamente a infusão IV contínua após diluição a concentração final de 0,1 a 5 mg/mL em SG5% (estável por até 72 horas em temperatura ambiente ou 14 dias refrigerado) ou SF0,9% (estável por 14 dias em temperatura ambiente ou refrigerado); esta formulação não é indicada para uso epidural ou intratecal [10]
    • Incompatibilidades (formulação IV): morfina é incompatível com barbitúricos solúveis, clorotiazida, aminofilina, heparina, meperidina, meticilina, fenitoína, bicarbonato de sódio, iodeto, sulfadiazina e sulfisoxazol [10]
    • Dose esquecida (formas orais): administrar assim que possível, exceto se estiver próximo do horário da próxima dose; nunca dobrar doses para compensar

Ajuste para Insuficiência Renal:

  • Adulto: [1] [2] [3] [4] [5] [10] [11]

    • A farmacocinética do sulfato de morfina é significativamente alterada nos pacientes com insuficiência renal, com aumento da AUC, redução do clearance e acúmulo dos metabólitos M3G (morfina-3-glicuronídeo — inativo) e M6G (morfina-6-glicuronídeo — com atividade analgésica), que podem atingir níveis plasmáticos muito superiores aos observados em pacientes com função renal normal
    • Esses pacientes devem iniciar o tratamento com doses mais baixas que o habitual, com titulação lenta e monitoramento rigoroso para sinais de depressão respiratória, sedação e hipotensão
    • Para as formas injetáveis neuroaxiais (epidural e intratecal), os altos níveis plasmáticos decorrentes da redução do clearance podem levar vários dias para diminuir; deve-se ter extremo cuidado ao utilizá-las nesses casos
    • As fontes não estabelecem ajustes posológicos específicos por faixas de ClCr (clearance de creatinina); estudos adequados em insuficiência renal grave não foram conduzidos
  • Pediátrico: [1] [2] [3] [4] [5] [10] [11]

    • As fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre ajuste de dose em insuficiência renal para a faixa pediátrica

Ajuste para Insuficiência Hepática:

  • Adulto: [1] [2] [3] [4] [5] [10] [11]

    • A farmacocinética do sulfato de morfina é significativamente alterada em pacientes com cirrose, com redução do clearance e aumento correspondente da meia-vida; os índices M3G/morfina e M6G/morfina também se reduzem, indicando diminuição da atividade metabólica hepática
    • Esses pacientes devem iniciar com doses mais baixas que o habitual, titulação lenta e monitoramento cuidadoso para sinais de depressão respiratória, sedação e hipotensão
    • Para as formas injetáveis neuroaxiais (epidural e intratecal), os altos níveis plasmáticos decorrentes da redução do clearance podem levar vários dias para diminuir; deve-se ter extremo cuidado ao utilizá-las nesses casos
    • As fontes não estabelecem ajustes posológicos específicos por grau de comprometimento hepático; estudos adequados em insuficiência hepática grave não foram conduzidos
  • Pediátrico: [1] [2] [3] [4] [5] [10] [11]

    • As fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre ajuste de dose em insuficiência hepática para a faixa pediátrica

Classe:

  • Analgésico opioide agonista pleno — substância entorpecente (alcaloide natural do ópio)
  • Classificação ATC: N02AA01 (morfina)

Farmacologia:

  • Mecanismo de ação: [1] [2] [3] [4] [5] [10] [11]

    • Agonista opioide pleno, com afinidade preferencial pelo receptor mu (μ), embora possa se ligar a outros receptores opioides em doses mais elevadas; não há efeito teto para a analgesia — a dose é titulada até a analgesia adequada e pode ser limitada pelos efeitos adversos
    • Receptores opioides estão amplamente distribuídos no SNC, especialmente no sistema límbico, tálamo, corpo estriado, hipotálamo, mesencéfalo e nas lâminas do corno dorsal da medula espinhal
    • A depressão respiratória resulta da redução da responsividade dos centros respiratórios do tronco encefálico ao COâ (dióxido de carbono) e à estimulação elétrica; a emese decorre da estimulação direta do quimiorreceptor da zona do gatilho
    • Em doses elevadas por via IV, pode causar instabilidade cardiovascular por hiperatividade simpática com aumento de catecolaminas circulantes [10]
  • Farmacocinética — via oral: [1] [2] [3] [11]

    • Absorção: biodisponibilidade oral de aproximadamente 20 a 40%, em razão do metabolismo pré-sistêmico de primeira passagem; cerca de 50% da dose oral atinge o compartimento central intacta dentro de 30 minutos
    • Pico de ação (liberação imediata): 1 a 2 horas; duração: 4 a 5 horas em pacientes não tolerantes
    • Liberação prolongada (Dimorf® LC): liberação gradual ao longo de 12 horas; estado de equilíbrio (steady-state) atingido em aproximadamente 1 dia com esquema de dose fixa
  • Farmacocinética — via injetável: [4] [5] [10]

    • Via intravenosa: pico de efeito analgésico em aproximadamente 20 a 30 minutos; duração de 4 a 5 horas; administração rápida pode causar rigidez da parede torácica
    • Via intramuscular: pico de ação de 10 a 30 minutos após a administração; duração de 4 a 5 horas
    • Via epidural/intratecal: início de efeito em 15 a 60 minutos; analgesia de até 24 horas; a morfina possui baixa solubilidade lipídica (molécula hidrofílica), o que explica o início de ação mais lento e o efeito prolongado por retenção no LCR (líquido cefalorraquidiano); a meia-vida no LCR após injeção intratecal em bolus é de aproximadamente 42 a 136 minutos (média ~90 min); a via intratecal contorna as barreiras meníngeas, permitindo doses menores que a via epidural para efeito analgésico comparável
  • Distribuição e metabolismo: [1] [2] [4] [5] [10] [11]

    • Volume de distribuição: 1,0 a 4,7 L/kg (IV); aproximadamente 3 a 4 L/kg (oral)
    • Ligação proteica plasmática: baixa (~30 a 36%); ligação a tecido muscular: ~54%
    • Principal via metabólica: conjugação com ácido glicurônico no fígado, gerando:
      • M3G (morfina-3-glicuronídeo, ~50% — farmacologicamente inativo)
      • M6G (morfina-6-glicuronídeo, ~5 a 15% — com atividade analgésica, mas atravessa mal a barreira hematoencefálica)
    • Pequena fração (<5%) é desmetilada; a morfina atravessa a placenta e é encontrada no leite materno
  • Eliminação: [1] [2] [4] [5] [10] [11]

    • Primária: renal — ~85% (9 a 12% excretados sem modificação na urina)
    • Biliar: 7 a 10%; há algum grau de recirculação êntero-hepática
    • Meia-vida de eliminação: 1,5 a 4,5 horas (normalmente aceita como 1,5 a 2 horas em indivíduos com função renal e hepática preservadas); pode estar aumentada em idosos e em insuficiência renal ou hepática
    • Clearance plasmático total: 0,9 a 1,2 L/kg/h (com considerável variação interindividual)
  • Efeitos endócrinos relevantes: [10] [11]

    • Os opioides inibem a secreção de ACTH (hormônio adrenocorticotrófico), cortisol e LH (hormônio luteinizante), e estimulam prolactina e GH (hormônio do crescimento); o uso prolongado pode levar a hipogonadismo com deficiência androgênica, manifestando-se como redução da libido, disfunção erétil, amenorreia ou infertilidade; pode ocorrer ainda insuficiência adrenal, especialmente após mais de um mês de uso

Tipo de Receita:

  • Todas as apresentações requerem Notificação de Receita "A" (cor amarela), conforme Portaria SVS/MS nº 344/1998, por tratar-se de substância entorpecente da Lista A1
  • A notificação é válida por 30 dias a partir da data de emissão, em todo o território nacional, e é retida no ato da dispensação
  • As formas injetáveis (0,1 mg/mL, 0,2 mg/mL, 1,0 mg/mL e 10,0 mg/mL) são, adicionalmente, de uso restrito a estabelecimentos de saúde

Indicações:

  • Adultos: [1] [2] [3] [4] [5]

    • Alívio da dor intensa aguda e crônica (dor oncológica moderada a severa, dor crônica não oncológica)
    • Dor crônica severa associada ao câncer em fase terminal
    • Infarto agudo do miocárdio (dor intensa)
    • Lesões graves
    • Controle da dor pós-operatória e suplementação da anestesia geral, regional ou local
    • Alívio da dispneia associada à insuficiência ventricular esquerda aguda e edema pulmonar
    • Alívio da dor do parto, quando administrada pela via intratecal
    • Nota: o Dimorf® LC está indicado especificamente para dor intensa e crônica que requer tratamento prolongado com opioide diário e que não pode ser adequadamente tratada com opioides de liberação imediata ou outras alternativas terapêuticas; não se destina a cenários de dor aguda pontual ou uso conforme necessidade
  • Pediátrico (solução gotas 10 mg/mL, acima de 2 anos): [3]

    • Alívio da dor intensa aguda e crônica

Contraindicações: [1] [2] [3] [4] [5] [10] [11]

  • Hipersensibilidade conhecida à morfina (ex.: anafilaxia) ou a qualquer componente da fórmula
  • Depressão ou insuficiência respiratória significativa; hipercapnia
  • Depressão do SNC; coma ou alteração do estado de consciência
  • Asma brônquica aguda ou grave em ambiente sem monitoramento ou sem equipamento de ressuscitação; DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica)
  • Insuficiência cardíaca secundária; arritmias cardíacas; choque circulatório
  • Aumento da pressão intracraniana ou cerebroespinhal; lesões cerebrais; tumor cerebral
  • Alcoolismo crônico; alcoolismo agudo; delirium tremens; distúrbios convulsivos
  • Obstrução gastrointestinal conhecida ou suspeita, incluindo íleo paralítico
  • Feocromocitoma
  • Uso concomitante com inibidores da MAO (monoamino-oxidase) ou nos 14 dias subsequentes ao seu uso
  • Pós-operatório de cirurgia do trato biliar, abdominal e anastomose cirúrgica (com exceções clínicas específicas descritas na bula — aplicável ao Dimorf® LC) [1]
  • Menores de 18 anos (para comprimidos, cápsulas LC e soluções injetáveis); menores de 2 anos (para solução gotas)
  • Para as formas injetáveis por via epidural ou intratecal, são contraindicações adicionais:
    • Infecção no local da injeção
    • Terapia anticoagulante; diátese hemorrágica
    • Corticosteroides administrados por via parenteral na semana a duas semanas anteriores (específico para as soluções 0,1/0,2 mg/mL) [5]
    • Qualquer condição que contraindique as técnicas epidural ou intratecal
  • Síndromes de má-absorção de glicose-galactose ou insuficiência de sacarose-isomaltase (cápsulas LC — contêm lactose e sacarose) [1]

Efeitos Adversos:

  • Comuns:

    • Formas orais (comprimidos, cápsulas e solução gotas): [1] [2] [3] [11]
      • Muito comuns (>10%): náusea, vômito, constipação e sedação
      • Comuns (1 a <10%): tontura, transpiração, boca seca, bradicardia, hipertensão, alucinação, ansiedade, astenia, estado de confusão, sonolência, dor abdominal, erupções cutâneas
      • Incomuns (0,1 a <1%): vertigem, hipotensão, palpitação, espasmo do trato biliar
    • Formas injetáveis — via epidural e intratecal: [4] [5]
      • Muito comuns (>10%): depressão respiratória — pode ocorrer de forma tardia em até 24 horas após a administração; a via intratecal e as áreas torácicas apresentam maior risco que a via epidural e a região lombar; manifesta-se como respiração difícil, irregular, rápida, lenta ou superficial, lábios ou unhas pálidos ou azulados, falta de ar
      • Comuns (1 a <10%): boca seca, bradicardia, hipertensão
  • Raros / frequência desconhecida (qualquer forma): [1] [2] [3] [4] [5] [10] [11]

    • Alodinia (dor provocada por estímulos normalmente não dolorosos), hiperalgesia opioide induzida (OIH — aumento paradoxal da dor com o aumento da dose)
    • Síndrome serotoninérgica (com uso concomitante de fármacos serotoninérgicos) — potencialmente fatal
    • Insuficiência adrenal (mais frequente após mais de um mês de uso; apresenta-se com náusea, vômito, anorexia, fadiga, fraqueza, tontura e hipotensão)
    • Disfunção esofágica induzida por opioide (OIED — disfagia, regurgitação, dor torácica não cardíaca), de risco crescente com doses e duração maiores
    • Deficiência androgênica com uso prolongado (redução da libido, disfunção erétil, amenorreia, infertilidade)
    • Hipoglicemia (principalmente em pacientes com fatores de risco, como diabetes)
    • Retenção urinária, disúria, efeito antidiurético, edema
    • Miose, mioclonia, convulsões (especialmente em doses elevadas por via IV)
    • Rubor facial, síncope, euforia, desorientação, distúrbios visuais
    • Prurido, urticária (raramente hemorrágica), angiodema, reações anafiláticas/anafilactóides
    • Depressão respiratória grave, depressão circulatória, parada respiratória, choque e parada cardíaca

Interações Medicamentosas: [1] [2] [3] [4] [5] [10] [11]

  • Depressores do SNC — benzodiazepínicos, sedativos/hipnóticos, ansiolíticos, antipsicóticos, anestésicos gerais, relaxantes musculares, gabapentinoides (gabapentina e pregabalina), outros opioides e álcool: efeitos aditivos; risco de sedação profunda, depressão respiratória grave, hipotensão, coma e morte; reservar a associação para pacientes sem alternativa terapêutica adequada, utilizando doses mínimas eficazes e pelo menor tempo possível
  • Inibidores da MAO (IMAO) — ex.: fenelzina, tranilcipromina, linezolida, azul de metileno IV: contraindicados; suspender o IMAO por pelo menos 14 dias antes do uso de morfina (risco de síndrome serotoninérgica ou toxicidade opioide grave — depressão respiratória, coma, confusão)
  • Agonistas/antagonistas opioides mistos (nalbufina, pentazocina, butorfanol) e agonistas parciais (buprenorfina): podem reduzir o efeito analgésico da morfina e/ou precipitar síndrome de abstinência; evitar a associação
  • Fármacos serotoninérgicos — ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina), IRSN (inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina), ADTs (antidepressivos tricíclicos), triptanos, antagonistas 5-HT3, mirtazapina, trazodona, tramadol, ciclobenzaprina, metaxalona: risco de síndrome serotoninérgica; suspender a morfina se síndrome serotoninérgica for suspeitada
  • Relaxantes musculares: potencialização do bloqueio neuromuscular e da depressão respiratória; reduzir doses se necessário
  • Inibidores de P2Y12 orais — clopidogrel, prasugrel, ticagrelor: morfina IV pode reduzir a absorção e a concentração de pico desses antiagregantes, retardando o início do efeito antiplaquetário; em contextos de síndrome coronariana aguda (SCA) que exijam uso concomitante de morfina IV, considerar antiagregante parenteral como alternativa [10]
  • Inibidores da glicoproteína P (P-gp) — ex.: quinidina: podem aumentar a exposição à morfina em até duas vezes; monitorar e reduzir a dose de morfina se necessário
  • Anticolinérgicos: risco aumentado de retenção urinária grave e constipação, podendo evoluir para íleo paralítico
  • Diuréticos: morfina pode reduzir sua eficácia pela liberação de ADH (hormônio antidiurético); monitorar e ajustar a dose do diurético se necessário
  • Rifampicina: indução enzimática pode reduzir as concentrações séricas de morfina, diminuindo o efeito analgésico
  • Cimetidina: pode potencializar os efeitos da morfina, com relatos de apneia, confusão e espasmos musculares; monitorar sinais de depressão respiratória
  • Metoclopramida: potencializa a depressão do SNC causada pela morfina; a morfina, por sua vez, reduz o efeito da metoclopramida sobre a motilidade gástrica
  • Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, clomipramina): aumentam a biodisponibilidade plasmática da morfina; ajustar dose com base na avaliação clínica
  • Anestésicos locais — cloroprocaína epidural prévia: pode reduzir a duração da analgesia epidural da morfina

Gestação:

  • ANVISA: [1] [2] [3] [4] [5]

    • Categoria de risco C
    • O sulfato de morfina deve ser administrado durante a gestação somente se a necessidade de analgesia claramente superar os riscos potenciais ao feto
    • Opioides atravessam a barreira placentária e podem produzir depressão respiratória e efeitos psicofisiológicos em recém-nascidos; antagonista opioide (naloxona ou nalmefen) deve estar disponível para reversão de depressão respiratória neonatal
    • Não é recomendado o uso durante o trabalho de parto e imediatamente antes do parto, exceto pela via intratecal, indicada para analgesia de parto
    • Síndrome de Abstinência Neonatal (SAN): recém-nascidos de mães que receberam morfina cronicamente podem apresentar SAN, com manifestações de irritabilidade, hiperatividade, sono anormal, choro estridente, tremores, vômitos, diarreia, perda de peso e incapacidade de ganhar peso; casos graves podem requerer intervenção farmacológica
  • FDA: [10] [11]

    • Dados humanos: estudo de coorte prospectivo com 70 mulheres expostas à morfina no primeiro trimestre e 448 em qualquer período gestacional não identificou aumento significativo do risco de malformações congênitas; as limitações metodológicas (pequeno tamanho amostral, desenho não randomizado) impedem conclusões definitivas quanto à ausência de risco
    • Dados em animais: doses supraterapêuticas produziram defeitos do tubo neural, retardo de crescimento fetal, aumento de reabsorções e abortamentos em diferentes espécies (hamster, camundongo, rato, coelho); exposição perinatal em ratos foi associada a mortalidade de filhotes, alterações de peso encefálico, cianose, hipotermia e alterações comportamentais persistentes na prole adulta, inclusive em doses próximas à dose humana diária de referência (60 mg)
    • Trabalho de parto e parto: opioides podem prolongar o trabalho de parto por redução temporária da força e frequência das contrações uterinas, parcialmente compensada pelo aumento da dilatação cervical; monitorar neonatos expostos durante o parto para sinais de sedação excessiva e depressão respiratória; para a formulação injetável IV concentrada e para o MS Contin®, o uso imediatamente antes ou durante o parto não é recomendado — formas de ação mais curta ou outras técnicas analgésicas são mais apropriadas nesse cenário
    • Síndrome de Abstinência Neonatal Opioide (SONO): o uso prolongado durante a gestação pode causar dependência física no neonato, com manifestações de irritabilidade, hiperatividade, padrão de sono anormal, choro estridente, tremores, vômitos, diarreia e falha em ganhar peso; o manejo deve ser conduzido por especialistas em neonatologia, e a equipe deve estar disponível no momento do parto

Lactação:

  • ANVISA: [1] [2] [3] [4] [5]

    • A morfina é excretada no leite humano; a quantidade que chega ao lactente depende da concentração plasmática materna, do volume de leite ingerido e da extensão do metabolismo de primeira passagem
    • Formas orais (comprimidos, cápsulas, solução gotas): uso durante a lactação depende de avaliação e acompanhamento médico criterioso; risco de depressão respiratória, sedação e, possivelmente, síndrome de abstinência no lactente
    • Formas injetáveis (0,1/0,2/1,0/10,0 mg/mL): contraindicadas durante o aleitamento ou doação de leite humano; alternativas terapêuticas devem ser consideradas
  • FDA: [10] [11]

    • A morfina está presente no leite materno; estudos de lactação relatam concentrações variáveis, com razão de AUC (área sob a curva) leite/plasma de 2,5:1; não há informações suficientes para determinar com precisão os efeitos sobre o lactente ou sobre a produção de leite
    • O label do MS Contin® recomenda que a amamentação não seja realizada durante o tratamento com morfina de liberação prolongada, dado o potencial de sedação excessiva e depressão respiratória no lactente
    • Monitorar lactentes expostos à morfina pelo leite materno para sinais de sedação excessiva e depressão respiratória; sintomas de abstinência podem ocorrer no lactente ao interromper a amamentação ou a administração materna do opioide

Uso por Sonda Nasogástrica/Nasoenteral: [8] [9]

  • Solução gotas 10 mg/mL (Dimorf®): pode ser administrada por sonda nasogástrica ou nasoenteral, sendo a forma de escolha quando a via oral não é viável; diluir a dose em aproximadamente 10 mL de água antes de administrar e lavar a sonda com água após; conforme o Manual do InCor (HCFMUSP), a proporção recomendada é de 10 mL de água a cada 40 gotas
  • Comprimidos 10 mg e 30 mg (Dimorf®): podem ser triturados e dissolvidos em aproximadamente 20 mL de água para administração por sonda, embora a solução oral seja preferencial quando disponível; lavar a sonda com água após a administração para evitar obstrução; conforme o Guia Farmacoterapêutico do Hospital Erasto Gaertner, o comprimido de morfina pode ser triturado para administração por sonda enteral
  • Cápsulas de liberação prolongada (Dimorf® LC 30, 60 e 100 mg): não devem ser abertas, partidas ou mastigadas, conforme orientação expressa da bula; a abertura das cápsulas destruiria o mecanismo de liberação prolongada, resultando em liberação imediata e potencialmente fatal de toda a dose; o uso por sonda é, portanto, contraindicado para essa apresentação

Fontes:

[1] Bula do Profissional de Saúde. Dimorf® LC (sulfato de morfina pentaidratado). Cristália Prod. Quím. Farm. Ltda. Aprovada em 25/02/2026. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/

[2] Bula do Profissional de Saúde. Dimorf® Comprimido (sulfato de morfina pentaidratado). Cristália Prod. Quím. Farm. Ltda. Aprovada em 25/02/2026. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/

[3] Bula do Profissional de Saúde. Dimorf® Solução Gotas (sulfato de morfina pentaidratado). Cristália Prod. Quím. Farm. Ltda. Aprovada em 25/02/2026. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/

[4] Bula do Profissional de Saúde. Dimorf® Solução Injetável 1,0 mg/mL e 10,0 mg/mL (sulfato de morfina pentaidratado). Cristália Prod. Quím. Farm. Ltda. Aprovada em 25/02/2026. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/

[5] Bula do Profissional de Saúde. Dimorf® Solução Injetável 0,1 mg/mL e 0,2 mg/mL (sulfato de morfina pentaidratado). Cristália Prod. Quím. Farm. Ltda. Aprovada em 25/02/2026. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/

[6] InfoSUS — Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina. Morfina. Disponível em: http://infosus.saude.sc.gov.br/index.php/Morfina

[7] Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998, e suas atualizações (RDC ANVISA nº 1.000/2025). Disponível em: https://anvisalegis.datalegis.net/

[8] Instituto do Coração (InCor) — Hospital das Clínicas FMUSP. Manual de Orientações para Administração de Medicamentos por Sonda. Disponível em: https://www.incor.usp.br/onadocs/SFARM/SFARM-MAN-DSF-0004-V02.pdf

[9] Hospital Erasto Gaertner. Guia Farmacoterapêutico — Morfina Comprimido. Disponível em: https://guiafarmaco.erastogaertner.com.br/farmacoterapeutico/medicamentos/266

[10] U.S. Food & Drug Administration (FDA). FDA Label. Morphine Sulfate Injection, USP (Hospira, Inc.). Revised: 12/2025. Available at: https://nctr-crs.fda.gov/fdalabel/ui/search

[11] U.S. Food & Drug Administration (FDA). FDA Label. MS Contin® (morphine sulfate extended-release tablets). Rhodes Pharmaceuticals L.P. Revised: 12/2025. Available at: https://nctr-crs.fda.gov/fdalabel/ui/search